

Acidente

Danielle Steel



















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Traduo de MARIA INS CURADO RIBEIRO

Ttulo original:
ACCIDENT

Fotografia da capa:
(r)COMSTOCK

Copyright (r) 1994 by Danielle Steel Impresso de encadernado para Crculo de Leitores por Printer Portuguesa em Dezembro de 1996 

Nmero de edio: 4234 Depsito legal nmero l 020 379/96 ISBN 972-42-1409-5

Para o Popee,
que nunca deixa de estar presente, quer nas grandes quer nas pequenas ocasies. 
O meu amor por ti aumenta a cada dia, a cada hora e a cada instante. De todo o meu corao e com todo o meu amor, 
D. S.

       
CAPTULO 1
       A tarde de sbado estava deliciosa, a suave brisa acariciava a pele com o leve toque da seda, e a temperatura desse ms de Abril era de tal forma amena que 
apetecia ficar para sempre ao ar livre. O dia tinha sido longo e soalheiro, e Page, ao conduzir a sua espaosa carrinha pela Ponte Golden Gate s cinco da tarde, 
em direo a Marin, maravilhava-se com a formidvel vista sobre a gua. 
       Olhou ento para o filho sentado a seu lado, uma pequena rplica loura de si prpria, diferenciando-se apenas pelo cabelo despenteado, amassado no stio onde 
antes havia pousado o bon de basebol, e pela cara suja de terra. Andrew Patterson Clarke tinha completado sete anos na tera-feira anterior, e vendo-o ali sentado 
a recuperar da emoo do jogo, era fcil sentir a fora da ligao existente entre me e filho. Page Clarke era uma boa me, uma boa esposa e pertencia quele tipo 
de pessoas que todos desejariam ter como amigas. Agia sempre com amor e carinho, empenhava-se no que quer que levasse a cabo, estava sempre disponvel para as pessoas 
de quem realmente gostava, possua um sentido artstico que provocava a admirao de todos os seus amigos e era despretensiosamente bonita e divertida.
       - Jogaste muito bem esta tarde - observou ela com um sorriso, afastando por breves instantes uma mo do volante para revolver ainda mais o cabelo do filho. 
Andy tinha o cabelo forte e louro como o da me, os mesmos olhos vivos e azuis, e a mesma pele leitosa, embora no seu caso estivesse coberta de sardas. - Foi incrvel 
como conseguiste apanhar aquela bola fora de campo. A mim pareceu-me quase um home-run1. - Ela ia praticamente a todos os jogos do filho, s representaes na escola, 
e s excurses com os colegas e amigos. Fazia-o por duas razes: porque gostava de o fazer e porque o seu amor pelo filho era muito grande. Quando Andy olhava para 
a me, era evidente que tinha plena conscincia desse amor.
       
            1 Home-run: um forte golpe que permite ao jogador de basebol completar o crculo das bases. (N. da T.)
       
       - Eu tambm acho que foi um homer. - Ele sorriu, mostrando as gengivas no lugar onde bem recentemente haviam existido dentes. - Tive quase a certeza que o 
Benjie conseguia chegar  base... - E no fim da ponte acrescentou com uma gargalhada maliciosa: - Mas no conseguiu!
       Page riu juntamente com o filho. Fora uma tarde bem passada. Teve pena de que Brad no tivesse podido estar presente, mas aos sbados  tarde ele costumava 
jogar golfe com os colegas, aproveitando a ocasio para descontrair e pr a conversa em dia. H j muito tempo que ele no passava uma tarde de sbado com ela, e 
quando isso de fato acontecia, era porque tinham algum stio onde ir ou alguma coisa para fazer: ou por causa das provas de natao em que Allyson participava, sempre 
num local desconhecido e de difcil acesso, ou ento porque o co tinha ferido a pata, o telhado da casa gotejava, um cano rebentara ou qualquer outra emergncia 
de menor importncia precisava de ser resolvida. Um sbado de lazer era algo que j no sucedia h muitos anos, fato esse a que Page j se habituara. Ela e Brad 
aproveitavam todas as ocasies que podiam para estar juntos, quer fosse enquanto os filhos dormiam, nos intervalos das viagens de negcio ou nos poucos fins-de-semana 
que passavam fora. Com as vidas ocupadas que tinham, arranjar tempo para os dois era uma tarefa complicada que, apesar de tudo, eles conseguiam levar a cabo. Depois 
de um casamento de dezesseis anos e do nascimento de dois filhos, Page era ainda louca por ele. Tinha tudo aquilo que sempre desejara: um marido que adorava e que 
a amava, uma vida confortvel e dois filhos encantadores. A sua casa, em Ross, no era muito sofisticada, mas no deixava por isso de ser bonita e acolhedora. Estava 
situada numa zona bastante agradvel e, com o seu constante desvelo e habilidade Page melhorara consideravelmente o aspecto inicial da casa. Os anos que passara 
como estudante de Belas-Artes e desenhadora de cenrios em Nova Iorque no lhe haviam sido de muito uso, mas nos ltimos anos Page tinha vindo a utilizar o seu talento 
para pintar lindos murais, tanto para ela como para os amigos. Um exemplo desse seu talento estava numa das paredes da escola primria de Ross, onde Page elaborara 
uma pintura soberba. A ela se devia a transformao da sua casa num local verdadeiramente aprazvel, pois os seus murais e as suas pinturas, combinados com a sensibilidade 
artstica que possua, fizeram de uma tpica pequena casa americana um verdadeiro exemplo da idia de lar, que todos admiravam e invejavam. O mrito pertencia exclusivamente 
a Page, o que se tornava evidente a quem quer que visitasse a sua casa.
       No quarto de Andy, Page pintara uma cena de um jogo de basebol, plena de movimento, e oferecera-a ao filho como presente de Natal no ano anterior, para alegria 
daquele. No ano em que Allyson se maravilhava por tudo o que fosse de origem francesa, a me pintou-lhe no quarto uma rua de Paris; depois, substituiu essa pintura 
por uma fila de bailarinas, inspirada em Degas, e mais recentemente ainda, com o seu toque mgico, conseguira dar ao quarto da filha a aparncia de uma verdadeira 
piscina; pintara at a moblia do quarto com tinta de gua, para condizer. Como recompensa, Allyson e os amigos referiam-se ao aspecto do quarto como sendo "espetacular", 
j que Page era "impecvel... superfixe... o mximo", termos estes que, vindos de um grupo de jovens de quinze anos, equivalem ao maior dos elogios.
       Allyson freqentava o terceiro ano do liceu. Ao contemplar a filha e os seus amigos Page sentia sempre pena por no possuir uma famlia mais numerosa. Essa 
tinha sempre sido a sua vontade, mas Brad insistira em ter apenas "um ou dois filhos", dando nfase especial ao nmero um. Com o nascimento de Allyson, o pai apaixonara-se 
pela "sua menina", e no conseguia entender o desejo que Page manifestava de ter outros filhos. Haviam sido necessrios sete anos para o convencer a ter outro filho, 
o que ocorreu quando o casal mudou de cidade e veio viver para a casa de Ross. Foi nessa altura que Andy nasceu. O "beb milagre", como a me lhe chamava, tinha 
nascido prematuro, dois meses e meio antes de tempo, depois de Page ter cado de um escadote enquanto pintava um mural na parede do seu quarto. Levaram-na de imediato 
para o hospital com uma perna partida e j em trabalho de parto. O beb ficara numa incubadora durante dois meses, mas no fim desse prazo era j totalmente perfeito.
       Quando se lembrava desse perodo Page esboava sempre um sorriso, recordando o tamanho mnimo do beb e o medo que tiveram de o perder. No era fcil imaginar 
como teria resistido a uma perda dessas, embora soubesse que, de alguma forma, o teria conseguido... por Allyson e por Brad. Mas a sua vida nunca teria sido a mesma 
sem aquele filho.
       - Gostavas de ir comer um gelado? - perguntou ela a Andy, ao virar no desvio de Sir Francis Drake.
       - Gostava muito! - Andy presenteou-a com outro dos seus sorrisos desdentados, o que fez com que ambos se rissem com vontade.
       - Quando  que pensas voltar a ter alguns dentes, Andrew Clarke? Talvez seja melhor comprarmos-te uma dentadura...
       - Na... - Ele mostrou as gengivas de novo, e recomearam os dois a rir.
       Gostava de estar sozinha com ele, j que depois dos jogos de basebol era costume trazerem o carro cheio de midos. Habitualmente, era Page quem os ia levar 
a casa, mas nesse dia uma outra me ficara com essa incumbncia. Mesmo assim, ela no desistira de acompanhar o seu filho, pois j o havia prometido anteriormente. 
Allyson tinha passado a tarde na companhia de amigos, Brad estava a jogar golfe e Page continuava empenhada em todos os seus projetos: planeava uma outra pintura 
para a escola e prometera a uns amigos dar-lhes algumas idias sobre a nova decorao da sala deles; mas nada que no pudesse esperar.
       Andy decidiu-se por duas enormes bolas de gelado com pedaos de chocolate e Page preferiu uma s com sabor a caf e com poucas calorias, para que no se sentisse 
culpada de nenhum excesso. Sentaram-se na esplanada para comer os gelados, o que no impediu Andy de sujar a cara e pingar o fato de treino com gelado. Page tranquilizou-o, 
argumentando que no tinha importncia, j que aquela roupa teria que ser toda lavada. Gozando a temperatura tpida do fim de tarde, observaram as pessoas que passavam, 
at Page sugerir que seria uma boa idia fazer um piquenique no domingo.
       - Isso era muita bom. - A sua expresso de contentamento fez com que Page sentisse o corao a transbordar de amor pelo filho, vendo o enorme gelado cobrir-lhe 
a ponta do nariz e escorrer at ao queixo.
       - Tu s um rapazinho muito giro, sabias? Eu sei que no te devia dizer estas coisas, mas acho que s um espanto, Andrew Clarke! Alm de seres um grande jogador 
de basebol... O que  que eu fiz para merecer um filho assim?
       Ele sorriu de novo, desta vez mostrando ainda mais as gengivas. O gelado ia ganhando terreno, deixando marcas at no nariz de Page, quando ela o tentou beijar.
       - s muito querido.
       - Tu tambm s... - Antes de lhe fazer uma pergunta, ele desapareceu novamente atrs do gelado: - Me...?
       - Sim...? - O gelado dela estava quase no fim, mas quanto ao de Andy dir-se-ia que ia continuar a derreter, verter e gotejar ainda por muito mais tempo. Os 
gelados aumentam misteriosamente nas mos das crianas...
       - Achas que ainda vamos ter outro beb? Page foi tomada de surpresa, pois no era bem aquele o tipo de perguntas que os rapazes costumavam fazer. Allyson 
j lhe colocara essa mesma pergunta vrias vezes antes, mas agora, com trinta e nove anos, no lhe parecia uma hiptese muito provvel. No que se sentisse com muita 
idade para ter outro filho, pois de fato no a tinha, levando em conta a idade com que atualmente as mulheres decidiam engravidar, mas ela sabia que nunca conseguiria 
voltar a convencer o marido. Brad costumava dizer que isso j no era para ele.
       - No me parece, filhote. Mas porque  que perguntaste isso? - Ela no conseguia perceber se o filho estava realmente preocupado ou apenas curioso.
       - Na semana passada, a me do Tommy Silverberg teve gmeos e eu vi-os quando l fui a casa. So giros... e so iguaizinhos! - explicou ele, bastante impressionado. 
- Pesam mais de trs quilos cada, muito mais do que eu pesava!
       - L isso pesam... - Ele nascera com pouco mais de um quilo, devido ao parto prematuro. - Os irmos do Tommy devem ser muito bonitos, mas no me parece que 
venhamos a ter gmeos na nossa famlia... ou mesmo um s beb... - Por estranho que fosse, sentiu tristeza ao afirm-lo. Sempre concordara com o marido, talvez por 
lealdade para com ele, que dois filhos lhes bastavam, mas mesmo assim havia momentos em que, sem nenhuma razo especial, dava por si imaginando-se com outro beb 
no colo. - E se falasses ao teu pai nisso? - brincou ela.
       - Sobre os gmeos? - perguntou ele, sem perceber.
       - Sobre termos outro beb.
       - Ia ser divertido... acho eu... mas do muito trabalho. Na casa do Tommy estava tudo uma balbrdia, as coisas dos bebs estavam espalhadas pela casa toda... 
os beros, as fraldas, os brinquedos... e havia dois de cada... a av dele estava l a ajudar, mas deixou queimar o jantar. O pai dele gritou que se fartou!
       - No acho que isso seja assim muito divertido. - Page sorriu, imaginando a cena de caos total numa casa que j antes de acolher dois gmeos recm-nascidos 
no primava pela organizao e na qual j existiam duas crianas. - Mas no princpio  assim, at se apanhar o jeito.
       - Quando eu nasci tambm ficou tudo assim numa balbrdia? - Com esta pergunta, ele acabou finalmente de comer o gelado, limpando a boca  manga da camisola 
e as mos s calas de basebol, perante o sorriso da me.
       - No, agora a balbrdia  muito maior, meu menino. O melhor  irmos andando para casa e tratarmos de mudar essa roupa...!
       Entraram na carrinha e percorreram o caminho at casa conversando sobre outros temas, embora as perguntas de Andy sobre um outro filho continuassem na sua 
lembrana. Por alguns breves instantes, chegou mesmo a sentir uma velha e familiar sensao de angstia por algo muito desejado que nunca chegaria a acontecer. Atribuiu 
de imediato essa sensao ao dia quente e soalheiro que havia feito e  Primavera, mas logo voltou a sentir um enorme desejo de ter mais filhos, de fazer romnticas 
viagens a dois, de poder passar mais tempo com Brad... aquelas tardes de sbado passadas na cama, longas e preguiosas, sem nenhum stio onde ir e nada para fazer, 
a no ser fazer amor com ele. Por muito que gostasse da sua vida atual, havia alturas em que ela desejava muito poder voltar atrs no tempo. No momento presente, 
a sua vida estava de tal forma ocupada com o crculo de amigos, com a ajuda que dava nos trabalhos de casa dos filhos e com as associaes de pais, que ela e o marido 
s se encontravam ocasionalmente, quase sempre no fim de um dia exaustivo. O que, apesar de tudo, no impedia que existisse ainda amor e desejo... s no existia 
tempo para os cultivar. Era s isso que eles nunca conseguiam ter em quantidade suficiente: tempo.
       No tardaram a chegar a casa, e enquanto Andy reunia as suas coisas Page viu que o carro de Brad estava j estacionado  porta. Olhou o filho com orgulho 
maternal, e, debaixo do calor tpido do fim de tarde, com o corao repleto de todo o amor que sentia por ele, disse-lhe:
       - Gostei muito desta tarde. - Chegava ao fim um daqueles dias especiais em que nos apercebemos com maior clareza da sorte com que fomos contemplados, e nos 
sentimos especialmente gratos por cada instante de felicidade.
       - Eu tambm. Obrigado por teres ido comigo, mam. - Ele sabia que ela no precisava de o ter feito, mas gostava que a me o acompanhasse; era muito boa para 
ele, e ele tinha conscincia disso. Mas como era um bom menino, merecia-o.
       - Sempre s ordens Mister Clarke. Agora vai depressa contar ao teu pai como apanhaste aquela bola! Vais ficar famoso na histria do basebol...! - Ele riu 
e apressou-se a correr para casa, enquanto Page levantava a bicicleta de Allyson, que estava tombada no jardim. Os patins da filha encontravam-se encostados  porta 
da garagem e a sua raqueta de tnis tinha ficado abandonada em cima duma cadeira ao p da porta da cozinha, em conjunto com uma caixa de bolas de tnis que ela tinha 
pedido "emprestadas" ao pai. Eram os indcios necessrios para concluir que Allyson tivera um dia atarefado. Assim que Page entrou em casa, viu a filha de costas 
para a porta conversando ao telefone da cozinha, vestida ainda com a roupa com que estivera a jogar tnis e tendo o cabelo preso numa longa trana loura. Depois 
de combinar os ltimos pormenores de alguma sada para breve, desligou o telefone e voltou-se para a me. A beleza de Allyson era suficiente para, por vezes, ainda 
conseguir surpreender a prpria Page, j que ela tinha a aparncia de uma mulher adulta extremamente atraente. Apesar do seu corpo de mulher, possua uma mentalidade 
de adolescente, sempre em movimento, sempre em ao, com algum projeto sempre por concluir. Nunca deixava de ter alguma coisa para dizer, para acrescentar ou para 
perguntar, algum stio onde ir, ou algum encontro marcado, quer fosse nesse exato instante, ou h duas horas atrs... Era essa expresso de impacincia que a me 
detectava agora no seu rosto. Page observou a filha. Allyson era muito mais intensa que Andy, assemelhava-se a Brad, sempre em atividade, arquitetando um projeto 
antes mesmo de concluir um anterior, delineando sempre o que tinha de efetuar em seguida, onde tinha de ir e o que era importante para ela. O seu carter era muito 
mais vivo e obstinado do que o de Page, mas no to dcil e gentil como o de Andy viria a ser um dia. No entanto, Allyson era inteligente e sadia, cheia de boas 
idias e boas intenes, embora por vezes, como todos os adolescentes, perdesse o bom senso. Nessas alturas, ela e a me envolviam-se numa discusso sobre algum 
engano tpico da sua idade, mas, ao fim de algum tempo, Allyson acalmava e, regra geral, acabava por dar razo aos pais.
       Com apenas quinze anos, nenhuma dessas suas atitudes era de estranhar, pois aquela era a idade prpria para uma rapariga comear a testar os seus limites, 
a formar as suas opinies e a questionar-se sobre que tipo de pessoa viria a ser; no queria ser a rplica da me ou do pai, e sim ela prpria. Apesar das suas parecenas 
com os pais, Allyson era dotada de um carter totalmente distinto; desejava formar a sua prpria individualidade, ao contrrio do irmo, cujo nico desejo era vir 
a ser como o pai, mas que afinal era muito mais parecido com a me. Aos olhos de Allyson, o irmo continuava ainda a ser um beb. O nascimento de Andy proporcionara 
a Allie, na altura apenas com oito anos, contato com a criatura mais linda e mais pequena que ela conhecera at ento. Tal como os pais, ela temera que o irmo no 
resistisse, e quando finalmente ele pde vir para casa, no havia ningum mais feliz e orgulhoso do que Allyson. Percorrera toda a casa com ele nos seus braos, 
e com o correr do tempo, sempre que Page no encontrava o filho, j sabia que o ia encontrar no quarto de Allyson, aninhado na sua cama, como se fosse um dos seus 
bonecos. Durante anos, Allyson no escondera a paixo pelo irmo, e mesmo agora no deixava de lhe fazer secretamente todas as vontades, comprando-lhe doces e cromos 
de basebol e at, s vezes, dispondo-se a ir aos jogos dele, apesar de detestar basebol. Na maioria das vezes, Allyson nem se importava de admitir que adorava o 
irmo.
       - Como  que te saste hoje, baixote? - Ela gostava de provocar Andy por ele ter nascido to pequeno, mas agora o irmo j estava bastante alto para a idade, 
mais alto at do que a maioria dos seus colegas de turma.
       - Bem - respondeu ele, modestamente.
       - O teu irmo foi a estrela do jogo! - esclareceu Page. Andy corou e foi em busca do pai, enquanto Page lanava um tmido "Boa tarde" em direo ao quarto 
de casal, pois queria adiantar o jantar antes de ir ao encontro do marido. - O teu dia correu bem? - perguntou ela  filha, enquanto abria a porta do frigorfico. 
No haviam feito quaisquer planos para sair  noite e o dia tinha estado to quente que ela pensou em servir o jantar no jardim, ou em pedir ao marido para fazer 
um churrasco. - Com quem  que estiveste a jogar tnis?
       - Com a Chloe e alguns outros amigos que estavam hoje no clube; uns eram de Branson e outros da Academia de Marin. Primeiro jogamos a pares e depois joguei 
s eu e a Chloe. A seguir fomos nadar - respondeu ela num tom de desinteresse. Vivia uma vida sem problemas, tipicamente californiana, o que para ela j no era 
nenhuma surpresa, visto ser natural daquela regio. Tanto para Brad, que era de um estado central do Oeste, como para Page, natural de Nova Iorque, o clima e as 
facilidades ainda eram encarados como dois privilgios maravilhosos, ao passo que para os seus filhos estes eram apenas fatores naturais que faziam j parte do seu 
modo de vida. Por vezes Page invejava os despreocupados incios de vida dos filhos, mas sentia-se simultaneamente feliz por eles, pois era esse o tipo de vida que 
gostava de lhes proporcionar: fcil, segura, saudvel, confortvel, protegida de tudo aquilo que os pudesse entristecer ou endurecer. Fizera tudo o que estava ao 
seu alcance para lhes garantir isso e era com imenso prazer que os via crescer e desenvolverem-se nesse ambiente.
       - Deve ter sido divertido. Planeaste alguma coisa para hoje  noite? - Se ela respondesse que no, ou dissesse que Chloe viria passar o sero com ela, talvez 
pudesse ir com o marido ao cinema, ficando Allyson com o irmo. De qualquer forma, se tivessem de car em casa, isso no teria a mnima importncia. Era sempre uma 
boa perspectiva, com uma noite to quente, poder passar algumas horas a conversar com o marido no jardim. - O que  que pensaste fazer? - acrescentou.
       Antes de responder, Allyson voltou-se para a me com uma expresso ansiosa, que deixava adivinhar o seguinte pensamento: "Se no me deixares fazer o que eu 
tenho planeado, vais arruinar a minha vida." Porm, disse-o de uma outra forma:
       - O pai da Chloe ofereceu-se para nos levar a jantar fora e ao cinema.
       - Est bem, queria apenas saber. - A expresso de Allyson relaxou de imediato, o que fez com que Page sorrisse, pensando que, por vezes, os filhos eram muito 
previsveis. Crescer ainda continuava a ser um processo doloroso, pois mesmo inseridos numa famlia normal e feliz ainda viviam cada momento e cada plano com uma 
grande dose de angstia. De fato, no era nada fcil!
       - Que filme  que vo ver? - perguntou ela, enquanto descongelava carne no microondas. Tinha acabado por se decidir por uma refeio bastante simples.
       - Ainda no sei. Mas h trs filmes que eu gostava de ver... e ainda no vi o Woodstock, que est a passar no Festival. S sei que o pai da Chloe nos vai 
levar a jantar ao Luigi's.
       - Que bom!  muito simptico da parte dele. - Page foi buscar um pacote de batatas fritas e, ao comear a fazer a salada, olhou uma vez mais para a filha. 
Empoleirada num dos bancos do balco da cozinha, a sua beleza parecia a de uma top-model; tinha os olhos castanhos e amendoados do pai, o cabelo louro da me e uma 
cor de pele que ao mnimo raio de sol se tornava dourada. As suas pernas eram longas e bem torneadas e a sua cintura estreita. No admirava que as pessoas na rua 
parassem para a admirar, especialmente as do sexo masculino. Page costumava comentar com Brad que era pena que no lhe pudessem colocar na testa um letreiro com 
a idade. At mesmo homens na casa dos trinta paravam para a contemplar, j que era fcil toma-la por uma rapariga de dezoito ou vinte anos. - Mister Thorensen  
muito simptico em passar com vocs a noite de sbado.
       - Ele no tem mais nada que fazer... - retorquiu Allyson, de acordo com os seus quinze anos, fazendo rir a me. Era espantoso como os adolescentes conseguiam 
trazer os adultos de volta  realidade, referindo com tanta clareza os fracassos e infortnios alheios.
       - Como  que sabes? - A mulher dele deixara-o no ano anterior e logo aps o divrcio aceitara um emprego proposto por um agente de espetculos em Inglaterra. 
Oferecera-se para levar consigo os trs filhos do casal e inscrev-los em colgios internos, pois apesar de ser de naturalidade americana, era da opino que o sistema 
educativo ingls era bastante superior; todavia, Trygve Thorensen no tinha a menor inteno de abdicar dos seus filhos e recusara-se a deix-los ir. Lamentavelmente, 
depois de vinte anos passados num subrbio, a sua mulher sentia-se demasiado cansada de ser motorista, empregada e educadora dos filhos, e por isso decidiu abandonar 
tudo: Trygve, os filhos e toda a sua vida em Ross, a qual ela detestava. Para Dana Thorensen chegara a sua vez. Tinha, anteriormente, tentado avisar o marido, mas 
este nunca a ouvira; Trygve desejava to intensamente que o seu casamento resultasse que se recusava a reconhecer a revolta e a frustrao da mulher. Todos tinham 
ficado bastante abalados com a partida de Dana, incluindo a prpria Page, que no conseguira deixar de ficar chocada por ela ter abandonado os filhos. No entanto, 
j h muito tempo que se sabia que aquela era uma carga demasiado pesada para uma pessoa como Dana; alm disso, toda a populao de Ross se espantava com a forma 
exemplar como Trygve lidava com os seus filhos, no havendo nada que no fizesse por eles. Era analista poltico em regime de free-lance, o que significava que no 
tinha de sair de casa para trabalhar. Para Trygve, essa era a situao ideal, pois ao contrrio da mulher, nunca dava ostras de estar cansado das suas obrigaes 
e responsabilidades paternas. Aceitava-as de bom grado, com o bom humor e a afabilidade que o caracterizavam. Por vezes admitia que no era uma tarefa fcil, mas 
acrescentava de imediato que estava tudo a correr bem e que os filhos aparentavam um contentamento que no tinham h anos. S quando os filhos estavam na escola, 
ou depois de estes j terem ido dormir,  que ele se dedicava ao trabalho, o que contribua para a sua acentuada popularidade dentro do crculo de amigos dos filhos. 
Da que no constitusse nenhuma surpresa para Page o fato de ele se dispor a levar um grupo de midos ao cinema e a jantar no Luigi's.
       Os dois filhos de Trygve j tinham idade para freqentar a universidade e Chloe tinha a mesma idade de Allyson, tendo completado quinze anos no ltimo Natal. 
A filha de Trygve era to bonita quanto a de Page, apesar de possurem tipos fsicos completamente diferentes: Chloe era baixa, tinha o cabelo escuro da me, a pele 
clara, e os olhos nrdicos do pai, grandes e azuis. Os pais de Trygve eram ambos noruegueses e este tinha vivido na Noruega at completar doze anos. Atualmente, 
era to americano quanto a Esttua da Liberdade, embora os amigos, por brincadeira, lhe chamassem "viking".
       Era, sem dvida, um homem atraente, e depois do seu divrcio no tinham sido poucas as mulheres divorciadas de Ross a ter esperana num possvel envolvimento 
com Trygve. No entanto, essa esperana depressa esmoreceu, j que ele ocupava todo o seu tempo com os filhos e com o trabalho. Page suspeitava que, da parte de Trygve, 
no se tratava de uma questo de falta de tempo, mas sim de uma ausncia de interesse e de motivao.
       A intensa paixo que dedicara  mulher tinha sido visvel aos olhos de todos, tal como as freqentes ligaes amorosas que Dana, no seu desespero, mantivera 
nos dois anos anteriores  sua partida. Esta ltima tornara-se uma revoltada, para quem o casamento e a monogamia eram exigncias demasiado pesadas. Trygve fizera 
tudo o que estivera ao seu alcance, pedindo conselhos e tentando mesmo duas separaes a ttulo experimental; mas o que ele queria era muito mais do que Dana lhe 
podia oferecer: ele queria uma mulher de verdade ao seu lado, meia dzia de filhos e uma vida sem complicaes, que, se possvel, inclusse umas frias ao ar livre, 
a acampar. Ela queria Nova Iorque, Paris, Hollywood ou Londres...
       Dana Thorensen era exatamente o oposto de Trygve. Tinham-se conhecido em Hollywood, numa idade que ainda nem se podia considerar adulta. Nessa altura, ele 
comeara a escrever guies, com o curso liceal recentemente concludo, e ela era uma atriz principiante. O seu gosto por aquilo que fazia era tanto, que quando ele 
lhe pediu para ir viver para So Francisco, ela reagiu com verdadeiro horror. Todavia, amava-o o suficiente para no deixar de o acompanhar, e, j em So Francisco, 
tentou fazer algumas substituies e atuou ainda em pequenas companhias teatrais de repertrio fixo. Mas em nenhuma dessas experincias iniciais foi bem sucedida, 
e sentia cada vez mais a falta dos amigos, da agitao de Los Angeles e de Hollywood, e at de trabalhar como atriz substituta. Ao engravidar inesperadamente, Trygve 
surpreendeu-a com um pedido de casamento, o qual, depois de consumado, veio a piorar ainda mais a situao. E foi assim que ela se viu a desempenhar na vida real 
um papel que nunca tinha desejado para si. Quando Bjorn, o seu segundo filho, nasceu com sintomas de mongolismo, o fardo tornou-se ainda mais pesado, e Dana comeou 
a culpar o marido pela sua situao. A nica certeza que tinha era no querer ser me de novo, mas nem sequer sabia se de fato desejava estar casada. Assim, quando 
Chloe nasceu, a vida de Dana precipitou-se para o descalabro. Da por diante, e aos seus prprios olhos, a vida tornou-se um autntico pesadelo. Trygve tentava fazer 
tudo aquilo que podia, j que os seus artigos publicados no New York Time, em vrias revistas e em jornais estrangeiros rendiam bem, pelo menos o suficiente para 
lhes proporcionar a todos uma vida confortvel. Mas aquilo que Dana realmente desejava era sair daquele local, conquistar a sua liberdade. Durante mais de metade 
dos anos em que foram casados, ela nem sequer conseguira manter um relacionamento civilizado com o marido. S desejava ser livre. E tudo o que Trygve queria era 
que o casamento fosse feliz. Aquilo que mais irritava Dana era o marido corresponder  imagem do pai ideal. O sonho impossvel estava casado com a mulher errada.
       Trygve era paciente, simptico e estava sempre disposto a incluir os amigos dos filhos nos seus planos. Levava grupos de crianas para acampar, ensinava-as 
a pescar e era o principal impulsionador das Olimpadas Especiais, nas quais Bjorn era sempre campeo. O excelente desempenho deste ltimo surpreendia e encantava 
toda a gente, menos Dana, que no conseguia relacionar-se com nenhum dos filhos, mesmo quando tentava. Bjorn era para ela o mximo da vergonha e do desapontamento. 
Como resultado Dana era uma mulher de quem ningum realmente gostava, uma revoltada contra um destino que, afinal, nem era assim to mau: possua trs filhos encantadores, 
incluindo Bjorn, cujo carter era especialmente carinhoso, e um marido que muitas mulheres invejavam. No entanto, as suas freqentes aventuras no foram surpresa 
para ningum. De fato Dana nem sequer se preocupara em mant-las secretas, nem mesmo perante Trygve, pois o que na verdade lhe interessava era que ele se aborrecesse.
       Quando Dana finalmente abandonou o marido, foi um alvio para todos, menos para o prprio, que desde h vrios anos se vinha a enganar, tentando confiar numa 
aparncia ilusria. As suas inmeras desculpas s conseguiam engan-lo a ele prprio: "Ela vai acabar por se habituar... foi muito difcil para Dana abdicar da sua 
carreira... abandonar Hollywood no foi fcil para uma mulher como ela... o casamento  mais duro para ela do que para a maioria das pessoas, devido  sua sensibilidade 
artstica... e,  claro, a doena de Bjorn foi um choque terrvel para Dana." Durante vinte anos, ele elaborara todas as desculpas possveis e imaginrias para o 
comportamento da mulher, e quase no pde acreditar na sua partida. Contudo, e para sua prpria surpresa, foi como o fim de uma dor ininterrupta; mais surpreendido 
ficou ainda ao reconhecer que no tinha a mnima vontade de tentar iniciar outro relacionamento, envolvendo o mesmo risco de fracasso. S nessa altura se apercebeu 
de quo horrvel tinha sido o seu casamento, e era por isso que no conseguia pensar em casar novamente ou at mesmo em manter um relacionamento de carter mais 
srio. Nos primeiros tempos, nem sequer admitia a hiptese de sair com alguma outra mulher, j que todas aquelas que conhecia lhe pareciam autnticas caadoras, 
vidas de uma nova presa; e ele no tinha a menor inteno de se transformar na sua prxima vtima, pois de momento sentia-se muito feliz a viver sozinho com os 
filhos.
       - Desde que a me da Chloe se foi embora, h j mais de um ano, que ele no teve nenhuma namorada. Passa o dia todo com os filhos, e  noite trabalha. A Chloe 
diz que ele est a escrever um livro... Mas ele gosta mesmo de sair conosco, me; pelo menos,  o que diz.
       - Sorte a vossa. Pode ser  que um destes dias ele procure um outro tipo de companhia... uma amiga um bocadinho mais madura... - Page sorriu e Allyson encolheu 
os ombros. No conseguia imaginar Trygve a escolher outra companhia, j que, durante toda a sua vida o tinha conhecido sempre disponvel para os filhos e para os 
amigos dos filhos. Nunca lhe ocorreu que esse comportamento se devia no apenas ao gosto sincero que Trygve sentia em estar com eles mas tambm a uma espcie de 
fuga ao vazio de um casamento falhado.
       - Alm disso, ele gosta de acompanhar o Bjorn... agora anda a ensin-lo a guiar.
       -  um bom homem - concluiu Page, acabando de lavar as folhas de alface e colocando-as numa saladeira enquanto Allyson ia comendo batatas fritas. - A propsito, 
como  que est o Bjorn? - H j muito tempo que no o via. Apesar de no ser dos casos mais afetados pelo mongolismo, tinha ainda bastantes limitaes.
       - Est timo. Todos os sbados joga basebol e agora anda doido por bowling. - Era espantoso. Como  que algum aprenderia a lidar com uma situao dessas? 
De certa forma, ela conseguia compreender que Dana Thorensen tivesse fraquejado, embora no entendesse o seu comportamento posterior. Apesar de no serem amigos 
ntimos, ela conhecia Trygve Thorensen h muitos anos e simpatizava de todo o corao com ele, julgando-o merecedor de uma vida bem menos complicada e infeliz; na 
verdade, ningum merecia uma vida com tantos problemas, e por aquilo que ela podia ver, ele era de fato um excelente pai.
       - Vais dormir em casa da Chloe? - perguntou Page  filha, enquanto enxugava as mos, depois de ter acabado de colocar todas as folhas de alface na saladeira. 
Desde que chegara a casa ainda no tinha ido cumprimentar o marido, e, alm disso, queria tambm ver o que  que Andy estaria a fazer.
       - No - respondeu Allyson abanando a cabea e trocando o pacote de batatas fritas, que deixou em cima do balco, por uma ma. O seu corpo era alto, de linhas 
esbeltas, e ela atirou a trana loura para trs dos ombros. - Depois do cinema eles vm pr-me a casa. A Chloe vai participar numa prova de corrida e saltos amanh 
de manh cedo.
       - A um domingo...? - comentou Page com alguma admirao, enquanto saam da cozinha.
       - Sim... no tenho bem a certeza... acho que  um treino, ou alguma coisa do gnero.
       - A que horas  que sais?
       - Fiquei de ir ter com a Chloe por volta das sete. - Houve uma grande pausa at que os enormes olhos castanhos fitaram os da sua me. Por um breve instante, 
Page detectou neles algo que no conseguiu decifrar: algum segredo, um pensamento mais ntimo que Allyson no quis partilhar com a me. - Podes emprestar-me a tua 
camisola preta, me?
       - A de caxemira com prolas...? - Tinha sido o presente de Natal do marido e era demasiado quente, demasiado sofisticada e demasiado cara para uma jovem de 
quinze anos. Quando Allyson respondeu afirmativamente Page no achou a mnima graa ao pedido despropositado da filha.
       - No me parece; no  muito apropriada para stios como o Luigi's e o Festival, no achas?
       - Sim... tens razo... ento e a camisola cor-de-rosa?
       - Essa  bastante mais apropriada.
       - Emprestas-me essa, ento?
       - Empresto. - Page suspirou, e abanou a cabea, esboando um sorriso triste enquanto ia em busca do marido e Allyson seguia para o seu quarto. Havia alturas 
em que Page sentia que entre ela e Brad existiam vrias barreiras e obstculos. Era como se ambos fossem obrigados a participar numa maratona diria para depois 
terem direito a alguns momentos de privacidade; as exigncias eram sempre as mesmas:
       "Leva-me a tal stio, deixa-me no sei onde, vai buscar-me a tal parte, vem ajudar-me, posso fazer isto, onde est o meu casaco, como  que se faz isto, vem 
ver aquilo..." Nesse instante, ao virar no fim do corredor Page viu-o dentro do quarto e constatou, mais uma vez, que era difcil no o achar extremamente atraente. 
Brad Clarke era o exemplo tpico do ideal de beleza masculina: alto, moreno e interessante; media mais de um metro e oitenta, tinha o cabelo escuro e bastante curto, 
uns grandes olhos castanhos e ombros largos; os seus lbios eram finos, as pernas longas, e o sorriso dele ainda fazia com que as pernas de Page fraquejassem. Estava 
debruado sobre uma mala de viagem aberta em cima da cama, mas ao v-la entrar no quarto endireitou-se de imediato, dedicando-lhe um longo sorriso.
       - Ento, que tal correu o jogo? - indagou ele, com um sorriso triste. Devido s suas constantes ocupaes, j h bastante tempo que deixara de assistir aos 
jogos do filho. Por vezes, com a sua agenda superlotada e com os horrios dos filhos Brad tinha a impresso de que nem sequer viviam debaixo do mesmo teto.
       - Correu muito bem. O teu filho portou-se como um verdadeiro campeo - respondeu ela com um sorriso, colocando-se nas pontas dos ps para o poder beijar.
       - Foi o que ele me contou - confirmou ele, enquanto deslizava suavemente a sua mo para a cintura da mulher, de forma a pux-la para junto de si. - Senti 
a tua falta - acrescentou.
       - Eu tambm... - Por alguns instantes, Page deixou-se ficar encostada contra o peito dele; depois, atravessou o quarto e deixou-se cair numa poltrona, enquanto 
ele voltava a fazer a mala. Era j um hbito de fim-de-semana, apesar de suceder geralmente nas tardes de domingo; era sempre nesse dia  noite que Brad partia nas 
suas inmeras viagens de negcios. Apesar disso, quando tinha mais algum tempo disponvel, antecipava essa tarefa para a vspera, de forma a que no dia seguinte 
pudessem dispor de mais algum tempo juntos. - E que tal se fizssemos um churrasco para o jantar? Acabei de descongelar a carne e como est uma tarde to bonita... 
Somos s ns os dois e o Andy, porque a Allyson vai jantar fora com a Chloe.
       - Era uma boa idia, mas... - Brad aproximava-se da mulher com uma expresso de desalento no rosto - no consegui arranjar lugar no vo de amanh  noite para 
Cleveland, por isso vou ter de apanhar o avio de hoje  noite... e tenho que sair por volta das sete. - O desapontamento com que Page recebeu esta notcia tornava-se 
evidente aos olhos do marido. Tinha passado toda a tarde antecipando um sero a dois, talvez at no jardim ao luar... - Querida, lamento muito.
       - Sim... eu tambm... - respondeu ela, esboando um tnue sorriso e acrescentando em seguida, acentuando ainda mais a sua decepo: - Andei o dia todo a pensar 
em ti. - Ele sentou-se no brao da poltrona sem proferir uma palavra. Page sabia que devia estar j mais habituada s viagens do marido e desejava conseguir encar-las 
de outra forma, mas, independentemente da sua vontade, acabava sempre por sofrer com a ausncia dele. - Passar o domingo em Cleveland no deve ser uma perspectiva 
muito aliciante para ti - prosseguiu ela, tentando confort-lo. A agenda onde Brad trabalhava exigia muito dele, o que at certo ponto era natural, pois ele funcionava 
como o seu grande trunfo, capaz de atrair multides. At j se contavam histrias a seu respeito, pela habilidade natural com que aliciava novos clientes e pela 
ainda mais rara facilidade com que os conseguia manter.
       - Como vou ter mesmo que ficar em Cleveland, lembrei-me de telefonar ao presidente da empresa com quem vou falar, e combinamos uma partida de golfe para amanh 
de manh. Assim pelo menos j no ser uma perda total de tempo - afirmou ele, beijando os lbios da mulher, gesto suficiente para que esta voltasse a sentir aquela 
familiar sensao de desejo a percorrer-lhe todo o corpo. - Mas  claro que preferia poder ficar aqui contigo e com os midos - concluiu ele num tom mais grave, 
enquanto a envolvia nos seus braos.
       - Esquece os midos... - pediu ela com a voz levemente enrouquecida. Ele soltou uma gargalhada bem-disposta.
       - Essa idia agrada-me bastante! Vamos guard-la para tera-feira  noite... depois do jantar j conto estar de volta.
       - Ento eu encarrego-me de te lembrar... - murmurou ela antes de um novo beijo, altura exata em que Andy decidiu entrar de rompante no quarto dos pais.
       - A Allie deixou um pacote de batatas fritas aberto e agora a Lizzie est a com-las! Ela vai vomitar o cho todo! - Lizzie era a cadela da famlia, uma labrador 
de plo dourado, dona de um apetite devorador e de um estmago proporcionalmente delicado. - Anda depressa, me! Se a deixares comer mais batatas, ela vai ficar 
doente!
       - Est bem, vou j... - acedeu ela, sorrindo pesarosamente para o marido, que se apressou a colocar a mo no ombro dela, numa tentativa de a animar. Page 
seguiu o filho at  cozinha, onde Lizzie devorava alegremente os restos das batatas fritas espalhadas pelo cho. - s uma selvagem, Lizzie. - exclamou Page num 
tom cansado, enquanto comeava a limpar o cho, desejando que Brad no tivesse que viajar para Cleveland; logo nessa noite, que ela tanto desejara estar com ele! 
Era como se a vida de ambos pertencesse a toda a gente, menos a eles. Foi ento que se lembrou de fazer uma pergunta a Andrew, enquanto Lizzie se esforava por lamber 
as ltimas migalhas: - Queres ir jantar fora com a tua me? O pai vai para Cleveland e, se quiseres, ns dois podemos ir comer uma pizza a algum lado. -  claro 
que tambm podiam comer uma pizza em casa, ou jantar os bifes que ela havia descongelado antes, mas Page no sentia a mnima vontade de car em casa sem a presena 
do marido. Alm disso, era mais divertido programar uma sada a ss com Andy. - O que  que dizes?
       - Vamos, vamos! - No seu contentamento, Andy deixou a cozinha na companhia de Lizzie, e Page aproveitou para guardar a salada e os bifes no frigorfico. S 
depois voltou para junto do marido, dando-se conta de que eram j seis e meia. Entretanto, Brad tinha acabado de fazer a mala e estava quase pronto para sair; escolhera 
um blazer azul-escuro assertoado, umas calas de cor creme e uma camisa azul, cujo colarinho no tinha abotoado. A sua aparncia era de tal forma jovem e atraente 
que, ao v-lo Page sentiu-se subitamente cansada e envelhecida. Afinal, ele estava sempre em atividade, criava o seu prprio estilo de vida, conquistava novos clientes, 
realizava timos negcios e passava o seu tempo na companhia de adultos, enquanto ela ficava em casa a engomar as camisas dele e a vigiar as crianas. Enquanto passava 
um pouco de gua pelo rosto e penteava o cabelo, Page tentou traduzir o seu desnimo em palavras, mas Brad limitou-se a rir das suas queixas.
       - Claro, tens toda a razo...  bvio que tu no fazes rigorosamente nada... s tomas conta de tudo aqui em casa! Tratas dos midos melhor do que ningum 
e no teu "muito" tempo livre ainda pintas murais para a escola e para os teus amigos, ajudas os meus clientes a fazerem uma nova decorao nos escritrios, encarregas-te 
da decorao das casas dos nossos amigos e depois, de vez em quando, ainda pintas umas gravuras. Realmente, nunca tens nada que fazer, Page! - Brad estava apenas 
a brincar com ela, mas tudo o que o marido dissera correspondia  verdade e Page tinha conscincia disso. S que s vezes todas essas tarefas de que ela se ocupava 
lhe pareciam to insignificantes que chegava a admitir que, de fato, "no fazia nada". Talvez essa sensao fosse ocasionada pelo fato de o seu trabalho de pintura 
e decorao no ser remunerado, pois, na maioria dos casos, ela costumava oferec-lo aos amigos ou utilizava-o para retribuir um favor a algum dos seus conhecimentos. 
O seu trabalho s tinha sido remunerado nos anos em que efetuara o estgio na Broadway, logo aps ter concludo o curso de Belas-Artes. Esse perodo da sua vida 
parecia-lhe j muito distante, apesar de lhe trazer apenas timas recordaes: todo o seu tempo era ocupado a pintar e a desenhar cenrios, o que fazia com a mxima 
dedicao, e uma vez tinham-na at consultado acerca do vesturio para uma produo offBroadway1. Agora, o mximo que fazia era vestir os filhos para a Noite das 
Bruxas... pelo menos, era isso que sentia.
        
            1 Este termo refere-se a todas as produes cnicas realizadas fora do espao da Broadway. (N. da T.)
       
       - Acredita - continuou Brad, pousando a mala no corredor e abraando-a novamente - que preferia fazer o que tu fazes a passar o sbado  noite dentro de um 
avio a viajar para Cleveland.
       - Eu sei. - Graas ao marido, a sua vida era muito mais facilitada do que a dele e Page sabia-o bem. Brad trabalhara muito para os poder sustentar e tinha 
sido bem sucedido; os pais dela sempre haviam tido o suficiente para viverem desafogadamente, mas os dele pouco tinham conseguido at  data da sua morte. Como tal, 
tudo quanto Brad havia obtido devia-se apenas ao seu prprio mrito. O seu sucesso fora alcanado passo a passo,  custa de muito trabalho e empenho, o que tornava 
possvel que no futuro viesse a gerir a agncia onde atualmente trabalhava, ou uma outra qualquer. Apesar da muita dedicao que a sua posio lhe exigia, esta conferira-lhe 
um estatuto privilegiado, j que a agncia mobilizava todos os esforos para lhe agradar. Nessa noite, por exemplo, viajaria em primeira classe e caria hospedado 
no Tower City Plaza, em Cleveland, para evitar que houvesse qualquer possibilidade de se cansar do trabalho excessivo ou de encontrar uma oferta melhor.
       - Na tera-feira j estarei de volta... Telefono-te mais tarde - finalizou ele, encaminhando-se para os quartos dos filhos. Despediu-se de Allyson que, graas 
 camisola de l rosa da me e a um leve toque de pintura, adquirira um aspecto bastante mais adulto. A camisola, de decote redondo e mangas curtas, fazia conjunto 
com uma mini-saia branca e o cabelo caa-lhe solto plos ombros, alcanando a cintura numa leve ondulao e formando uma espcie de aurola  volta do seu rosto. 
- Uau! Quem  o feliz contemplado com tamanha elegncia? - Era de fato impossvel no se reparar numa beleza to marcante.
       - O pai da Chloe - esclareceu ela sorrindo.
       - Espero que ele no seja daquele tipo de homens que conquistam rapariguinhas, seno vou ter que vigiar essas sadas!... Tu ests um espanto, princesa!
       - Oh, pai..; - Ela revirou os olhos com visvel embarao, apesar de gostar bastante que o pai a achasse bonita. E o pai era prdigo em elogios, quer fossem 
dedicados a ele,  me ou ao irmo. - Ele j  velho!
       - Muito obrigado, filha! Parece-me que Trygve Thorensen  ainda dois anos mais novo do que eu. - Brad tinha quarenta e quatro anos, apesar de aparentar muito 
menos idade.
       - Oh, tu sabes o que eu quero dizer...
       - Pois... infelizmente sei... Bem, princesa, v se s uma boa companhia para a tua me durante esta semana. Eu volto na tera-feira  noite.
       - At tera, pai. Diverte-te.
       - Sim, sim... vou divertir-me imenso em Cleveland! Alm disso, como  que eu me poderia divertir sem vocs?
       - Vais-te j embora, pap? - perguntou Andy, surgindo inesperadamente debaixo do brao do pai e aproximando-se muito dele. Andy adorava estar perto do pai.
       - Vou. E tu vais ficar encarregue de tomar conta da tua me e da tua irm. Na tera-feira  noite contas-me se as senhoras obedeceram s tuas ordens, est 
bem, filho? - Andy respondeu com um largo sorriso desdentado; adorava que o pai lhe deixasse as rdeas da casa, sentia-se mais crescido e importante.
       - Vou levar a me a jantar fora - anunciou ele com voz grave. - Vamos comer uma pizza.
       - V l se no a deixas comer de mais... seno, pode ficar mal-disposta - murmurou Brad ao seu pequeno ajudante, em tom de grande conspirao. - Como a Lizzie 
quando come de mais...
       - leec...!! - A careta de Andy fez com que todos se rissem. Em seguida, Andy acompanhou os pais at  porta, Brad retirou o carro da garagem e guardou a mala 
no porta-bagagens. Por fim, abraou Page e Andy.
       - Vou sentir a vossa falta. Portem-se bem sem mim - pediu ele, ao entrar no carro.
       - Fica descansado - respondeu Page com um sorriso. J devia estar mais habituada s ausncias do marido, mas todas lhe pareciam to penosas como a primeira. 
Era mais fcil quando ele viajava ao domingo  noite; assim, sentia-se trada pelo carter inesperado da partida dele. Tanto desejara poder estar mais tempo com 
ele que acabara por no poder passar nenhum. Alm disso, por muito freqentes que fossem as viagens dele, era impossvel no se preocupar com os possveis perigos 
que as mesmas implicavam. E se algum dia lhe acontecesse alguma coisa? E se...? Page sentia que nunca sobreviveria a tal fato. - Tem cuidado contigo... - murmurou 
ela, inclinando-se sobre a janela do carro para o beijar. Lembrou-se de que se devia ter oferecido para o levar ao aeroporto, mas sabia que o marido gostava de ter 
o carro dele  espera quando chegava, alm de que seria bastante difcil ir busc-lo numa tera-feira  noite. Era mais simples assim. - Amo-te - disse-lhe Page 
em forma de despedida.
       - Eu tambm te amo - respondeu ele com suavidade, acenando ao filho. Depois, me e filho afastaram-se e Brad arrancou quando faltavam exatamente cinco minutos 
para as sete horas da tarde.
       Page e Andy voltaram ento para casa de mos dadas. Ela no conseguia evitar sentir-se de novo s, embora soubesse que tal sentimento era absolutamente disparatado; 
era uma mulher adulta, que de forma alguma precisava de ser to dependente do marido. E afinal Brad estaria de volta dentro de trs dias... a julgar pela forma como 
ela se sentia, parecia que ele se iria demorar um ms inteiro!
       Entretanto, Allyson j estava pronta para sair. Pintara as pestanas com uma leve passagem de rmel, e os seus lbios exibiam um brilho cor-de-rosa quase imperceptvel. 
Estava realmente encantadora, um exemplo claro da beleza fresca e saudvel da juventude. Tinha a mesma idade dos modelos publicitrios que apareciam nas capas da 
Vogue e, nalguns aspectos, Page considerava a beleza de Allyson ainda mais cativante.
       - Espero que te divirtas, flhota. No te esqueas que tens de estar em casa s onze. - Essa era a norma vigente, a qual Page fazia questo de no quebrar.
       - Oh, me...
       - No se fala mais nisso. Sabes que tens muito tempo para te divertires. - Allyson tinha completado os seus quinze anos muito recentemente, razo pela qual 
Page no via necessidade de alargar a hora de chegada a casa.
       - Ento e se o filme acabar mais tarde?
       - Nesse caso, tens mais meia hora. Se acabar mais tarde do que as onze e meia, o melhor  desistires do cinema.
       - Muito obrigada...!
       - No tens de qu. Queres uma boleia at  casa da Chloe?
       - No  preciso, obrigada, eu vou a p. At logo! - Allyson saiu, e Page foi at ao seu quarto buscar um casaco e a mala de mo. Foi nesse exato instante 
que o telefone tocou; era a sua me, de Nova Iorque. Page explicou-lhe que ia sair para jantar fora com Andy e prometeu ligar-lhe no dia seguinte. Quando Page e 
Andy entraram na carrinha, Allyson j havia tido tempo suficiente para chegar a casa da amiga.
       - Ento, meu menino, onde  que vamos? Ao Domino's ou ao Shakey's?
       - Ao Domino's. Da ltima vez fomos ao Shakey's.
       - A est uma boa soluo! - exclamou Page, enquanto ligava o rdio do carro. Andy procurou a estao de rock and roll que sabia que a irm gostava. Era devido 
 sua influncia que ele possua um gosto musical um tanto ou quanto precoce para uma criana de sete anos.
       Quando chegaram ao restaurante, cinco minutos depois, o estado de esprito de Page j havia melhorado bastante; os seus momentos de melancolia tinham desaparecido 
e ela e o filho acabaram por passar uma hora muito agradvel; alis, o tempo que passavam juntos era sempre agradvel. Ele falou-lhe dos seus amigos e das suas atividades 
escolares e contou-lhe que j tinha decidido que queria ser professor quando fosse crescido. Quando a me lhe perguntou porqu, explicou-lhe que gostava de tomar 
conta dos mais pequeninos e que tambm gostava de poder ter umas frias de Vero mais compridas.
       - Ou ento vou ser um campeo de basebol e jogar nos Giants ou nos Mets!
       Page sorriu, pensando que Andy era sempre uma companhia divertida e agradvel.
       - Isso tambm seria engraado.
       - Me...?
       - Sim?
       - Tu s uma artista?
       - Mais ou menos. Costumava ser, mas agora j no levo isso muito a srio; alis, j h muito tempo que no levo.
       Ele mostrou-se pensativo e depois observou:
       - Gosto muito daquela pintura que fizeste na escola.
       - Ainda bem. Tambm  das minhas preferidas. Sabes uma coisa? Gostei tanto de a pintar que estou at a pensar em fazer outra. - Ele ficou contente com a notcia. 
Quando acabaram de comer a pizza, foi Andy quem pagou o jantar, deixando na mesa a gorjeta que a me aconselhou. Depois, ps o seu pequenino brao  volta da cintura 
de Page e dirigiu-se para a carrinha.
       Dez minutos depois j estavam em casa; Andy tomou banho, vestiu o pijama e foi deitar-se na cama da me, onde os dois ficaram a ver televiso. Era um hbito 
ocasional, que Page gostava de manter sempre que se proporcionava. Enquanto aconchegava o filho entre os lenis e lhe dava o habitual beijo de boas-noites, pensava 
que, apesar do seu tamanho, ainda era o seu menino e sempre o seria. De uma outra forma, Allyson tambm era ainda a sua menina; provavelmente, todos os filhos o 
so, no importa que idade tenham. Sorriu ao rever mentalmente a imagem da filha antes de sair para o jantar com o pai de Chloe, to favorecida pela cor rosa da 
sua camisola.
       Em seguida, pensou tambm no marido e resolveu ir verificar se algum havia deixado alguma mensagem no atendedor de chamadas telefnicas. De fato, ele tinha 
telefonado do aeroporto s para dizer que a amava, embora calculasse que no estivesse ningum em casa a essa hora.
       Page sentia-se cansada e apetecia-lhe ir dormir, mas como queria esperar por Allyson, resolveu assistir a um filme na televiso. Ainda no conseguia dormir 
descansada sem ter a certeza absoluta de que a filha j tinha chegado a casa.
       s onze horas ouviu o noticirio. Nada de extraordinrio se havia passado, e Page verificou com alvio que no haviam noticiado nenhum desastre areo. Sempre 
que Brad viajava, ela no conseguia deixar de se sentir apreensiva; felizmente, tudo tinha corrido bem. Havia notcia das habituais contendas em Oakland, das guerrilhas 
entre os gangs, dos insultos que os polticos dedicavam uns aos outros e de um problema sem muita importncia numa estao de tratamento de guas. Alm disso, noticiaram 
tambm que tinham procedido ao encerramento da Ponte Golden Gate, devido a u acidente que ocorrera alguns minutos antes. Mas, quanto a isso, Page no tinha que se 
preocupar, j que Brad estava a bordo do avio para Cleveland e Allyson ficara em Marin com o pai de Chloe. E quanto a Andy, esse dormia na sua cama, o que significava 
que, graas a Deus, todos os seus entes queridos estavam a salvo. Sentiu-se imensamente grata por isso. Depois, olhou para o relgio e constatou que passavam j 
vinte minutos das onze horas. Conhecendo bem a filha, Page esperava que ela chegasse exatamente s onze e vinte e nove, com os olhos brilhantes, o cabelo esvoaando 
e a animao habitual com que regressava das suas sadas... e, provavelmente, com uma grande ndoa de molho de tomate na camisola de caxemira cor-de-rosa! Essa possibilidade 
fez com que Page esboasse um sorriso, enquanto se aconchegava entre os lenis para ouvir o boletim meteorolgico.
       
       
CAPTULO 2
       Allyson percorreu a rua a passos largos, pois j estava cinco minutos atrasada para o seu encontro com Chloe. A sua casa cava a trs quarteires da casa da 
amiga, mas desta vez ela nem teria que andar tanto, j que Allyson e Chloe tinham combinado encontrar-se na esquina da Shady Lane com a Lagunitas, a meio caminho 
entre as duas casas.
       Chloe j estava de fato  sua espera quando Allyson chegou ao local combinado, com a respirao alterada pela caminhada apressada e com as faces um pouco 
coradas, devido ao calor que a camisola de l lhe provocava.
       - Uau! Fica-te mesmo bem! - exclamou Chloe entusiasmada. -  da tua me? - Ela j no possua o vasto guarda-roupa da me e, por isso, vira-se obrigada a 
pedir emprestada a uma colega do liceu a camisola que trazia vestida. Para melhor precisar, a camisola pertencia  irm mais velha da colega de Chloe, que a tinha 
feito jurar que no domingo de manh sem falta a dita pea de roupa regressaria ao armrio da irm. Era uma camisola de malha preta com gola tipo plo, a qual ela 
usava em conjunto com uma mini-saia de cabedal da mesma cor, que tambm lhe tinha sido emprestada por uma outra amiga. Apenas os collants que Chloe usava pertenciam 
 me, que quando viajara para Inglaterra os tinha deixado esquecidos no fundo de uma gaveta.
       - Ests tima - assegurou Allyson  amiga, visivelmente impressionada com o seu aspecto sofisticado. De sbito, comeou a recear que, junto de Chloe, ela 
parecesse uma personagem de filmes infantis. A camisola e a saia pretas realavam o intenso brilho do cabelo preto da amiga, o qual formava um bonito contraste com 
a sua pele branca e macia. Mas, fosse como fosse, ela no tinha que se preocupar, pois eram ambas muitssimo bonitas, apesar de serem muito diferentes. Chloe, que 
nessa noite tirara especial partido da sua beleza, no parava de saltitar ao lado de Allyson, como se fosse uma bailarina nervosa. Freqentara aulas de ballet durante 
onze anos, fato esse que influenciava cada um dos seus movimentos. Esperava at ser transferida no Outono para a Escola de Bailado de So Francisco, a qual havia 
aceitado a sua candidatura aps uma srie de extenuantes provas. Allyson fitava-a com algum desconforto, enquanto Chloe, consultando o relgio de minuto a minuto, 
no parava de olhar para o incio da rua com visvel inquietao.
       - Pra com isso! Ests a deixar-me ainda mais nervosa! Se calhar, no devamos ter combinado nada!... - exclamou Allyson com voz de choro, subitamente arrependida.
       - Como  que podes dizer uma coisa dessas? - perguntou Chloe em pnico. - Eles so os dois rapazes mais giros do liceu! E, ainda por cima, o Phillip Chapman 
 finalista. .. - Phillip era o par de Allyson e Jamie Applegate era a paixo de Chloe desde o seu primeiro ano de liceu. Freqentava o penltimo ano e ambos os 
rapazes faziam parte da equipe de natao.
       Tinha sido Jamie quem sugerira aquele encontro e Chloe encarregara-se de combinar os pormenores. Falara imediatamente com Allyson, que logo a avisara que 
a me nunca a deixaria sair com um finalista do liceu. At  data, ela sara pouqussimas vezes sozinha; umas vezes fora ao cinema com rapazes que conhecia desde 
que nascera, outras fora acompanhada por um grupo de amigos, mas em qualquer dos casos os pais tinham-na sempre ido pr e buscar de carro. Nenhum dos seus amigos 
possua carta de conduo, o que justificava as preocupaes dos pais com o transporte da filha.  claro que tinham existido antes alguns namoros, mas o mais longo 
durara desde algumas semanas antes do Natal at  altura do Ano Novo. At essa noite, nunca existira uma sada "a srio" com um rapaz, que a viesse buscar num carro 
"a srio" e que a convidasse para um jantar "a srio". Era por isso que tudo aquilo lhe parecia algo assustador, talvez at um pouco "srio" de mais.
       Depois de uma srie de longas conversas com Allyson e outras amigas, Chloe chegara tambm  concluso de que o pai nunca iria consentir que ela sasse com 
Jamie Applegate, pelo menos no no carro dele e com ele prprio a conduzir. Tinha a certeza que o pai argumentaria de imediato que ela mal o conhecia e s mudaria 
de opinio caso Jamie passasse a visit-los com alguma assiduidade, e fosse jantar com eles uma ou duas vezes. Mas essa soluo no lhe permitiria aproveitar aquela 
oportunidade nica, que poderia nunca vir a repetir-se e pela qual ela ansiava h j muito. Carpe diem. Aproveita as oportunidades; era esse lema que ela tencionava 
seguir. Assim, convencera Allyson de que a nica soluo era mentirem aos seus pais. S daquela vez,  claro. E uma s vez no iria prejudicar ningum... Caso viessem 
a gostar dos rapazes depois daquela sada e quisessem voltar a repeti-la, ento nessa altura contariam toda a verdade aos pais; era apenas uma experincia.
       De incio, Allyson relutara em aceitar a idia, mas quando pensou em Phillip Chapman, to atraente, to seguro de si prprio e da sua maturidade, no conseguiu 
resistir  idia de sair "a srio" com ele. Afinal, Chloe at tinha razo. E foi assim que, aps longas horas passadas ao telefone, e muitos segredos trocados no 
liceu, ambas aceitaram o convite e combinaram encontrar-se com os seus dois acompanhantes perto da casa de Chloe.
       - No ests autorizada a sair com rapazes, no ? - troou Jamie quando ela lhe deu a morada do stio onde elas os esperariam.
       -  claro que estou. S no quero que os meus irmos mais velhos te dem uma surra, caso no lhes agrades - explicou ela, tentando elaborar uma desculpa convincente. 
Apercebeu-se depois que a sua tentativa falhara, vendo o ar despreocupado com que ele anotava a morada por ela indicada e lhe prometia avisar Phillip Chapman. Era 
no carro deste que iriam jantar ao Luigi's.
       - Cada um paga a sua parte? - perguntou Chloe com nervosismo e embarao. Tinha j gasto toda a sua mesada num par de sapatos que nesse ms j no devia ter 
comprado, alm de ter tambm emprestado algum dinheiro a uma amiga Penny Morris. A vida aos quinze anos de idade podia tornar-se de sbito terrivelmente complicada... 
A sua pergunta, no entanto, fez Jamie sorrir. Ele tinha o cabelo ruivo e brilhante e um sorriso verdadeiramente incrvel; a bem da verdade, no havia nada naquele 
rapaz de que Chloe no gostasse.
       - No digas disparates. Fomos ns que vos convidamos, no fomos? - Ela concluiu que era mesmo a srio: uma verdadeira sada com dois rapazes mais velhos, 
qualquer deles lindo de morrer. Era uma perspectiva to aliciante, que durante uma semana inteira as duas amigas no falaram noutro assunto, mal podendo esperar 
que chegasse o grande dia. Que agora tinha finalmente chegado... Mas os rapazes estavam atrasados e Allyson receava que tivesse sido tudo uma grande partida.
       - Talvez eles nem venham - admitiu ela com ansiedade, meio aterrorizada e meio aliviada. - Se calhar, estavam s a gozar conosco. Porque  que o Phillip Chapman 
ia querer sair comigo? Ele tem dezessete anos, est quase a fazer dezoito e daqui a dois meses acaba o liceu. Alm disso,  o capito da equipe de natao.
       - E depois? - perguntou Chloe, que embora no o quisesse admitir estava to preocupada quanto a amiga com a possibilidade de eles no aparecerem. - Tu s 
muito bonita, Allie; ele tem muita sorte em sair contigo - acrescentou, gentilmente.
       - Mas talvez ele no seja dessa opinio - argumentou Allyson com modstia. Ainda no tinha ela acabado de proferir estas palavras, j um velho Mercedes cinzento 
virara na esquina e parara exatamente  frente das duas raparigas. Era Phillip quem o conduzia, com Jamie sentado a seu lado no banco da frente. Ambos usavam blazers, 
calas de fazenda, e gravata e pareceram incrivelmente atraentes aos olhos das duas amigas.
       Com bastante calma, Phillip olhou em volta, lanando um sorriso na direo de Allyson.
       - Ol. Desculpem o atraso, mas tive que parar para meter combustvel e no conseguia encontrar uma estao que vendesse gasleo.
       Entretanto, Jamie auxiliava Chloe a entrar para o banco de trs, visivelmente impressionado com o seu cabelo lustroso, com os seus grandes olhos azuis e com 
a saia de cabedal preta. Enquanto Allyson entrava no carro, ele aproveitou para dizer a Chloe que ela estava muito bonita, depois de Phillip a ter cumprimentado. 
Foi s ento que arrancaram em direo ao Luigi's, os quatro formando um grupo de jovens bastante interessante, no qual todos os membros aparentavam ter mais de 
dezoito anos.
       - Ponham os cintos de segurana, por favor - pediu Phillip com.voz grave, salientando a sua muita maturidade e fazendo com que todos eles se sentissem extremamente 
adultos. Em seguida, olhou para Allyson e dirigiu-se a ela com suavidade, enquanto os outros dois conversavam alegremente no banco de trs, como se aquela fosse 
a milsima vez em que saam juntos e nunca tivesse existido antes um s instante de nervosismo.
       - Ests muito bonita - elogiou Phillip, admirando-a. - Estou muito contente por teres conseguido vir.
       - Tambm eu estou. - Allyson sorriu, sentindo-se corar e desejando intensamente no estar to nervosa.
       - H algum problema com os vossos pais por vocs virem sair conosco ou por ns virmos a guiar? - perguntou ele com honestidade. Por breves instantes, Allyson 
sentiu-se tentada a fingir que nenhuma dessas realidades constitua um problema, mas depois encolheu os ombros e decidiu-se pela verdade. Talvez at nem fizesse 
mal em ser franca com ele;
       Phillip parecia ser um bom rapaz e ela simpatizava sinceramente com ele.
       - Deve haver, mas eu no lhes perguntei; eles no querem que eu saia com amigos meus a conduzir. Eu sei que parece estpido, mas  assim que eles pensam...
       - Talvez tenham razo. Mas eu garanto que sou um condutor muito cuidadoso; o meu pai ensinou-me a guiar quando eu tinha nove anos. - Fez uma curta pausa para 
a fitar com um sorriso. - Pode ser que eu um dia os possa ir conhecer. Isso talvez ajudasse. - Ou no, pensou ela, dependia do que os pais achassem das suas sadas 
com um rapaz quase trs anos mais velho do que ela. Era difcil adivinhar... At podia ser que os pais simpatizassem com ele; afinal, Phillip Chapman no era nenhum 
delinqente, era at um rapaz muito delicado, simptico e responsvel.
       - Eu gostava muito - murmurou ela, como uma espcie de agradecimento  tentativa dele para a fazer sentir mais  vontade e em paz com os pais.
       - Eu tambm.
       Continuaram a conversar ao som das gargalhadas nervosas de Chloe at chegarem ao Luigi's. Jamie procedeu ento ao relato dos fantsticos episdios ocorridos 
na equipe de natao, a maioria dos quais Phillip afirmava ser mentira. Ele era muito mais srio do que Jamie, mas era uma companhia agradvel. Quando encomendaram 
o jantar, Allyson j tivera tempo suficiente para chegar  concluso de que gostava realmente dele.
       No entanto, ficou surpreendida quando Phillip mandou vir dois copos de vinho, um para ele e outro para o amigo, oferecendo-o tambm a elas. Tinham trazido 
bilhetes de identidade falsos, mas o empregado nem sequer lhes perguntou as idades, limitando-se a encher os copos dos dois rapazes com vinho tinto da casa e virando 
discretamente as costas quando elas o provaram dos copos deles. Phillip, contudo, nem esvaziou o copo, e durante a sobremesa, Allyson reparou que ele bebera dois 
cafs fortes. 
       - Costumas beber sempre vinho s refeies? - perguntou ela, no resistindo a essa indiscrio. Os seus hbitos alcolicos resumiam-se a uma taa de champanhe 
no Natal, bebida com a aprovao dos pais, e apesar de j ter bebido cerveja uma ou duas vezes, nada a conseguia fazer gostar dessa bebida. Quanto ao vinho tinto 
dessa noite, no lhe parecia que viesse tambm a fazer parte das suas bebidas favoritas, apesar de ter que admitir que gostara bastante de o experimentar.
       - Gosto de beber um copo de vinho quando me estou a divertir - respondeu Phillip. - Tambm costumo beber em casa com os meus pais, e quando jantamos ou almoamos 
fora, eles no se importam que eu beba tambm. - O que ele preferiu no dizer foi que os seus pais decerto se importariam, e muito, se soubessem que o filho tinha 
pedido vinho na posse de um bilhete de identidade falso, alm de o ter oferecido a uma outra menor de idade, e fazendo tenes de conduzir em seguida. Phillip tinha 
plena conscincia disso, mas tentava impressionar as duas bonitas raparigas, dando uma aparncia de independncia e maturidade.
       - E o vinho no te afeta a conduo? - perguntou ela preocupada, insistindo no assunto.
       - No, no me afeta nada - afirmou ele com convico. - Nunca bebo mais de um copo. E alm disso, hoje bebi dois cafs.
       - Eu reparei - confirmou Allyson sorrindo. - E achei muito bem! - Estava a ser franca com ele. Achava-o muito atraente e bastante adulto, mas chegara  concluso 
que podia ser muito sincera com Phillip, e que ele at dava mostras de apreciar a sua honestidade.
       - Estavas preocupada?
       - Um bocadinho...
       - No estejas - pediu ele sorrindo, enquanto pousava a sua mo sobre a de Allyson. Por alguns instantes os dois fitaram-se de olhos nos olhos, o que para 
Allyson foi motivo suficiente para se sentir de novo muito atrapalhada. Ambos desviaram o olhar para Jamie e Chloe, que discutiam animadamente a transferncia desta 
ltima para a Escola de Bailado de So Francisco; Jamie contava-lhe como tinha ficado impressionado com a atuao dela num bailado a que a irm o tinha obrigado 
a assistir.
       - Obrigada - agradeceu ela, encantada. Alm de se achar completamente apaixonada por ele, Chloe adorava receber um elogio. - Gostaste do bailado?
       - No muito - respondeu ele sorrindo. - Para dizer a verdade, detestei! Mas gostei muito de te ver danar e lembro-me que a minha irm tambm gostou.
       - A tua irm costumava fazer ballet comigo, mas depois desistiu das aulas.
       - Eu sei. Ela no danava nada bem, mas dizia sempre que tu eras uma tima bailarina.
       - Talvez seja, no sei... s vezes acho que d muito trabalho, mas h outras vezes em que adoro danar.
       -  exatamente isso que eu sinto em relao  natao! Phillip sorriu, achando graa  observao do amigo; depois sugeriu que fossem at ao centro da cidade 
tomar um caf.
       - E se fssemos at  Union Street? Podamos passear um bocado e depois escolhamos um stio para tomar caf. O que acham?
       - Acho uma boa idia - concordou Jamie.
       - Eu tambm - secundou Chloe. Por alguns instantes, Allyson sentiu-se um pouco ansiosa com a idia de irem at  cidade, j que no tinham avisado ningum 
que o tencionavam fazer; mas, pensando bem, que mal  que tinha? Union Street era uma zona perfeitamente inofensiva e irem tomar um caf no era propriamente aquilo 
a que se poderia chamar um programa perigoso.
       - Por mim tudo bem, desde que eu esteja em casa s onze e meia - acabou ela por afirmar, tentando no se preocupar mais.
       - Ento vamos.
       Antes de sair, Phillip fez questo de deixar uma gorjeta generosa, e s depois disso  que todos se dirigiram para o carro, que tinha ficado estacionado  
frente do restaurante. O carro pertencia  me de Phillip, segundo ele prprio explicou. Por hbito, os pais deixavam-no conduzir uma carrinha velha, mas esta estava 
em to mau estado que ele decidira trazer o Mercedes da me, aproveitando o fato de os pais estarem a passar um fim-de-semana em Carmel.
       Passaram pela Ponte Golden Gate, pagaram a portagem, atravessaram Lombard Street e continuaram por Filimore, na direo sul, at chegarem a Union Street; 
a, depois de uma longa busca, encontraram finalmente um lugar para estacionar o carro. Comearam ento a passear pela rua cheia de montras e restaurantes. A noite 
estava quente, e a agitao prpria de um sbado tomava o passeio ainda mais agradvel. Phillip caminhava com o seu brao  volta dos ombros de Allyson, o que fazia 
com que ela se sentisse terrivelmente adulta.
       Ele era bonito, alto e acabava de lhe contar todos os seus planos para a faculdade. Estava excitadssimo com o fato de o terem aceite na UCLA, onde ingressaria 
no ms de Setembro. Tinha pensado em concorrer para Yale, mas os seus pais no tinham concordado com a idia de ele se mudar para to longe, visto no serem muito 
jovens e terem-no a ele como filho nico; mas Phillip no se importara com isso, pois at gostava mais da UCLA. E, de qualquer forma, talvez assim Allyson pudesse 
fazer-lhe uma visita em Setembro... Mas s o fato de o ouvir pronunciar tal idia era o suficiente para a atrapalhar, pois nem sequer se conseguia imaginar a pedir 
tal coisa aos pais! Acabou por dar uma gargalhada e ele compreendeu.
       - Talvez seja ainda muito cedo para esses planos, no? E que tal irmos tomar um caf? - Afinal, ele dava mostras de entender uma srie de coisas. Quando acabaram 
de tomar os seus cappuccinos, eram quase onze horas e Allyson gostava cada vez mais dele. Houve at uma altura em que ele se debruou sob a mesa para lhe contar 
uma coisa e quase roou os seus lbios nos dela. Quanto a Chloe e a Jamie, estes pareciam nem se encontrar presentes, de tal forma estavam embrenhados na sua conversa.
       Ningum pediu bebidas alcolicas no caf. s cinco para as onze preparam-se para abandonar a mesa e dirigiram-se a passos lentos para o carro, calculando 
que teriam tempo de sobra para chegar a Ross e cumprir o horrio de Allyson.
       - Foi uma noite tima - comunicou Allyson a Phillip com timidez, enquanto apertava o cinto de segurana.
       - Concordo - assegurou ele com um sorriso. Allyson, no entanto, achou-o to crescido que chegou a duvidar que ele alguma vez fizesse tenes de a voltar a 
convidar para sair. Provavelmente, ele estaria apenas a proporcionar-lhe uma noite agradvel... era ainda muito cedo para concluir alguma coisa, mas sabia que gostaria 
de ter oportunidade de o conhecer melhor.
       Phillip conduziu vagarosamente por Lombard Street, e depois atravessou a Ponte Golden Gate. A noite estava de fato maravilhosa: o cu tinha mais estrelas 
do que nunca, a gua brilhava com o reflexo do luar e as luzes  volta da baa tomavam o cenrio ainda mais encantador. Corria uma suave brisa temperada, rarssima 
no clima de So Francisco, e no existia o tpico nevoeiro noturno. Era a noite mais romntica que Allyson alguma vez vira.
       - Que noite linda - murmurou ela para si prpria enquanto atravessavam a ponte. Do banco de trs responderam-lhe com uma srie de risinhos entrecortados.
       - Apertaram os cintos? - voltou Phillip a perguntar com voz grave. Jamie deu uma gargalhada e respondeu:
       - Mete-te na tua vida Chapman.
       - Se no os apertarem, vou ter de encostar quando chegar ao fim da ponte. Ponham os cintos, por favor. - Mas l de trs no se ouvia nenhum som que confirmasse 
que haviam acedido ao pedido dele. Na verdade, houve at um grande silncio, durante o qual Allyson fez questo de no olhar para o banco de trs. Assim, acabou 
por fitar Phillip com um sorriso envergonhado.
       - O que  que vais fazer amanh  noite, Allyson? - perguntou ele.
       - Amanh... no sei...  que eu no estou autorizada a sair aos domingos  noite. - Chegara a hora de ser totalmente franca com ele: ela tinha apenas quinze 
anos, nem sequer acabara o liceu e vivia de acordo com as regras que os pais estabeleciam, independentemente de gostar ou no de Phillip; tinha sido uma noite muito 
boa, mas sentia-se culpada por fazer s escondidas algo que sabia que no devia fazer.  claro que lhe agradava muito a idia de Phillip se dispor a conhecer os 
pais dela, mas no queria voltar a sair com ele s escondidas, nem mesmo se Chloe tivesse decidido exatamente o contrrio em relao a Jamie.
       Contudo, para sua surpresa, Phillip no se mostrou nem um pouco abalado. Apesar dos seus quinze anos, ele achava-a bastante adulta, alm de ser uma rapariga 
linda; gostara muito da companhia dela e estava mesmo disposto a obedecer s tais regras, se isso fosse necessrio para aprofundar a amizade dos dois.
       - Amanh  tarde vou ter um treino, mas depois talvez possa passar por tua casa. S para falarmos um bocado... e para eu conhecer os teus pais. O que  te 
parece?
       - Uma tima idia! - exclamou Allyson encantada.
       - Tens a certeza que no te importas de fazer isso? - Phillip abanou a cabea e olhou-a de uma forma to especial que ela julgou que o seu corao fosse derreter. 
- Eu julgava que... quer dizer, eu pensava que tu... no ias querer fazer isso, pelo menos, para j.
       - Mas quando te convidei para sair, sabia o que devia esperar; at fiquei espantado por no me teres pedido antes para ir conhecer os teus pais. Depois calculei 
que no lhes tivesses dito a verdade... mas no podemos voltar a fazer isso.
       - No, no podemos - confirmou ela, bastante aliviada com a atitude dele. - Pelo menos, eu no posso... se os meus pais soubessem, matavam-me!
       - A minha me tambm me matava, se descobrisse que eu sa no carro dela! - brincou ele, parecendo de repente um mido pequeno. Comearam os dois a rir, dispostos 
a concluir que apesar de no terem procedido muito corretamente, eram ambos boas pessoas e no tinham agido com m inteno; tinha sido tudo por uma boa causa, e, 
afinal, no haviam feito nada de verdadeiramente condenvel.
       Por essa altura, j o automvel deles percorrera metade do comprimento da ponte. Do banco de trs, vinham apenas alguns sussurros, intervalados por alguns 
curtos silncios comprometedores. Phillip tentara puxar Allyson para perto dele, mas o cinto de segurana dela impedia que os dois se juntassem; ela disps-se a 
retir-lo, mas ele no deixou que ela o fizesse, permitindo apenas que Allyson desse ao cinto uma boa folga. Por um breve instante, Phillip retirou o olhar da estrada 
e fixou os seus olhos nos dela com muita intensidade. Foi quando voltou a olhar para a frente que ele o viu, mas era j demasiado tarde. Na direo deles, projetava-se 
uma intensa luminosidade que os atingia diretamente no rosto. Allyson olhava para Phillip quando o choque ocorreu e no banco de trs nem sequer o chegaram a ver. 
Foi um raio de luz, um estrondo tremendo, uma montanha de ao e uma exploso de vidro que se precipitou sobre eles. Em escassos segundos dava-se o mais terrvel 
acidente: os dois carros colidiam e esmagavam-se em fria como dois touros selvagens, enquanto  volta deles todos os outros veculos guinavam na direo oposta; 
o barulho intenso das buzinas sobrepunha-se aos gritos de pnico, que depressa cederam a um longo silncio.
       Os estilhaos de vidro e os pedaos de ferro entrelaado com ao espalhavam-se por todo o lado. O silncio da noite foi ento quebrado por um grito longo, 
que ecoou em conjunto com o som de algumas buzinas distantes. Por fim, ouviu-se distintamente o sinistro som de uma sirena; foi ento que comeou o lento movimento 
de pessoas que saam dos carros para se precipitarem sobre o enorme aglomerado de metal formado plos dois automveis. De sbito, o movimento aumentou e havia pessoas 
que corriam para ajudar,  medida que o som da sirena se tornava cada vez mais prximo. A enorme massa de ao jazia inerte e disforme... Era quase impossvel admitir 
que algum tivesse sobrevivido.
       
CAPTULO 3
       Foram dois homens os primeiros a aproximarem-se do que restava do velho Mercedes cinzento. Nessa altura j se conseguia perceber que o outro carro envolvido 
no acidente era um Lincoln preto. O choque tinha ocorrido de frente, de forma que os motores estavam completamente esmagados e os dois carros pareciam fundidos num 
s; se no fosse devido ao pormenor da cor, teria sido impossvel distingui-los. Uma mulher vagueava ali perto, chorando e murmurando algo que s ela conseguia ouvir. 
Enquanto os dois motoristas corriam para o Mercedes, outros dois apressaram-se a socorr-la, mas ela no havia sofrido quaisquer ferimentos. Um dos homens vinha 
vestido com roupas grosseiras e trazia na mo uma lanterna eltrica, enquanto que o outro, de calas de ganga, se apresentava como mdico.
       - V alguma coisa? - perguntou o homem que segurava a lanterna, apontando-a para o interior do Mercedes com a mo trmula. J assistira a alguns acidentes 
antes, mas nada que se comparasse com aquele. Quase chocara com outro carro ao tentar no bater tambm no Mercedes. Havia automveis parados em todas as faixas de 
rodagem, e sobre a ponte o trnsito j nem sequer circulava.
       Apesar de a ponte ser bem iluminada,  primeira vista era difcil divisar o que quer que fosse no interior do carro, j que deste apenas restava um bloco 
condensado de metal esmagado. Mas passados alguns minutos, eles descobriram-no: tinha o rosto coberto de sangue e o corpo comprimido num espao mnimo; a parte de 
trs da sua cabea estava encostada  porta e o pescoo torcido num ngulo estranho. Foi fcil concluir que aquele jovem estava morto, apesar de o mdico ainda ter 
procurado em vo sentir a sua pulsao.
       - O condutor est morto - comunicou calmamente o mdico ao outro homem, que apontava a lanterna para o banco de trs. De sbito viu os olhos de um outro jovem, 
este ainda consciente e alerta, mas incapaz de produzir uma palavra.
       - Est bem? - perguntou o homem a Jamie Applegate, que lhe respondeu com um sinal afirmativo de cabea. Tinha um corte sobre um dos olhos e batera violentamente 
com a testa em alguma coisa, possivelmente no corpo de Phillip. Parecia estar completamente atordoado, mas no dava mostras de ter sofrido quaisquer outras leses, 
o que era no mnimo espantoso.
       O homem que segurava a lanterna tentou abrir a porta para tirar Jamie, mas esta estava to amassada que era de todo impossvel mov-la.                   
       - A brigada de trnsito j deve estar a chegar - tranqilizou ele, obtendo de Jamie um outro sinal com a cabea. Ele parecia no conseguir falar e era muito 
provvel que estivesse em estado de choque, pois limitava-se a olhar fixamente para os dois homens. Aquele que trazia a lanterna depressa chegou  concluso que 
o jovem devia certamente ter sofrido um traumatismo.
       O mdico apressou-se a ir at junto de Jamie, oferecendo-lhe toda a assistncia que podia atravs da abertura da janela; foi ento que ouviram um longo gemido 
vindo do banco de trs, perto de Jamie, seguido de um choro estridente que depressa se converteu num grito. Era Chloe. Jamie voltou a cabea, fitando-a sem conseguir 
transmitir nenhuma emoo; parecia nem sequer entender como  que ela tinha ido ali parar.
       O mdico deu a volta ao carro o mais depressa que pde e quando o outro homem apontou a lanterna para o lado de Jamie, eles viram-na exatamente em simultneo. 
Aperceberam-se ento de que a rapariga ficara presa entre o banco da frente e o de trs. Com a fora do embate contra a dianteira do Lincoln, o banco da frente tinha 
sido arrastado para trs, ficando preso sobre o colo de Chloe e ocultando-lhe as pernas. Chloe comeou ento a gritar em histeria, queixando-se que no podia mexer-se 
e que tinha muitas dores. Eles tentavam acalm-la, enquanto Jamie insistia em fit-la com a mesma expresso vaga e confusa, e de seguida murmurou algumas palavras 
para Phillip.
       - Agentem s mais um bocadinho - pedia o homem da lanterna aos dois jovens. - J vem a ajuda. - O som da sirena tornava-se cada vez mais ntido, embora 
os gritos de Chloe fossem ainda mais agudos.
       - No posso mexer-me... no consigo... no consigo respirar... - gritava ela, arquejante e totalmente em pnico, tentando obter oxignio a todo o custo. O 
jovem mdico tentava acalm-la, dizendo-lhe suave e firmemente:
       - Calma... est tudo bem... vamos tirar-te daqui no tarda nada. Agora, tenta respirar devagar... v, d-me a tua mo. - Ele conseguiu agarrar a mo dela, 
notando imediatamente que estava manchada de sangue nos locais onde estivera em contato com as pernas. Apesar da lanterna, ele no conseguia ver o estado em que 
ela de fato se encontrava, mas, contudo, sentia-se aliviado por ela estar consciente e conseguir falar. Afinal, mesmo ignorando as condies em que as suas pernas 
se encontravam, a jovem estava viva e havia todos os motivos para admitir que iria resistir.
       Entretanto, o homem da lanterna deixou-os por uns segundos; acabara de ver no banco da frente aquilo que lhe pareceu ser o corpo de uma rapariga inanimada. 
De incio, ela estivera praticamente invisvel, pois encontrava-se cada abaixo do nvel normal do assento, comprimida entre vrias formas metlicas. Mas agora, 
enquanto davam ateno a Chloe, conseguiram distinguir mais  frente um rosto e alguns cabelos louros. O mdico continuou junto de Chloe fazendo todos os esforos 
para a acalmar, enquanto o outro homem tentava em vo abrir a porta da frente para libertar a rapariga que continuava cada ao nvel do guarda-lamas. Mas a porta 
estava de tal forma amigada que era impossvel abri-la. Tentando alcan-la atravs do vidro partido da janela da frente, o homem constatou que no se movia e disse 
qualquer coisa em voz baixa ao mdico. Este ltimo, lanando um olhar para onde ela se encontrava, armou ter srias dvidas que ainda esTIvesse com vida. Os dois 
homens trocaram ento de posies, ficando um a falar com Chloe, para que o mdico pudesse confirmar as suas suspeitas. No entanto, ao tocar o pescoo'da rapariga, 
ele verificou que o corao dela ainda batia, apesar de estar muito lento; a respirao dela resumia-se a um leve sopro e toda a sua cabea e rosto estavam banhados 
em sangue; o cabelo colava-se emaranhado s suas faces molhadas, e a suave cor rosa da camisola que trazia vestida transformara-se em vermelho-vivo; sofrera inmeros 
golpes, e era quase certo que a coliso lhe provocara tambm um traumatismo craniano muito grave. A vida dela estava presa por um fio e o mdico temia sinceramente 
que a ajuda que estava a caminho j no viesse a tempo de salv-la. No havia forma alguma de a poder auxiliar, e mesmo se a respirao ou a pulsao dela parassem, 
ele no lhe poderia fazer quaisquer manobras de reanimao, j que a posio e as leses dela no o permitiam. Tudo o que ele podia fazer era deixar-se car por perto, 
vigiando-a e sentindo-se perfeitamente intil. Por aquilo que lhe era dado ver, as vidas dos dois jovens sentados nos bancos dianteiros estavam perdidas; quanto 
aos outros dois jovens sentados atrs, esses haviam tido imensa sorte.
       - Meu Deus, esto a levar tanto tempo a c chegar! - exclamou o homem da lanterna em voz baixa, analisando o impressionante estado em que o carro ficara. 
Iluminando o cho com a lanterna, viu a imensa quantidade de sangue derramado por baixo do veculo; no era de estranhar, j que as duas raparigas o vertiam abundantemente.
       - A ns parece-nos muito tempo, mas eles vm o mais depressa possvel... - respondeu calmamente o mdico. Quando cumprira o seu estgio num hospital de Nova 
Iorque, h dez anos atrs, ficara durante uns tempos encarregue de conduzir uma ambulncia. Durante esse perodo de tempo, tinham sido muitas as cenas dramticas 
a que assistira, ocorridas nas auto-estradas, nas ruas da cidade e nos guetos; assistira tambm alguns partos em condies precrias, e tinha j presenciado, certamente, 
mais acidentes como o dessa noite, alguns at sem registro de nenhum sobrevivente. - Eles j devem estar a chegar - acrescentou ele.
       O seu prestvel acompanhante suava abundantemente e estava cada vez mais enervado com os gritos de Chloe. Alm disso, no queria olhar para o rosto de Allyson, 
que parecia encontrar-se num estado deplorvel; receava mesmo que ela nem sequer tivesse conservado o rosto intacto.
       Foi ento que a to esperada ajuda chegou ao local do acidente: dois carros de bombeiros, uma ambulncia e trs carros-patrulha. Felizmente, muitos daqueles 
que ali se encontravam possuam telefone nos seus automveis, o que permitira que o acidente tivesse sido imediatamente comunicado; muitos tinham descrito  unidade 
de urgncia a gravidade do acidente e outros haviam-na informado que existiam quatro passageiros no carro mais pequeno, dois deles gravemente feridos. A condutora 
do outro carro envolvido na coliso tinha ficado miraculosamente imune, com exceo de algumas escoriaes e ndoas negras; apesar disso, soluava copiosamente nos 
braos de um estranho que a consolava na berma da faixa de rodagem.
       Trs bombeiros e dois agentes da brigada de trnsito aproximaram-se do carro ao mesmo tempo, acompanhados pela equipe mdica. Os outros agentes encarregaram-se 
de imediato da rdua tarefa de ordenar o trnsito, encaminhando-o lentamente  volta dos dois carros e tornando vivel uma das faixas de rodagem. Os seus prprios 
veculos tinham vindo aumentar a confuso do bloqueio, e a fila nica que comeava a circular na direo norte mal tinha espao para contornar o local do acidente; 
alm disso, ao verem a massa dilacerada que os dois veculos formavam, os condutores, horrorizados, no podiam deixar de abrandar a marcha.
       - Ento, o que  que temos aqui? - perguntou um dos agentes olhando em volta e abanando a cabea ao reparar em Phillip.
       - Est morto - apressou-se o jovem mdico a informar, o que, logo de seguida, foi confirmado por um dos enfermeiros recm-chegados ao local. "Morto". Uma 
vida que j no existia, acabada num s minuto. No importava que idade ele tinha, quo inteligente ou bondoso havia sido ou quanto os seus pais o amavam. Estava 
morto, sem nenhum motivo, nenhuma justificao, nenhum propsito. Phillip Chapman morrera aos dezessete anos numa calma e aprazvel noite de Abril.
       - No conseguimos abrir nenhuma das portas - explicou o mdico. - H uma rapariga presa no banco de trs e julgo que deve ter graves ferimentos nas pernas. 
Aquele rapaz no tem nada de grave - continuou ele, apontando para Jamie, que o fitava em total perplexidade -, mas est em estado de choque e precisa de ser levado 
imediatamente para o hospital. Deve ser observado o mais depressa possvel, porque pode ter sofrido um traumatismo. Mas parece-me que tem grandes hipteses de no 
ter sofrido nenhuma leso mais sria.
       Entretanto, a equipe de socorro j tinha detectado a presena de Allyson e de imediato um dos bombeiros correu para o carro a requerer a presena de mais 
cinco homens equipados com ferramentas prprias para aqueles casos.
       - E o que  que pensa do estado da rapariga que est no banco da frente, doutor?
       - No me parece que ela consiga resistir. - Continuava a sentir o pulso de Allyson, que se tornava cada vez mais fraco. Enquanto a segunda equipe de salvamento 
no chegasse, no poderiam fazer nada para a tirar dali. Os enfermeiros canalizavam todos os seus esforos para lhe conseguirem injetar soro e um deles colocara 
gentilmente um volume debaixo da cabea dela, impedindo assim que os seus ferimentos se agravassem ainda mais. - Ela sofreu um traumatismo craniano muito grave - 
afirmou o mdico. - E s Deus sabe o que mais poder ter sofrido. - Allyson encontrava-se completamente submersa no amontoado de ao, o que impedia que a equipe 
mdica a pudesse assistir. Todo o seu corpo poderia estar partido, dada a posio em que ficara presa. Mais do que nunca, era altamente provvel que no sobrevivesse.
       Por essa altura, Chloe redobrara a intensidade dos seus gritos, mas ningum podia adivinhar se ela o fazia porque tinha ouvido o que acabara de ser dito acerca 
dos seus amigos, ou porque sentia mais dores. Era praticamente impossvel falar com ela, j que na maior parte do tempo parecia nem ter conscincia do local onde 
se encontrava; limitava-se a balbuciar umas frases desconexas acerca da dor que sentia nas pernas e nas costas. Por mais horrvel que pudesse parecer, a equipe mdica 
considerava o seu estado bastante animador, devido ao fato de ela manifestar que ainda possua a capacidade de ter sensaes. Nos muitos acidentes a que j haviam 
prestado auxlio, era comum encontrarem pessoas que no sentiam nenhuma dor, quase sempre por terem sofrido leses na coluna vertebral.
       - Ento, minha menina, vamos tir-la da no tarda nada. Agente s mais um bocadinho. Daqui a pouco j est em casa - asseguravam os bombeiros a Chloe, enquanto 
o resto da brigada arrancava a porta da frente com uma alavanca e retirava os vidros da janela com a ajuda de uma anta. De seguida, retiraram do veculo o corpo 
de Phillip, e, auxiliados por um dos bombeiros, colocaram-no numa maca, cobriram-no de imediato com um lenol e levaram-no para o interior da ambulncia.  volta, 
alguns condutores horrorizados fitavam a cena, enquanto outros choravam ao aperceberem-se de que ele perdera a vida no acidente de viao. Eram lgrimas de horror 
e compaixo por Phillip, um estranho de dezessete anos que acabara de morrer sem que ningum pudesse fazer nada.
       Com a porta aberta, o jovem mdico que desde o incio os assistira pde entrar no carro com o intuito de melhorar as condies em que Allyson se encontrava, 
embora no houvesse muito a fazer. A respirao dela tornara-se ainda mais irregular, e os enfermeiros apressaram-se a colocar-lhe um tubo na boca, ao qual, por 
sua vez, ligaram outro tubo de oxignio. O mdico sabia que era apenas uma tentativa para a fazer respirar melhor, pois apesar das dificuldades que tinham em alcan-la, 
o soro e o oxignio eram os nicos meios de a ajudar. Os braos da jovem estavam demasiado feridos para permitir que se efetuasse uma anlise da sua presso arterial, 
mas o mdico nem sequer necessitava desse dado para ter conscincia do seu estado: Allyson morria nas suas mos, e caso no a libertassem depressa, em escassos segundos 
ela partiria, tal como Phillip. Mesmo coberta de sangue, ele conseguia constatar que se tratava de uma adolescente e apesar de as suas hipteses serem mnimas, queria 
muito poder auxili-la.
       - V l, rapariguinha, agenta... no desistas agora... - As suas palavras eram proferidas quase como uma orao. De sbito, ele pediu a um dos enfermeiros: 
- Depressa, mais oxignio! - Fez-se um silncio generalizado, enquanto todos observavam com ansiedade o redobrar dos esforos mdicos: aumentaram a dose de oxignio 
e acrescentaram  dose de soro uma outra substncia. No entanto, a situao pouco ou nada lhes permitia fazer e todos eles tinham plena conscincia desse fato. Se 
no a levassem rapidamente para o hospital, seria impossvel salv-la.
       Foi ento que a segunda equipe de salvamento chegou finalmente ao local. Em milsimos de segundo, os cinco homens que a formavam tomaram as rdeas da situao, 
no sem antes consultarem algumas das pessoas ali presentes acerca dos pormenores do acidente.
       Chloe comeava nesse instante a perder os sentidos e um dos bombeiros administrava-lhe oxignio atravs da abertura da janela. Era Allyson quem tinha de ser 
socorrida primeiro, era a sua vida que corria perigo; caso no a retirassem dali dentro de alguns minutos, ou mesmo dentro de alguns segundos, j no haveria esperana 
para ela. Fosse qual fosse a situao em que Chloe se encontrava, ela teria que esperar, j que felizmente no se encontrava em perigo de vida. E de qualquer das 
formas, no a poderiam retirar dali sem primeiramente retirarem o banco dianteiro e tirarem Allyson do carro.
       Um dos homens estabilizou o veculo com cunhas e calos, de forma a que nada mais se pudesse deslocar, enquanto um outro membro da segunda equipe procedia 
ao esvaziamento dos pneus e outros dois retiravam os restantes pedaos de vidro das janelas com incrvel rapidez. Um quinto homem, depois de consultar a equipe mdica 
e os bombeiros ali presentes, apressou-se a retirar o vidro de trs do automvel. Todos os seus jovens ocupantes tinham sido cuidadosamente protegidos por uma forte 
cobertura, para que nenhum pedao do vidro partido os pudesse atingir. Para retirarem o pra-brisas foram precisos dois homens, um deles utilizando um malho. Quando 
finalmente o acabaram de retirar, dobraram-no como se fosse um cobertor e fizeram-no deslizar para debaixo do carro com mos hbeis, agindo com a sintoma prpria 
de um conjunto de bailarinos. Entretanto, o vidro da retaguarda j havia sido totalmente retirado. Tinham chegado h pouco mais de um minuto quando o mdico se deu 
conta que, caso Allyson se salvasse, isso dever-se-ia certamente queles homens e  rapidez com que executavam as suas manobras e as suas delicadas operaes, de 
carter quase cirrgico.
       Permanecendo Allyson ainda abrigada pela cobertura, um dos homens entrou no carro, retirou as chaves e cortou os cintos de segurana. Seguidamente, em trabalho 
de equipe, comearam a retirar o tejadilho, utilizando uma serra hidrulica e vrios serrotes manuais, prprios para cortar metal. O barulho que essa operao provocava 
era de tal forma intenso que Jamie chorava baixinho, enquanto Chloe, novamente em pnico, recomeava a gritar. Apenas Allyson no registrava qualquer reao. Os 
enfermeiros continuavam, no entanto, a assisti-la, administrando-lhe oxignio atravs do tubo.
       Em apenas alguns segundos, o tejadilho foi removido e a porta perfurada, para que nela se pudesse encaixar uma mquina especial, prpria para a abrir. Como 
essa mquina pesava cinqenta quilos, foram precisos dois homens para a segurar; o barulho foi to forte como se tivesse sido provocado por uma perfuradora pneumtica. 
Jamie, entretanto, j soluava, mas o barulho continuava de tal forma intenso que abafava at os gritos de Chloe. Um dos enfermeiros permanecia deitado no banco 
ao lado de Allyson, assegurando-se de que a administrao de soro e de oxignio no era interrompida, ao mesmo tempo que lhe ia controlando a respirao; ela, no 
entanto, mantinha-se alheia a tudo o que se passava  sua volta, mas ia continuando a respirar, embora de forma cada vez mais dbil.
       A porta foi ento finalmente tirada, aps o que eles se apressaram a remover tambm o tablier e o volante. Utilizaram umas correntes de ferro muito largas 
e pesadas e um gancho gigante, mas ainda antes de terem terminado, j a equipe mdica havia colocado junto de Allyson uma tbua de suporte, de forma a proteg-la 
e imobiliz-la.
       Logo de imediato o carro ficou inteiramente a descoberto, j sem a parte da frente, sem tejadilho e sem portas, o que significava que Allyson poderia ser 
imediatamente retirada. Ao inclinarem-se sobre ela, tanto os bombeiros como os enfermeiros puderam ento observar a gravidade dos seus ferimentos: a sua cabea apresentava 
tantos golpes na parte frontal e lateral que facilmente se conclua que, na altura do embate, tinha rolado quase como uma bola. Alm disso, trazia o cinto de segurana 
to folgado que era quase como se no o tivesse apertado.
       Por ltimo, concentraram todos os seus esforos em retir-la do carro e deit-la, o mais suavemente possvel, numa maca. Sendo a rapidez um fator crucial, 
cada um dos movimentos desses homens tinha de ser cuidadosamente planeado e infinitamente delicado, de forma a no lesionar a coluna cervical da doente. Quando o 
encarregado da equipe mdica gritou "Levem-na!", eles transportaram a maca para a ambulncia, o mais rpida e cuidadosamente possvel. A vida de Allyson estava presa 
apenas por um fio. Tinham chegado mais duas ambulncias ao local e a equipe mdica concentrava agora a sua ateno em Jamie e em Chloe. Era exatamente meia-noite 
quando a ambulncia que transportava Allyson e o corpo de Phillip partiu para o hospital. O jovem mdico manifestara a inteno de seguir com Allyson, incapaz de 
a deixar somente aos cuidados da equipe de pronto-socorro, embora tivesse conscincia que pouco mais poderia fazer por ela. Como tal, um dos agentes da brigada de 
trnsito prometera-lhe que mais tarde levaria o carro do mdico para o Hospital Marin General, permitindo-lhe assim cumprir o seu desejo. Allyson necessitava urgentemente 
da assistncia de um neurocirurgio, mas enquanto este ltimo no atuasse, ele queria estar presente. Ainda no acreditava que ela pudesse resistir, mas caso isso 
acontecesse, ele queria poder ajudar em tudo o que estivesse ao seu alcance.
       Enquanto isso, tinham chegado mais dois carros-patrulha, uma quarta ambulncia e dois carros de bombeiros. A ponte continuava a funcionar apenas com uma faixa 
em direo a Marin, permanecendo ainda encerrada a via no sentido de So Francisco. Dada a quantidade de automveis parados, ainda seriam precisas mais algumas horas 
at a situao se normalizar.
       - Como  que ela est? - perguntou um bombeiro a um dos enfermeiros referindo-se a Chloe, enquanto esperavam poder libert-la. Continuava a sangrar com abundncia 
de ambas as pernas e os seus gritos tornavam-se cada vez mais agudos. Tinham-lhe administrado j uma dose de soro, mas todas as vezes que a haviam tentado mover, 
ela perdera os sentidos.
       - Ela est temporariamente consciente e depois volta a desmaiar - explicou um dos enfermeiros, acrescentando:
       - Vamos j tir-la daqui. - Para o conseguirem fazer, viram-se forados a destruir o banco, pois fosse qual fosse a direo em que o puxavam, ele oferecia 
resistncia. Contudo, utilizando mquinas, em poucos segundos o assento ficou literalmente reduzido a alguns farrapos, que acabaram por cair no pavimento. Decorridos 
mais alguns minutos, as pernas de Chloe ficaram finalmente a descoberto: tinham sofrido inmeros ferimentos, estavam partidas em mais de um stio e apresentavam 
fraturas expostas. Quando finalmente a levantaram, tambm ela protegida por uma tbua de suporte, Chloe tinha perdido os sentidos.
       E assim partia a segunda ambulncia o mais rapidamente possvel, enquanto os bombeiros auxiliavam Jamie a sair daquilo que restava do carro. Quando o retiraram, 
soluava agarrado a um dos bombeiros, como uma criana pequena em pnico.
       - J passou, meu filho... j passou... - consolava-o o bombeiro. Jamie assistira a tudo aquilo e estava ainda confuso e aturdido; no conseguira assimilar 
o que de fato sucedera. Transportaram-no cuidadosamente para a ambulncia e foi levado para o Marin General como os amigos, exatamente na altura em que chegavam 
ao local os outros carros. Vinham um pouco atrasados, o que se justificava pela dificuldade de circulao na ponte.
       - Meu Deus, odeio noites como esta! - afirmou um bombeiro a um colega. - So estas coisas que nos do vontade de nunca mais deixar os nossos filhos sair de 
casa...! - Ambos abanaram a cabea, observando os esforos para separar o amontoado de massa metlica, pelo menos o suficiente para rebocarem os dois veculos danificados. 
As cmaras de televiso ali presentes filmavam o ocorrido.
       Todos se espantavam com o mau estado em que o Mercedes ficara, mas justificavam-no pelo fato de ser um carro j velho e de ter tido o azar de colidir com 
um Lincoln num ngulo to perigoso. Mesmo assim, se o automvel no fosse de fato um Mercedes, antigo ou no, todos os seus ocupantes, e no apenas um, teriam perdido 
a vida.
       A condutora do outro automvel continuava apoiada a um estranho na beira da faixa de rodagem, ainda bastante aturdida. Usava um vestido preto e um casaco 
branco, e embora estivesse um pouco desalinhada, no havia quaisquer manchas de sangue na sua roupa. At mesmo o casaco branco continuava limpo, o que no deixava 
de ser espantoso, dadas as condies em que haviam ficado os quatro jovens ocupantes do Mercedes.
       - Ela tambm vai ser levada para o hospital? - perguntou um dos bombeiros a um polcia de trnsito.
       - Ela diz que no tem nada. Pelo menos, no se feriu... teve muita sorte! Mas est bastante abalada; diz que se sente culpada pela morte do rapaz. Daqui a 
uns minutos vamos lev-la para casa. - O bombeiro abanava a cabea, observando-a de longe. Era uma mulher de boa aparncia, atraente e bem vestida, que devia ter 
pouco mais de quarenta anos; ao seu lado, estavam duas mulheres e algum lhe tinha trazido uma garrafa de gua. Com o rosto oculto num leno, abanava a cabea e 
chorava baixinho, ainda incapaz de acreditar no que ali acabara de se passar.
       - Tem idia do que poder ter causado o acidente? - perguntou um jornalista ao bombeiro que, como resposta, se limitou a encolher os ombros. No nutria nenhum 
apreo especial plos reprteres, nem apreciava o seu sdico interesse pela desgraa alheia. Alm disso, era bvio o que ali se tinha passado: perdera-se uma vida, 
talvez at duas, caso Allyson no resistisse. Que mais queriam eles saber? O porqu? O como? O que  que isso agora interessava? As conseqncias j no podiam alterar-se, 
fosse de quem fosse a culpa.
       - Ainda no temos a certeza - respondeu ele vagamente  pergunta do jornalista, comentando logo depois com um colega: -  provvel que os dois condutores 
se tenham desviado do trao que separa as duas faixas; talvez no muito, mas o suficiente para provocar o desastre. - Um dos polcias de trnsito assegurara-lhe: 
"Basta desviar a ateno da estrada por um segundo, e..." A dona do Lincoln parecia ter estado mais afastada do trao contnuo do que o outro carro, mas afirmava 
exatamente o contrrio e, anal, no havia razes para duvidar dela.
       - Ela  Laura Hutchinson - afirmou o agente impressionado, enquanto o bombeiro levantava uma sobrancelha em sinal de admirao.
       - A mulher do senador John Hutchinson?
       - Isso mesmo.
       - Bolas! Imagina s se a mulher tivesse morrido... - Mas isso no seria mais grave do que a morte de um dos jovens. - Achas que os midos do outro carro estavam 
bbados ou drogados?
       - Sabe-se l... Mas no hospital eles encarregam-se de verificar isso. At pode ser que estivessem... Ou ento,  mais um daqueles acasos em que nunca ningum 
consegue descobrir quem  que teve a culpa. Pela posio dos carros, no se podem tirar muitas concluses, e pouco mais resta para se concluir alguma coisa... - 
O que de fato havia estava naquele momento a ser comprimido e feito em pedaos, para que pudesse ser removido; estavam tambm a lavar o pavimento com mangueiras, 
limpando dessa forma o leo derramado, os pedaos de borracha e de carroaria e as vrias poas de sangue que manchavam aquela faixa da ponte.
       Seria preciso deixar passar mais uma ou duas horas at que o trnsito da ponte regressasse  sua normalidade, e mesmo assim, at de manh haveria apenas uma 
faixa aberta em ambas as direes, para que o resto dos destroos pudesse ser totalmente retirado para anlises posteriores.
       As equipes televisivas, entretanto, preparavam-se para abandonar o local. J pouco mais havia a registrar e a mulher do senador recusara-se a prestar quaisquer 
declaraes sobre a morte do outro condutor; a brigada de trnsito protegera-a discretamente dos assdios jornalsticos.
       Era meia-noite e meia quando finalmente a levaram para a sua casa, situada em Clay Street, So Francisco. O senador estava em Washington, e ela sara para 
ir a uma festa em Belvedere. Quando chegaram, os seus filhos estavam j deitados h muito tempo e foi a governanta quem lhes abriu a porta; ao ver o aspecto desalinhado 
de Mrs. Hutchinson e ao ouvir o relato do que sucedera, comeou de imediato a chorar.
       Laura Hutchinson agradeceu aos agentes por a terem ido levar a casa e reafirmou que no precisava de ir para o hospital; caso sentisse necessidade, na manh 
seguinte visitaria o seu mdico. F-los prometer, no entanto, que no se esqueceriam de lhe telefonar para a informarem acerca do estado dos outros trs jovens.
       Ela j sabia que o condutor tinha morrido, mas os agentes da brigada ainda no lhe tinham dito que o estado de Allyson era crtico e que provavelmente ela 
no viveria at  manh seguinte. Viam-na to perturbada, to assustada e to receosa que sentiam pena e tentavam poup-la de mais uma notcia desagradvel. Quando 
vira o corpo de Phillip ser coberto por um lenol, rompera num pranto convulsivo; ela prpria tinha trs filhos, e mal podia suportar a idia da morte para algum 
que vivera to pouco.
       O agente que a tinha levado a casa sugeriu-lhe que tomasse um calmante antes de dormir ou ento que bebesse algo forte, caso no tivesse nenhum calmante em 
casa. De fato, ela parecia necessitar muitssimo de uma dessas coisas, e o agente da brigada de trnsito pensou que, decerto, o senador concordaria com a sugesto 
dele.
       - Eu no bebi nada durante toda a noite - afirmou ela, nervosa, acrescentando a seguinte explicao: - Nunca costumo beber quando saio sem o meu marido.
       - Eu acho que lhe ia fazer bem, minha senhora. Se quiser, vou buscar alguma coisa para a senhora beber.
       Ela mostrou alguma hesitao, mas ele apressou-se a ir at ao bar da casa dela e aproveitou para beber tambm alguma coisa. Trouxe-lhe ento um clice de 
brande, bem forte. Ela bebeu-o com uma careta, mas quando chegou ao fim, agradeceu-lhe com um sorriso. Tinham sido extremamente atenciosos para com ela, e Laura 
Hutchinson assegurou ao agente que o senador caria muito grato quando tomasse conhecimento da forma como a haviam tratado.
       - No tem nada que agradecer - afirmou ele antes de sair. Ao chegar perto do colega que o esperava  porta da casa do senador, este ltimo perguntou-lhe se 
no lhe tinha ocorrido levarem-na ao hospital para que l lhe efetuassem um teste ao grau de lcool no sangue; s assim poderiam ter a certeza de que ela no estava 
sob os efeitos de nenhuma bebida.
       - Pelo amor de Deus, Tom! A mulher  casada com o senador e est num estado de nervos lastimvel desde que aquilo aconteceu! Praticamente assistiu  morte 
do mido... alm disso, foi ela mesma quem me disse que no tinha bebido nada esta noite. Para mim, so motivos suficientes para no a incomodar mais. - O outro 
agente encolheu os ombros; o seu colega estaria provavelmente certo... no seria com certeza a mulher do senador que s onze da noite, embriagada, iria chocar contra 
um carro cheio de midos. Ningum faria isso, nem mesmo um idiota total... e ela, afinal, at parecia boa pessoa.
       - De qualquer forma, acabei de lhe servir um brande; se querias que eu voltasse l dentro para a ir buscar, agora j  tarde de mais.  que a mulher estava 
mesmo a precisar de uma bebida forte...! Agora j deve ter acalmado.
       - Talvez eu precise de uma bebida tambm - gracejou o outro agente, sorrindo. - No te lembraste de me trazer uma?
       - Cala-te, p. Era s o que me faltava... fazer-lhe um teste de alcoolemia...! - E acrescentou, rindo: - Querias que eu lhe tirasse tambm as impresses digitais?
       - Claro. Porque no? O senador devia gostar que o fizssemos... se calhar, at nos promovia! - Os dois homens riram e abandonaram aquela rua. Apesar de ser 
apenas uma e meia da madrugada, para eles a noite tinha sido j demasiado longa.
       
CAPTULO 4
       Passavam j quinze minutos das onze da noite e Page assistia a um filme antigo na televiso; quando faltavam dez minutos para a meia-noite, Allyson estava 
ento vinte minutos atrasada e a me comeava j a enervar-se;  meia-noite, ainda mais enervada estava, graas ao atraso da filha.
       Andy dormia tranqilamente ao lado dela e Lizzie tinha adormecido em cima do tapete, aos ps da cama. Estava tudo calmo e sereno dentro de casa, excetuando 
Page, que a cada minuto que passava ficava mais irritada. Allyson prometera estar em casa s onze e meia, hora essa que j inclua mais meia hora alm do que a me 
lhe pedira; no havia quaisquer desculpas para ela violar essa regra.
       Page lembrou-se ento de telefonar para casa dos Thorensen, mas depois achou que no ia adiantar nada, porque se estivessem ainda no cinema ou a comer um 
gelado em qualquer stio, no estaria ningum em casa para atender a sua chamada. Calculou que tivessem decidido ir comer alguma coisa depois do cinema, e se assim 
fosse, tinha a certeza que Allyson no informara o pai de Chloe que deveria chegar a casa s onze e meia.
        meia-noite e meia Page estava furiosa, e  uma da manh comeava j a ficar muito preocupada. Tinha acabado de decidir que poria de lado todas as suas reticncias 
e telefonaria para casa de Trygve Thorensen, quando o telefone tocou. Passavam apenas cinco minutos da uma da madrugada. Page calculou que fosse Allyson, pedindo-lhe 
permisso para passar a noite em casa da amiga. Irritadssima, Page atendeu o telefone, sentindo uma enorme vontade de castigar a filha.
       - No, no podes! - Foi a primeira frase que ela articulou ao telefone.
       - Est? - A voz do lado de l da linha no percebia o que se passava e Page ainda menos. Afinal, em vez de Allyson, era um desconhecido quem telefonava para 
a sua casa quela hora. S podia ser engano ou ento uma daquelas chamadas obscenas, raciocinou ela.
       -  da casa de Mister e Mistress Clarke?
       - , sim. Quem fala? - Um sbito frmito de terror percorreu-lhe todo o corpo, mas ela tentou ignor-lo.
       - Fala da brigada de trnsito Mistress Clarke.  a prpria, no ?
       -  - respondeu Page num murmrio, sentindo um pnico sbito a prender-lhe a voz.
       - Lamento inform-la, mas a sua filha acabou de sofrer um acidente.
       - Ai, meu Deus... - Todo o seu corpo tremia em absoluto pnico. - Ela est... viva?
       - Est. Neste momento est a ser levada para o Hospital Marin General, inanimada. Encontra-se gravemente ferida.
       "Meu Deus... meu Deus... que querem essas palavras dizer? Ser muito grave? Ela estar bem? Correr risco de vida? Em que estado est a minha filha?", interrogava-se 
Page, aterrada.
       - O que  que aconteceu? - sussurrou ela, com voz trmula.
       - Uma coliso frontal na Ponte Golden Gate. Eles vinham para Marin quando colidiram com outro carro que se dirigia para So Francisco.
       - Vinham para Marin? De onde? Isso no pode ser. - Ela parecia disposta a discutir o local onde a filha estivera, segura de que, caso ganhasse a discusso, 
isso significaria que Allyson nunca a tinha estado e que, por isso, nada lhe tinha acontecido.
       - Mas foi o que aconteceu, minha senhora. Ela agora est no Marin General. Aconselho-a a ir para l o mais depressa possvel.
       - Meu Deus... obrigada... - Desligou sem proferir mais nenhuma palavra e marcou freneticamente o nmero das informaes. Deram-lhe o nmero de telefone do 
hospital e ela telefonou logo de seguida para o servio de urgncias, de onde lhe confirmaram que Allyson Clarke acabara de dar entrada. Estava viva, sim, mas no 
lhe poderiam dar mais nenhuma informao acerca do seu estado. Os mdicos estavam j a assisti-la, razo pela qual no podiam, nesse momento, falar com Page. Acrescentaram 
apenas que Allyson Clarke tinha dado entrada nas urgncias em estado crtico.
       As lgrimas brotavam-lhe dos olhos e quando telefonou para a vizinha notou que as suas mos tremiam exageradamente. Precisava de deixar Andy acompanhado... 
tinha de chamar algum... tinha de se vestir... tinha de ir j para o hospital... Enquanto esperava que algum atendesse Page soluava silenciosamente, rezando para 
que Allyson ainda estivesse viva quando ela l chegasse. Depois do telefone tocar quatro vezes, a sua amiga atendeu:
       - Estou? - perguntou uma voz ensonada.
       - Jane? Podes vir para c? - Page parecia no ter flego suficiente para falar, sentia que lhe faltava o ar. "E se ela piorar? E se... no, Deus, no... por 
favor, isso no...", pedia ela.
       - O que  que aconteceu? - Jane Gilson conhecia bem a sua amiga, e nunca vira Page entrar em pnico antes. - Passa-se alguma coisa? Ests doente? Est a 
algum? - Seria um intruso?
       - No. - A voz de Page assemelhava-se a um sopro, trmulo e desafinado. -  a Allie. Sofreu um acidente... bateram de frente com outro carro... ela est no 
Marin General em condies crticas... O Brad viajou... e eu tenho que deixar o Andy com algum...
       - Meu Deus... Vou j para a. -Jane Gilson desligou e Page correu para o armrio, vestindo umas calas de ganga e a primeira camisola que encontrou, uma azul 
que ela costumava usar quando fazia trabalhos de jardinagem. Estava j bastante velha, tinha vrios buracos e algumas ndoas, mas ela nem se apercebeu disso. Depois 
calou apressadamente uns mocassins e sem sequer se lembrar de pentear o cabelo, correu para o escritrio. Sabia que Brad, antes de viajar, apontava sempre num bloco 
o nome e o nmero do hotel onde ia ficar hospedado; tinha a certeza que iria encontrar essa informao no bloco do escritrio. Pensou que, antes de o avisar, seria 
melhor ver a filha, para o caso de o estado dela ser menos grave do que supunha; mas telefonar-lhe-ia do hospital, depois de a ver. S que, ao ver o dito bloco de 
notas, Page constatou que dessa vez no havia nada escrito nele. Nem um nmero de telefone, nem o nome do hotel: rigorosamente nada. Apenas uma folha em branco. 
Pela primeira vez em dezesseis anos, ele esquecera-se de deixar essa informao. Era como se o destino tivesse decidido pregar-lhes uma partida de mau gosto, embora 
de momento Page no tivesse muito tempo para se preocupar com isso. Mais tarde, telefonaria para a agncia onde ele trabalhava e pediria o nmero, mas nesse momento 
tinha que ir rapidamente para o hospital e ver a sua menina.
       Quando a campainha da porta tocou, Page agarrou na mala de mo e correu ao encontro de Jane Gilson. Esta, assim que a viu, abraou-a. Conhecia a famlia desde 
a altura em que se tinham mudado para aquela zona, ainda antes de Andy nascer, e conhecia Allyson desde os seus sete anos.
       - Ela vai ficar bem, acredita... Page, tens de te acalmar. Vais ver que a situao  menos grave do que parece. Tem calma... - Jane gostaria de a poder levar 
at ao hospital, mas o marido estava fora, tinha ido acampar com os filhos, que tinham vindo da universidade em frias da Pscoa. E, alm disso, no havia mais ningum 
para ficar com Andy. Este dormia a sono solto na cama da me, completamente alheio a tudo o que se passava  sua volta. - O que  que queres que eu diga ao Andy 
quando ele acordar, se ainda no tiveres chegado? - perguntou Jane.
       - Dize-lhe s que a Allyson adoeceu e que eu fui com ela para o hospital. Telefono-te assim que puder. Se o Brad ligar, pelo amor de Deus, Jane, pede-lhe 
o nmero do hotel...
       - Fica descansada. Agora vai-te embora... e guia com cuidado!
       Page correu para o carro com o cabelo a esvoaar e a mala debaixo do brao. Um segundo depois, j estava dentro do carro a caminho do hospital. Foi falando 
durante todo o percurso, pedindo a si prpria para ter calma, para respirar fundo, e afirmando que Allyson estava bem, rezando a Deus para que isso fosse de fato 
verdade. Ainda no conseguia acreditar no que tinha acontecido.
       Levou cerca de oito minutos para chegar ao hospital, e estacionou a carrinha no primeiro lugar vago que encontrou; na sua pressa, saiu a correr para o edifcio 
e acabou por se esquecer das chaves dentro do carro. A unidade das urgncias destacava-se de todas as outras: era a mais iluminada, os enfermeiros corriam nos seus 
enormes corredores, entrando e saindo das salas, enquanto nos bancos algumas pessoas esperavam ser atendidas. Uma mulher em trabalho de parto caminhava desajeitadamente, 
apoiada no marido. Mas Page s se preocupava em ver a sua filha, a sua menina... reparou ento na presena de dois jornalistas que tomavam nota do depoimento de 
um agente da brigada de trnsito.
       Correu at  recepo e perguntou a uma das enfermeiras onde  que a filha se encontrava. Ao levantar os olhos para a ver, a expresso da enfermeira modificou-se 
por completo. Page estava extremamente plida e trmula, e a enfermeira sentiu-se invadir por uma onda de compaixo. Tinha um rosto bonito e os seus olhos revelavam 
simpatia.
       - A senhora  a me dela? Page fez que sim com a cabea, sentindo todo o corpo ainda mais trmulo.
       - Ela est... est...
       - Est viva, sim. - Page sentiu as pernas a fraquejar e a enfermeira deixou de imediato a secretria, amparando-a com firmeza. - Mas a sua filha est muito, 
muito ferida, Mistress Clarke, e sofreu um traumatismo craniano muito grave. A nossa equipe de neurocirurgies est a examin-la neste momento, e estamos tambm 
 espera do chefe de equipe. Assim que ele chegar, j lhe poderemos dar mais algumas informaes. Mas ela est a resistir. - A enfermeira conduziu Page a uma cadeira 
e ajudou-a a sentar-se. Para esta ltima, era como se num s instante o mundo inteiro tivesse sido virado do avesso. - Quer que eu lhe v buscar um caf? - indagou 
a enfermeira, compadecida. Page abanou a cabea tentando no chorar, mas era impossvel evit-lo. As lgrimas rolavam-lhe pelas faces enquanto se esforava para 
tentar assimilar aquilo que a enfermeira lhe dissera. Neurocirurgies... "uma equipe de neurocirurgies... ela est muito, muito ferida..." Mas como? Porqu? O que 
 que tinha acontecido? - A senhora est bem? - indagou a enfermeira, utilizando uma mera interrogao retrica. Era bvio que ela no estava bem, apesar de Page 
responder que sim, acenando com a cabea ao mesmo tempo que assoava o nariz. O seu maior desejo, naquele momento, era poder voltar atrs no tempo. E pensar que estivera 
to zangada com a filha por ela no ter chegado  hora combinada... mal podia pensar nisso, agora. A altura em que dera largas  sua irritao coincidia exatamente 
com a altura em que a filha sofrera aquele terrvel acidente... era impossvel suportar essa idia.
       - Mais algum ficou ferido? - conseguiu Page perguntar de forma quase imperceptvel; a enfermeira acenou com a cabea com uma expresso grave, esclarecendo 
logo de seguida:
       - O condutor morreu e uma outra rapariga nova ficou gravemente ferida.
       "Oh, meu Deus... "Morreu"?... Trygve Thorensen est morto? Mas como, meu Deus, como  isso possvel?" No exato instante em que Page tentava assimilar tudo 
isto, viu um homem sair da sala de urgncias que se parecia espantosamente com Trygve. Ele deu mais alguns passos na sua direo e fitou-a bastante tempo com uma 
expresso ausente, demasiado atordoado para reparar nela. Foi Page quem subitamente se apercebeu que aquele homem era, de fato, Trygve. Mas como seria isso possvel? 
A enfermeira garantira que ele tinha morrido; seria tudo aquilo uma mentira? Alguma brincadeira de mau gosto? Um pesadelo? Estaria ela louca ou a sonhar? No entanto, 
ao olhar para Trygve, Page apercebeu-se que o pesadelo era demasiado real. A enfermeira afastou-se discretamente e Trygve continuou a fitar Page, sem notar que as 
lgrimas lhe caam pelas faces.
       - Page, lamento muito o que se passou... - afirmou ele segurando a mo dela entre as dele. - Eu devia ter calculado... era fcil adivinhar, mas eu no prestei 
a ateno que devia... no sei como  que consegui ser to irresponsvel. - Ela fitava-o, verdadeiramente horrorizada. Ele dizia que "no tinha prestado a ateno 
que devia" e as suas filhas tinham ficado naquele estado...? Como  que ele arranjara coragem para lhe dar tal justificao? E porque  que a enfermeira lhe comunicara 
que o condutor havia morrido?
       - No estou a perceber - respondeu ela ainda a fit-lo angustiada, enquanto ele se sentava ao seu lado e abanava a cabea, incapaz de aceitar o que se passara.
       - Eu tambm s agora  que comeo a perceber. Mas devia ter calculado quando a vi sair com aquela roupa... ela levava uma saia de cabedal preta que pediu 
emprestada a algum e uns collants de nylon pretos que deviam ter sido da Dana. Fui um autntico idiota! Quando ela saiu, eu estava a acabar um trabalho com o Bjorn 
e acabei por no lhe dar muita importncia. Ela disse-me que ia jantar fora consigo, e eu achei que no fazia mal... Agora dava tudo para a ter impedido!
       - Jantar fora comigo...? Quer dizer que... voc no ia a conduzir? - Quando finalmente percebeu que elas nem sequer tinham sado com Trygve, Page sentiu-se 
invadir por uma sensao de pnico. Afinal, com quem tinham elas sado e quem era o condutor?
       - No, no ia - respondeu ele  anterior pergunta de Page.
       - A Allyson disse-me que ia lev-las a jantar ao Luigi's e que depois iam ao cinema. Nunca me ocorreu que isso no fosse verdade... - Mas ao relembrar as 
circunstncias daquela noite, as peas do puzzle comearam rapidamente a encaixar-se. Page depressa se apercebeu dos pequenos pormenores que at essa altura lhe 
tinham passado despercebidos: a camisola de l emprestada, a saia branca, o fato de a filha se ter ido encontrar com Chloe sem querer que ela a fosse levar de carro. 
- Como  que eu pude ser to idiota?
       - Parece-me que ambos o fomos... - Ele olhou-a atravs das lgrimas e Page recomeou a chorar. Trygve continuou: - Devia ter visto o estado de Chloe quando 
aqui chegou... tem vrias fraturas expostas em ambas as pernas, uma anca deslocada, o osso da bacia partido e vrias leses internas. Agora esto a retirar-lhe o 
bao... a vida dela pode ter ficado estragada para sempre... Os mdicos vo tentar endireitar-lhe a anca e vo consertar-lhe o osso da bacia com parafusos... ela 
pode nunca voltar a andar, Page... - As lgrimas rolavam-lhe pela cara sem que ele o notasse. - E o maior desejo dela era entrar para a escola de bailado...! Oh 
meu Deus... Como  que isto foi acontecer?
       Page abanava a cabea, demasiado impressionada com o que acabara de ouvir: Chloe incapaz de voltar a andar... e Allyson com um grave traumatismo craniano. 
Olhou para Trygve, mas desta vez j incapaz de o culpar.
       - Viu a Allyson? - Ver a filha era o que ela mais desejava e, no entanto, aquilo que mais temia; mas tinham-lhe dito que teria de aguardar at que os neurocirurgies 
finalizassem o seu exame. Mas, e se Allyson entretanto no resistisse, e se Page no estivesse presente... e se... e se...
       - No, no pude - respondeu Trygve enxugando as lgrimas. - Pedi para a ver, mas no me deixaram. Acabaram de levar a Chloe para a sala de operaes e disseram-me 
que a operao pode demorar entre seis a oito horas, talvez mais. Vai ser uma noite muito comprida. - Ou talvez no, o que seria ainda mais grave para Page, pois 
para Allyson tudo podia terminar muito rapidamente. - Informaram-me que a Allyson tinha sofrido um traumatismo craniano muito grave, mas no me disseram mais nada 
- acrescentou ele com suavidade.
       - A mim tambm no me disseram mais nada. Nem tenho a certeza do que isso realmente significa. Ela ter o crebro tambm afetado...? Corre risco de vida...? 
Ser que pode voltar a ficar bem...? - Os olhos de Page iam-se enchendo de gua  medida que ela falava e ele a ouvia em silncio. - Agora est a ser examinada pela 
equipe de neurocirurgies.
       - Tem de acreditar que ela vai ficar boa. Por agora, no podemos fazer mais nada.
       - Mas e se ela no ficar? - Page sentia-se muito grata por ter ali algum com quem falar. Ele sentia tudo aquilo que ela estava a sentir; a nica diferena 
entre os dois era o fato de a filha dele no correr risco de vida, pois por mais grave que fosse o estado de Chloe, ele tinha a certeza que ela iria sobreviver.
       - Faa um esforo para no pensar em todas essas hipteses futuras - aconselhou ele. - Eu tambm dou comigo a questionar-me sobre tudo o que pode acontecer... 
se ela vai voltar a andar, se vai ficar paraltica... se alguma vez poder andar, correr, danar... ou at se poder ter filhos. H minutos atrs, dei comigo a planear 
quais os melhores stios l de casa para fazer rampas para a cadeira de rodas. Temos que nos dominar para no termos estes pensamentos, porque, por enquanto, ainda 
no podemos saber nada. O melhor que temos a fazer  no pensar em mais nada seno no momento presente. - Page concordou, percebendo o que ele queria dizer. Uns 
segundos antes, tinha pensado no que diria a Brad caso Allyson no resistisse, para logo a seguir se recusar a acreditar em tal hiptese.
       - Sabe quem  que ia a conduzir? - perguntou Page num tom de voz grave e melanclico, relembrando que a enfermeira lhe dissera que ele havia morrido, quando 
ela ainda imaginava que se tratava de Trygve.
       - S sei que era um rapaz chamado Phillip Chapman e que tinha dezessete anos. No sei mais nada. E a Chloe no se encontrava em condies de responder a nenhuma 
pergunta.
       - Esse nome no me  estranho... Talvez at conhea os pais dele. Como  que acha que elas o conheceram?
       - Sabe-se l... talvez na escola... numa das equipes de jogos, ou no clube de tnis... elas esto a crescer, como bem sabe. Nunca passei por nada disto com 
nenhum dos meus outros filhos; pelo menos, no com o Nick. - Era evidente que, com Bjorn, os pontos de comparao eram diferentes. - Estou a ver que as raparigas 
do bastante mais trabalho do que os rapazes... pelo menos as nossas do! - Ele esforava-se por faz-la sorrir, mas a sua tentativa estava destinada ao fracasso. 
Page no conseguia parar de pensar na filha: E se ela nunca chegasse a crescer? Nunca pudesse sair, ter um namorado, um marido ou um filho? E se fosse o m da vida 
dela? Quinze breves anos e nada mais. S essa hiptese chegava para inundar-lhe os olhos. Trygve, ao v-la chorar de novo, pegou-lhe na mo e conservou-a entre as 
suas, pedindo-lhe:
       - Page, no se entregue agora... tente no pensar no pior.
       - Mas como  que posso no pensar? Como  que me pode pedir uma coisa dessas? - Retirou a mo e deu livre curso s lgrimas. - Ela pode no resistir, pode 
ter o mesmo fim que teve o rapaz que ia a conduzir... - Trygve abanava tristemente a cabea, e ela assoou o nariz, assustada e cheia de medo. Depois levantou os 
olhos para Trygve e perguntou-lhe: - Eles tinha bebido? - Fora aquele o seu primeiro pensamento quando soubera da ocorrncia e do fato de o condutor ter apenas dezessete 
anos.
       - No fao idia - respondeu ele com honestidade. - A enfermeira disse-me que iam fazer anlises a todos eles, para poderem verificar a quantidade de lcool 
no sangue. Mas eu suponho que  bem possvel que sim... - concluiu num tom pouco firme, enquanto um jornalista se encaminhava para junto deles. J os observava h 
algum tempo e Trygve vira-o a interrogar a enfermeira que estava na recepo, depois de ter acabado de falar com o agente da brigada de trnsito.
       Page estava ainda a chorar quando ele se aproximou. Vestia calas de ganga e uma camisa de xadrez, onde balanava um carto plastificado da sala de imprensa. 
Calava sapatos de tnis e trazia um pequeno gravador e um bloco de apontamentos.
       - Mistress Clarke? - perguntou ele sem rodeios, colocando-se muito prximo dela para observar melhor as suas reaes.
       - Sim? - No seu nervosismo Page no se apercebeu logo de quem se dirigia a ela, e, por alguns instantes, julgou at que podia ser um mdico. Levantou os olhos 
para ele com uma expresso aterrorizada, enquanto Trygve o fitava com desconfiana.
       - Como est a Allyson a reagir? - perguntou o jornalista como se a conhecesse h muito. Tinha conseguido o nome dela atravs da enfermeira.
       - No sei... Mas julguei que o senhor soubesse... - Trygve limitava-se a abanar a cabea, notando que o carto dele trazia uma fotografia, o seu nome e a 
estao de televiso para onde trabalhava. - O que  que quer saber? - Page parecia confusa e assustada por aquela repentina intromisso.
       - S queria saber como  que a senhora est... e como  que a Allie est. Ela conhecia o Phillip Chapman muito bem? Que tipo de rapaz era ele? Era do tipo 
irresponsvel, ou pensa que... - Pressionou o mais que pde at Trygve o interromper abruptamente.
       - No me parece que esta seja a altura adequada... - Trygve deu um passo na direo dele, mas o jovem reprter no se deixou impressionar.
       - J sabe que quem conduzia o outro carro era a mulher do senador Hutchinson? Ela no sofreu nem um arranho - comentou ele, provocador. - Como  que se sente 
perante esse fato Mistress Clarke? Muito revoltada, calculo. - Ao ouvi-lo Page no conseguiu esconder a sua irritao. O que  que ele pretendia? Deix-la ainda 
mais angustiada? Que diferena fazia saber quem era o outro condutor? Seria ele to louco como insensvel? Olhou para Trygve em busca de auxlio e constatou que 
ele no podia estar mais furioso com a atitude do jornalista. - Acha que os quatro jovens tinham bebido Mistress Clarke? Phillip Chapman era o namorado da sua filha?
       - O que  que julga que est a fazer? - Levantou-se e enfrentou-o, indignada. - A minha filha pode estar a morrer, e no tem nada que saber se ela conhecia 
bem aquele rapaz, ou quem era o outro condutor, ou o que eu penso acerca disso!... - O pranto de Page impedia que as palavras fossem proferidas de forma clara. - 
Deixe-nos em paz! - Ela sentou-se, cobrindo o rosto com as mos, e Trygve colocou-se entre ela e o jornalista, ordenando:
       - Faa o favor de se retirar. - Trygve permanecia to imvel como uma parede entre os dois. - Saia daqui. Nada lhe d o direito de agir assim - afirmou ele 
num tom que pretendia que fosse ameaador, mas tal como Page, a voz dele tremia.
       - Eu tenho todos os direitos, sim, porque as pessoas tambm tm o direito de ser informadas sobre uma coisa destas. E se eles no tiverem bebido nada? Se 
for a mulher do senador quem tiver bebido?
       - E o que  que isso vai adiantar? - argumentou Trygve irritado. O que  que fazia ali um jornalista? Aquilo nada tinha a ver com o domnio pblico, com os 
direitos sobre a verdade ou sobre quem tinha a culpa do acidente. Era antes uma intromisso de muito mau gosto, que magoava profundamente quem j estava angustiado. 
       - A senhora exigiu que fosse feito um teste de alcoolemia  mulher do senador? - O jornalista tentava de novo falar com Page, enquanto esta fitava vaga e 
difusamente os dois homens ali especados. Estava a chegar ao limite das suas foras e tudo o que realmente lhe importava era Allie.
       - Tenho a certeza de que a Polcia fez tudo aquilo que tinha de ser feito. Porque  que insiste em causar ainda mais problemas? No percebe que s nos est 
a fazer mal? - indagou ela, exausta.
       O jornalista parecia resolvido a no sair dali.
       - Eu estou apenas a procurar a verdade, s isso. Espero que a sua filha recupere rapidamente - acrescentou ele sem emoo, afastando-se por fim para ir interrogar 
mais algum. Ele e o cameraman que o acompanhava permaneceram na sala de espera por mais uma hora, mas no voltaram a incomodar Page. Contudo, Trygve continuava 
indignado com o atrevimento do jornalista em vir incomodar Page numa altura como aquela; perturbara-o o seu estilo grosseiro e as insinuaes que fizera, destinadas 
a enraivec-los. Era demasiado revoltante.
       De tal forma ficaram abalados com a presena do jornalista que, de incio, nem repararam num rapaz ruivo que meia hora depois se aproximou deles. Page nunca 
o vira antes, mas Trygve constatou que a sua fisionomia lhe era vagamente familiar.
       - Mister Thorensen? - perguntou ele, nervoso. Estava muito plido e parecia ainda um pouco aturdido, mas olhava diretamente para o pai de Chloe.
       - Sim? - Trygve olhou para ele sem o reconhecer, pensando que aquela no era uma boa noite para quem desejasse vir conversar com ele. Tudo aquilo que realmente 
lhe interessava era esperar que Chloe sasse da cirurgia, rezando para que a vida dela no ficasse destruda. - O que  que deseja?
       - O meu nome  Jamie Applegate e eu... estava com a Chloe quando se deu... o acidente... - Ao pronunciar estas palavras, os lbios dele tremeram. Trygve levantou 
os olhos para ele, chocado.
       - Mas quem  voc? - perguntou ele, erguendo-se da cadeira; ao encarar o rapaz, notou que ele parecia doente e que levara alguns pontos sobre a sobrancelha, 
mas que, fora isso, parecia livre do horror que marcara para sempre as vidas dos outros trs jovens.
       - Eu sou um amigo de Chloe, Mister Thorensen. Eu... ns... convidamo-la para jantar fora.
       - Vocs estavam bbados? - perguntou-lhe Trygve crua e diretamente. Jamie, no entanto, abanou a cabea. Tinham acabado de fazer um teste ao sangue que provava 
que tanto ele como Phillip no estavam sob o efeito do lcool.
       - No, senhor, no estvamos. Fomos jantar ao Luigi's, em Marin, e eu bebi um copo de vinho, porque no ia conduzir; o Phillip bebeu ainda menos que isso, 
talvez meio copo, se tanto. A seguir fomos tomar um cappuccino a um caf da Union Street e depois viemos para casa.
       - Vocs eram todos menores - afirmou Trygve calma mas firmemente. - Nenhum de vocs devia ter bebido, nem mesmo meio copo de vinho. -Jamie sabia que ele tinha 
razo, mas continuou a explicar o que tinha sucedido:
       - Eu sei que tem toda a razo, mas nenhum de ns estava afetado. No sei como aquilo aconteceu, nunca cheguei a ver o outro carro. Ns amos a conversar no 
banco de trs... e depois s me lembro de estar aqui no hospital. A nica coisa de que me lembro  de um agente me dizer que algum veio na nossa direo ou que 
ns tnhamos batido em algum. Sinceramente no sei... mas o Phillip conduzia muito bem... ele obrigou-nos a todos a apertar os cintos de segurana e estava perfeitamente 
sbrio. - Ao dizer isto, Jamie comeou a chorar. Afinal, o seu amigo tinha morrido e ele continuava vivo.
       - Achas que foi o outro condutor quem teve a culpa? - indagou Trygve calmamente. Estava tocado por aquilo que Jamie havia dito e tornava-se por de mais evidente 
que o rapaz estava ainda muito abalado.
       - No sei... eu no sei de nada, a no ser que... a Chloe e a Allyson... e o Phillip... - Ele soluava, pensando nos amigos. Trygve, sem hesitar, colocou 
o brao  volta dos ombros dele. - Tenho muita pena... tenho muita pena...
       - Tambm ns temos... acalma-te, rapaz. Acalma-te... tiveste muita sorte esta noite... o destino  assim mesmo. - Num pice, escolhe uma vtima, destri uma 
vida e depois parte apressado, tal como um relmpago.
       - Mas no  justo... porque  que eu no sofri nada e eles...
       - Por vezes  mesmo assim; tens que ficar grato por isso. - Mas tudo o que Jamie Applegate conseguia sentir era culpa. Ele no queria que Phillip tivesse 
morrido... nem que Chloe ou Allyson estivessem num estado to grave... e porque  que ele tinha ficado apenas com uns golpes na testa? Porque  que, em vez de Phillip, 
no tinha sido ele o escolhido?
       - Tens algum que te leve a casa? - perguntou Trygve amavelmente, j incapaz de estar zangado com o rapaz, perante tudo o que acontecera.
       - O meu pai deve estar a chegar. Mas eu vi-vos aqui sentados e quis vir explicar-vos que... quis vir dizer-vos que... - Olhou para Trygve e para Page e recomeou 
instantaneamente a chorar.
       - Ns entendemos - disse Page, apertando-lhe a mo com carinho. Ele inclinou-se para a abraar, e Page deu consigo a soluar nos braos do rapaz.
       Pouco depois, o pai dele chegou ao hospital e entre os dois existiram alguns minutos de discusso, de lgrimas e de reprovao. O pai de Jamie, Bill Applegate, 
estava compreensivelmente aborrecido com tudo o que se passara, mas simultaneamente aliviado pelo fato de o filho ter sobrevivido ao acidente. Chorara quando fora 
informado da morte de Phillip Chapman, sentindo-se profundamente grato por no ter sido o seu filho. Era um homem respeitado por toda a comunidade, e Trygve j o 
vira em algumas reunies escolares e em alguns acontecimentos desportivos.
       Conversou durante algum tempo com Page e co Trygve, colhendo informaes sobre a forma como tudo ocorrera e pedindo desculpas em nome de Jamie pela mentira. 
Mas todos eles sabiam que era j demasiado tarde para desculpas; era demasiado tarde para o que quer que fosse, exceto para as operaes, para um milagre capaz de 
os salvar a todos, e para as preces. Todos tinham plena conscincia desse fato.
       Bill Applegate prometeu manter-se em contato com eles, a fim de se manter a par do estado de Chloe e de Allyson e, antes de sarem, voltou a perguntar ao 
filho se estavam embriagados. Este ltimo insistiu que no, e por alguma razo, nenhum deles duvidou que ele estivesse a dizer a verdade.
       Aps Bill Applegate ter sado com o filho, Trygve olhou para Page e confessou, abanando a cabea:
       - O rapaz fez-me pena... mas sinto-me ainda um pouco irritado. - Estava, de fato, zangado com todos eles: com Phillip por os ter envolvido no acidente, com 
Chloe por lhe ter mentido e com a condutora do outro carro, caso fosse culpa dela. Mas quem podia saber com exatido o que se passara? Quem podia ter a certeza? 
O chefe da brigada de trnsito explicara-lhe, alguns minutos antes, que a coliso das duas viaturas tinha sido de tal forma violenta, que se tornava praticamente 
impossvel determinar quem havia sido o culpado e que a posio dos automveis no lhes permitia ter a certeza de quem pisara o trao contnuo e por que motivo o 
fizera. As recolhas de sangue revelavam a existncia de lcool no sangue de Phillip, embora no em quantidade suficiente para o considerar embriagado. E como a mulher 
do senador lhes parecera totalmente sbria, os agentes nem sequer haviam colocado essa hiptese. Tudo o que porventura poderiam concluir era que Phillip se havia 
distrado, provavelmente por causa de Allyson, e que, assim, talvez fosse ele realmente o culpado pelo acidente. Todavia, nenhuma suposio podia ser considerada 
conclusiva.
       Page continuava obcecada por ver a filha e ansiosa por saber mais alguma informao sobre o estado dela. Passou-se mais uma hora at a enfermeira lhe vir 
comunicar que os neurocirurgies haviam finalmente terminado o seu exame e que estavam agora prontos para a receber.
       - Posso ver a minha filha?
       - Depois, Mistress Clarke. Os mdicos gostariam de v-la primeiro, para poderem explicar em que condies  que ela se encontra. - Pelo menos, existia ainda 
algo para explicar. Quando Page se levantou, Trygve encarou-a com uma expresso preocupada. Era um bom amigo... antes, tinham-se encontrado inmeras vezes e reunies 
escolares, nos jogos dos filhos, num ou noutro piquenique ocasional, e apesar de nunca terem sido amigos ntimos Page sempre simpatizara com ele. Alm do mais, as 
suas filhas eram muito amigas desde que a famlia Clarke viera morar para Marin.
       - Quer que eu v consigo? - perguntou ele. Page hesitou um pouco, mas depois respondeu afirmativamente. Sentia-se apavorada por aquilo que iria ouvir, e ainda 
mais aterrorizada se sentia ante a possibilidade de ver a filha. Era tudo o que ela mais queria, mas no conseguia deixar de recear profundamente aquilo com que 
se defrontaria quando a visse.
       - No se importa? - murmurou Page desculpando-se, enquanto percorriam a passos largos o corredor que os levaria at ao local onde a equipe mdica os aguardava.
       - No diga disparates - respondeu ele, antes de iniciarem ambos uma corrida pelo corredor. Pareciam dois irmos com o mesmo passo, ambos de um louro to intenso 
e com um ar to escandinavo! Trygve era um homem muito bondoso e gentil, possuidor de uma aparncia saudvel e interessante. Era muito fcil lidar com ele e Page 
nunca se sentira to  vontade com ningum como agora se sentia com Trygve. Eram companheiros na desgraa.
       A porta da sala de reunies pareceu-lhes demasiado imponente, e ao entrarem depararam-se-lhes trs mdicos vestidos com batas e com toucas nas cabeas, sentados 
 volta de uma mesa oval. Traziam as mscaras cadas  volta do pescoo e Page reparou que um deles tinha ainda uma marca de sangue na bata. Com um arrepio, fez 
votos para que aquele no fosse o sangue da sua filha.
       - Como  que ela est? - Page no conseguiu calar a sua ansiedade por mais tempo, aquilo era tudo o que ela queria saber. Mas a resposta no era de forma 
alguma to simples como a pergunta.
       - Viva, Mistress Clarke. A Allyson  uma rapariga muito forte; sofreu uma pancada muito violenta, da qual resultou um ferimento muito grave. So poucos os 
casos como este em que o paciente resiste at esta altura. Mas a sua filha resistiu, e ns queremos acreditar que esse  um bom indcio. Mas temos ainda um longo 
caminho pela frente.
       "Essencialmente, ela sofreu dois tipos de leses, cada um acarretando as suas prprias conseqncias: a primeira leso ocorreu no momento do impacto, quando 
o crebro foi pressionado contra a caixa craniana. Para simplificar, diramos que, no embate, a massa enceflica foi muito agitada. Pode at ter sofrido um movimento 
de rotao, e nesse processo, as fibras nervosas teriam sido foradas, e as artrias e as veias laceradas. Isto pode ocasionar outras complicaes.
       "A segunda leso tem talvez uma aparncia mais assustadora do que a primeira, mas isso pode at no corresponder  verdade. Ela tem uma ferida aberta na zona 
onde o crnio foi perfurado e o osso partido. A massa enceflica est exposta nessa rea da caixa craniana, que provavelmente foi atingida por alguma pea aguada 
de metal, logo aps o embate.
       Horrorizada com o prognstico, Page emitiu um leve gemido e apertou a mo de Trygve, sem sequer se aperceber desse seu gesto. Sentia-se indisposta com a descrio 
mdica, mas esforava-se para no desmaiar ou para no ceder s nuseas. Sabia que teria que assimilar tudo o que lhe dissessem.
       - H, no entanto, uma forte possibilidade... - prosseguiu o chefe da equipe dos neurocirurgies, implacvel. Tinha conscincia do quo desagradvel isso era 
para o casal, mas tambm sabia que era seu dever explicar-lhes tudo; afinal, eles tinham o direito de ser informados sobre o estado da filha. O mdico partia assim 
do princpio que Trygve era o pai de Allyson. - H uma forte possibilidade de que a rea inatingida por esse ferimento aberto esteja, de fato, ilesa. No  muito 
comum estes ferimentos causarem deficincias muito graves, apesar de se verificarem geralmente algumas incapacidades menores. Essa leso  a nossa primeira preocupao; 
e,  claro, preocupamo-nos igualmente com as complicaes que possam advir de ambas as situaes. Ela perdeu muito sangue, mas, de qualquer forma, a presso sangunea 
teria baixado sempre muito devido ao traumatismo.
       Ela est profundamente enfraquecida pela perda de sangue. Alm disso, verificou-se tambm uma perda de oxignio no crebro. No sabemos at que ponto a situao 
possa vir a ser francamente desesperante, ou venha a acarretar apenas ligeiras conseqncias. Por enquanto, ainda no temos elementos suficientes para concluir nada. 
Tudo o que podemos fazer agora para a ajudar  oper-la. Precisamos de levantar o osso que foi comprimido na fratura, de forma a aliviar parte da presso e vamos 
tambm tratar a zona do ferimento; temos igualmente mais algum exerccio de reparao para efetuar  volta das rbitas oculares, pois o choque que ela sofreu foi 
to violento que a poderia vir a cegar.
       "Existem igualmente outras possibilidades capazes de gerar complicaes: a infeco, como  natural nestes casos, pois ela demonstra j alguma dificuldade 
em respirar. Isso era de esperar, mas caso ocorra uma infeco, volto a repetir que esse fato acarretaria srias conseqncias. Mantivemos o tubo de oxignio na 
traquia, conforme os enfermeiros da ambulncia o haviam deixado e colocamos-lhe uma mscara de oxignio desde que deu entrada aqui no hospital. Tambm j lhe efetuamos 
uma TAC crnio-enceflica, e posso armar que esse exame nos deu informaes que podem vir a ser cruciais. - Fixou o olhar em Page que o tava desde que ele iniciara 
o seu longo discurso, e por alguns instantes teve srias dvidas de que ela o estivesse a entender. Parecia totalmente alheada, e o pai da rapariga no dava mostras 
de estar em muito melhores condies. O mdico decidiu ento dirigir-se a ele, j que Page parecia no conseguir absorver todas as informaes.
       - Fui suficientemente claro, Mister Clarke? - indagou ele esperanoso, com um tom de voz assustadoramente calmo e que quase no registrava a mnima emoo.
       - Eu no sou Mister Clarke - murmurou Trygve, to acabrunhado quanto Page por tudo o que acabara de ouvir. - Sou apenas um amigo.
       - Ah... - O cirurgio ficou desapontado. - Compreendo. Mistress Clarke? Entendeu o que acabei de lhe dizer?
       - No tenho bem a certeza. Disse-me que a minha filha sofreu dois traumatismos, que so basicamente uma pancada muito forte no crebro e uma ferida aberta 
que resulta de uma fratura no crnio. E como conseqncia disso, ela pode morrer, ou pode ficar com o crebro permanentemente afetado... pode tambm cegar... foi 
isto que disse? - perguntou ela com lgrimas a acumularem-se nos olhos. - Eu percebi bem?
       - Digamos que a senhora percebeu o essencial. Depois da cirurgia, toda a nossa ateno vai ser focada numa hiptese a que damos o nome de "terceiras leses". 
Podiam ter ocorrido igualmente segundas leses, mas ela evitou-as por ter usado cinto de segurana. Nas terceiras leses, o que ns tentamos detectar  um grande 
inchao do crebro, a formao de cogulos sanguneos e de equimoses. Estes podem tornar-se num problema srio. No  provvel que aconteam at terem decorrido 
pelo menos vinte e quatro horas desde o acidente, por isso torna-se difcil prever o que quer que seja neste momento.
       Foi ento que Page arranjou coragem para perguntar a nica coisa que queria realmente saber, mas cuja resposta receava ainda mais do que a pergunta:
       - Existe alguma hiptese de ela voltar a estar bem...? Quer dizer, voltar a ficar... normal? Isso  possvel, depois de tudo o que lhe aconteceu?
       - Possvel , desde que consideremos que o termo "normal" inclui na sua definio vrios graus. As capacidades motoras podem ficar afetadas por um tempo, 
ou mesmo indefinidamente. Podem estar afetadas num grau menor ou maior, depende. Os mecanismos racionais podem ficar afetados e a personalidade dela pode vir a alterar-se. 
Mas na generalidade, sim, se ela tiver muita, muita sorte e for privilegiada por uma espcie de pequeno milagre, pode mesmo recuperar a normalidade.
       Mas Page pde perceber que o mdico no julgava que essa possibilidade fosse muito provvel.
       - E o senhor doutor considera essa hiptese vivel? - Estava a pression-lo, mas precisava de obter uma resposta clara.
       - No, no considero. Acho muito pouco provvel que aps ter sofrido um traumatismo to grave no se registrem efeitos secundrios a longo prazo. Mas tambm 
sou da opinio que, se tudo correr bem, essas conseqncias podem ser relativamente menores... mas isto s na melhor das hipteses. No lhe fao nenhuma promessa, 
Mistress Clarke. Neste momento, a sua filha passa por srias dificuldades e no podemos ignorar esse fato. A senhora perguntou-me se podia vir a ocorrer o melhor 
e eu respondo-lhe que isso  possvel, mas pode no ser essa necessariamente a hiptese mais vivel.
       - E na pior das hipteses...?
       - Ela pode no resistir... ou, caso resista, pode ficar seriamente afetada.
       - E que quer isso dizer?
       - Que pode permanecer em estado de coma para sempre, ou, caso volte a car consciente, pode ficar com o crebro gravemente danificado, perder as capacidades 
motoras e a capacidade de raciocnio. Resumindo, ela corre o risco de ficar com o crebro profundamente afetado, caso o choque que suportou tenha sido demasiado 
forte e causado demasiadas leses, e caso ns no consigamos trat-las. O inchao posterior do crebro vai ter tambm muita importncia na recuperao, bem como 
a nossa capacidade de o enfrentar. Vamos necessitar de toda a nossa habilidade Mistress Clarke, e de muita sorte... e a sua filha tambm. Gostaramos de iniciar 
imediatamente a cirurgia, caso nos d a sua permisso.
       - Ainda no consegui contatar com o pai dela. - Page sentiu um enorme n na garganta. - E talvez no consiga encontr-lo at amanh... ou seja, hoje... - 
A voz soava to trmula quanto ela de fato estava. Trygve observava a sua angstia sem poder fazer nada para a ajudar, mas desejando profundamente que isso fosse 
de alguma forma possvel.
       - A Allyson no pode esperar, Mistress Clarke... at os minutos contam no caso dela. J lhe efetuamos uma TAC, como referi, e tiramos-lhe vrios raios X ao 
crnio. Se a quisermos salvar, ou se quisermos manter nem que seja uma das suas funes mentais normais, temos que iniciar a cirurgia o mais depressa possvel.
       - E se esperarmos? - Ela sentia que deveria consultar o marido, porque Allyson era tambm sua filha. No era justo decidir sem ele.
       Ele fitou-a durante bastante tempo, e afirmou:
       - No julgo possvel que ela resista mais de duas horas no estado em que est Mistress Clarke. E caso viesse a resistir, sou da opinio que a sua filha no 
conservaria intactas nenhuma das funes mentais e, provavelmente, perderia tambm a viso.
       E se o mdico estivesse enganado? No era costume ter direito a uma segunda opinio mdica? O problema era que no havia tempo para isso; alis, mal tinha 
havido tempo para uma s opinio mdica, j que ele acabara de afirmar que Allyson no resistiria mais de duas horas sem ser submetida a uma neurocirurgia. Que outra 
escolha poderia haver?
       - No tenho muitas alternativas, senhor doutor - comentou Page tristemente, agarrada  mo de Trygve, que apertava a sua.
       - No h, de fato, mais nenhuma alternativa Mistress Clarke. Estou certo de que quando conseguir falar com o seu marido, ele compreender isso perfeitamente. 
Gostaramos de poder fazer tudo o que estiver ao nosso alcance. - Ela acenava com a cabea enquanto o ouvia, ainda sem saber se podia confiar totalmente nele. Mas, 
de momento, no tinha outra opo seno confiar; a vida de Allyson dependia das capacidades mdicas daqueles homens, bem como das suas decises. E se ela resistisse, 
mas ficasse com o crebro completamente afetado, como eles haviam avisado, ou ficasse em estado de coma para o resto da vida? Que tipo de vitria seria essa? - Deseja 
assinar j a autorizao para a cirurgia? - indagou entretanto o mdico com bastante suavidade. Depois de um momento de hesitao, Page concordou.
       - Quando  que pensam iniciar a cirurgia? - perguntou ela com a voz pouco clara.
       - Dentro de meia hora - esclareceu o mdico calmamente.
       - At l posso car com ela? - Page sentia-se completamente dominada pela ansiedade: E se eles no a deixassem voltar a ver a filha? E se aquela fosse a ltima 
vez que a via?
       Porque  que no a tinha abraado mais tempo antes de ela sair na noite anterior? Por que motivo no lhe tinha dito tudo aquilo que fizera tenes de lhe 
dizer ao longo do seu curto perodo de vida? O mdico inclinou-se para Page e pousou uma mo no ombro dela, pois, sem dar por isso, Page tinha recomeado a chorar.
       - Vamos fazer tudo o que pudermos por ela Mistress Clarke. Dou-lhe a minha palavra. - Olhou em volta para o seus dois colegas, que quase no haviam pronunciado 
uma palavra na ltima meia hora, e armou com firmeza: - A sua filha est entregue a uma das melhores equipes de neurocirurgia do pas. Confie em ns.
       Page limitou-se a fazer um sinal afirmativo, pois j no possua foras para dizer mais nada. O mdico levantou-se da cadeira e ofereceu-se para conduzi-la 
at junto da filha.
       - Ela est inconsciente Mistress Clarke, e sofreu tambm alguns ferimentos menores. Nalguns aspectos, a aparncia dela pode parecer mais grave do que de fato 
. Muito daquilo que ir ver agora cicatrizar dentro de pouco tempo. S em relao ao crebro  que j no  bem assim...
       Mas nada do que ouvira a tinha preparado para o que ia ver. Allyson estava numa das salas da unidade de cuidados intensivos, assistida por um mdico estagirio 
e por duas enfermeiras especializadas; tinha um tubo na garganta, para lhe facilitar a respirao, outro tubo no nariz, uma transfuso num brao, soro na perna e 
aparelhos e monitores cercando-a por todo o lado. No meio de todo aquele aparato mdico estava a sua filha deitada, com o rosto to maltratado que a me quase no 
a reconheceu, e com a cabea tapada por vrias camadas de gaze esterilizada; era a que estava preso o seu lindo cabelo, que dentro em pouco seria cortado.
       Se no se tratasse da sua filha, a qual Page teria identificado e descoberto em qualquer lugar e no meio de quaisquer circunstncias, seria quase impossvel 
reconhec-la. Mas uma me reconhecia os filhos atravs do corao e no dos olhos. Page aproximou-se ento dela e deixou-se ficar a seu lado.
       - Minha querida, a me est aqui... - Inclinou-se, falando suavemente ao ouvido da filha, rezando para que, no seu ntimo, ela a pudesse ouvir. - A me ama-te 
muito... vai ficar tudo bem, filhinha... vais ver que vais ficar boa depressa... eu gosto muito de ti, Allie... todos ns te amamos... todos te amamos muito... - 
Page soluava, repetindo as mesmas frases. Enquanto falava, segurava o brao e a mo de Allyson e acariciava-lhe a face que no fora ferida. Estava to plida que, 
se no fossem os registros dos monitores, por mais de uma vez Page teria sido levada a acreditar que ela deixara de respirar. Sentia o corao dorido s de contemplar 
a filha, incapaz de aceitar o que lhe acontecera. - Meu amor, todos ns te amamos... tens que ficar boa. Por todos ns... por mim... pelo pai... e pelo Andy.
       Page continuou ao lado da cama da filha at lhe pedirem que se retirasse, para poderem preparar Allyson para a cirurgia. Ela pediu para car, mas as enfermeiras 
insistiram que seria melhor ela sair; ainda no satisfeita, Page perguntou em que consistiam os preparativos para a neurocirurgia e informaram-na de que iriam comear 
a dar-lhe uns novos medicamentos, teriam que lhe rapar a cabea e colocar-lhe-iam tambm uma sonda. Havia ainda muito a fazer, embora Allyson no fosse sentir nada; 
de qualquer forma, seria bastante aflitivo para a me assistir a tudo aquilo.
       - Ser que eu podia ficar com... com... - Teve que se esforar para conseguir pronunciar a palavra - uma madeixa do cabelo dela...? - Esse pedido parecia-lhe 
um pouco mrbido, mas o seu desejo sobrepunha-se a tudo o mais.
       - Claro que sim - respondeu gentilmente uma das enfermeiras. - Prometo-lhe que vamos tratar bem dela Mistress Clarke. - Page acenou com a cabea e voltou-se 
uma vez mais para Allyson, inclinando-se sobre ela, e beijando-lhe a face com muita suavidade.
       - A me vai amar-te sempre muito, minha querida. sempre... - Repetia a frase que costumava dizer  filha quando esta era mais pequena, na esperana que ela, 
bem no seu ntimo, ainda a reconhecesse.
       Page teve que reunir todas as suas foras para abandonar a sala onde a filha estava, e ao sair as suas lgrimas eram tantas que lhe ofuscavam a viso. Era 
incrivelmente doloroso saber que aquela poderia ter sido a ltima vez que vira a filha com vida, embora se esforasse para recordar que no havia outra alternativa 
possvel. Se houvesse ainda qualquer esperana de a salvar, Allyson teria que ser operada sem demora.
       Trygve estava  sua espera no corredor, e mal a viu, sentiu o corao apertado pelo terrvel estado em que vinha. Tudo aquilo por que passara na ltima hora 
estava escrito no seu rosto. Quando Page entrara na sala, Trygve tivera oportunidade de ver Allyson de longe, e s esse breve vislumbre fora o suficiente para o 
impressionar. Chloe j estava suficientemente maltratada, mas isto era ainda muito mais grave. Alm do que, ouvindo a explicao mdica, ele chegara secretamente 
 triste concluso que era muito provvel que ela no resistisse  operao.
       - Lamento muito, Page... - murmurou ele, abraando-a e deixando que ela chorasse livremente no seu ombro por um longo perodo de tempo. Chorar era ainda o 
nico alvio que ela poderia buscar. Trygve no tinha a menor dvida de que aquela seria a mais longa noite das suas vidas, um autntico pesadelo que ainda estava 
bem longe do fim. Acabara de receber por uma enfermeira a informao de que a operao de Chloe estava a correr bem, mas que s terminaria dentro de mais algumas 
horas.
       A enfermeira que estava na recepo trouxe os formulrios para Page assinar, aps o que Trygve sugeriu que fossem at ao bar do hospital tomar um caf.
       - Acho que no ia conseguir beber caf...
       - Beba gua, ento. Precisa de mudar um pouco de ambiente, Page. Ainda temos muito pela frente. - Eram j quatro da madrugada, e o mdico cirurgio informara-os 
de que a neurocirurgia demoraria doze a catorze horas. - Talvez devesse ir descansar algumas horas a casa - aconselhou, preocupado com o estado dela. Aquelas ltimas 
horas tinham servido para os aproximar mais do que os ltimos oito anos, e Page sentia-se grata por ele estar ali com ela. Sabia que teria sido muito mais duro enfrentar 
tudo aquilo sozinha.
       - Eu no saio daqui - afirmou Page com determinao. Trygve entendeu-a perfeitamente, porque tambm ele no conseguia pensar em deixar Chloe. Mas no seu caso, 
o filho ais velho Nick, estava em casa a tomar conta de Bjorn. Antes de sair de casa, Trygve informara-o do pouco que sabia e desde ento telefonava para casa sempre 
que podia. Contudo, no caso de Page, existia Andy, que estaria provavelmente em pnico sem a me nem a irm em casa.
       - Com quem  que deixou o Andy? - quis ele saber, enquanto bebiam um caf de muito fraca qualidade no bar. Ambas as raparigas estavam a ser operadas, e Page 
acabara por concordar em o acompanhar at ali.
       - Deixei-o com a nossa vizinha, Jane Gilson. O Andy gosta muito dela e no vai ficar assustado quando acordar. Agora no me posso ir embora daqui. Mas vou 
ter que fazer qualquer coisa para encontrar o Brad nas prximas horas. Pela primeira vez em dezesseis anos, ele viajou sem me deixar o nmero de telefone de onde 
estava.
       -  sempre assim - comentou Trygve com pesar sincero. - A Dana foi esquiar uma vez com uns amigos e esqueceu-se tambm de me deixar o telefone.  claro que 
foi nesse mesmo fim-de-semana que o Bjorn se perdeu, o Nick partiu uma perna e a Chloe adoeceu com pneumonia. Como pode calcular, passei um timo fim-de-semana!
       Page sorriu ao pensar nisso. Ele era uma pessoa to vlida e tinha-a ajudado tanto nessa noite! Mas era ainda difcil assimilar o que se havia passado.
       - Ainda no sei o que  que vou dizer ao Brad. Ele  to apegado  Allie... vai ser terrvel para ele.
       - E um pesadelo para todos ns... e o pobre rapaz que ia a conduzir... imagine como se devem sentir os pais dele.
       s seis da manh, altura em que os pais de Phillip Chapman chegaram ao Marin General, tiveram ambos oportunidade de constatar como eles de fato se sentiam. 
Era um casal de boa aparncia, ambos perto dos sessenta anos. A me de Phillip tinha o cabelo branco e bem arranjado e o pai tinha a aparncia de um bancrio. Foi 
Page quem os viu dirigirem-se  recepo, ambos exaustos e desgostosos. Mal foram avisados, tinham partido de Carmel no seu carro, incapazes de acreditarem no que 
sucedera. Phillip era o filho nico do casal, tinha nascido um pouco tarde e depois dele j no fora possvel terem outro. Ele era tudo para eles, razo essa que 
os levara a no concordar com a idia de ele ir estudar para uma universidade de outro estado. No aceitaram a idia de terem o filho to afastado deles, e agora, 
sem que ningum o pudesse impedir, ele estava ainda mais distante. Afastado das suas vidas para todo o sempre.
       Mrs. Chapman permanecia de p com a cabea baixa, chorando silenciosamente enquanto ouvia o mdico; o marido colocara o brao  volta dos ombros dela e chorou 
copiosamente quando o mdico os informou de que Phillip sofrera um traumatismo craniano e partira o pescoo, o que de imediato causara a sua morte, por rotura da 
seco medular e leso do tronco cerebral. A partir do momento do embate, deixara de haver qualquer esperana de sobrevivncia para Phillip.
       O mdico informou-os tambm de que haviam detectado uma pequena quantidade de lcool no sangue dele, embora no a suficiente para o poderem considerar legalmente 
embriagado; mas o que ele bebera talvez fosse o suficiente para afetar levemente um rapaz da sua idade. O mdico no afirmou que o acidente se devera ao estado de 
Phillip, era ainda pouco claro quem tinha colidido com quem, mas os Chapman perceberam a implicao e ficaram muitssimo chocados. O mdico da sala de observaes 
dissera-lhes que o outro condutor era a mulher do senador Hutchinson e que ela tinha ficado muito abalada com o que acontecera, mas isso no contribura para modificar 
em nada o que sentiam. Phillip estava morto, fosse quem fosse o outro condutor. Ao ouvir o mdico sugerir sutilmente que o seu filho tinha estado a beber, a mgoa 
de Mrs. Chapman transformou-se inesperadamente em revolta. Quis saber se o condutor do outro carro tambm tinha sido examinado, mas responderam-lhe que o agente 
da brigada de trnsito havia ficado com a certeza de que ela estava sbria, sem que tivesse motivos para suspeitar do contrrio. Ao ouvir esta explicao, Tom Chapman 
ficou visivelmente indignado. O pai de Phillip era um conhecido advogado, que de forma alguma aceitava a idia de que o filho tivesse sido submetido a um teste e 
a sua reputao levemente manchada, enquanto que a mulher do senador estava acima de qualquer suspeita. Essa desigualdade parecia-lhe uma tremenda injustia, e ele 
recusava-se a aceit-la.
       - O que  que est a querer insinuar? Que porque o meu filho tinha dezessete anos, beber meio copo de vinho ou nem tanto, o torna o pretenso culpado deste 
acidente? E uma mulher adulta que poderia muito bem ter bebido muito mais do que ele, e ficado possivelmente muito afetada, est acima da prpria lei apenas por 
ser casada com um senador? - Tom Chapman tremia de fria e de desgosto enquanto punha estas questes ao jovem mdico que acabara de o informar que Laura Hutchinson 
no tinha sido submetida a nenhum teste de alcoolemia, apenas porque o agente da brigada de trnsito a tinha "julgado" acima de qualquer suspeita.
       - No se atreva a insinuar que o meu filho estava sob o efeito do lcool! - exclamou Tom Chapman, enquanto a mulher recomeava a chorar ao seu lado. A revolta 
que sentiam servia para amortecer o desgosto inconsolvel de ambos. - Isso  uma difamao! A amostra de sangue demonstra que nunca poderiam considerar Phillip embriagado 
ou mesmo bastante alcoolizado. Eu conheo o meu filho. Ele no costuma beber, mas se o faz  ocasionalmente e muito pouco, em especial se depois tenciona conduzir. 
- Mas Phillip j no ia poder fazer mais nada, e a fria de Tom Chapman comeou a ceder  medida que se apercebia disso. Queria poder culpar algum, mago-lo to 
profundamente quanto ele mesmo estava magoado; queria provar que o outro condutor era o nico culpado, e no o seu filho... mas acima de tudo, queria que aquilo 
nunca tivesse acontecido. Porque tinham eles ido para Carmel? Por que motivo o tinham deixado sozinho, confiando totalmente nele? Afinal, era apenas um adolescente, 
uma criana... e agora, era este o resultado. Os seus olhos encheram-se novamente de lgrimas e ele lanou  mulher um olhar desesperado. Por momentos, a breve exploso 
de raiva tinha ajudado a atenuar a dor, mas agora esta voltava a atingi-lo em pleno. Quando se abraaram na sala de urgncias, os pais de Phillip choravam abertamente 
porque para eles a questo da culpa j no era o mais importante.
       Um fotgrafo tirou-lhe uma fotografia quando se sentaram a um canto da sala de urgncias. A luz intensa confundiu-os, mas depois de tudo por que havia passado, 
ambos julgaram que se tratava apenas de mais um dos muitos fatos incompreensveis daquela noite. Assim que se aperceberam de que a imprensa os tinha fotografado, 
sentiram-se chocados por aquela intromisso. No meio de toda a mgoa que sentiam, eram ainda sujeitos a afrontas como essa, e Tom Chapman parecia capaz de agredir 
fisicamente o autor da fotografia; mas  claro que no o fez, pois apesar do seu sofrimento era uma pessoa sensata. Foi s ento que compreenderam que a sua dor 
ia ser tornada pblica, por causa do estatuto social do outro condutor. Ia ser uma notcia controversa, algo que seria utilizado para mobilizar as pessoas. Seria 
a mulher do senador a culpada, ou apenas uma vtima inocente protegida pela sorte? Teria o acidente sido culpa de Phillip Chapman? Estaria o rapaz alcoolizado? Seria 
ele um irresponsvel ou apenas demasiado jovem? Poder-se-ia considerar ilegal a conduta de Laura Hutchinson? Estaria um ou mais dos envolvidos no acidente sob o 
efeito de drogas? O fato de um rapaz de dezessete anos ter perdido a vida, de os seus pais terem sofrido o maior desgosto de sempre, de uma jovem ter ficado mutilada 
e de uma outra ter ficado em perigo de vida servia ainda para tornar a notcia mais sensacionalista.
       Ao sarem do hospital, os Chapman estavam arrasados, mas mais ainda por terem visto Phillip. Mary Chapman sabia que nunca conseguiria esquecer o horror daquele 
momento em que vira o filho to ferido e to plido, morbidamente imvel quando os dois se inclinaram sobre o corpo dele para o beijar. Tom soluava, e Mary, inclinada 
sobre o filho, tocou-lhe na face com toda a sua suavidade, beijando-o em seguida. No seu pensamento revia a primeira vez que o vira, h dezessete anos atrs, e o 
segurara nos braos, comovida com a intensa alegria de ser me. Ela sabia que sempre o seria, que o tempo nunca poderia modificar isso, mas agora a morte levara-lhe 
o filho. Nunca mais o iria ver a rir, a correr pelo relvado da casa, a bater com a porta da entrada, ou a contar uma anedota; nunca mais a surpreenderia com uma 
das suas inofensivas diabruras ou com uma das suas doces surpresas; nunca mais lhe ofereceria flores; e ela nunca chegaria a v-lo crescer; iria v-lo para sempre 
como estava naquele momento, horrivelmente parado, com a alma j noutro stio. Apesar de todo o amor que os pais tinham por ele, e ele plos pais, num s breve e 
inesperado instante Phillip deixara-os.
       Ver o filho fez com que o ltimo ataque fotogrfico, na altura em que saam, fosse ainda mais inoportuno. Mas confrontado com o que sucedera, Tom Chapman 
jurou que faria tudo o que fosse preciso para que o filho no fosse culpado pelo desastre. Se necessrio fosse, encarregar-se-ia de limpar o seu nome; no permitia 
que a memria do filho fosse caluniada por uma insinuao, ou utilizada para proteger a mulher do senador, ou o cargo que este tencionava ocupar nas prximas eleies. 
Tom Chapman tinha total certeza de que o filho no era culpado, e no permitiria que algum insinuasse o contrrio. A caminho de casa, repetiu tudo isto  mulher, 
mas esta no parecia escut-lo. A me de Phillip s conseguia pensar no rosto do filho quando o beijara pela ltima vez.
       Era uma noite interminvel para todos eles. Page e Trygve continuavam a sua viglia, enquanto as duas raparigas estavam na sala de operaes. Aos pais parecia 
que elas j l estavam h uma eternidade.
       - No paro de pensar no que pode acontecer... - disse Page pausadamente. O Sol despontava sobre Marin, e ela tentou encarar o final da noite como um bom pressgio. 
Estava outro dia de Primavera maravilhoso, mas desta vez Page j no se sentia entusiasmada com o tempo quente. No seu corao, o Inverno havia-se instalado com 
muito gelo e muita neve, e toda a desolao que o caracteriza. - S me lembro do que disse o doutor Hammerman... que ela pode car com o crebro afetado, ou gravemente 
incapacitada, fsica ou mentalmente. Como  que vou comear a lidar com isso? Como  que se consegue conviver com uma deficincia dessas? - perguntou ela distraidamente 
falando mais consigo prpria do que com Trygve. De sbito, lembrou-se de Bjorn e arrependeu-se logo do que dissera: - Desculpe, Trygve... no reparei no que disse.
       
- No se preocupe, compreendo o que est a sentir. Pelo menos, posso imaginar como deve estar. Tambm me senti um pouco assim quando me informaram do estado da Chloe, 
e lembro-me perfeitamente do que senti quando me disseram que o Bjorn sofria de mongolismo. - Estava a ser franco com ela, pois ambos procuravam entender que tipo 
de ajustamentos seriam obrigados a fazer num futuro prximo.
       Page olhou-o e s ento reparou que o cabelo dele estava to despenteado como o seu; ele usava umas calas de ganga desbotadas, uma velha camisa aos quadrados 
e calava uns tnis velhos sem meias. Olhou ento para a camisola que costumava usar para trabalhar no jardim e lembrou-se de que nem sequer se penteara. Na verdade, 
isso agora no a preocupava muito, mas pensar no aspecto dos dois f-la sorrir.
       - Fazemos um bonito par, ns os dois - comentou ela enquanto sorria. - Mas voc ainda consegue estar um bocadinho mais apresentvel do que eu. Sa de casa 
to depressa que no me espantava se me tivesse esquecido de vestir!
       Trygve sorriu pela primeira vez desde h vrias horas, o que o fez parecer mais novo e ainda mais nrdico, com os seus olhos muito azuis e as pestanas muito 
louras.
       - Estas calas de ganga so do Nick, e esta camisa  do Bjorn. Os sapatos no fao idia de quem sejam... encontrei-os na garagem, quando me preparava para 
conduzir descalo.
       Ela entendeu perfeitamente aquela pressa, recordando-se do que sentira quando lhe haviam telefonado. Nem gostava de se lembrar disso e muito menos de que 
ainda teria que contar ao marido, o que era um outro pesadelo. Se ela ao menos lhe pudesse dizer que Allyson ainda estava viva e que havia alguma esperana... mas 
no era provvel que j se soubesse alguma coisa na altura em que ela pensava conseguir contat-lo.
       - Estava a pensar no Bjorn - comentou Trygve pensativo, recostando-se na cadeira com um olhar vago. - Foi horrvel quando soubemos. A Dana odiava tudo e todos, 
e a mim em especial, porque j no tinha mais ningum a quem odiar. E no princpio detestava o Bjorn tambm. No era capaz de aceitar que no tnhamos um filho saudvel 
e normal. Dizia que ele ia ser uma espcie de vegetal e pintava um quadro muito negro acerca do nosso futuro. Queria intern-lo numa instituio para dementes.
       - E porque  que no o fez? - Page queria conhec-lo melhor e agora sentia que lhe poderia perguntar quase tudo o que desejasse. Pensou que Brad tambm hesitaria 
muito em aceitar uma criana que no fosse normal.
       - No acredito que seja essa a soluo. Talvez seja por causa da minha educao norueguesa, ou ento  mesmo prprio da minha personalidade. Mas no creio 
que se deva fugir das dificuldades; eu, pelo menos, nunca fugi das minhas. - Trygve sorriu com tristeza, pensando nos vinte anos em que vivera um casamento fracassado. 
- Embora houvesse ocasies em que talvez o devesse ter feito... mas sempre pensei que as crianas, as pessoas idosas, as doentes e as deficientes tambm fazem parte 
da vida. Este mundo no  perfeito e por isso no  justo exigirmos dele a perfeio. Quando o Bjorn nasceu deficiente, eu pensei que deveramos dar o nosso melhor 
a esse filho, mas a Dana comunicou-me logo que no contasse com ela. Ento encarreguei-me de cumprir essa misso sozinho e de ajud-lo em tudo aquilo que estivesse 
ao meu alcance. E na verdade tivemos muita sorte, porque ele no  to afetado pela doena como os outros. Tem algumas limitaes,  certo, mas tambm tem muitas 
capacidades: tem muita habilidade para trabalhos de carpintaria e um sentido artstico muito bom, embora um pouco infantil; adora as pessoas,  muitssimo afetuoso, 
 muito leal,  um bom cozinheiro, tem bastante sentido de humor e at certo ponto  um rapaz responsvel; agora est at a aprender a conduzir... mas eu sei que 
ele nunca chegar a ser como o Nick, ou como eu, ou como voc. O Bjorn nunca poder ir para a faculdade, nem nunca chegar a ser gerente de um banco ou um mdico. 
Mas no deixa por isso de ser o Bjorn, e  muito bom naquilo que faz. Adora desporto, adora crianas e d-se bem com toda a gente... e apesar das suas limitaes, 
talvez tenha uma vida muito feliz. Pelo menos, espero ter contribudo para isso.
       - Deu-lhe muito - afirmou Page docemente. - Ele  um rapaz de sorte.
       Ouvindo-a referir-se nesses moldes ao filho, Trygve quis responder-lhe que achava Brad igualmente um homem de sorte. Por aquilo que pudera ver nessa noite, 
considerava-a uma mulher notvel. Page havia sofrido um golpe que derrubaria a maior parte das pessoas, mas mesmo assim mantivera-se de p, ainda com foras para 
o ajudar e para no deixar de se preocupar com todos os outros: com o marido, com o filho e at mesmo com os pais de Phillip.
       - Ele merece, Page. O Bjorn  um bom rapaz. No sei como teria sido a vida dele se tivesse sido internado numa instituio para deficientes... no sei se 
teria ou no chegado a ser como  hoje. L em casa,  ele quem faz as compras e orgulha-se muito disso. Por vezes, sinto que posso confiar mais nele do que na Chloe! 
- Ambos sorriram, forados a concordar que as adolescentes tambm tinham as suas limitaes...
       - E s vezes no o entristece pensar que ele poderia ter alcanado muito mais?
       - Ele nunca poderia ser de outra forma Page. Este  o seu mximo e talvez assim seja mais fcil para mim aceitar e ter orgulho nele. - Ambos sabiam que o 
caso seria muito diferente se Allyson ficasse incapacitada depois de tudo o que ela j tinha sido.
       - Mas continuo sem saber como  que algum se consegue habituar a um caso desses. Talvez seja preciso esquecer todas as referncias anteriores e comear tudo 
de novo, com gratido por cada passo em frente, por cada palavra nova e por cada migalha de crescimento e de progresso... mas como  que se esquece? Como  que vou 
conseguir esquecer-me do que ela foi e aprender a aceitar to pouco?
       - No sei - respondeu ele com tristeza sincera, sem poder sequer imaginar o que isso significaria. - Talvez tenha que comear por sentir gratido pelo simples 
fato de ela estar viva - concluiu ele. Page concordou, pensando na gratido que de fato sentiria caso Allyson sobrevivesse.
       - Mas, por enquanto, nem mesmo disso posso ter a certeza...
       Entretanto, eram quase oito da manh e Page decidiu ento telefonar a um colega de Brad, pedindo-lhe que tentasse localizar o marido em Cleveland.
       Com muitas desculpas, acordou Dan Ballantine e a sua mulher e explicou resumidamente a este o que se tinha passado. Informou-o de que Brad estava em Cleveland 
e que nessa manh tencionava ir jogar golfe com o presidente da empresa; sugeriu-lhe que, caso ele no tivesse a mais pequena idia do nome do hotel onde Brad estaria 
hospedado, talvez pudesse fazer o favor de telefonar para o presidente da dita empresa para que este, por sua vez, comunicasse mais tarde a Brad que ela precisava 
urgentemente de falar com ele. Era uma forma muito pouco direta de o contatar, mas foi a nica de que ela se conseguiu lembrar. Dan prometeu-lhe telefonar imediatamente 
ao presidente da companhia e deixar a este o nmero do hospital, assegurando-lhe que contariam a Brad apenas o essencial, de forma a no o alarmarem. Por ltimo, 
Dan lamentou o ocorrido e fez votos de que Allie recuperasse depressa.
       - Deus permita - respondeu Page com sinceridade, agradecendo-lhe novamente a ajuda. Menos de uma hora depois, Dan telefonou para o hospital e pediu para falar 
com ela, comunicando-lhe que o presidente da companhia de Cleveland afirmara que tinha marcado um encontro com Brad apenas para o dia seguinte. Segundo o mesmo, 
eles nunca tinham planeado encontrar-se no domingo de manh para jogar golfe ou para qualquer outro fim.
       - Que estranho... o Brad disse-me que... mas isso agora no importa, talvez eu tenha percebido mal. S me resta esperar at que ele telefone para casa - concluiu 
ela, desanimada. Estava demasiado cansada para se preocupar com o fato de ele no estar onde tinha dito que estaria, e sups ento que o jogo talvez tivesse sido 
cancelado e que Dan tivesse percebido mal. Pelo menos fizera os possveis para avisar o marido, conforme mais tarde ele poderia confirmar. E, talvez nessa altura, 
as notcias j fossem menos angustiantes...
       - No o conseguiram localizar - explicou ela a Trygve enquanto se sentava de novo ao p dele numa cadeira muito pouco confortvel. Depois de tantas horas, 
a barba de Trygve, apesar de ser muito clara, j se tornava visvel no seu rosto. Ele parecia to fatigado e to abatido quanto Page. - O Brad h-de acabar por telefonar, 
e a Jane depois pede-lhe para ele ligar para aqui. Coitado... fico doente s de pensar em lhe dizer.
       - Eu sei como se sente. Quando estava ao telefone, resolvi telefonar para Londres, para avisar tambm a Dana. Ela tinha acabado de chegar de um fim-de-semana 
em Veneza e ficou horrorizada. Deitou-me as culpas, como j  hbito... a culpa  toda minha, porque no devia ter deixado a Chloe sair de casa e porque me devia 
ter informado sobre as companhias dela. Perguntou-me onde  que eu estava com a cabea para no suspeitar logo de que havia alguma coisa errada. Talvez ela at tenha 
razo... fui incrivelmente crdulo, mas de vez em quando  preciso confiar neles, fazer-lhes alguma vontade... No posso passar a vida armado em detetive, e para 
dizer a verdade, na maioria das vezes o comportamento da Chloe  at muito bom. Mas  claro que no  sempre exemplar...
       - A Allie tambm  assim. S muito raramente  que se porta mal ou desobedece a alguma regra. Estavam as duas a experimentar as asas, o que no deixa de ser 
normal nesta idade... se no fosse este horror ter acontecido exatamente nesse instante...
       - Pois seja como for, a Dana insiste que a culpa  toda minha.
       - E acredita nisso? - perguntou-lhe Page calmamente.
       - No muito; mas fica sempre uma dvida dentro de mim. A Dana at pode estar certa, embora eu no goste muito de pensar isso.
       - Ela no tem razo e voc bem o sabe. No tem culpa absolutamente nenhuma, Trygve. Foi um acaso horrvel do qual ningum tem culpa, a no ser provavelmente 
a condutora do outro carro. - Era mais fcil para os dois atriburem a culpa do acidente a Laura Hutchinson do que a Phillip Chapman. Era at mais fcil suportar 
a idia de que o acidente ocorrera apenas por um terrvel golpe do destino e no por culpa de Phillip. Ou talvez agora isso no fizesse muita diferena...
       Mas antes de poderem chegar a alguma concluso a esse respeito, o cirurgio ortopedista veio comunicar-lhes que a operao de Chloe tinha corrido bem. Ela 
perdera muito sangue e era natural que continuasse a sentir algum desconforto, mas tudo levava a crer que, com o tempo, poderia voltar a andar. O osso da bacia fora 
ajustado, a anca fora consertada, e nas duas pernas haviam sido colocadas placas e parafusos de ao, que seriam tirados dentro de um ou dois anos. Chloe no poderia 
voltar ao ballet, mas com alguma sorte poderia voltar a andar e at talvez a danar... e um dia, talvez pudesse vir a ser me. Muito iria depender do andamento das 
prximas semanas, mas o cirurgio manifestava-se j muito contente com a forma como a operao decorrera e com o estado de Chloe. Trygve chorou de alvio ao ouvir 
a notcia.
       Chloe estava ainda na sala de recuperao, onde o mdico afirmava que ela iria permanecer at por volta do meio-dia, seno mais tarde. S depois a transfeririam 
para a unidade de cuidados intensivos, onde ficaria durante mais ou menos uma semana. Findo esse prazo, poderia ocupar um quarto particular. O mdico comunicou-lhe 
tambm que no m do dia gostaria de lhe efetuar uma transfuso, e perguntou se ele ou algum dos seus filhos possuam o mesmo tipo de sangue. Trygve respondeu-lhe 
que no apenas um, mas todos eles tinham o mesmo tipo sanguneo, o que decerto agradou bastante ao mdico.
       - Agora o senhor devia pensar em ir descansar algumas horas a casa. Pode voltar c ao fim da tarde, quando ns transferirmos a sua filha para os cuidados 
intensivos. Vai ser um longo percurso, este nosso. No mnimo, a Chloe vai permanecer um ms internada, seno mais. No h vantagem nenhuma em esgotar todas as suas 
energias na primeira fase do campeonato. - O uso daquela metfora f-lo sorrir, constatando que, de fato, se sentia atrado pela idia de algumas horas de descanso. 
Mas detestaria ter de deixar Page ali sozinha com a filha ainda na sala de operaes. Assim, acabou por car mais umas horas, substituindo a cama pelo sof da sala 
de espera. Afinal, sabia que Page teria feito o mesmo por ele, e sentia-se quase na obrigao de lhe fazer companhia.
       S pelas duas horas da tarde  que procederam finalmente  transferncia de Chloe para a enfermaria da unidade de cuidados intensivos. Estava ainda sob o 
efeito da anestesia, mas mesmo assim reconheceu o pai, o que era de fato espantoso, considerando tudo o que lhe haviam feito e dada a enorme quantidade de aparelhos 
ligados ao seu corpo. Trygve ficou deveras aliviado pelo contentamento e otimismo que os mdicos demonstravam sentir.
       - Como  que ela est? - perguntou imediatamente Page a Trygve. Acabara de telefonar para Jane e falara com Andy, que estava preocupado com a ausncia da 
me, mas ainda mais com a da irm. Page procurara contornar a questo com muito cuidado, pois era ainda demasiado cedo para lhe explicar o que quer que fosse e, 
alm do mais, ainda nem tinha contado nada ao marido. Este ltimo ainda no havia telefonado, mas Jane garantiu que assim que ele o fizesse ela lhe daria o recado.
       - Est ainda sob o efeito da anestesia - explicou Trygve, sorrindo. - Mas no est muito mal, se no olharmos para todos os tubos e aparelhos estranhos a 
que se encontra ligada. Tem uma srie de tubos e de ferros presos  anca e ainda mais placas e mais parafusos nas pernas. Daqui a um tempo, ser engessada, mas por 
enquanto ainda  muito cedo para isso. Enfim, est toda partida, mas acho que depois de tudo tenho que car grato por ela estar bem.
       - Isso sempre me impressionou - comentou Page, com um ar exausto. - Em situaes como esta, toda a gente nos aconselha a ficarmos gratos. Mas se pensarmos 
bem, ontem por esta hora a Allie era uma adolescente perfeitamente normal e saudvel, cuja maior preocupao era conseguir convencer a me a emprestar-lhe uma camisola 
cor-de-rosa. Agora, est numa sala de operaes a lutar pela sobrevivncia e eu devo ficar grata por ela ainda estar viva. E estou grata... mas comparado com o dia 
de ontem, este  bem pior. Percebe o que quero dizer?
       Ele riu da perversidade da comparao dela, que no deixava de ser verdadeira. Tambm lhe costumavam dizer que ele devia estar grato pelo fato de Bjorn no 
ser mais atrasado. Mas por que motivo  que o filho tinha de ser deficiente, e por que razo isso lhe devia provocar gratido? Talvez devesse senti-la, sim, se considerasse 
que a sua situao tinha estado muito perto de alcanar um resultado ainda pior.
       s trs da tarde, Trygve decidiu ir finalmente a casa para tomar banho, mudar de roupa e tranqilizar os filhos. Tencionava traz-los no final da tarde para 
verem a irm. Nick avisara-o de que Bjorn estava muito preocupado com ela e muito agitado, o que levara Trygve a pensar que talvez ele serenasse se a visse. Bjorn 
preocupava-se muito com o fato de as pessoas morrerem, preocupao essa que era tpica das crianas; e no seu caso, o fato de j ter dezoito anos em nada contribua 
para modificar isso.
       Antes de sair, Trygve fez com que Page prometesse que lhe telefonaria, caso viesse a precisar de alguma coisa. E assim, Page continuou a sua longa viglia 
sozinha; de incio, pensou em avisar a me, mas achou melhor no o fazer. Alm de que, no tendo ainda avisado Brad, no lhe parecia justo que ele no fosse o primeiro 
a saber. Ficou mais uma hora  espera, rezando para que ele no demorasse a telefonar.
       Desde as quatro horas, altura em que fora avisada de que Allyson estava a suportar bem a cirurgia e que o seu estado era to estvel quanto possvel, que 
no tinha mais nenhuma informao sobre o estado da filha. Ela ia necessitar tambm de algumas transfuses e Page ficou mais tranqila ao tomar conhecimento de que 
ela e a filha tinham o mesmo tipo sanguneo. Foi s depois de ter dado j algum sangue para as posteriores transfuses que Brad finalmente telefonou, e apesar de 
ter ligado para o nmero geral do hospital, Page pde atender a chamada numa sala  parte.
       - Meu Deus, Page, onde  que ests? - Jane dissera-lhe apenas para ligar para o nmero de telefone do local onde ela se encontrava. - Pareceu-me ter ouvido 
que era do Hospital Marin General.
       - Ouviste bem. - Page lutava contra o crescente cansao que sentia, esforando-se sem muito xito para empregar as palavras certas. - Brad... querido... - 
Mas as lgrimas voltaram a domin-la, impedindo-a de acabar a frase.
       - Ests bem? Aconteceu-te alguma coisa? - Por um breve momento, Brad comeou a pensar que ela estivesse grvida e no lho tivesse dito, ou que tivesse cado 
novamente de um escadote. Que mais poderia ser? Brad nem conseguia imaginar uma outra situao que explicasse a presena da sua mulher num hospital.
       - Querido... a Allie sofreu um acidente. - Page fez uma pausa para respirar fundo, e ele perguntou-lhe imediatamente:
       - Ela est bem?
       Page abanava a cabea, enquanto as lgrimas rolavam pelas suas faces.
       -No... no est... ela teve um acidente de carro, ontem  noite. Gostava de no ter que te dar a notcia desta forma... Fiz tudo o que pude para te conseguir 
contatar mais cedo, mas tu no foste jogar golfe esta manh.
       - Eu... ah, sim. O presidente no pde. Telefonaste a quem?
       - Ao Dan Ballantine. Ele telefonou para Cleveland e deixou-te l um recado. Tu no me deixaste o nome nem o nmero de telefone do hotel.
       - Esqueci-me. - Ele parecia-lhe distante e irritado, como se tivesse reagido com aborrecimento ao fato de ela ter pedido a Dan para o tentar contatar em Cleveland. 
- Mas como  que ela est? E como  que aconteceu esse desastre de automvel? Ela no tinha ido jantar com o Trygve Thorensen?
       - No, no tinha. Isso foi o que ela nos disse, mas afinal a Allyson saiu com um grupo de amigos. Depois chocaram de frente com outro carro, e... - Ficava 
angustiada por ter de lhe contar, mas sabia que tinha de o fazer. - Ela sofreu um traumatismo craniano muito grave, Brad... neste momento est a ser operada, e corre 
perigo de vida.
       - E tu deste autorizao para operar sem me consultares primeiro?! Por amor de Deus, Page, como  que pudeste fazer uma coisa dessas?
       - No tive outra alternativa Brad. O mdico operador disse-me que ela no resistiria at s seis da manh.
       - Isso  a opinio dele, mas tinhas o direito de ouvir um outro mdico! Devias isso a mim e  Allie. - O raciocnio dele no era lgico, mas Page sabia que 
aquela era apenas uma reao de defesa; afinal, fora um choque demasiado grande para no o afetar.
       - Mas no havia tempo, Brad, no tivemos tempo para mais nada. - Exceto para rezar por um milagre; agora estava tudo nas mos de Deus e dos operadores.
       - E como  que ela est agora?
       - Est ainda na sala de operaes, j l vo mais de doze horas.
       - Meu Deus... - Houve uma longa pausa e Page suspeitou que Brad estivesse a chorar. - O que  que causou o acidente? Quem  que ia a conduzir?
       - Um rapaz chamado Phillip Chapman.
       - Desgraado! Estava bbado, no? A minha vontade era dar-lhe uma surra... - armava ele com a voz trmula. Todavia, Page comunicou-lhe, entristecida:
       - Ele morreu Brad. Dos outros trs, um tem apenas uns golpes na testa e a Chloe ficou muito ferida, apesar de no correr risco de vida. Quanto  Allie... 
ela pode no sobreviver, Brad... e se resistir... tens que voltar depressa, meu amor. Precisamos de ti aqui.
       - Daqui a uma hora estou a. - Isso era impossvel, como ambos sabiam, mas se ele conseguisse regressar no prximo avio, dentro de seis horas j estaria 
perto dela. Page tinha a certeza que o marido conseguiria lugar no prximo vo, nem que para tal fosse obrigado a fazer um pedido especial, alegando uma emergncia. 
Sentia-se muito aliviada por Brad ter finalmente telefonado, pois sabia que naquela hora precisava desesperadamente dele. Apesar de Trygve lhe ter prestado um grande 
auxlio, Brad era o seu marido.
       - Vou para a o mais depressa possvel - confirmou ele, com inquietao.
       - Amo-te - armou ela melancolicamente. - Estou muito feliz por poderes vir j para c.
       - Tambm eu - respondeu ele, antes de desligar. Uma hora depois, vieram inform-la de que a operao tinha corrido bem e que Allyson estava o melhor possvel. 
Contudo, avisaram-na de que os dias seguintes seriam decisivos. O estado dela era de tal forma grave que no deixaria de correr risco de vida durante algum tempo, 
alm de no existir nenhuma forma de prever o desenrolar da recuperao. Tudo o que lhe podiam assegurar era que Allyson, naquele preciso momento, estava viva e 
que, considerando o seu caso, esse fato j constitua um motivo de grande satisfao. Foi ento que, para grande espanto de Page, Brad chegou ao hospital, exatamente 
uma hora depois de ter falado com ela.
       Apesar de no conseguir entender como  que ele havia demorado to pouco tempo a regressar de Cleveland, Page sentiu-se feliz por lhe poder dar uma boa notcia 
a respeito da cirurgia.
       Brad quis de imediato falar com os neurocirurgies e interrogar toda a equipe, mas no o deixaram ainda ver a filha. Allyson iria permanecer na sala de recuperao 
at  manh seguinte.
       - Como  que conseguiste isto? - perguntou-lhe Page calmamente, enquanto bebiam um caf na sala de espera. Esse era o nico alimento que Page conseguira tomar 
durante todo o dia, excetuando uma ou duas bolachas que nessa manh Trygve a obrigara a comer. - Como  que chegaste aqui to depressa? - repetiu ela. Brad encolheu 
os ombros e bebeu mais um pouco daquele inspido caf do hospital. O olhar dele nunca havia cruzado o dela e at quele momento s tinha falado a respeito de Allyson. 
Subitamente, Page sentiu-se invadida por um estranho pressentimento.
       - Brad, onde  que tu estavas? - S agora tomava conscincia de que teria sido completamente impossvel regressar de Cleveland a So Francisco, diretamente 
do hotel para o hospital, num to curto espao de tempo; e ambos o sabiam.
       - Isso agora no tem importncia - respondeu ele tranqilamente. - S ternos que nos preocupar com a Allie.
       - No  bem assim... - defendeu Page, esforando-
       se em vo para detectar alguma pista no olhar do marido.
       - O que se passa conosco tambm tem importncia. Onde  que estavas? - De sbito, a voz dela adquirira um tom estridente, causado pela onda de pnico que 
a invadia. Tinha passado toda a noite dominada pelo medo e agora no estava preparada para enfrentar nenhuma outra inquietao. - Eu fiz-te uma pergunta Brad.
       Ele respondeu-lhe com uma expresso no olhar que Page nunca havia detectado anteriormente:
       - E eu prefiro no responder a essa pergunta. No  j suficiente eu ter chegado aqui o mais depressa possvel? Vim assim que soube, Page... fiz o melhor 
que podia.
       Ela sentiu o corao apertado por uma certeza glida. No era possvel... no podia acreditar que fosse possvel perd-los aos dois num s dia.
       - Brad, tu no estavas em Cleveland, pois no? Mas ele desviou o olhar e no respondeu.
       
CAPTULO 5
       Brad conseguira entretanto falar com o chefe da equipe de neurocirurgia, que mais uma vez lhe confirmou que Allyson no podia ainda receber visitas. Assim, 
chegando  concluso de que no podia fazer mais nada por Allie no hospital, Brad informou Page de que ia para junto de Andy e que esperaria por ela em casa.
       Page, antes de deixar o hospital, ainda se encontrou de novo com Trygve, que desta vez vinha acompanhado plos seus dois filhos. Ela explicou-lhe que Brad 
tinha regressado de Cleveland, mas no mencionou nada do que se tinha passado entre os dois. No entanto, ao v-la cumprimentar os seus filhos e agradecer-lhe toda 
a sua ajuda, Trygve achou-a ausente e distrada. Em seguida, ela comunicou-lhe que ia para casa, uma vez que Allyson continuava na sala de recuperao ps-operatria, 
mas que fazia tenes de regressar ainda durante aquela noite.
       - Tente descansar um pouco, Page. Parece estar muito cansada.
       - Tentarei, sim - tranqilizou ela com um sorriso, apesar de no conseguir disfarar a sua tristeza. Ao notar a mgoa e a angstia que os olhos dela revelavam, 
Trygve pensou que nem mesmo nessa noite a vira to abatida.
       - V com cuidado - recomendou ele atenciosamente, antes de ela abandonar o hospital.
       Ao chegar a casa Page encontrou Brad a explicar a Andy o que sucedera  sua irm. Dizia-lhe ele que Allyson tinha batido com a cabea com muita fora e que 
ficara bastante ferida, mas que os mdicos a tinham j operado e que ela ia ficar bem depressa. Por essa altura, j Jane Gilson tinha voltado para sua casa e Brad 
conversava a ss com o filho. Mas Page no gostou da forma como o marido contara a Andy o que se passara com Allie, e assim que teve oportunidade fez questo de 
lho comunicar.
       Observando o filho atravs da janela da sala Page constatou que ele demonstrava, de fato, alguma apreenso, mas nada que no dominasse. Andy brincava com 
a cadela no relvado em frente de casa, pois a zona onde moravam no era perigosa e toda a vizinhana era conhecida.
       - No lhe devias ter dito aquilo, Brad - comentou ela, permanecendo de costas voltadas para o marido. Tinha muitas perguntas para lhe colocar, mas tencionava 
esperar at que Andy estivesse j a dormir.
       - Aquilo o qu? - perguntou Brad, tenso. Tambm ele tinha vrios motivos para estar inquieto. Alm do que sucedera a Allyson, sabia to bem quanto Page que 
aquele acidente viera despoletar uma sria crise no casamento deles.
       - Que ela vai ficar bem - respondeu Page voltando-se para ele. - Ns ainda no podemos ter a certeza disso.
       -  claro que podemos. O doutor Hammerman disse que ela tem bastantes hipteses de resistir.
       - Em que estado? Em coma, a vegetar...? "Seriamente incapacitada", como ele disse, ou cega? No vs o que pode acontecer, Brad? No tinhas o direito de deixar 
o Andy to cheio de esperanas.
       - Preferias que eu lhe tivesse mostrado as radiografias dela? Por amor de Deus, Page, ele  apenas uma criana! No o podemos assustar, tu bem sabes como 
ele adora a irm.
       - Eu tambm adoro a Allie. E o Andy... e a ti... mas no acho justo dar falsas esperanas a ningum. E se ela morrer esta noite, se no conseguir agentar 
a fase ps-operatria? O que  que tencionas dizer ao Andy, ento? - Havia lgrimas nos olhos dela e tambm nos de Brad.
       - Nessa altura se ver.
       - E quanto a ns? - indagou ela inesperadamente, constatando que Andy parecia determinado a continuar a brincar com Lizzie l fora. Brad ficou surpreendido 
pela mudana brusca no rumo da conversa, mas ela insistiu: - Quando  que chega "a altura" para conversarmos? No tencionas dizer-me o que se passa, afinal?
       - Foi uma pena as coisas terem-se complicado tanto - respondeu ele com calma. - Se a Allie no tivesse sofrido um acidente, tu nunca chegarias a saber. E 
no devias ter pedido ao Dan para telefonar para Cleveland!
       - E porque no? - indagou ela, revoltada. Afinal, a filha deles tinha quase morrido nu desastre e ele insinuava que ela no devia ter feito nada para avis-lo?
       - Porque a minha vida no lhe diz respeito e agora j deve ter percebido tudo!
       - E eu, o que  que devo perceber Brad? At que ponto  que fui idiota? Quantas vezes fizeste isto antes? - Ela no sabia ao certo onde ele havia estado, 
mas era evidente que no fora em Cleveland.
       - Isso no vem a propsito. - Brad estava novamente aborrecido; detestava ter que admitir as suas faltas perante a mulher, mas sabia que, desta vez, no tinha 
outra opo.
       - Vem, sim, e muito! Neste fim-de-semana foste apanhado numa mentira, o que me d todo o direito de saber onde  que estavas e com quem. No vs que  tambm 
a minha vida que est em jogo? Ou decidiste que a tua nica obrigao  vires de vez em quando c a casa, quando no tens mais nada combinado ou nenhum jogo de golfe 
marcado? Eu no sou um brinquedo, e nada disto  uma brincadeira. E agora Brad? Vais ou no contar-me o que  que se passa? - Page tremia de fria, mas a irritao 
de Brad era ainda superior ao seu sentimento de culpa.
       - J percebeste o que se passa, no percebeste? Ou precisas que eu te conte todos os pormenores? - Ao ouvi-lo responder daquela forma, Page sentiu-se destroada. 
Era incrvel como um s fim-de-semana podia trazer tanta dor... secretamente, ela desejava que ele tivesse negado todas as suas insinuaes, que lhe assegurasse 
que tudo no passava de um engano. Mas agora era tudo demasiado real para no ser enfrentado.
       - Esse teu caso  recente? - insistiu ela.
       Mas Brad no fazia tenes de lhe contar mais nada:
       - No vou discutir esse assunto contigo, Page.
       - Aconselho-te a faz-lo, Brad. No estou disposta a alimentar esse tipo de fingimentos. Essa mulher  importante para ti?
       - Por amor de Deus, Page, vamos ter que discutir isso agora?
       - No podemos adiar mais. Tu  que comeaste, e eu agora preciso de saber como tudo se passou. J dura h muito tempo?  srio...? Isto aconteceu mais vezes 
antes e porqu? - Encarava-o com um desgosto profundo no olhar, e com a voz trmula e baixa. - Como  que isto nos aconteceu e como  que eu no desconfiei de nada... 
? - Estaria ela cega? Teria ele dado mostras de alguma coisa? Olhando para trs, mesmo agora que j sabia tudo Page no conseguia detectar nenhum sinal.
       Brad sentou-se bastante descontente, e encarou a mulher, detestando cada minuto daquela conversa. Nunca gostara de se confrontar com ela, mas agora tinha 
total conscincia de que essa conversa no podia ser adiada. Talvez at fosse melhor dessa forma; mais tarde ou mais cedo, ela teria que vir a saber.
       - Eu sei que j te devia ter contado antes, mas pensei que... pensei que este caso fosse acabar, e que j no fosse preciso contar-te nada.
       -  srio? - Depois de um longo silncio, os olhos dele cruzaram-se com os dela, paralisando-a e permitindo-lhe que pressentisse de imediato tudo aquilo que 
de fato se passava: no era apenas uma aventura, um caso, e sim um relacionamento muito srio. Atemorizada, Page indagava a si mesma se o seu casamento teria chegado 
ao fim, sem que ela antes houvesse tido a mais leve suspeita. - No me respondes? - Reparou que a sua voz estava demasiado alterada, mas isso no a impediu de, mais 
uma vez, o tentar forar a responder. -  srio, Brad?
       - Pode vir a ser - respondeu ele, confuso - No sei, Page. Foi por isso que no te contei nada - concluiu, desanimado.
       - E dura h quanto tempo? - Por quanto tempo tinha ela sido incrivelmente tola, cega e idiota? Enquanto esperava pela resposta dele Page lutava contra as 
lgrimas.
       - H cerca de oito meses. Comeou numa viagem de negcios. Ela trabalha no departamento de criativos e ns fomos juntos a Nova Iorque fazer uma apresentao 
a um novo cliente.
       - Como  que ela ? - Colocar essa pergunta ao marido era-lhe extremamente desagradvel, mas Page necessitava desesperadamente de saber tudo... Oito meses... 
"oito meses"? Como  que ela pudera ser to idiota?
       - A Stephanie  muito diferente... de ti, quero eu dizer... no sei bem explicar...  muito independente, preza muito a sua liberdade e a sua individualidade. 
 natural de Los Angeles, veio para c para estudar em Stanford e acabou por ficar. Tem vinte e seis anos, e ... enfim... ns conversamos muito e temos muitos interesses 
em comum. Eu tentei acabar antes, mas nunca consegui. - Ele fitava-a, desalentado e infeliz. Se Page no se sentisse to magoada com cada uma das palavras que ouvia, 
era natural que sentisse pena dele. Tinha ainda vontade de lhe perguntar se ela era bonita, se era uma boa amante, e se ele de fato a amava. Mas o que mais podia 
ela perguntar e o que mais suportaria ouvir?
       - O que  que tencionavas fazer a esse respeito Brad? Ias deixar-me?
       - Sinceramente, no sei. S sabia que no podia continuar assim, mas tenho estado demasiado confuso para decidir alguma coisa. - Passou a mo pela cabea, 
olhou para ela e concluiu por fim: - Tenho andado completamente desvairado...
       - E eu? Como  que no vi o que se estava a passar durante este tempo todo? - Page fixava o seu olhar no marido, na esperana de encontrar alguma explicao. 
Ainda no conseguia acreditar no que ouvira, parecia-lhe tudo horrvel de mais para ser verdade. Era como se os seus piores pesadelos se tivessem tornado realidade 
de um dia para o outro:
       Allyson em perigo de vida e Brad apaixonado por outra mulher. - O que  que nos aconteceu, Brad? Porque  que nos deixamos envolver demasiado pelas nossas 
atividades? Tu andavas sempre a viajar ou ento a jogar golfe, enquanto eu ia buscar ou levar os midos ou algum dos vizinhos... Ser que nos distanciamos um do 
outro e eu no prestei ateno? Ser que foi isso que aconteceu? - Page precisava muito de entender o que sucedera ao seu casamento, mas de momento isso era-lhe 
totalmente impossvel. Era uma carga demasiado pesada para um s fim-de-semana.
       - A culpa no foi tua - afirmou ele, galantemente, mas depois abanando a cabea, confuso, acrescentou: - Ou talvez at tenha sido... talvez sejamos os dois 
culpados. Talvez tenhamos permitido que acontecesse algo que nunca deveria ter sucedido, ou ento talvez nos tenhamos envolvido demasiado em afazeres sem importncia. 
Gostava de poder chegar a uma concluso, mas no encontro a resposta certa. - E no encontrava essa mesma resposta h oito meses, motivo esse que o levara a nunca 
ter contado a Page ou a nunca se ter separado dela.
       - Eras capaz de a deixar? - perguntou Page sem rodeios. Ele hesitou durante bastante tempo e Page sentiu que o ar lhe comeava a faltar; ento Brad abanou 
lentamente a cabea e Page, furiosa com aquela resposta silenciosa, gritou:
       - E o que  que queres que eu faa? Que olhe para outro lado, enquanto tu vais para a cama com "a menina dos criativos"? - Page sentia-se to chocada, to 
irritada e to magoada que se deixou dominar por um desejo incontrolvel de o agredir, se no fsica, pelo menos verbalmente. Brad parecia aceitar a atitude dela, 
pois no tinham sido poucas as vezes em que, nos ltimos oito meses, se recriminara pela sua atitude desonesta para com a mulher. Todas as vezes em que esta se mostrara 
carinhosa para com ele, ou lhe zera alguma amabilidade, ou lhe dera a entender o seu desejo de fazer amor com ele Brad ficara dominado plos remorsos. Na verdade, 
durante todo o tempo que passara na sua companhia, nos ltimos oito meses, sentira-se insuportavelmente culpado, mas isso no tinha sido o suficiente para que conseguisse 
abdicar do seu relacionamento com Stephanie. De fato, no estava preparado para abdicar de nenhuma das duas. Tentava convencer-se de que estava apaixonado por ambas, 
mas no seu ntimo sabia que isso no era verdade. Ainda amava a mulher, mas j no estava apaixonado por ela; sabia que a paixo terminara h muito, mas no conseguia 
entender o motivo. Amava-a, respeitava-a, e tinha plena conscincia de que Page era uma tima me para os seus filhos e tambm uma tima mulher para ele. Era uma 
grande amiga, uma pessoa maravilhosa, e tudo aquilo que um homem desejaria encontrar numa mulher, mas no entanto... mesmo que ela se esforasse, nunca conseguiria 
deix-lo da forma como Stephanie o deixava: completamente enfeitiado...
       - Talvez agora eu devesse desaparecer por uns tempos, para vos facilitar mais a vida... - Page sentiu-se de novo em pnico ao imaginar que ele desejava que 
ela sasse de casa, ou que ele mesmo o tencionava fazer, agora que ela j estava a par de tudo. E Andy? Page no conseguiu deixar de chorar ao pensar no filho, em 
tudo o que estava ainda por acontecer e principalmente no estado em que Allie se encontrava. Angustiada, perguntou com a voz to abalada quanto o seu nimo: - O 
que  que queres que eu faa?
       Brad gostava de a poder confortar, mas era incapaz.
       - No quero que faas nada, Page. Agora temos apenas que nos preocupar com a Allie e concentrar todos os nossos esforos em ajud-la. Porque  que no tentamos 
resolver esta situao noutra altura? No vamos conseguir lidar com tudo isto ao mesmo tempo. - Era uma sugesto lgica, mas Page estava demasiado enervada para 
agir com racionalidade e ele entendia.
       - E depois? Sais de casa quando a Allie melhorar... ou a seguir ao funeral? - Sentia-se novamente amarga e assustada, a um passo de um ataque de nervos. Mas 
mesmo perante tamanha perturbao, Brad no era capaz de um s gesto de consolo. Ele prprio sentia-se demasiado abalado e sabia tambm que o que quer que tentasse 
fazer no iria contribuir para melhorar em nada a situao. Agora que Page j sabia da existncia de Stephanie, Brad sentia-se no dever de manter uma certa distncia.
       - No sei o que fazer Page. H meses que tento descobrir a soluo para este caso, mas ainda no cheguei a nenhuma concluso. Talvez tu encontres uma... - 
Brad no se sentia preparado para o divrcio e tambm no sabia que rumo dar  sua ligao com Stephanie. Esta ltima no o forava a nada e estava mesmo disposta 
a esperar que ele resolvesse a sua vida primeiro. Mas a paixo que ele sentia por ela impelia-o cada vez mais para a necessidade de encontrar uma soluo. Alm disso, 
Brad no fazia tenes de viver constantemente uma situao dbia ou de ser permanentemente subjugado plos remorsos que sentia em relao a Page, especialmente 
agora que ela j sabia de tudo.
       As nicas certezas que tinha era de que amava aquelas duas mulheres, embora de formas completamente distintas, e que tinha deixado que aquela situao se 
prolongasse tempo de mais; agora que Page estava j a par de tudo, e reagira com tanta indignao, a resoluo afigurava-se-lhe ainda mais complicada. Pelo menos 
Page no sofrera durante os ltimos oito meses, nunca suspeitara de nada quando ele lhe comunicara que ia para fora em viagens de negcios. E  claro que nalgumas 
ocasies isso tinha, de fato, correspondido  verdade, embora na maioria das vezes fosse apenas uma desculpa. Ele sabia que era o principal culpado pela sua atual 
situao, e sentia-se como se tivesse construdo para si prprio um beco sem sada; tinha conscincia de que todos os que estavam envolvidos naquela situao (Page, 
ele prprio, Stephanie e os seus filhos) corriam o srio risco de serem muito magoados pelo seu desfecho, fosse ele qual fosse.
       - Julgo que neste momento no estamos em condies de chegar a nenhuma concluso Page. O melhor que temos a fazer  esperar at que a Allyson melhore, ou, 
pelo menos, at ela deixar de correr risco de vida.
       - E depois disso, fazemos o qu? - Ela insistia em obter respostas que ele no lhe podia dar, mas dadas as circunstncias, Brad no a podia culpar por isso.
       - No sei ainda, Page... no fao a mais pequena idia.
       - Ento avisa-me quando chegares a alguma concluso. - Page olhou-o nos olhos, fazendo tenes de terminar a discusso, e subitamente teve plena conscincia 
de que, na sua frente, estava um estranho. O homem que ela amava h tanto tempo, com quem dormia e em quem depositara toda a sua confiana, enganava-a h j quase 
um ano. Em parte, ela sentia que o odiava, mas simultaneamente apercebia-se que a idia de o perder a aterrorizava.
       - No faz muito sentido eu pedir-te desculpa... - afirmou Brad rapidamente. Sabia que lhe devia muito mais do que um mero pedido de desculpas, mas de momento 
no tinha mais nada para lhe oferecer.
       - Eu diria que pedires-me desculpas, nesta altura,  no mnimo bastante despropositado... No achas que me deves muito mais do que um simples pedido de desculpas, 
Brad? - Os olhos de Page brilhavam, midos, ao fitar o marido na outra extremidade da sala. Ao encar-la Brad viu nos olhos dela a revolta, a raiva e a imensa dor 
que a afligiam.
       - Sempre pensei que fosses reagir de outra forma Page. s uma pessoa to forte e ests sempre to ocupada, que julguei que nem sequer fosses sentir a minha 
falta. - Teria ela criado alguma distncia entre os dois? Seria a culpa dela, ou dele? Teria ela deixado de lhe dar ateno? Ao ouvir as justificaes de Brad, Page 
acusava-se a si prpria, a ele, a tudo e a todos.
       - Talvez sejamos dois idiotas - respondeu ela, com sarcasmo. - Eu, pelo menos, sei que o fui.
       - Tu mereces muito mais do que isto - afirmou Brad com sinceridade, pensando que ele prprio tambm merecia estar onde, de fato, desejasse estar, e no ali, 
desculpando-se e humilhando-se perante Page. E, no entanto, sabia que lhe devia essa explicao; mas no deixava de ser um momento terrvel nas vidas de ambos. Aquela 
discusso e o acidente de Allyson formavam uma realidade que facilmente poderia vir a destru-los.
       - Todos ns merecemos mais do que isto - respondeu Page firmemente, antes de sair para ir ter com Andy.
       Enquanto preparava o jantar do filho na cozinha, Page sentia que cada movimento que fazia era automtico, semelhante ao de um rob. Colocou uma pizza no forno 
microondas e cinco minutos depois chamou Andy, ainda trmula e indisposta. Todas as vezes que o telefone tocava, o seu corao acelerava, temendo que fosse alguma 
notcia do hospital sobre Allyson. O pensamento de Page dividia-se entre a ansiedade pelo estado da filha e o choque que a discusso com Brad lhe causara.
       - Como  que vai isso, campeo? - perguntou ela ao filho, incapaz de transmitir o mnimo entusiasmo, enquanto lhe colocava o prato com o jantar em cima do 
balco da cozinha. Brad continuava na sala e Page teve a sensao de que a sua vida tinha acabado.
       - Vai bem - assegurou Andy, comentando em seguida: - Pareces cansada, mam. - Ele nunca deixava de ser espontaneamente terno, atencioso e gentil. Page costumava 
atribuir essa caracterstica do filho a uma parecena com o carter do pai, mas na ltima hora deparara-se-lhe uma faceta de Brad que at ento desconhecera por 
completo e que desejaria nunca ter conhecido. Ao ponderar nisso, no pde deixar de se interrogar sobre o que aconteceria da em diante.
       - E sinto-me cansada, meu filho. A Allie no est nada bem.
       - J sei. Mas o pai diz que ela vai ficar boa... - E o que o pai dizia era para ele lei. E se desta vez estivesse enganado? Se isso acontecesse, encarariam 
esse fato mais tarde, tal como teriam de encarar todas as outras situaes difceis da vida deles.
       - Espero que sim.
       Andy, estranhando a resposta da me, perguntou-lhe:
       - Esperas...? No tens a certeza disso... de que ela vai ficar boa?
       Mas "espero que sim" era a nica resposta que ela lhe podia dar. Depois de Andy terminar a pizza Page sentou-o ao seu colo e abraou-o. O tamanho dele ainda 
lhe permitia faz-lo, e ela sentia-se grata por isso, pois sabia que era uma espcie de conforto para os dois. Mais do que nunca, sentia que necessitava desesperadamente 
do filho.
       - Eu gosto muito de ti, mam. - A sinceridade e a franqueza dele confortavam-na.
       - Eu tambm gosto muito de ti, meu amor. - Ao pronunciar distraidamente essas palavras, os seus olhos encheram-se de lgrimas, pois poderiam aplicar-se tambm 
a Allie e a Brad.
       Depois de o ajudar a vestir o pijama e de o deitar na sua cama, Page leu-lhe uma histria e deitou-se ao lado do filho para descansar apenas alguns minutos. 
Fechou os olhos e tentou adormecer, mas o seu pensamento permanecia demasiado ativo, revendo tudo o que de horrvel se passara, todo o sofrimento, toda a angstia, 
todas as dvidas: Allyson... Brad... o seu casamento... a vida, a morte e o significado global de todas as coisas. Aps alguns minutos Page ouviu um rudo, abriu 
os olhos e viu que Brad estava parado  porta do quarto.
       - Precisas de alguma coisa? - No sabia o que mais lhe dizer, depois de tudo o que se passara. O que tinham dito e revelado impedia que pudessem voltar a 
ser como eram um para o outro. Entristecia-o pensar nisso, mas era impossvel fingir que nada acontecera. - J comeste?
       - No quero nada, obrigada. - Compreensivelmente, Page no sentia o mais leve apetite.
       - Queres que te traga alguma coisa da cozinha? Ela abanou a cabea, tentando no pensar naquilo que ele havia dito anteriormente, embora o seu pensamento 
persistisse em se fixar na mulher da agncia e nos oito meses que Brad passara com ela. E antes disso, teria existido mais algum na vida dele? H quanto tempo a 
vinha ele a enganar? Teriam existido outras mulheres? Ser que ela j no o atraa, ou seria a sua companhia aborrecida?
       S ento se apercebeu de que ainda trazia vestidas a mesma camisola velha da noite anterior e as calas de ganga mais antigas que possua, alm de que tinha 
o cabelo num estado lastimvel, devido s muitas horas que passara no hospital. Assim, de forma alguma poderia competir com uma rapariga de vinte e seis anos licenciada 
em Stanford, que no deveria ter muitas responsabilidades a seu cargo, nem muitas obrigaes. Sentiu ento uma curiosidade sbita por saber o que tinham eles feito 
durante o fim-de-semana.
       - Onde  que foste com ela? - interrogou Page antes de ele sair do quarto, continuando a pression-lo.
       - Que diferena  que isso faz? - A insistncia dela irritava-o e constatar isso provocava em Page uma revolta ainda maior.
       - Estava s a pensar onde  que estarias quando precisei tanto de te encontrar. - Que locais  que ele visitaria com ela? Page sentia-se completamente excluda 
da vida do marido, como se ele se tivesse tornado num desconhecido.
       - Fomos at ao John Gardiner.
       Page ficou surpreendida. John Gardiner era um campo de tnis que ficava perto de Carmel Valley. Ela fez um sinal afirmativo com a cabea, mostrando que sabia 
de que local se tratava. Todavia, ele telefonara-lhe do apartamento de Stephanie, em So Francisco, motivo esse que lhe permitira chegar to rapidamente ao hospital. 
Depois de falar com ela, esperara o mximo que pudera, para que Page no suspeitasse de nada, mas depois de meia hora no conseguira esperar mais e dirigira-se para 
o hospital.
       - Devias tentar comer qualquer coisa - afirmou ele, esforando-se por mudar de assunto. Queria evitar falar-lhe da sua vida com Stephanie, mas Page insistia 
em querer saber todos os pormenores, como se isso a fosse ajudar a descobrir o motivo que o levara a agir daquela forma.
       - Vou tomar uma ducha e depois volto para o hospital - anunciou ela rapidamente. No tinha mais nada que fazer em casa. Andy encontrava-se j a dormir e ela 
queria estar perto de Allie.
       - Mas disseram-nos que no a podamos ver - argumentou Brad.
       - No me importo. Quero estar perto dela. Ele entendeu, mas lembrou-se do seguinte:
       - E o Andy? Voltas antes de amanhecer? Ela abanou a cabea e respondeu:
       - Podes lev-lo  escola amanh. No precisas de mim para o ajudares a vestir e a tomar o pequeno-almoo. - Ou ser que precisava? Seria essa a nica utilidade 
que ela tinha para o marido, tomar conta dos seus filhos?
       - No, no preciso - concordou ele, acrescentando logo de seguida num tom melanclico: - Mas preciso de ti para outras coisas.
       - Ah, sim? - Page fitava-o com distanciamento. - Para qu, por exemplo? No me lembro de nada.
       - Page... eu amo-te... - Subitamente, aquelas palavras perderam todo o seu significado.
       - Amas, Brad? - indagou ela do mais fundo da sua tristeza. - Na minha opinio, julgo que me andei a enganar durante muito tempo e talvez tu tenhas feito o 
mesmo... se calhar at foi bom termos descoberto isso j. - Contudo, no se sentia minimamente aliviada com essa descoberta, mas sim desiludida e muito magoada.
       - Tenho muita pena... - murmurou ele, no fazendo um s movimento para se aproximar dela. Esse gesto dizia tudo: havia um muro a separ-los.
       - Tambm eu tenho - respondeu Page, levantando-se e dirigindo-se para a casa de banho sem pronunciar mais uma palavra. Em seguida, fechou a porta, abriu a 
torneira da banheira e, ao pensar na filha e no marido, deixou que a gua lavasse todas as lgrimas que corriam pelo seu rosto. Lembrou-se ento de que agora, em 
vez de uma, tinha duas pessoas por quem chorar; de fato, aquele tinha sido um fim-de-semana inesquecvel.
      
CAPTULO 6
       Page passou a noite de domingo enroscada nua cadeira do hospital. To preocupada estava com Allie que mal dormiu e nem sequer reparou como aquela cadeira 
era desconfortvel. Os rudos e o cheiro intenso do hospital mantinham-na acordada, bem como o medo que sentia de, a qualquer momento, poder perder a filha. Foi 
um alvio quando finalmente, s seis da manh, a pde ver.
       Uma enfermeira muito jovem levou-a at  sala de recuperao ps-operatria, comentando amavelmente como a sua filha era bonita e que lindo cabelo ela tivera. 
Enquanto percorria os interminveis corredores Page procurava prestar ateno aos elogios da enfermeira, mas no conseguia impedir que o seu pensamento vagueasse; 
estava demasiado perturbada para se concentrar no que quer que fosse, mas sentia-se simultaneamente agradecida pela ateno da enfermeira, que se esforava por tentar 
confort-la um pouco. Contudo, no fazia a mais pequena idia de como  que algum conseguiria vislumbrar a beleza de Allyson, agora que ela se encontrava to desfigurada 
e com os olhos vendados, depois de terem sido devidamente tratados de forma a prevenir uma possvel perda de viso.
        medida que avanavam, iam-se abrindo algumas portas eltricas. O pensamento de Page fugia para tudo o que se passara com Brad, mas ela esforava-se para 
manter toda a sua ateno focada em Allyson. No entanto, o que viu ao aproximar-se da cama da filha estava longe de ser encorajador.
       No restavam dvidas de que o estado de Allyson parecia ainda mais grave do que antes da cirurgia. Tinha a cabea rapada e ligada, a sua palidez era assustadora 
e  sua volta havia vrias mquinas e monitores. No seu coma, Allyson parecia estar a milhares de quilmetros de distncia.
       A enfermeira que assistira  operao guardara, tal como prometera a Page, uma madeixa do sedoso cabelo louro de Allie que a enfermeira ali presente na sala 
de cuidados ps-operatrios se apressou a entregar-lhe. Ao tocar numa das faces da filha, segurando a madeixa de cabelo com a outra mo Page sentiu os olhos umedecidos 
pela emoo.
       Deixou-se ficar ao lado da cama da filha por muito tempo, acariciando-lhe com suavidade a mo e pensando como tudo era diferente h dois dias atrs. No lhe 
parecia possvel que em to pouco tempo tivesse tudo corrido to mal... tornava-se muito difcil voltar a confiar em algo ou em algum, e certamente ainda menos 
fcil seria depositar confiana na sorte ou no destino que haviam sido to cruis... tal como Brad o havia sido. Pensando nisso, Page no suportava imaginar o que 
sentiria se viesse a perder a filha. Fazia-a recordar o perodo em que Andy nascera e em que haviam julgado que o iriam perder. Nessa fase, ela costumava passar 
horas em frente da incubadora onde, no meio de uma imensido de tubos, aquele pequenino corpo se esforava por sobreviver; lembrava-se de lhe pedir que no desistisse 
de lutar, o que, milagrosamente, nunca deixou de acontecer.
       Page sentou-se ento num pequeno banco ao lado da cama e, rezando para que a filha a pudesse ouvir, falou com suavidade junto do ouvido de Allyson, coberto 
por uma ligadura:
       - No vou deixar que desistas, meu amor... no vou deixar... ns precisamos de ti... a me ama-te demasiado... tens de ser uma menina forte e tens de lutar... 
Luta, minha querida! Tens todo o meu amor para te ajudar... acontea o que acontecer, tu sers sempre a minha menina. - Da sua cama vinha um intenso cheiro a medicamentos 
e as mquinas  sua volta apitavam de vez em quando, mas no havia mais nenhuma reao; Page necessitava de falar com ela, de estar prximo dela, apesar de saber 
que no poderia haver nem um som, nem um gesto ou um sinal de reconhecimento.
       As enfermeiras deixaram-na ficar com Allyson ainda mais algum tempo, at que, finalmente, quando o turno mudou, s sete da manh, lhe sugeriram que fosse 
at ao bar tomar um caf. Page preferiu ir de novo para a sala de espera, onde se sentou atordoada, pensando na filha, em como ela havia sido e em corno ela agora 
estava. No ouviu ningum a aproximar-se, e s quando lhe tocaram no brao  que ela deu pela presena de Trygve. Possua o aspecto fresco de quem havia dormido 
pelo menos umas horas, a sua barba tinha acabado de ser feita e usava uma camisa de um branco intenso e calas de ganga; o seu forte cabelo louro apresentava-se 
bem domado, e Trygve, de um modo geral, parecia estar em forma e repousado. Contudo, ao ver a aparncia de Page, no disfarou a sua preocupao. Era j domingo 
de manh, e aquele fim-de-semana representara, decerto, um grande abalo para Page.
       - Passou a noite aqui no hospital?
       Ela fez-lhe sinal que sim. Estava com um aspecto pssimo, muito pior ainda do que no dia anterior. Mas Trygve compreendia muito bem a vontade incontrolvel 
de Page em estar prximo da filha.
       - Dormi na sala de espera - esclareceu ela tentando sorrir, mas sem conseguir disfarar a sua fadiga e aflio.
       - E conseguiu dormir? - Aquela interrogao assemelhava-se a uma repreenso paternal.
       - No muito, mas... o suficiente - finalizou ela com um sorriso. - Esta manh deixaram-me ver a Allie na unidade de cuidados ps-operatrios.
       - Como  que ela est?
       - Mais ou menos como ontem. Mas foi bom poder estar com ela. - Pelo menos nessa altura, Allyson ainda se encontrava ali junto deles, ao alcance da mo de 
Page. Era impossvel recordar o estado da filha sem sentir um enorme desejo de regressar de imediato para a sala de recuperao e dizer-lhe que no estava sozinha 
e que a amava muito. - E a Chloe?
       - Acabei de a ver e estava a dormir; os mdicos esto a mant-la quase anestesiada, para que ela no sinta muitas dores e eu acho que talvez seja a melhor 
soluo.
       Ela concordou e Trygve sentou-se na cadeira ao lado.
       - Os seus filhos esto a reagir bem?
       - Mais ou menos. O Bjorn ficou muito abatido quando a viu. Antes de o trazer aqui ao hospital, perguntei ao mdico dele se concordava que eu o trouxesse e 
ele disse-me que ia ser uma experincia muito importante para o Bjorn, porque por vezes ele no consegue entender aquilo que no v. Mas foi muito duro para ele; 
passou a noite a chorar e teve muitos pesadelos.
       - Pobre Bjorn... - Page sentia pena do rapaz. A vida, por vezes, era de uma dureza e de uma injustia muito difceis de aceitar.
       - E o Andy, como  que est?
       - Assustado. O Brad disse-lhe que a Allie ia ficar bem, mas eu no me mostrei assim to certa. No acho justo engan-lo.
       - Eu concordo consigo, mas talvez o Brad tenha dificuldade em aceitar a gravidade da situao. H alturas em que negar a evidncia  mais fcil do que aceit-la.
       - Sim, talvez seja isso... - A entoao de Page revelava o desencanto e a desiluso que caracterizavam o seu estado de esprito.
       - Eu sei que  idiota perguntar-lhe isto, mas... voc est bem? - indagou Trygve. - Quero dizer... dentro dos possveis.  que me parece muito abatida.
       - E estou... Talvez aos poucos me habitue  idia... espero...
       - Quando foi a ltima vez que comeu?
       - No sei bem... foi na noite passada... ontem. Aqueci uma pizza para o jantar do Andy e pareceu-me que comi metade de uma fatia.
       - No pode continuar assim, Page, tem que se alimentar. Adoecer agora no vai ajudar nada. Vamos - ordenou ele com firmeza, pondo-se de p -, levante-se. 
Vou lev-la a tornar o pequeno-almoo.
       Ela ficou enternecida com o cuidado dele, mas no sentia a mnima vontade de comer. Apetecia-lhe deixar-se ficar a um canto e esquecer tudo  sua volta, ou 
at talvez desistir de viver, caso Allyson tambm desistisse. Sentia que estava j de luto; o seu luto era por tudo aquilo que a filha tinha sido e que poderia nunca 
mais vir a ser... era tambm por tudo aquilo que ela tivera com Brad e nunca mais viria a ter. Resumindo, estava de luto por uma srie de coisas: por ela, pela filha, 
pelo seu casamento, e por uma vida que da por diante e at ao final seria muito diferente.
       - Obrigada, Trygve, mas no consigo comer.
       - Ento vai ter que se esforar - respondeu ele, suave mas firmemente. - No me vou embora enquanto no vier comer. Se no quiser vir, eu chamo um mdico 
e, se preferir,  alimentada a soro... Vamos, ande da! - insistiu ele, puxando-a pela mo. - Deixe de ser preguiosa e venha tomar o pequeno-almoo.
       - Est bem, est bem, eu vou...! - concordou ela por fim com relutncia, sorrindo enquanto seguia a seu lado pelo corredor que conduzia ao bar do hospital. 
O cheiro a medicamentos impregnava o ar.
       - No sei bem se esta comida  muito boa, mas no temos outra alternativa - desculpou-se ele, colocando-lhe  frente uma bandeja contendo um prato com flocos 
de aveia, outro com ovos mexidos e bacon e ainda vrias torradas, gelia e caf.
       - Se julga que sou capaz de comer isto tudo, est muito enganado.
       - Se comer metade, j fica muito melhor. Quando eu era mido, na Noruega, aprendi que h duas ocasies em que no se pode deixar de comer: no tempo frio, 
e nos momentos de tenso. Quando eu e a Dana nos separamos, passei por uma fase em que perdi completamente o apetite, mas nunca deixei de me alimentar por isso. 
E de todas as vezes que me esforava por comer alguma coisa, sentia-me sempre melhor.
       - Mas comer no meio da desgraa parece quase uma incoerncia.
       - Tudo adquire um aspecto mais assustador quando se tem falta de alimento ou de sono. Vai ter de se lembrar disso, Page. Porque  que hoje no vai a casa 
e dorme algumas horas? O Brad talvez possa ficar aqui no hospital, enquanto voc estiver em casa.
       - O Brad deve ter de ir trabalhar. Mas talvez eu possa fazer uma pausa para ir buscar o Andy  escola. Vai ser difcil conjugar as horas dele com as minhas, 
ainda nem pensei em quem  que o vai poder ir buscar, levar e acompanhar aos treinos de basebol.
       - Eu posso ajudar. As frias esto a acabar e o Nick volta em breve para a universidade, o Bjorn passa todo o dia na escola e a Chloe ainda vai ficar aqui 
internada durante algum tempo. Sempre que tiver necessidade, posso perfeitamente levar o Andy onde ele tiver de ir - concluiu Trygve com um grande sorriso, contente 
por poder ajudar. Anal, ele sempre simpatizara muito com Page.
       - Est a ser muito gentil.
       - No me custa nada, Page. E alm disso, tenho tempo, porque escrevo sempre de noite. Nunca consigo acabar um trabalho durante o dia.
       Continuaram a conversar, enquanto Page se esforava para comer os flocos de aveia e os ovos mexidos, o que, aps alguma luta, acabou por conseguir. Ele fez 
tudo o que podia para a manter distrada, falando-lhe dos seus artigos, dos seus familiares noruegueses e interrogando-a acerca da sua pintura. Por fim, revelou-lhe 
o quanto admirava o mural que ela pintara para a escola e Page agradeceu-lhe. Sentia-se muito mais confortada com o apoio que ele lhe dava e a sua presena diminua 
o aspecto intimidante do hospital, mas apesar disso o seu pensamento continuava a fugir para Allyson e para Brad, e Trygve apercebeu-se de que ela tinha de se esforar 
para lhe prestar ateno.
       Explicou-lhe ento que nesse dia teria de levar Bjorn a uma nova escola para ser avaliado, e ela prometeu-lhe vigiar Chloe. E foi o que tentou fazer, apesar 
de ela passar a maior parte do tempo a dormir. Sempre que a anestesia passava, mexia-se, impaciente e com dores, mas ento a enfermeira aplicava-lhe mais uma injeo 
e ela sossegava. Nem sequer chegou a notar a presena de Page a seu lado.
       Ao meio-dia transferiram Allie para a unidade de cuidados intensivos, o que permitiu a Page vigiar as duas raparigas ao mesmo tempo. Brad apareceu durante 
a sua hora de almoo e chorou ao ver a filha. Depois de abandonar a enfermaria, parou para falar com Page, mas sentia-se pouco  vontade perante a mulher, agora 
que ela j sabia de tudo e ficara to abalada.
       - Desculpa, Page. Desculpa ter-te feito passar por tudo isto numa fase como esta. - Ele parecia agastado, assim como Page.
       - Mais tarde ou mais cedo eu tinha que saber, no tinha? - retorquiu ela friamente, acrescentando para si prpria que, no entanto, aquela tinha sido a altura 
menos indicada.
       - Lamento que tudo se tenha passado desta forma. J  suficientemente mau termos a Allie neste estado. - Ela concordou, mas sabia que, uma vez que Brad havia 
sido apanhado numa mentira, era inevitvel que toda a histria viesse a claro; Page tentou convencer-se de que era melhor saber a verdade do que continuar a iludir-se 
acerca do seu casamento. O fato de ter acreditado que estava tudo bem constitua para ela um dos aspectos mais difceis de compreender e mais dolorosos. Interrogava-se 
acerca de Stephanie, gostaria de saber se esta j tomara conhecimento de que ela estava a par de tudo e se estaria contente por isso ter acontecido;
       Page interrogava-se tambm acerca deles, acerca de si prpria, acerca do seu casamento no ter bastado ao marido. Mas sabia que dificilmente poderia obter 
as respostas para todas essas questes.
       - Gostava de entender a causa de tudo isto - desabafou ela. O movimentado corredor onde se encontravam dificilmente poderia ser considerado o local indicado 
para uma conversa mais ntima, mas era a nica opo que tinham. A sala de espera estava repleta de rostos ansiosos e assustados, gente que esperava notcias do 
estado de sade dos seus familiares ou amigos hospitalizados na unidade de cuidados intensivos. Apesar da agitao, o corredor parecia mais arejado e, afinal, era 
um stio to bom para conversar como qualquer outro. Provavelmente, no importava saber a causa do fracasso daquele casamento, mas apenas que esse fracasso era um 
fato. Page encarou-o e perguntou-lhe sem rodeios: - Ser que vocs os dois pensavam que eu era a idiota no meio disto tudo? A parva que ficava em casa a tomar conta 
dos filhos e a fazer o jantar, enquanto vocs se divertiam?
       Brad referira-se a Stephanie como sendo esta muito diferente de Page, muito independente e individualista. E o que  que a impedia de ser? No tinha filhos, 
no era casada e no devia nada a ningum. Estava absolutamente livre para se divertir com Brad, enquanto ela ficava e casa, encarregando-se de levar a cabo todas 
as suas tarefas. S essa idia bastava para a deixar gelada.
       - Nunca ningum pensou que tu eras uma idiota, Page - respondeu ele, baixando o to de voz enquanto u grupo de estagirios passava por eles. - Apercebi-me 
perfeitamente da injustia da situao, mas no pude modific-la. Podes ter a certeza de que nunca ningum te menosprezou. Se algum  a vtima nesta situao, esse 
algum s tu, Page, sem dvida.
       - Pelo menos concordamos nalguma coisa - comentou ela, sem nimo.
       - Resta saber o que vamos ns fazer, agora - disse ele, tenso e nervoso.
       - Achas? A mim parece-me bastante evidente. - Ela tentava ironizar, mas o seu olhar traa a desiluso, a mgoa e o desespero que sentia.
       - Nada  evidente, pelo menos, para mim. - E apressou-se a acrescentar, visivelmente preocupado: - Ests a considerar a hiptese de me deixar? - Brad parecia 
surpreendido com essa possibilidade, o que fez com que ela sorrisse amargurada. Ele, de fato, no deixava de a surpreender.
       - Ests a falar a srio...? O que  que queres insinuar? Que irias ficar surpreendido, que eu no deveria fazer isso, ou que nem sequer pensaste em me deixar?
       - Nunca te disse que tencionava sair de casa - afirmou ele teimosamente. - Eu no disse isso; apenas disse que no tinha decidido ainda o que iria fazer.
       - E isso no quer dizer o mesmo? Pois bem, eu tambm no sei ainda o que fazer, mas, dadas as circunstncias, parece-me que um de ns vai ter de sair de casa. 
S no percebo o que te leva a hesitar... Afinal, o que  que ests a tentar dizer-me Brad? Que queres continuar casado comigo, que no tens ainda a certeza do que 
sentes por essa rapariga, ou que tens medo de assumir o que realmente queres fazer? Qual das opes  a verdade, Brad? - Comeava j a elevar a voz, e ele olhava 
com inquietao para o fundo do corredor.
       - Fala mais baixo. Nem todo o hospital tem de ficar a par da nossa vida.
       - Porque no, se j toda a gente deve saber o que se passa? Nesta altura, j os teus colegas devem saber desse teu caso e devem achar que tu s o cmulo do 
charme! E quando estavas com ela, de certeza que deves ter encontrado alguns conhecidos nossos. Como  costume dizer-se nestas alturas, eu devo ter sido a ltima 
a saber.
       -Gostava que nunca o tivesses sabido... pelo menos, no desta forma.
       - Mas poderia ter acontecido em qualquer outra altura. Algum poderia ter vindo contar-me, ou em vez da Allie, poderia ter sucedido alguma coisa ao Andy ou 
a mim, enquanto tu estavas supostamente "a viajar". Ou ento, podamos ter-nos encontrado na rua...! O que  que ests a querer dizer-me, agora? Que afinal  apenas 
uma aventura sem importncia? Na noite passada, deste-me a entender que era um relacionamento bastante srio e que no fazias tenes de o terminar. Ser que ouvi 
mal ou estou a car louca?
       Page gostaria de acreditar que tinha, de fato, interpretado mal a explicao do marido, mas no seu ntimo teve a inesperada certeza de que nunca voltaria 
a sentir por ele o que sempre sentira. Sabia que, com o tempo, a revolta desvanecer-se-ia, mas seria impossvel voltar a depositar nele a sua confiana. Provavelmente, 
depois de tudo estar j resolvido, ela chegaria  concluso de que o seu amor por ele terminara. Todavia, nesse momento, era difcil ter alguma certeza, e por isso 
Page apenas se interrogava sobre as intenes de Brad.
       - No ouviste mal - respondeu ele, novamente aborrecido. - Eu no disse que era minha inteno terminar nada, mas julgo que  ainda cedo de mais para tomares 
uma deciso sobre ns. Estamos a passar um momento muito difcil com a Allie neste estado.
       - Ah, j percebi! - Era impossvel disfarar a indignao que sentia, mas desta vez Page conseguiu no elevar o tom de voz. - No queres deixar de ver a tua 
nova amiguinha, mas como estamos a passar um momento difcil, tambm no queres que eu te pea para sares de casa, ou que eu mesma decida sair. Desculpa no ter 
percebido antes, Brad; mas no te preocupes, podes ficar o tempo que entenderes. S te peo que no te esqueas de me mandar um convite para o casamento...! - Apesar 
da dureza das suas palavras Page tinha os olhos banhados de lgrimas; e ambos sabiam que dificilmente resolveriam aquele delicado assunto no corredor do hospital, 
enquanto Allyson permanecia em coma na unidade de cuidados intensivos. Havia muito mais em jogo naquele momento do que uma mera discusso conjugal, o que aumentava 
bastante a gravidade daquela conversa.
       - Penso que o melhor  deixar passar um tempo, e vermos como  que a Allie reage - sugeriu ele, pausadamente. Era uma hiptese razovel, mas Page estava ainda 
demasiado furiosa para ver com clareza a situao. - Alm disso, poderia ser demasiado duro para o Andy decidir ago muito drstico. - Era a sua primeira sugesto 
sensata, e Page viu-se forada a concordar com ele.
       - Sim, parece-me que tens razo - afirmou ela, lanando-lhe um olhar interrogador e desesperado. - Ento, quer dizer que vais continuar a... a ver essa mulher... 
e ns resolvemos o que fazer mais tarde, no  isso?
       - Mais ou menos - confirmou ele, embaraado perante o olhar dela. Sabia que estava a exigir demasiado da mulher e que, na situao dela, nunca poderia aceitar 
uma sugesto dessas, mas mesmo assim esperava que Page o fizesse.
       - Parece-te muito fcil aceitar esta situao, no ? O que  que queres que eu faa, entretanto...? Que desvie o olhar, para no te incomodar? - perguntou 
Page, sem entender como  que Brad lhe podia exigir semelhante coisa.
       - No vejo outra soluo, Page. Vais ter de tentar conviver com isto durante um tempo - respondeu ele quase com dureza. No estava disposto a arriscar a sua 
relao com Stephanie, mas ao mesmo tempo no queria desistir j do seu casamento, pelo menos enquanto no decidisse exatamente aquilo que queria.
       Page sentia-se furiosa por ter que concordar com uma situao to fcil para ele e to penosa para ela, mas sabia que naquele momento no tinha outra opo. 
No poderia lidar com uma separao, com o estado grave da filha e com a forma como Andy reagiria a tudo isso, j para no mencionar que no sabia como ela prpria 
resistiria e reagiria. Contudo, fosse qual fosse a sua deciso, Page nunca deixaria de se preocupar com o futuro, que nesse momento lhe parecia muito pouco risonho.
       - Se ests a pedir-me autorizao, podes ficar a saber que no tenciono dar-lhe - preveniu ela, friamente. - No tens o direito de exigir isso de mim. No 
esperaste pela minha permisso para fazeres o que fizeste, e por isso no  agora que vou dizer-te que est tudo bem para mim, porque no est. Alm disso, mais 
tarde ou mais cedo vais ter de arcar com as conseqncias dos teus atos. - De certa forma, o fato de terem outras prioridades naquele momento facilitava a situao 
de Brad, pois impedia-o de se aperceber claramente da crise que despoletara no seu casamento. Mas da a um tempo, quer Allyson melhorasse quer no, ele teria de 
lidar com aquela situao, e ambos tinham conscincia disso. Era essa certeza que, enquanto decorria aquela conversa no movimentado corredor do Hospital Marin General, 
assustava Brad e deprimia Page.
       Brad fitou a mulher durante bastante tempo sem saber o que dizer, e depois consultou o seu relgio. Sentia que necessitava de uma pausa com urgncia. Tudo 
aquilo era demasiado para ele, havia vrias emoes em jogo, e a realidade era extremamente aterradora. As suas vidas haviam sido transformadas de um momento para 
o outro, e Brad ainda no tivera tempo para se adaptar.
       - Podemos continuar esta conversa depois? Agora preciso de voltar para a agncia.
       - Onde  que vais estar, caso eu precise de te encontrar? - indagou ela com frieza. Brad afastava-se cada vez mais dela, de Allyson, e do hospital, que era 
to deprimente para os dois, e fugia da necessidade de a enfrentar, agora que ela j estava a par da ligao dele. Era mais fcil afastar-se e procurar refgio no 
trabalho... ou em casa de Stephanie. Mais uma vez, Page interrogou-se sobre a aparncia e o carter dessa mulher.
       - Porque  que perguntas onde vou estar? - questionou ele rispidamente. - Acabei agora mesmo de te dizer que vou trabalhar.
       - Perguntei apenas no caso de teres mais algum stio onde ir... - A insinuao de Page f-lo corar, mas Brad esforou-se para combater a onda de vergonha 
e de fria que o dominou. - Se tiveres de te ausentar da agncia, deixa na recepo desta unidade do hospital o nmero do local onde te encontrares.
       - Obviamente - respondeu ele, glido.
       Page fazia teno de perguntar a Brad se iria estar em casa nessa noite, mas subitamente descobriu que no desejava perguntar-lhe mais nada. No queria ouvir 
mais mentiras, no desejava ter outra discusso com ele, insult-lo de novo ou voltar a aperceber-se do desprezo e da autojustificao dos argumentos dele. Aquela 
discusso consumira todas as foras que ainda lhe restavam.
       - Eu depois telefono - informou ele, voltando-lhe as costas e percorrendo o corredor a passos largos. Ao v-lo afastar-se Page sentiu-se dominada por uma 
estranha onda de emoes desordenadas: revolta, tristeza, confuso, mgoa, traio, raiva... raiva, medo... e, principalmente, solido.
       Voltou ento novamente para junto de Allyson, e perto das trs da tarde foi buscar Andy  escola primria de Ross. Era um alvio tornar a seguir a sua rotina 
habitual, voltar a estar com o filho, ser-lhe til e lev-lo a todos os lugares que ambos percorriam h anos. Page passou toda a tarde com Andy e em seguida deixou-o 
novamente em casa de Jane Gilson para jantar. Quando regressasse do emprego, Brad iria busc-lo e lev-lo-ia consigo para casa.
       - Vemo-nos amanh de manh - comunicou ela ao filho, despedindo-se dele com um beijo. Era uma felicidade para Page sentir de novo a suavidade do cabelo do 
filho, o seu aroma perfumado de criana e os seus dois pequeninos braos em redor do pescoo. - Gosto muito de ti - afirmou ela.
       - Eu tambm gosto muito de ti, mam. D um beijinho meu  Allie.
       - Dou, sim, meu amor.
       Page agradeceu de novo a ajuda de Jane Gilson, que mais uma vez a aconselhou, tal como Trygve, a descansar um pouco.
       - O que  que queres que eu faa? - respondeu Page, um pouco irritada. - Que fique em casa a ver televiso? Onde queres que eu esteja, com a Allie naquele 
estado?
       - Eu sei que tens de l estar, mas por favor, tenta no exagerar. No esgotes j todas as tuas foras Page. - Todavia, era j tarde de mais para esse conselho. 
As foras de Page estavam j esgotadas, mas ela no tinha escolha, tinha de estar perto da filha.
       Quinze minutos depois das sete, Page estava de volta ao hospital. Permaneceu junto de Allyson at a mandarem embora e depois decidiu sentar-se numa desconfortvel 
cadeira do corredor, encostando a cabea  parede de olhos fechados. Ficou muito tempo naquela posio, esperando que a voltassem a chamar para junto da filha. No 
era possvel permanecer muito tempo na enfermaria da unidade de cuidados intensivos, pois os enfermeiros tinham sempre muito que fazer e a maioria dos pacientes 
estava demasiado doente para apreciar visitas.
       - Essa cadeira no me parece muito confortvel - murmurou Trygve a meia voz. Page, apercebendo-se da presena dele, abriu os olhos e sorriu; sentia-se exausta, 
o dia tinha sido muito longo e Allyson no registrara ainda nenhuma melhoria nem voltara a estar consciente. De fato, os mdicos no esperavam que ela voltasse a 
est-lo nos tempos mais prximos, ms permaneciam atentos a outros indcios que pudessem indicar o surgimento de outras complicaes no crebro dela. Apesar de estar 
em coma, era examinada de minuto a minuto e at quele momento o seu quadro clnico no registrara nenhum avano. - Como correu o seu dia? - perguntou Trygve a Page, 
sentando-se numa cadeira a seu lado. O dia dele no havia sido melhor do que o de Page, j que Chloe sofria dores constantes, apesar de estar muito medicada.
       - No correu muito bem... - E acrescentou de seguida, lembrando-se da quantidade de mensagens que haviam ficado registradas no atendedor de chamadas: - Recebeu 
tantos telefonemas de colegas delas quanto eu? - A cassete havia sido totalmente preenchida.
       -  provvel - confirmou ele, sorrindo. - Ao fim da tarde, apareceu aqui um grupo de midos, mas no os deixaram entrar na sala dos cuidados intensivos. Queriam 
ver a Allyson tambm, mas  claro que as enfermeiras no os autorizaram.
       - Talvez lhes faa bem ver os amigos... quando estiverem melhores... quando a Allyson ficar melhor... se  que ela um dia vai melhorar... Nesta altura, j 
a escola inteira deve saber do acidente. - E todos estavam chocados com a morte de Phillip Chapman.
       - Um dos midos contou-me que os jornalistas foram at ao liceu perguntar aos colegas do Phillip que gnero de rapaz era ele. No sei se sabe, mas ele era 
a atrao principal da equipe de natao, tinha notas timas, e muitas outras qualidades; era uma espcie de rapaz ideal, o que faz desta histria a notcia perfeita. 
- Trygve abanou a cabea, e, tal como Page, pensou que s por um acaso tinha sido ele a vtima, e no qualquer uma das duas raparigas.
       Nesse dia, havia sido publicado no jornal uma grande reportagem sobre o acidente, acrescida de fotografias e dados sobre cada um dos quatro jovens. Mas  
bvio que o seu principal destaque havia sido o desgosto de Laura Hutchinson pela morte de Phillip Chapman. Ela recusara-se a prestar quaisquer declaraes, mas 
nesse artigo vinha uma enorme fotografia sua e vrios comentrios dos assistentes do senador. Estes ltimos explicavam que Mrs. Hutchinson havia ficado to abalada 
com o sucedido que no se encontrava ainda em condies de fazer um comentrio oficial. Tambm ela era me, o que lhe permitia compreender perfeitamente a dor dos 
pais de Phillip e a ansiedade dos pais das outras duas jovens. Basicamente, a finalidade daquele artigo era limpar o nome da mulher do senador, pois de uma forma 
indireta e sutil, o artigo insinuava nas entrelinhas que apesar de o condutor do Mercedes no ter sido considerado legalmente embriagado, todo o grupo de jovens 
havia bebido. Depois de ler aquela notcia, era fcil o leitor concluir que o acidente havia sido causado por Phillip, apesar de o seu autor nunca assumir claramente 
essa posio.
       -  um artigo muito bem elaborado - comentou Trygve. - Nunca chegam a acus-lo diretamente de estar sob o efeito da bebida, mas  essa a impresso que conseguem 
transmitir, salientando o carter irrepreensvel de Mistress Hutchinson, o fato de ela ser uma me dedicada e uma cidad exemplar. Depois desta descrio, como  
que algum consegue responsabiliz-la pela morte de um rapaz de dezessete anos e por ter colocado em risco outras trs vidas?
       - Da forma como fala, v-se bem que no acredita na inocncia dela. - Page no sabia no que acreditar e isso preocupava-a. No hospital haviam declarado que 
Phillip no estava embriagado, mas o acidente tinha de ter uma causa. No entanto, descobrir essa causa talvez no fosse relevante, pois a descoberta no iria retirar 
Allyson dos cuidados intensivos nem reparar as pernas de Chloe, como por magia. Tudo permaneceria inalterado, com exceo dos possveis processos judiciais que Page 
ainda nem tivera ocasio nem vontade de considerar. Mover um processo contra algum no traria nenhum efeito benfico para o grupo de jovens, nem devolveria a vida 
a Phillip. A idia de um possvel litgio legal desagradava-lhe e parecia-lhe demasiadamente confuso.
       - No  que eu no acredite - esclareceu Trygve -, mas conheo a forma indireta e traioeira com que os reprteres noticiam um fato. Desenvolvem toda uma 
notcia de forma a que no final coincida em cada ponto com as suas opinies preconcebidas. Os reprteres da edio poltica fazem exatamente o mesmo; noticiam apenas 
aquilo que estiver de acordo com a sua tendncia e ponto de vista, ou com a posio poltica do jornal.  por isso que aquilo que escrevem nunca corresponde  verdade, 
porque foi elaborado para encaixar num cenrio j estabelecido  partida. E talvez seja isso que est a passar-se com esta notcia. At os assessores do senador 
ajudaram a criar uma tima imagem para a sua mulher! Talvez a culpa no seja dela, mas podia ser, e por isso mesmo eles tiveram de assegurar-se que o seu nome era 
referido como o de uma santa, a esposa e a me ideal!
       - Pensa que a culpa pode ter sido dela?
       - Talvez sim e talvez no. Mas  to provvel que a culpa seja dela como de Phillip. Voltei a conversar com o agente da brigada de trnsito, e ele confirmou-me 
que as provas so inconclusivas. Ambos os condutores podem ter sido negligentes, a nica diferena  que Phillip era um mido e por isso ainda no tinha os anos 
de experincia de conduo que ela tinha.  comum dizer-se que os adolescentes so muito agressivos e irresponsveis ao volante, mas isso no  uma regra. E se h 
alguma concluso a tirar das declaraes dos outros colegas,  que Phillip era, de fato, um rapaz muito responsvel. Jamie Applegate afirmou que ele tinha bebido 
meio copo de vinho e duas xcaras de caf puro. Eu prprio j conduzi depois de ter bebido muito mais do que meio copo de vinho, embora admita que talvez no o devesse 
ter feito. Mas Phillip Chapman era um rapaz bem constitudo e no era meio copo de vinho que ia deix-lo embriagado, especialmente se fosse seguido por dois cafs 
e mais tarde um cappuccino. No entanto Mistress Hutchinson afirma no ter bebido nem uma s gota de lcool durante toda a noite. Como tal, ela  a mais sbria, a 
mais velha, a mais conhecida e a mais respeitada, o que, na ausncia de outras provas, faz com que todas as suspeitas recaiam sobre Phillip. E isso no me parece 
muito justo... alis,  isso que me incomoda: os mais jovens acabam sempre por receber um castigo mais severo, mesmo que no o meream. Deve ser particularmente 
duro para a famlia do Phillip aceitar que ele seja o principal culpado, se ningum pode saber ao certo o que esteve na origem do acidente.
       "Hoje conversei com o Jamie, que me jurou que nenhum deles estava minimamente embriagado e que o Phillip ia atento  conduo. Logo no incio, confesso que 
senti vontade de o culpar... queria descarregar a minha fria em algum, e obviamente, ele era o meu principal alvo. Mas agora j no tenho tanta certeza de que 
seja ele o culpado. E devo tambm admitir que, no princpio, tive vontade de matar o Jamie Applegate por ele ter sido cmplice na mentira da Chloe e por ser um dos 
responsveis por ela ter entrado naquele carro! Mas ele parece-me um bom rapaz, e j por duas vezes falei com o pai dele ao telefone, que me confirmou que o Jamie 
est completamente arrasado com o que sucedeu. Insiste em vir visitar a Chloe, mas, por enquanto, julgo que ainda  demasiado cedo. Aconselhei-o a esperar mais uns 
dias e depois ento veremos o que fazer a esse respeito.
       - No se vai opor a que ele a veja? - Page ficou impressionada com o sentido de justia de Trygve e intrigada com as suspeitas que ele admitia ter a respeito 
de Laura Hutchinson. Provavelmente, a verdade correspondia quilo que parecia ter acontecido: uma fatalidade, da qual ningum teria culpa, mas que j causara muita 
dor e muito sofrimento. Por causa de uma distrao momentnea, de um olhar desviado da estrada por uma frao de segundo e de um leve toque no volante para a direo 
errada, sucedera uma tragdia. E Page no se sentia revoltada contra ningum, apenas desejava que a filha sobrevivesse.
       Trygve confirmou a dvida de Page a respeito da visita de Jamie a Chloe:
       - No, provavelmente no me vou opor, desde que ela tambm no se oponha. Deixo isso a cargo da Chloe, quando ela estiver em condies de o decidir. At pode 
dar-se o caso de ela no o desejar ver novamente, mas ele est to apoquentado com tudo isto que talvez o ajudasse bastante poder v-la, quando ela estiver melhor. 
O pai do Jamie disse-me que ele est convencido que todos eles... - Antes de prosseguir, Trygve notou a dureza das palavras que tencionava dizer e preferiu no a 
abalar ainda mais. - Tem receio que ningum sobreviva e sente-se culpado por ter ficado ileso. Ele mesmo mo confirmou, insistindo em repetir que devia estar no lugar 
do Phillip, da Chloe e da Allie. Parece que ele e o Phillip eram amigos de infncia e o rapaz est muitssimo abalado. - Trygve voltou-se ento para Page e colocou-lhe 
a seguinte questo: - Tenciona ir amanh ao funeral do Phillip Chapman? - No era nada fcil para Trygve abordar este tema.
       Page fez um sinal afirmativo com a cabea. At essa altura no tinha decidido ainda o que fazer, mas agora chegara  concluso que devia faz-lo plos pais 
do rapaz. Afinal, eles haviam perdido um filho e ela quase perdera Allie. Mas esse "quase" tornava as duas situaes bem distintas, e ela sentiu o corao despedaado 
ao imaginar a dor que esse casal deveria sentir.
       - Devem estar desfeitos... - comentou ela tristemente, enquanto Trygve abanava a cabea.
       - O Brad vai consigo, ou quer que eu a leve? Julgo que  de tarde, e assim talvez os midos tambm possam ir comigo. Sempre  melhor ir acompanhado... - comentou 
suspirando. Tambm ele temia esse terrvel momento de dor e de mgoa. Quanto a Page, o que mais desejava era nunca ter de passar pelo mesmo em relao a Allie...
       - No sei se o Brad tenciona ir, mas duvido. - Page sabia que o marido detestava funerais e, ao contrrio de Trygve, no escondia as suas suspeitas sobre 
o estado de Phillip. Page tinha quase a certeza de que ele no a acompanharia, ainda mais com a situao to tensa entre ambos. - No fao idia de como  que se 
consegue ultrapassar um desgosto desses... - murmurou ela, tentando afastar esse pensamento. Seguidamente, fitou Trygve com uma expresso amargurada e acrescentou: 
- Nem sequer tenho a certeza de que alguma vez se supere uma dor to profunda. S passaram dois dias, e eu comeo j a sentir que a minha vida est a perder todo 
o sentido. Como  que se consegue...? Como  que se consegue passar por uma coisa destas e no deitar tudo a perder? -  medida que falava, os olhos de Page enchiam-se 
de lgrimas. Desabafar com Trygve era o mesmo que procurar consolo junto de um velho amigo ou de um irmo mais velho.                             
       - Talvez no seja possvel impedir que algumas coisas se percam... mas talvez mais tarde se consiga reunir aquilo que restou.
       - Talvez... - admitiu ela, pensando em Brad. Com a pergunta seguinte, Trygve pareceu ler o seu pensamento:
       - Como  que o Brad est a reagir? Deve ter ficado muito chocado, quando soube do acidente em Cleveland.
       Page sentiu-se tentada a contar-lhe que o marido nunca havia estado em Cleveland, mas, pensando melhor, no lhe pareceu uma atitude muito sensata. Limitou-se 
assim a abanar a cabea, quebrando depois de uma longa pausa o seu silncio:
       - 0 Brad no est a reagir nada bem. Anda muito perturbado, nervoso e zangado, e culpa o Phillip pelo acidente. De certa forma, julgo mesmo que ele me culpa 
tambm, por eu no saber ao certo o que a Allyson tencionava fazer. Ele no mo disse diretamente, mas chegou a insinu-lo. - Culpar Page era igualmente uma forma 
de Brad fugir  sua prpria culpa, uma forma de aliviar os seus remorsos tendo um motivo para acusar a mulher. - Mas o pior - continuou Page com os olhos inundados 
de lgrimas -  que eu comeo a pensar que ele tem razo. Se calhar, a culpa  minha... talvez se eu tivesse estado mais atenta, se tivesse suspeitado de alguma 
coisa de anormal, teria interrogado a Allie e chegado  concluso que ela estava a mentir... e nada disto teria acontecido! - Page, demasiadamente fatigada e enervada, 
deixou-se dominar pela emoo e comeou a soluar. Trygve colocou um brao em redor dos ombros dela e tentou confort-la, aconselhando:
       - No se pode deixar dominar por esses pensamentos, Page. Ns no tnhamos motivo para suspeitar das nossas filhas, elas nunca haviam feito nada disto antes 
e no amos vigi-las sem termos uma suspeita. Limitamo-nos a confiar nelas, o que no  crime. Alm disso, a mentira delas no foi assim to grave... muitas outras 
raparigas j utilizaram antes uma desculpa parecida. Quem  que podia adivinhar que desta vez ia resultar numa fatalidade?
       - O Brad pensa que eu devia ter adivinhado.
       - A Dana tambm pensa o mesmo a meu respeito, mas isso so apenas suposies. Eles sentem necessidade de acusar algum,  s isso... no deve lev-los a srio. 
O Brad est apenas enervado, provavelmente nem sabe ao certo o que pensar nem quem deve acusar.
       - Sim, talvez tenha razo... - murmurou ela, permanecendo bastante tempo em silncio, recordando as inmeras estatsticas de casamentos destrudos aps um 
acidente ou a morte de um filho. Caso j existisse uma falha algures no casamento, uma experincia grave como aquela decerto a traria  luz. E no seu caso, a falha 
que existia no casamento com Brad era maior do que o Grand Canyon... - A verdade  que - prosseguiu ela, surpreendendo-o com a seguinte declarao - o meu casamento 
com o Brad no vai nada bem. - Page no tinha bem a certeza do motivo que a levava a dar essa explicao a Trygve, mas afinal sentia necessidade de contar a algum 
o que se passava. Nunca se sentira to infeliz e to sozinha antes, e no tinha mais ningum com quem falar. Sabia que no poderia demorar muito mais a contar  
me o que sucedera a Allie, mas por enquanto ainda no tinha fora suficiente para o fazer. Necessitava de mais algum tempo para se ajustar s modificaes, antes 
de ir inquietar a me, em Nova Iorque. De momento, no podia encarregar-se de mais nada, a no ser de ficar ali no hospital todo o tempo que pudesse, na enfermaria 
com Allyson ou conversando com Trygve. - O Brad e eu... - Ela tentou finalizar a frase, mas no conseguiu.
       - No tem de me explicar nada Page - facilitou Trygve. - Ningum sabe lidar com uma circunstncia destas. Ainda h pouco me ocorreu que eu e a Dana nunca 
teramos superado uma fase assim. - Na realidade, Trygve ainda no conseguira aceitar o fato de a ex-mulher no ter decidido vir ver a filha, depois de ter sido 
informada do seu estado. Apressara-se a acus-lo de ser um pai demasiado condescendente, mas no sentira necessidade de apanhar o avio seguinte para So Francisco 
e vir ver a filha. Apenas comentara que, nas prximas frias de Vero, esperava que Chloe j estivesse em condies de a ir visitar  Europa. Trygve chegara  concluso 
que Dana no era uma boa me, e como tal, nem sequer era digna da sua admirao. S no entendia ainda como  que passara vinte anos da sua vida casado com uma mulher 
assim... por vezes, ao pensar nisso, sentia-se um completo idiota, mas sabia que se preferira no romper mais cedo o seu casamento tinha sido por receio de perturbar 
ainda mais a estabilidade emocional dos filhos.
       Page tentou ento explicar melhor o que de fato se passava entre ela e o marido.
       - O nosso problema no tem nada a ver com o acidente. Acontece que surgiu no meio disto tudo... - Ela no revelava toda a verdade, mas no era difcil perceber 
que estava muito abalada por algo que o marido fizera. Trygve concluiu que talvez se tratasse de uma aventura extraconjugal, pois sabia, por experincia prpria, 
como o surgimento de uma terceira pessoa podia afetar um casamento. Todavia, tinha ainda bastantes dvidas, pois Brad nunca lhe parecera um marido infiel.
       - No pode concluir nada no meio de uma crise.
       - E porque no? E se a realidade for esta e no aquela que eu pensei existir durante tantos anos? E se tudo no tiver passado de uma mentira?
       - Se esse for o caso, mais tarde saber. Mas no tire ainda concluses; nenhum de vocs est em condies de raciocinar claramente.
       - Como  que pode ter tanta certeza? - perguntou ela, ansiosamente. Como tinha muito que resolver, aproveitava o tempo que passava no hospital para pensar.
       - Eu possuo uma larga experincia de relacionamentos difceis e sei que as aparncias podem iludir; mas sei tambm que numa crise como esta por que estamos 
a passar tudo se altera. Acredite que sei do que estou a falar! No se pode esquecer de que todas as vossas reaes esto alteradas e tudo o que dizem ou fazem pode 
ser fruto da ocasio. Veja bem o seu estado: est exausta, h dois dias que no come nem dorme praticamente nada. A sua filha quase morreu,  natural que esteja 
ainda traumatizada. E quem, na sua situao, no o estaria? Eu tambm estou... o Brad tambm est e os nossos outros filhos tambm esto. Como  que pode confiar 
nas suas reaes? Eu at tenho medo de ir s compras... para o co era perfeitamente capaz de trazer alpista, e para os midos, trazia comida para ces...! Siga 
o meu conselho Page: tenha um pouco de pacincia consigo prpria e, por enquanto, procure no pensar em mais nada. Preocupe-se apenas com a Allie.
       - No me tinha dito que era conselheiro matrimonial... - gracejou ela, fazendo-o sorrir.
       - S posso dar conselhos baseados na minha experincia pessoal. E por isso que se precisar de algum conselho numa fase boa, no mo venha pedir...
       - Quer dizer que nunca viveu uma fase boa no seu casamento...? Foi assim to mau? - Ambos se sentiam como se fossem j velhos amigos e Trygve tinha ainda 
o seu brao em redor dos ombros de Page.
       - Pssimo. - Apesar da confirmao, ele sorria. - Penso que devemos ter tido um dos piores casamentos da histria. Talvez agora eu tenha finalmente recuperado, 
mas pode ter a certeza que fiquei com muito medo de tentar outra vez! - Page recordou a sua conversa com Allyson na tarde de sbado; a filha armara que ele nunca 
voltara a sair com outra mulher e Page manifestara a sua admirao por ele. Trygve era, sem dvida, um homem interessante, inteligente e bondoso.
       - Talvez precise de mais algum tempo... - Page procurava apenas ser solidria, mas ele no se coibiu de reagir ao seu comentrio com uma gargalhada sonora.
       - Sim, talvez mais uns quarenta ou cinqenta anos...! No tenho pressa nenhuma de repetir os mesmos erros, e de voltar a criar um ambiente infeliz para mim 
e para os meus filhos. Prefiro agir com muita calma. Eles merecem muito mais do que aquilo que eu e a me lhes proporcionamos e, para ser franco, tambm eu o mereo. 
Mas o que ns merecemos no  nada fcil de encontrar...
       - Vai ver que quando perder esse receio, encontrar muito mais depressa aquilo que pretende - assegurou ela, gentilmente.
       - Talvez tenha razo, mas no tenho pressa. Sou feliz conforme estou e os meus filhos tambm o so, o que para mim tem muita importncia Page.  muito melhor 
estar sozinho do que acompanhado pela mulher errada.
       - Quanto a isso, no fao a mais pequena idia. Estou casada com o mesmo homem desde que fiz vinte e trs anos. Sempre pensei que o nosso casamento era perfeito 
e agora, de repente, ficou tudo destrudo. No sei mais o que pensar, nem tenho a certeza de saber com que espcie de homem estou casada. Tudo se tornou muito confuso. 
- E apenas num abrir e fechar de olhos...
       - Lembre-se daquilo que eu lhe disse - voltou ele a avisar. - No tire concluses no meio de uma crise.
       - No me vou esquecer - anuiu ela, surpreendendo-se por ter desabafado to livremente com ele. Todavia, sabia que precisava de falar com algum, pois aquilo 
que descobrira acerca de Brad afetara-a muito. Alm do mais Page confiava instintivamente em Trygve, mesmo sem saber ao certo porqu. Nas ltimas vinte e quatro 
horas ele tinha-a apoiado como nenhum outro amigo apoiaria; at mesmo Brad a abandonara naquela hora. Apenas Trygve estivera sempre a seu lado, e com crise ou sem 
crise, ela sabia que nunca esqueceria o seu gesto.
       Entretanto, era quase meia-noite. Page e Trygve interrompiam de vez em quando a sua longa conversa para se certificarem de que Chloe e Allyson estavam bem. 
De fato, Chloe continuava a dormir e Allyson permanecia inconsciente. Foi apenas quando Trygve considerou a hiptese de ir para casa, que um mdico veio ao encontro 
de Page para lhe comunicar que tinham surgido mais algumas complicaes no estado de Allyson. Tal como os mdicos temiam, a massa enceflica comeara a inchar e, 
conseqentemente, estava a ser comprimida. Era esta a "terceira leso", a respeito da qual os mdicos j a haviam prevenido; o mdico explicou-lhe que temiam igualmente 
a possvel formao de cogulos sanguneos.
       Trygve ofereceu-se de imediato para ficar com Page no hospital, e o mdico-chefe da equipe de neurocirurgia veio informar que a situao piorara ainda mais. 
Mostrando-se bastante preocupado com aquele quadro, o mdico explicou que, devido ao inchao, a presso sangunea de Allyson aumentara e o ritmo cardaco diminura. 
Uma hora mais tarde, os mdicos comeavam a duvidar que Allyson pudesse resistir muito mais. Page mal podia acreditar naquela brusca modificao do estado da filha 
quando apenas h uma hora atrs estava estabilizado. Todavia, sabia que esse motivo no era vlido, tendo em conta que dois dias antes Allyson gozava de perfeita 
sade. A vida efetuava mudanas de cento e oitenta graus, sem ao menos um aviso prvio...
       Antes da equipe cirrgica se reunir, Page tentara localizar Brad vrias vezes, mas a nica resposta que obtinha vinha da gravao do atendedor de chamadas. 
Finalmente, em desespero absoluto Page pediu a Trygve para telefonar a Jane Gilson, para que esta fizesse o favor de ir at sua casa acordar Brad. Andy poderia car 
com Jane, para que Brad pudesse vir ao encontro deles. Porm, Trygve comunicou-lhe aquilo que Jane lhe dissera: que Brad nem sequer tinha ido buscar o filho a sua 
casa. Andy dormia a sono solto na cama de Jane, e esta no fazia a mais pequena idia do seu paradeiro, pois ele nunca lhe telefonara.
       - No chegou a telefonar? - indagou Page, pasmada. Como  que Brad podia agir daquela forma, numa altura to delicada e depois de tudo quanto prometera? Afinal, 
ele preocupava-se mais com a sua vida amorosa, ou com a sua filha?
       - A Jane disse que no sabe nada dele. Lamento muito, Page. - Trygve segurou a mo de Page entre as suas, e pensou que provavelmente as suas suspeitas estariam 
certas. Brad Clarke estava envolvido numa aventura extraconjugal, ou ento preferia afogar as suas mgoas na bebida, de forma a no sentir a presso do momento. 
Uma coisa era certa: fosse qual fosse a sua opo, ele decerto havia escolhido uma pssima altura. Trygve sentia muita pena de.Page, que, sozinha, carregava toda 
a responsabilidade nos seus ombros. Mas j nada o surpreendia; ele vivera e assistira a tudo aquilo com Dana. - No se apoquente com isso - tranqilizou ele, enquanto 
esperavam que os mdicos acabassem de examinar Allyson. - Ele vai acabar por aparecer. Alm disso, no podia fazer nada, nenhum de ns pode. - Mas podia estar presente, 
tal como ela estava e assim como Trygve estava por Chloe. - Nem todos sabem lidar com uma situao destas Page. Eu costumava sentir-me mal s de pensar em entrar 
num hospital!
       - E o que  que o fez mudar?
       - Os meus filhos. Tive de ser eu a traz-los ao hospital, porque a Dana se recusava. O Brad tem-na a si, sabe que a Allie est em boas mos. - Gentilmente 
e com um sorriso, Trygve esforava-se por desculpar Brad perante Page, mas ela sabia que o marido no merecia tais esforos. Allie tinha a me por perto, mas quem 
 que ela teria a seu lado no caso de Trygve no estar ali presente? Page partia do princpio que Brad estaria com a amante, mas mesmo assim no sabia como localiz-lo.
       Os mdicos regressaram e voltaram a inform-los sobre o estado de Allyson, que entretanto havia estabilizado, mas ainda no o suficiente para que ela deixasse 
de correr um srio perigo de vida. O inchao do crebro no era um bom sinal, e podia ser um indcio de futuras complicaes, ou apenas um efeito da cirurgia de 
domingo.
       Era difcil distinguir os dois casos, e os mdicos no desejavam alimentar falsas esperanas. Por fim, admitiram que era possvel que Allyson no resistisse 
muito mais tempo.
       - Isso significa que... que ela pode morrer a qualquer momento? - questionou Page, aterrorizada. - Pode no agentar mais esta noite? - Era isso que tentavam 
dizer-lhe? Que a filha estava a morrer? "No, por favor Deus, isso no..." Assim que permitiram a sua entrada na enfermaria, Page correu para junto da filha e sentou-se 
silenciosamente a seu lado, deixando que as lgrimas lhe corressem pelas faces. Segurava a mo de Allyson com firmeza, como se esse gesto pudesse impedir a filha 
de sucumbir e de a deixar, depois de tudo quanto se passara.
       Os mdicos permitiram que ela passasse a noite com Allyson e Page nunca se ausentou dali, contemplando a face da filha e segurando-lhe a mo.
       - A me ama-te muito - murmurava ela, de tempos a tempos. Repetia aquela frase com toda a determinao, como se a filha a pudesse ouvir. Quando por fim o 
Sol nasceu, o inchao do crebro de Allie no tinha aumentado e a sua respirao mantinha-se inalterada. No havia melhorias, mas Allyson continuava viva. Apesar 
disso, todo o quadro se poderia alterar novamente numa questo de segundos, razo pela qual os mdicos sugeriram que, caso Page fosse para casa, se mantivesse sempre 
em contato com o hospital. Todavia, de momento podiam assegurar que Allyson j no corria perigo imediato de vida, pois haviam aumentado a dose de medicao de forma 
a combater os efeitos ps-operatrios.
       Eram seis e meia da manh quando Page saiu finalmente da enfermaria de cuidados intensivos. Beijou com todo o cuidado a filha e dirigiu-se para a sada, caminhando 
com dificuldade, devido ao cansao e ao peso que sentia nas pernas. Foi com grande surpresa que se lhe deparou Trygve, dormindo numa das cadeiras do corredor. Ele 
tinha decidido ficar, receando deixar Page sozinha, caso o pior acontecesse. Interiormente, Trygve censurava Brad por no ter aparecido e por se manter afastado, 
mas nunca o admitiria perante Page. A sua alegria foi sincera quando esta lhe comunicou que Ale escapara mais uma vez ao perigo.
       - Vamos, eu levo-a para casa. Pode deixar o seu carro aqui, eu trago-a mais tarde.
       - Ou posso apanhar um txi, se houver necessidade disso - concordou ela, apreensiva. A sua fadiga era tanta que admitiu que, se caminhar era para ela uma 
tarefa rdua, conduzir seria ainda muito mais difcil. Lentamente, Page seguiu Trygve at ao parque de estacionamento, aliviada por Allyson ter resistido mais uma 
noite. Sentada no banco da frente, Page desejou apenas que a filha sobrevivesse; se ao menos algum a pudesse influenciar a no desistir...
       - Teve muita coragem - afirmou Trygve, beijando-lhe a face e apoiando a sua mo nos ombros dela.
       -Tive tanto medo, Trygve... apetecia-me fugir e ficar escondida de todos - admitiu ela, enquanto Trygve lhe acariciava a mo. Ela passava por algo que nunca 
imaginara possvel, a concretizao dos seus mais profundos e inconfessados receios.
       - Mas no o fez Page, e a Allie sobreviveu. Pense apenas nisso - aconselhou ele, enquanto conduzia para casa. Ao chegarem, Trygve constatou que Page adormecera 
profundamente ao seu lado. Detestava ter que a acordar, mas tocou-lhe com suavidade e ela olhou-o ensonada, dirigindo-lhe um sorriso tnue.
       -Obrigada, Trygve... por ser to bom amigo.
       - Preferia que nos tivssemos tornado bons amigos de uma outra forma - comentou ele, pesaroso. - Na equipe de natao, ou na elaborao dos seus murais... 
- E acrescentou de seguida, cautelosamente: - Ainda tenciona ir hoje ao funeral do Phillip?
       Page respondeu que sim, embora estivesse j certa de que Brad no a acompanharia.
       - Ento eu venho busc-la s duas e quinze. At l, tente descansar Page. Precisa muito de dormir.
       - Vou tentar. - Antes de sair do carro, Page tocou-lhe na mo em sinal de agradecimento. Trygve esperou at ela entrar em casa, que s sete da manh estava 
ainda vazia.
       Seguidamente, acenou a Page e arrancou, enquanto ela fechava lentamente a porta de casa, imaginando o que diria a Brad quando o encontrasse. Tinha a sensao 
de que no havia nada mais a dizer entre os dois, a no ser "adeus". Ou ser que at isso j havia ficado subentendido?
       
CAPTULO 7
       s sete da manh Page, sozinha no meio da sala, debatia-se entre a idia de ir buscar Andy a casa de Jane, ou ir finalmente recuperar algumas horas de sono. 
Sentia-se extremamente fatigada e a sonolncia limitava-lhe os movimentos, mas sabia que naquela fase o filho precisava muito dela, o que a levou a decidir-se pela 
primeira alternativa. Antes de sair, molhou o rosto com gua fria, penteou o cabelo e ouviu todas as mensagens gravadas no atendedor de chamadas, na esperana de 
haver alguma notcia de Brad. Mas a sua revolta aumentou ao constatar que este nem sequer havia telefonado para explicar a sua ausncia. Como  que ele tinha coragem 
de agir daquele modo, com a filha a correr perigo de vida? E porque  que Stephanie no lhe chamaria a ateno para a irresponsabilidade desse ato?
       Page dirigiu-se ento para a casa ao lado, onde encontrou Andy a tomar o pequeno-almoo com Jane. A televiso estava ligada e Jane cantarolava enquanto fazia 
waffles para Andy.
       - Que sorte a tua! - disse ela para o filho, beijando-lhe a cabea e lanando um sorriso  amiga, que rapidamente constatou que as sombras escuras  volta 
dos olhos de Page tinham aumentado bastante.
       - Como  que est a Allie? - perguntou Andy de imediato, fazendo Page hesitar na resposta. Tentava reprimir a vontade de chorar, mas as suas foras j no 
eram suficientes para dominar totalmente as emoes. Como  que poderia contar-lhe que a irm s por um milagre no havia morrido nessa noite? Jane reparou na perturbao 
da amiga e depressa lhe ofereceu uma xcara de caf, pousando afetuosamente a mo no seu ombro.
       - A Allie est bem - conseguiu ela responder a Andy, que se servia de mais waffles; baixando um pouco a voz, explicou ento a Jane o que realmente se passara: 
- Surgiram mais complicaes durante esta noite. O crebro dela inchou depois da operao e ela teve dificuldades respiratrias.
       - Ela vai morrer? - perguntou Andy inesperadamente, abrindo muito os olhos. Page abanou a cabea, pensando que, se pelo menos at quela data isso no acontecera, 
tal vez fosse possvel no vir a acontecer nunca.
       - Espero que no.
       Andy no disse nada, tentando entender bem a breve explicao da me. Passados uns segundos, decidiu ento colocar-lhe outra difcil questo:
       - Onde est o pap? Ontem  noite no me veio buscar.
       - Deve ter tido muito trabalho e quando chegou a casa j tu estavas a dormir. Como era muito tarde, no deve ter querido acordar-te.
       - Ah. - Andy respirou fundo, aliviado. Pressentira que houvera uma discusso entre os pais na noite anterior e ficara muito preocupado. O acidente da irm 
tinha alterado todo o seu ambiente: de um momento para o outro, nada mais lhe oferecia segurana, e as pessoas de quem ele dependia mostravam-se receosas, perturbadas 
e zangadas. - Hoje j posso ver a Allie?
       - Ainda no, meu querido. - De forma alguma Page permitiria que ele a visse. Era um quadro aterrador para todos, especialmente para uma criana de sete anos: 
Allyson tinha em redor da cabea ligaduras em vez de cabelo e os seus olhos estavam tapados com compressas; encontrava-se ligada a uma centena de tubos e fios, rodeada 
de mquinas e monitores e no ar pairava indefinido o cheiro da doena e da morte. - Quando ela estiver melhor... quando acordar... - prometeu Page, voltando as costas 
ao filho para que ele no visse as suas lgrimas. Jane abraou-a, colocando um brao  volta dos seus ombros.
       - Page, precisas muito de descansar. Se quiseres eu levo o Andy  escola para te ires deitar. - Andy, porm, ouvindo esta sugesto, no escondeu a sua desiluso. 
No fazia a mais pequena idia de como Page estava cansada, ou de como era desgastante o ambiente no hospital e, mais do que tudo, desejava ter a me perto dele.
       - Eu estou bem - assegurou Page co um longo suspiro e bebendo em seguida um gole de caf. - Daqui a dez minutos j estou de volta e depois ento vou-me deitar. 
- Page j tinha decidido que iria dormir at Trygve a vir buscar para o funeral, pois, em caso de necessidade, no hospital sabiam onde a encontrar. Precisava desesperadamente 
de umas horas de descanso, sentia que no tinha foras para dar nem mais um passo. No caminho para a escola do filho, teve que lutar para no adormecer ao volante 
e, de regresso a casa, sentiu os olhos a fecharem-se. Antes de se deitar, no entanto, ainda voltou a confirmar se naquela sua curta ausncia Brad havia deixado algum 
recado, mas no havia nada no atendedor de chamadas e era ainda demasiado cedo para ligar para o seu local de trabalho.
       Era-lhe ainda particularmente difcil aceitar que o marido tivesse passado toda a noite fora, sem sequer telefonar para justificar a sua ausncia. Mas, pensando 
melhor, que tipo de justificao poderia ele ter dado? "Desculpa, mas vou passar a noite com a minha nova namorada"? Ainda no conseguia compreender a sbita modificao 
que o seu mundo sofrera;
       quer a sua vida de casada, quer o seu relacionamento com o marido tinham ficado subitamente reduzidos a uma iluso.
       s oito e quinze Page estava finalmente deitada. Estranhando um pouco a intensa claridade, a princpio teve dificuldade em sossegar, pensando em Allyson e 
no terrvel susto dessa noite; mas quinze minutos mais tarde, o cansao sobreps-se a tudo o mais e Page adormeceu profundamente em cima da cama, ainda vestida com 
a roupa que levara ao hospital. Dormiu at ao meio-dia, hora em que acordou sobressaltada pelo insistente toque do telefone. Saltou da cama o mais depressa que pde, 
temendo que a chamada viesse do hospital.
       - Estou...? - Com a voz ainda trmula, Page respirou de alvio ao verificar que era a me quem lhe telefonava.
       - Santo Deus, o que  que tens? Ests doente?
       - No, me... eu... eu estava a dormir... - Havia tanto que contar e era to difcil comunicar com a me.
       - Ao meio-dia? Que estranho! Estars grvida... ?
       - No, no estou grvida, me. Estive acordada toda a noite... - "com a sua neta, que quase morreu", continuou ela em pensamento. Subitamente, Page sentiu 
remorsos por no ter contado ainda nada  me.
       - No me telefonaste durante o fim-de-semana, conforme tinhas prometido. - A me adorava ter motivos para se queixar e gostava ainda mais de desempenhar o 
papel de vtima. Costumava acusar Page por no lhe dar muita ateno, mas a verdade  que ela era muito mais chegada  sua outra filha, Alexis. A irm mais velha 
de Page vivia em Nova Iorque e passava a maior parte do tempo com a me.
       - Tenho estado muito ocupada, me. - Como  que se comunicava uma fatalidade daquelas? Fechou os olhos, esforando-se por dominar a emoo. - A Allyson sofreu 
um acidente na noite de sbado.
       - Como  que ela est? - A me de Page ficou aterrada. Nem mesmo ela conseguia fugir do peso dessas palavras. Apesar de ser uma mulher inteligente, esforava-se 
por no viver de acordo com a realidade e sim num mundo de fantasia que sabia no existir.
       - Est em coma. Sofreu um grande traumatismo craniano e foi sujeita a uma neurocirurgia no domingo, mas ainda no sabemos como  que ela vai ficar. Desculpe 
no a ter informado antes, me, mas no sabia o que lhe contar. Estava  espera de ter alguma certeza sobre o estado dela.
       - Como est o Brad? Page estranhou a pergunta.
       - O Brad? Bem. Ele no esteve envolvido no acidente. Ela encontrava-se acompanhada por um grupo de amigos.
       - Deve ter sido um golpe muito duro para ele. - Era, sem dvida, uma atitude tpica da me; concentrava a sua ateno no na filha, nem no fato de Allie correr 
risco de vida, mas sim no genro. Se Page no conhecesse to bem a me teria julgado que no tinha percebido o que ela dissera.
       -  difcil para todos ns: para o Brad, para mim, para o Andy e para a Allie...
       - E ela vai ficar bem?
       - Ainda no sabemos.
       - Tenho a certeza que sim. A princpio pode parecer que no, mas h cada vez mais pessoas que sobrevivem a acidentes. - "Deus meu... s mesmo a minha me 
poderia dizer isto... insiste em fugir da realidade a qualquer custo. No mudou nada. Mas talvez seja difcil entender o estado em que ela est, sem antes a ver." 
- Tenho lido relatos espantosos sobre indivduos que sofreram traumatismos cranianos, estiveram em coma e que depois regressaram ao seu estado normal. Ela  muito 
jovem... vai ficar bem. - A sua me parecia to segura... Page gostaria de poder sentir a mesma certeza.
       - Espero que sim... - respondeu com voz dbil, fixando o seu olhar no tapete e pensando como seria possvel algum comunicar com a me. Desde que completara 
catorze anos nada havia mudado. A me continuava a ouvir e a acreditar apenas naquilo que queria, e em nada mais, mesmo que aquilo que se lhe tentasse comunicar 
fosse de fato relevante.
       - Eu vou dando notcias.
       - Dize-lhe que a av no se esquece dela - pediu Maribelle Addison com determinao. - Dizem que as pessoas em coma ouvem tudo. Tu costumas falar com ela 
Page?
       As lgrimas corriam pelo rosto dela.  claro que falava com a filha... repetia-lhe o quanto a amava e implorava-lhe que no desistisse de lutar, que no os 
deixasse...
       - Costumo - confirmou ela, em voz baixa e rouca.
       - Ainda bem. No te esqueas ento de lhe dizer que a av e a tia Alexis gostam muito dela. - E acrescentou:
       - Preferias que estivssemos a contigo...? - Elas iam a quase todo o lado juntas. Page apressou-se a responder, certa de que a presena da me e da irm 
em nada ajudaria.
       -No...! Caso haja necessidade, eu telefono.
       - Est bem, querida, se precisares de ns avisa. Eu volto a falar contigo amanh. - Dir-se-ia que estavam a marcar a data de um simples jogo de bridge. Era 
de fato espantoso! Ela estava completamente segura e confiante de que Allyson iria melhorar, e nem por um s momento receara uma outra possibilidade. Como era hbito, 
no proferia uma palavra de consolo e de apoio  sua filha mais nova.
       - Obrigada, me. Se acontecer alguma coisa eu aviso-a.
       - Est bem, filha. Amanh, eu e a Alexis vamos s compras, por isso  melhor eu telefonar-te quando chegar a casa. D um abrao meu ao Brad e ao Andy.
       - Dou, sim. - Depois de desligar Page ficou durante muito tempo de olhos fitos no cho, tentando afastar da sua memria o perodo em que vivera com a me 
e com a irm. .. e em que fora forada a conviver com todas as mentiras e com a espantosa capacidade que estas possuam para fugir da realidade. Alexis fazia-o sem 
uma s falha, seguindo todos os passos da me. Para elas, estava sempre tudo bem, nunca ningum tinha um procedimento incorreto, e caso tivesse, isso nunca era mencionado; 
para elas, a superfcie nunca apresentava nenhuma mancha, as guas eram sempre tranqilas, mas no fundo, nada era limpo, nem calmo. Page quase se afogara nessas 
guas. Mal tinha podido esperar para deixar aquele ambiente. Sara de casa assim que iniciara o seu curso de Belas-Artes. A famlia opusera-se e recusara pagar-lhe 
os estudos, mas ela decidira trabalhar como free-lance e empregara-se temporariamente num restaurante no turno da noite, de forma a poder custear o seu curso. Faria 
tudo o que estivesse ao seu alcance para sair daquela casa, pois sabia que a sua sobrevivncia dependia disso.
       Estava de tal forma embrenhada nos seus pensamentos que nem o ouviu entrar, tal como ele no se apercebeu da sua presena. Quando Page se levantou, deparou-se-lhe 
Brad de p no meio do quarto e ambos tremeram de susto ao verem-se frente a frente.
       - Por amor de Deus, Page...! - exclamou ele, fitando--a. - Porque  que no disseste nada?
       - No te vi entrar. Resolveste vir almoar a casa... ? - ironizou ela, friamente. Estava ainda sentada em cima da cama, com a roupa amarrotada com que se 
deitara, e o cabelo por pentear. Apesar disso, o seu aspecto fatigado melhorara consideravelmente.
       - Vim s mudar de roupa - esclareceu ele, enquanto se dirigia  casa de banho para depositar uma camisa no cesto da roupa para lavar.
       - Vieste a casa pr a lavar a roupa que usaste ontem, foi? Quando  que a desejas passada a ferro? Ou vieste apenas buscar uma camisa lavada para poderes 
novamente passar esta noite fora? - indagou Page, utilizando um tom extremamente irnico e agressivo. - No te passou sequer pela cabea telefonares? Ou desististe 
completamente de fazer parte da nossa famlia?
       - No vejo com que objetivo telefonaria, se tu no estavas e casa... - A dureza do raciocnio dele fez com que Page sentisse vontade de o esbofetear.
       -  claro que no te ocorreu telefonar para o hospital ou para casa da Jane... Como no foste buscar o Andy, ele julgou que tivesses sofrido tambm um acidente! 
Ou j no te preocupas com ele? A Allie quase morreu ontem  noite, sabias?! - Page no fazia tenes de o poupar, e ele deu mostras de ter ficado bastante atingido.
       - Mas ela est bem... ?
       - Est a resistir, mas com grandes dificuldades. Brad fitou-a, amargurado. Desejara esquecer tudo e tinha sido um alvio estar longe do hospital, afastado 
de Page e at mesmo de Andy, pelo menos por uma noite.
       - No me lembrei que podia telefonar para outro stio... -justificou ele, consciente de que utilizava uma pssima desculpa.
       - Tambm eu gostava de poder dar-me ao luxo de esquecer. Tens mais sorte do que eu - retorquiu Page com frieza. Mas ela no podia nem conseguira afastar-se. 
E trs dias antes, no se afastaria igualmente do marido, embora agora tudo tivesse mudado. - No podes "esquecer" o que se est a passar Brad. Quer queiras, quer 
no, esta agora  a nossa realidade e vais ter de a encarar. J pensaste o que  que sentirias se a tua filha tivesse morrido ontem  noite?
       - Como  que julgas que eu me sentiria? - perguntou ele, rudemente.
       - O Andy tambm precisa muito de ti. E talvez precises tambm de estar com a Allyson. Se alguma coisa lhe acontecer... - Ela no poderia estar seno ao lado 
da filha; mas Brad no estava de acordo:
       - A minha presena no vai modificar nada - disse ele, autojustifcando-se. - Ficar ao lado dela no vai determinar que ela viva ou deixe de viver, s vai 
aumentar ainda mais o meu desnimo. E no penso que a melhor atitude seja tentar que ela sobreviva a qualquer custo.
       - O que  que ests a dizer?! - As palavras dele horrorizavam-na. - Que ns devamos deix-la morrer...? - S de se ouvir a pronunciar essa hiptese, ela 
sentia vontade de gritar. O que  que se passava com ele? Quais eram as suas intenes?
       - Eu quero a Allie de volta. A Allie! Tal como ela era e viria a ser, se nada disto lhe tivesse acontecido: bonita, saudvel, inteligente, capaz de realizar 
tudo aquilo que desejava. Tens a certeza que queres que ela viva se no voltar a ficar como era? Queres ocupar-te de uma filha deficiente para o resto da vida?  
esse o destino que lhe queres oferecer? Se pensas assim, eu no penso. Prefiro perd-la agora, se  esse o futuro que se adivinha para ela. E ficar sentado ao seu 
lado, a ver o crebro dela inchar e uma mquina a respirar por ela, no vai fazer a mais pequena diferena! J fizemos tudo quanto podamos ter feito; agora s nos 
resta esperar. E esperar aqui ou esperar no hospital  exatamente a mesma coisa. - E se no fosse a mesma coisa? E se ela tivesse conscincia de quem estava ao seu 
lado?
       Page no podia esconder o seu desagrado.
       - O Andy precisa tanto de ti como ela. Ou tambm achas que isso  secundrio? - Estava decidida a no lhe dar trguas, mas nesse instante, vendo-o agir daquela 
forma, sabia que ele no mereceria a sua condescendncia. Brad abandonara-a, e aos filhos, por motivos puramente egostas.
       - J te ocorreu que talvez eu no consiga lidar com esta situao? - argumentou ele, dando outro passo na sua direo. Detestava ter de a confrontar; dir-se-ia 
que de cada encontro resultava mais uma discusso e mais uma srie de reprovaes e acusaes.
       - S me ocorreu que ests apenas a tentar fugir de algo que  desagradvel para todos ns e a tomar pssimas decises. O tempo no pra porque tu assim o 
desejas Brad. No podes fazer "um intervalo" para decidires a tua vida amorosa. A Allie precisa de ti, independentemente da tua opinio acerca do futuro dela. Precisa 
ainda mais de ti por causa da incerteza desse futuro! E o Andy tambm precisa do pai. Como  que achas que ele se sente ao ver a famlia ruir diante dos seus olhos? 
Ele est cheio de medo e muito assustado... sabe que a irm pode morrer, no faz idia de onde o pai esteja e de repente est a viver por favor em casa dos vizinhos!
       - Talvez assim seja a forma de te convenceres que deves passar a noite em casa - afirmou Brad, para logo depois se sobressaltar ao ver Page levantar-se da 
cama e dar resolutamente vrios passos na sua direo.
       - Deixa-me dizer-te aquilo que penso, Brad: at que a Allie acorde ou at que a Allie morra, eu s a vou deixar quando for absolutamente necessrio. E se 
ela morrer... - os olhos de Page encheram-se de lgrimas, mas a sua voz no perdeu a firmeza - quero estar com ela nesse momento, dando-lhe a minha mo e mostrando-lhe 
que estamos juntas, tal como estvamos quando ela nasceu. Garanto-te que no vou estar aqui ao teu lado nesse momento, a no ser que estejas comigo no hospital, 
nem sequer tenciono ficar a fazer companhia ao Andy. Mas podes ter a certeza absoluta de que no vou estar a passear com o meu amante, fingindo que nada disto aconteceu! 
- Quando acabou de proferir estas palavras Page voltou-lhe as costas. No podia suportar por mais tempo o olhar distante do marido, que a fazia aperceber-se de que 
ele j os havia deixado.
       - Page... - Ela voltou a encar-lo, surpreendida por o ouvir chorar. Ele deixou-se cair numa poltrona e cobriu o rosto com as mos. - Eu no suporto ver a 
Allie naquele estado.  como se ela j tivesse deixado de viver...  de mais para as minhas foras. - Page no conseguia entender o que o levava a admitir que tinha 
qualquer outra opo. Ela prpria tambm no suportava ver a filha assim, mas sabia que precisava de o fazer, pela prpria Allie.
       - Mas ela no deixou de viver - afirmou Page com firmeza, tentando consol-lo, mas receosa de se aproximar mais do marido. Entre os dois existiam agora muitas 
barreiras, muita dor, muito sofrimento, muita desiluso. Page j no confiava nem acreditava em Brad e at j punha em causa se de fato o conheceria. - Ainda h 
uma esperana para ela, Brad. Se ela ainda no perdeu essa esperana, no podes ser tu a faz-lo.
       - Tudo  melhor do que viver artificialmente Page.
       - No digas isso! - pediu ela com veemncia. Page nunca antes havia desistido facilmente e no conseguia entender a atitude dele. Brad dava prioridade  soluo 
mais cmoda, at mesmo para Allie, sem se importar que essa mesma soluo os fizesse perder ou desistir da filha. E com essa desistncia Page nunca poderia concordar.
       - No sei, mas... - prosseguiu ele, sentindo-se culpado plos seus sentimentos, mas no os conseguindo evitar. - Quando a vi, no consegui imaginar que ela 
viesse a recuperar, e no quero que ela vegete para o resto da vida. E tudo aquilo que os mdicos prevem... o estado de coma... a paralisia cerebral... a perda 
das capacidades motoras... o inchao da massa enceflica... Como  que, depois de tudo isto, se pode admitir que ela volte a ser normal?
       - Porque ainda h uma esperana. Talvez no seja fcil. .. talvez ela no recupere totalmente... talvez at nem sobreviva. ..! Mas se ela sobreviver... - os 
olhos dela voltaram a encher-se de lgrimas - se a Allie no morrer, ns temos que a ajudar.
       Brad fitava-a, transtornado, chorando silenciosamente.
       - Eu no posso... no consigo encarar isto Page. - Vendo-o to amedrontado, ela, aproximando-se dele, abraou-o, permitindo que ele encostasse a cabea ao 
seu peito. Afagava-lhe suavemente o cabelo, desejando que nenhum dos dois tivesse chegado a um nvel to elevado de desespero e autodestruio. No entanto, era tarde 
de mais para o evitar, tal como no se podiam evitar as conseqncias do desastre de Allyson. - Tenho tanto medo... - murmurou ele, encostando ainda mais a cabea 
contra o peito de Page. - No quero que ela morra... mas tambm no quero que ela fique assim Page... no consigo v-la naquele estado... desculpa o que eu fiz ontem 
 noite... mas no tive coragem para enfrentar mais nada. - Ela mostrava-se compreensiva, mas sabia que a atitude dele apenas dificultava ainda mais a sua posio. 
Brad queria fugir de tudo aquilo, tal como havia feito na noite anterior; e para o realizar, no se importava de a abandonar, obrigando-a a enfrentar sozinha o horror 
por que a filha passava. - E se ela morrer... ? - perguntou ele, lanando-lhe um olhar angustiado.
       Antes de responder, ela fez uma pausa e respirou fundo.
       - No sei - comeou ela. - Ontem  noite pensei que ela fosse morrer... mas ela resistiu. E hoje sabemos que tem mais um dia... mais uma hora... s nos resta 
rezar. - Ele acenava afirmativamente com a cabea, desejando possuir a fora e a coragem de Page. Continuava a sentir vontade de fugir daquele pesadelo, e a existncia 
de Stephanie facilitava-lhe muito o cumprimento desse desejo. Esta ltima sentia pena de Brad e gostava de o poupar de todo o sofrimento que ele sentia ao ver a 
filha; assim, deixava-o pensar que a sua presena em nada contribuiria para ajudar Allyson e convencia-o de que Page sabia muito bem como tomar conta de tudo, insistindo 
para que ele deixasse a mulher. Contudo, Brad, ao notar a luta que Page travava contra o desnimo e a dor, sentia-se dominado plos remorsos e pela culpa, consciente 
de que a sua atitude estava errada e revelava fraqueza.
       Inesperadamente, encostado ao corpo de Page, Brad sentiu um desejo incontrolvel de estar ainda mais prximo dela, de a sentir mais perto de si. Enlaando-a 
com os braos, f-la sentar-se ao seu colo para que a pudesse beijar. Page, porm, ofereceu imediatamente resistncia e fitou-o, chocada.
       - Como  que podes pensar nisso?! - Depois de tudo o que o acidente revelara acerca dele Page no conseguia admitir que voltassem a estar fisicamente prximos. 
Pelo menos, no no momento presente, e ela admitia que provavelmente nunca mais.
       - Eu preciso de ti, Page.
       - A tua atitude repugna-me! - exclamou ela. Afinal, ele tinha outra mulher. Que mais ainda poderia desejar? Um harm? Antes de ela estar a par da existncia 
de Stephanie, no sentia dessa forma, mas agora, era-lhe impossvel adotar uma outra atitude. Todavia, ele levou a cabo a sua inteno e beijou-a com um desespero 
que intensificava o desejo que naquele momento sentia. Mas Page no modificou em nada a sua posio, apenas aumentou o seu distanciamento. Subitamente, ele tornara-se 
um desconhecido, que pertencia agora a uma outra mulher e no mais a ela.
       Por m Page conseguiu libertar-se e afastou-se resolutamente, deixando-o ainda sem flego.
       - Lamento - justificou ela, deixando-o sozinho, irritado e humilhado. Brad tinha conscincia de que a sua atitude no era correta, que estava a magoar profundamente 
a mulher e que no deveria preteri-la em favor de Stephanie, mas tal como Page to bem definira, no momento presente ele s tomava "pssimas decises".
       Aps alguns minutos Brad foi encontr-la a fazer caf na cozinha. Ela ouviu-o entrar, mas continuou de costas voltadas para a porta.
       - Peco-te que me desculpes. Deixei-me levar pela emoo. Depois de tudo o que tem acontecido, sei que a minha atitude foi bastante imprpria. - Page tinha 
de se esforar por acreditar que h uma semana atrs havia feito amor com ele, desconhecendo por completo a existncia de algum problema no seu casamento ou de uma 
outra mulher na vida dele. Mas agora nada era como antes; e dada a seriedade do relacionamento dele com Stephanie, Page no conseguia admitir a idia de Brad a tocar. 
Talvez a sua atitude no tivesse sido to rgida se ele houvesse manifestado arrependimento e lhe tivesse prometido pr um fim quela aventura; mas em vez dessa 
promessa, existia apenas a hiptese do m do seu casamento, visto que at esse momento ele no dera mostras de desejar alguma outra possibilidade. Agora, tudo se 
tornara muito claro: Brad preferira abandon-los a todos na noite anterior, mesmo sabendo da possibilidade de surgi uma emergncia, e numa altura em que a famlia 
necessita dele como nunca antes havia necessitado. Isso provava que Stephanie ocupava o primeiro lugar na vida dele e era essa concluso a que Page no podia deixar 
de chegar, e que tornava ainda mais pesado o fardo que carregava.
       - Eu preferia que me desses o nmero de telefone dela. Se acontecer alguma coisa, assim j sei onde te encontrar. - Como ela permanecia de costas, Brad no 
se apercebeu de que Page tinha os olhos cheios de lgrimas.
       - Eu... isto no vai voltar a acontecer. Esta noite fico em casa com o Andy.
       - No interessa. - Antes de prosseguir, ela decidiu finalmente encar-lo e Brad no pde deixar de ficar intimidado pela sua expresso: a mgoa, a ira e a 
determinao eram evidentes. Se por breves instantes tinha existido alguma hiptese de reaproximao, essa hiptese desaparecera. - Vai voltar a acontecer e eu quero 
ficar com o nmero.
       - Est bem. Eu deixo-o anotado no escritrio.
       Page concordou e bebeu em seguida um trago de caf.
       - Onde  que vais estar hoje? - Brad partia do princpio que ela regressaria para o hospital, mas Page surpreendeu-o.
       - Vou ao funeral do filho dos Chapman. Queres vir comigo?
       - No fao questo. Esse tipo quase matou a minha filha. Como  que podes ir a esse funeral? - perguntou ele num tom agressivo. Page fitava-o, mal podendo 
disfarar o seu desacordo e o seu desdm.
       - Os Chapman perderam o seu nico filho. E no h provas de que tenha sido o rapaz o causador do acidente. Como  que podes deixar de ir?
       - No lhes devo nada - respondeu ele, friamente. - E os testes do hospital provam que ele tinha bebido.
       - Mas muito pouco. E quanto ao outro condutor? No pode ser ele o culpado? - Tal como Page, Trygve igualmente admitira essa hiptese, mas Brad no. Para ele, 
era muito mais fcil responsabilizar Phillip Chapman pelo ocorrido.
       - Laura Hutchinson  casada com o senador e  me de trs filhos. No se trata de nenhuma irresponsvel que costume conduzir alcoolizada e fazer manobras 
perigosas. - Ele mostrava-se absolutamente certo.
       - Como  que podes ter tanta certeza? - Page j no estava certa de mais nada, nem da conduta da mulher do senador, e muito menos do comportamento do seu 
marido. - Como  que no tens dvidas de que ela possa ter causado o acidente?
       -  simples: tenho tanta certeza como a Polcia. Se no a obrigaram a fazer uma anlise ao sangue,  porque tinham a certeza de que no havia necessidade 
que ela a fizesse. Caso contrrio, t-la-iam obrigado a verificar a existncia de lcool no sangue e t-la-iam incriminado. - A posio dele era bvia.
       -  possvel que tenham ficado intimidados com a posio social dela. - Ultimamente, discutiam por tudo e por nada e Page sentia-se aliviada pelo fato de 
Andy no os poder ouvir. A presso que os dois sofriam era esmagadora, mas  parte esse aspecto, muitos outros estavam igualmente em crise e ela nunca chegara a 
inteirar-se desse tato. Contudo, o acidente encarregara-se de colocar tudo a descoberto.- Seja como for, eu vou ao funeral. O Trygve, vem buscar-me s duas e um 
quarto.
       Ele levantou uma sobrancelha e comentou, ironicamente:
       - Que romntico...
       - No te atrevas a insinuar nada! - Ns dois temos passado os ltimos trs dias nesse hospital que tu tanto odeias,  espera de saber se vo ou no resistir.
       - Mas que simptico da sua parte...! Talvez assim vocs dois possam se tornar "amigos", visto que eu j no atraio mais como homem. Apesar de a entender Brad 
estava ainda ressentido com a recusa dela e irritado pelo elogio que ela tecera a Trygve.
       - A simpatia , de fato, uma das suas virtudes, alem de ser tambm um grande amigo. Tem sido ele a apoiar-me, acompanhar-me sempre. E na noite passada, foi 
ele quem esperou comigo, e quem me deu a mo quando ningum sabia do teu paradeiro. Aconteceu o mesmo na noite do acidente, quando estavas com a tua amiguinha no 
John Gardiner. Ele tem sido incrvel. E sabes que mas? Tem a esperteza suficiente para refrear os seus mpetos de macho e pensar primeiro no bem-estar dos primos, 
ao contrrio de muitos outros que do prioridade ao seu desempenho sexual! Por isso, se ests  espera que eu fique envergonhada ou com remorsos, no precisas de 
te incomodar mais. O Trygve Thorensen no tem o mnimo interesse em mim como mulher, mas no julgues que isso me incomoda, porque eu no estou  procura de um namorado. 
Eu preciso de um amigo que no me abandone, j que deixei de ter um marido.
       Depois do desabafo de Page, Brad ficou sem resposta, limitando-se apenas a bater com a porta da casa de banho. Dez minutos mais tarde,e sem lhe voltar a dirigir 
a palavra, bateu com outra porta, desta vez com a da sada. Page dividia-se entre a fria e a tristeza. Entre os dois j no existia o mnimo entendimento, e o clima 
deteriorara-se.
       Depois de Brad sair Page tomou uma ducha e vestiu-se para o funeral. Trygve veio busc-la exatamente  hora marcada. Trazia um fato azul-escuro, uma camisa 
branca e uma gravata escura, e nessa ocasio encontrava-se particularmente sereno e atraente. Page decidira-se por um fato de saia e casaco de linho preto que adquirira 
da ltima vez que visitara a me em Nova Iorque.
       A Igreja Episcopal de S. Joo, local onde se realizava o servio religioso, encontrava-se repleta de centenas de jovens adolescentes. Ao v-los, Page sentiu 
que no estava ainda emocionalmente preparada para essa manifestao coletiva de dor patente em cada um dos muitos rostos jovens que choravam a perda de um amigo. 
 entrada, era distribuda uma impressionante fotografia de Phillip com a equipa natao, e mais tarde Page reparou que os jovens que a distribuam eram os mesmos 
que figuravam na fotografia. Ao ouvir as primeiras notas musicais Page no pde reter as lgrimas. Calculou que se encontrassem presentes pelo menos duas ou trs 
centenas de adolescentes, e estava certa de que Allyson seria um deles, caso no se encontrasse em coma no hospital! 
       Nessa altura, os pais de Phillip deram entrada na igreja e ocuparam o banco da frente, mais dignos do que nunca no seu sofrimento. Estavam acompanhados por 
um outro casal de mais idade, os avs de Phillip, os quais mostravam nos seus rostos a imensa dor desse momento. Contempl-los era o suficiente para provocar mais 
lgrimas. 
       O pastor mencionou no seu sermo os mistrios do amor de Deus e a terrvel dor que a perda de um ente querido provoca. Referiu-se a Phillip como um jovem 
muitssimo valoroso, a quem todos admiravam e a quem associavam um futuro promissor. Page, soluando, mal podia ouvir as suas tocantes palavras, tentando no pensar 
naquilo que seria dito no servio religioso do funeral de Allyson. O discurso seria praticamente idntico, pois tambm ela merecia a amizade e a admirao de todos. 
A dor causada pela sua perda seria certamente insuportvel.
       O pranto de Mrs. Chapman acompanhou toda a cerimnia e no fim o coro do liceu entoou alguns cnticos. Depois disso, todos os presentes foram convidados a 
dirigir-se ao altar, para que, num momento de prece, fosse prestada a ltima homenagem a Phillip. Foram principalmente os seus colegas e amigos que se apressaram 
a obedecer a esse convite, dirigindo-se ao altar em grupos ou individualmente, chorando e dando as mos, enquanto colocavam flores junto ao caixo. Nessa altura, 
no havia ningum que no chorasse na igreja, e ao contemplar o desgosto que aqueles muitos rostos jovens deixavam transparecer, a tristeza de Page aumentava. 
       Foi ento que avistou Laura Hutchinson, chorando silenciosamente num dos bancos de trs. No estava acompanhada e mostrava-se to comovida quanto todos os 
de mais. Page fitou-a durante bastante tempo, mas tudo quanto pde observar foi mais uma profunda manifestao de mgoa pela morte daquele jovem. Todos se mostravam 
demasiado abalados para poderem proferir alguma palavra; a dor sobrepunha-se a tudo mais.
       Ao sarem da igreja, Page e Trygve repararam ento na presena dos jornalistas, que seguiram Laura Hutchinson at esta entrar na sua limusine sem lhes dirigir 
a palavra. Em seguida, tiraram fotografias a alguns dos jovens que  sada da igreja permaneciam em grupos, chorosos. O pai de Phillip, porm, enfureceu-se com mais 
essa intromisso da imprensa e chamou aos jornalistas exploradores insensveis, enquanto alguns amigos o tentavam poupar, afastando-o dali. Mas mesmo depois disso, 
os jornalistas no se retiraram, permanecendo apenas um pouco afastados. Afinal, aquela continuava a ser uma das notcias mais polmicas do momento.
       Depois do servio religioso, havia uma recepo no auditrio do liceu e a seguir os Chapman convidaram alguns amigos a acompanh-los a casa, mas Page no 
se sentia com coragem para comparecer em nenhum desses stios. Tudo o que desejava era poder estar sozinha, de forma a poder recuperar do terrvel desgaste emocional 
provocado pela tocante cerimnia. Voltou-se ento para Trygve, que permanecia em silncio ao seu lado e constatou que ele havia chorado tanto quanto ela.
       - Est bem? - perguntou-lhe ele gentilmente, ao que Page respondeu com um sinal afirmativo, mas recomeando de seguida a chorar. - Sim, eu sei... Vamos, eu 
levo-a a casa. - Ela seguiu-o at ao carro, onde ambos permaneceram durante algum tempo em silncio. Como no tivera nimo para falar aos pais de Phillip, Page deixara 
o seu nome anotado nas folhas de presena  entrada da igreja. Mais tarde, constava nos jornais que mais de quinhentas pessoas haviam assistido quele servio.
       - No foi nada fcil... - comentou ento ela finalmente, tentando recuperar o flego. Trygve contemplou-a, sentindo-se esgotado pelo choque emocional.
       -  horrvel. No h nada pior do que isto. Espero sinceramente nunca viver o suficiente para assistir  morte de um dos meus filhos. - Contudo, Trygve sentiu-se 
imediatamente arrependido por ter deixado escapar aquele desabafo, recordando-se de que Allyson no estava ainda fora de perigo. Mas Page entendeu, j que sentia 
exatamente o mesmo que Trygve.
       - A mulher do senador teve uma atitude bastante corajosa em ter vindo. Os pais do Phillip poderiam ter ficado incomodados com a presena dela.
       - Sim, mas a imprensa vai ficar muito impressionada com a atitude dela, salientando a sua presena e a sua humanidade. Foi uma medida bastante inteligente 
- finalizou ele, com desagrado.
       - No est a ser demasiado cnico? - indagou ela, sem rodeios. - Talvez ela aja com sinceridade.
       - Duvido... eu sei como so os polticos e tenho a certeza de que foi o marido quem a aconselhou a vir. Talvez o acidente nem tenha sido causado por ela, 
talvez no tenha a mnima responsabilidade, mas enquanto isso no for prova do, a vinda dela ao funeral de Phillip s a pode beneficiar.
       - Ento acha que foi esse o motivo da sua vinda? - perguntou Page, desapontada.
       - No posso ter a certeza, mas  muito possvel que sim. Embora no saiba explicar bem porqu, tenho a sensao de que foi ela a responsvel e que o mido 
no teve culpa nenhuma, mas se calhar desejo tanto acreditar nisso que tiro concluses erradas.
       O mesmo sentiam os pais de Phillip. Trygve ligou ento finalmente o motor e seguiu uma fila de carros que se dirigia ao liceu, tencionando ir at casa de 
Page. Foi s a meio do caminho que ela se lembrou que precisava de regressar ao hospital para ir buscar o seu carro. Alm disso, depois daquele momento, desejava 
muito poder estar com Allie, poder confirmar que a filha ainda estava com eles, com vida, depois da dor que o funeral de Phillip expusera e que ela partilhara.
       - Importa-se de me deixar no hospital? - pediu ela, esboando um sorriso tnue e triste. Tinha sido uma tarde muito difcil para os dois. Page contatara com 
o hospital vrias vezes ao longo do dia, mas o estado de Allyson continuava inalterado.
       - Claro que no, eu tambm preciso de ir ver a Chloe. Depois disto, o simples fato de elas estarem vivas j  uma felicidade...
       Page concordou, recordando as palavras de Brad na ltima discusso, acerca de no aceitar Allie caso esta no recuperasse por inteiro a sade, palavras essas 
que tinham sido proferidas com firme convico.
       - Eu prefiro ter a Allyson em qualquer estado a perd-la. Talvez at no esteja certa, mas  isso que sinto... o Brad diz que prefere perd-la a v-la de 
alguma forma diminuda.
       - Desculpe, mas para ser sincero, essa opinio parece-me demasiado elitista e terrivelmente pretensiosa. Eu concordo consigo, prefiro ter aquilo que se me 
oferece a no ter nada.
       Page concordava com Trygve, mas abria uma exceo para o seu casamento. Nesse campo, estava muito menos disposta a transigir, pois, a seu ver, esse era um 
caso totalmente distinto.
       - Ele parece no conseguir aceitar o que aconteceu e est a tentar fugir da realidade - afirmou ela pausadamente, tentando no se deixar dominar de novo pela 
revolta que sentia pelo desaparecimento do marido na noite anterior.
       - H pessoas que no conseguem enfrentar uma fatalidade.
       - Sim, pessoas como a Dana... e o Brad; ento porque  que ns as enfrentamos? Ser uma questo de coragem ou apenas de estupidez? - indagou ela, sorrindo.
       - Talvez ambas as coisas sejam verdadeiras a nosso respeito - respondeu ele, tambm com um sorriso. - Julgo que  apenas uma questo de no termos outra escolha. 
Quando no h mais ningum, faz-se aquilo que tem de ser feito. - Ele contemplou-a, tencionando colocar-lhe uma pergunta direta. Tinha passado tempo suficiente com 
Page para poder usar agora de total franqueza com ela. - E isso no a incomoda? - Trygve estava intrigado com a atitude dela, com a sua aparente aceitao daquilo 
que era, obviamente, um casamento no muito feliz. Desde a noite do acidente que a presena de Brad tinha sido meramente ocasional.
       - Para ser franca, incomoda-me e muito! - admitiu ela, com um sorriso. -  hora do almoo, tivemos uma enorme discusso exatamente sobre esse assunto.
       - Bom, pelo menos, vejo que tambm  de carne e osso. Se a Dana no estava presente quando eu ou os midos precisvamos dela, eu ficava muitssimo zangado!
       - Mas, no meu caso, existem outros problemas. Trygve tentou manter-se discretamente em silncio, mas ao fim de algum tempo o seu autodomnio cedeu e ele no 
resistiu a fazer-lhe a seguinte pergunta:
       - Problemas srios?
       - Creio que sim - admitiu ela, honestamente. - O suficiente para porem tudo o mais em risco.
       - Ento surgiram de forma inesperada? - perguntou ele, com delicadeza e cautela.
       - Sim, na verdade foram de todo inesperados. Estou casada h dezesseis anos e at h trs dias estava convencida de que tinha o casamento perfeito - explicou 
ela,  medida que o carro se ia aproximando do hospital. - Tudo indica que acreditei numa grande mentira.
       - Talvez no seja bem esse o caso, Page. Todos os casamentos atravessam momentos de crise, de vez em quando. Page abanou a cabea, pensativa.
       - Havia muitas coisas das quais eu no tinha conhecimento. Durante muito tempo, estive a enganar-me a mim prpria sem o saber, mas agora que sei,  muito 
difcil fingir que no est a passar-se nada.  praticamente impossvel! E a altura para isto acontecer no podia ter sido menos indicada. - A voz de Page revelava 
firmeza e determinao.
       - Volto a repetir que h pessoas que reagem de forma muito estranha a determinados problemas.
       - Acontece que o Brad j h muito tempo anda a reagir de uma forma estranha, mas s agora  que foi apanhado com a boca na botija... - Ela sorriu e Trygve 
riu da sua expresso e da forma irnica como Page lhe explicara o que acontecera.
       - Pior para ele - comentou, sorrindo.
       Page espantava-se pela facilidade com que conseguia comunicar com Trygve. Era como se lhe pudesse contar tudo, at aquilo que no conseguia desabafar com 
a irm ou at com Jane Gilson, que era uma velha amiga, mas no uma verdadeira confidente. Depois dos rigores da sua vida de solteira, Page nunca se havia tornado 
ntima de ningum, com exceo de Brad, o que tornava a traio deste ainda mais dolorosa. E agora, para sua surpresa, sentia que podia contar a Trygve at aquilo 
que hesitaria em desabafar com Brad antes de tudo aquilo acontecer.
       Entretanto, j haviam chegado ao hospital e dirigiam-se  unidade de cuidados intensivos, ambos ainda dominados pelas impresses do funeral. Foi um alvio 
estarem com as filhas. Chloe, embora um pouco agitada, estava a reagir bem e Allie continuava como antes. De momento, o seu estado era considerado estvel.
       Dessa vez, Page partiu antes de Trygve. Saiu por volta das cinco horas para ir buscar Andy a casa de Jane. Os pais de uns colegas haviam-no levado ao treino 
de basebol, as por essa altura, eleja devia estar de volta. J perto da casa de Jane, Page mal podia esperar para ver o filho.
       Havia sido uma tarde muito dura, e a sua mgoa regressava todas as vezes que se lembrava das lgrimas que os amigos de Phillip haviam chorado ou da dor que 
o rosto dos seus pais revelava. Ao abandonarem a igreja, todos haviam observado como era profunda a mgoa dos pais de Phillip e Page sentira-se prxima do seu desgosto 
e solidria com a sua dor. Quando tocou  campainha da porta da amiga, ainda podia ouvir os cnticos do coro do liceu.
       - Ol! Como  que ests? - Jane olhava a amiga com insistncia e ansiedade, e ao v-la entrar, franziu o sobrolho e acrescentou: - Ou ser que no devia ter 
perguntado? - Talvez o estado de Allie tivesse piorado, a julgar pela aparncia plida, abatida e extremamente infeliz de Page.
       - Eu estou bem - assegurou ela, calmamente. - Fui hoje ao funeral do Phillip Chapman.
       - Que tal correu? - perguntou Jane, enquanto Page se sentava no sof, exausta.
       - Como seria de esperar. Estavam pelo menos quatrocentos colegas do liceu, e cerca de metade iam acompanhados plos pais.
       - Era mesmo o que tu precisavas num momento destes. O Brad foi contigo?
       Page abanou a cabea.
       - Fui com o Trygve Thorensen. Vimos a mulher do senador, que se mostrou convenientemente abalada e muito digna. Francamente, pensei que era preciso muita 
coragem para ela comparecer ao funeral do Phillip, mas o Trygve julga que ela foi apenas por uma questo de relaes pblicas; como uma representao para os jornalistas, 
de forma a assegurar que a sua inocncia se torne pblica.
       - E ela est, de fato, inocente? - perguntou Jane, sem que realmente o soubesse.
       - Comeo a achar que nunca o saberemos. Provavelmente, nunca ningum poder vir a ser responsabilizado pelo acidente... julgo que acabar por ser considerado 
apenas uma questo de pouca sorte.
       -  possvel... Estiveram l jornalistas?
       - Estiveram, sim, com mais algumas cmaras de televiso e fotgrafos de jornais. Tudo porque Mistress Hutchinson esteve envolvida neste acidente... Nem imaginas 
o quanto custa assistir ao sofrimento de todos aqueles midos amigos do Phillip. - J para no referir o dos seus pais.
       - O artigo que li ontem no jornal insinuava, indiretamente, que o Phillip Chapman tinha sido o responsvel pelo acidente. So apenas boatos ou isso corresponde, 
de fato,  verdade? Ele tinha realmente bebido?
       - Sim, mas no em quantidade suficiente para justificar qualquer efeito secundrio. Dizem que Mister Chapman tenciona processar esse jornal, para limpar o 
nome do filho. Como j te disse, no existe nada que prove a culpa de nenhum dos condutores. No se prova a culpa de Phillip, nem a de Mistress Hutchinson, embora 
ele fosse apenas um mido e tivesse bebido meio copo de vinho... e dois cafs a seguir. - Page e Trygve haviam discutido esse assunto at esgotarem todas as possibilidades, 
mas a verso oficial mantinha-se idntica  inicial: fora um infortnio, um acaso infeliz, pelo qual ningum poderia ser responsabilizado. Contudo, Page no podia 
culpar os pais de Phillip por fazerem questo de clarificar as dvidas que pairavam em relao ao procedimento do filho, j que este fora um jovem excepcional, que 
merecia morrer com a mesma reputao que sempre tivera em vida; mesmo que agora a reputao de Phillip s importasse verdadeiramente aos seus pais.
       Nessa altura, j Andy havia detectado a presena da me e corria ao encontro dela, vestido ainda com o fato de treino. Ao ver o filho, to saudvel, to bonito 
e to ativo, Page precisou, mais uma vez, de empregar todo o seu autodomnio para no chorar; recordou a ltima ocasio em que o levara ao jogo de basebol, alguns 
dias antes, e pde ento avaliar como nessa altura tudo era bem mais simples. Allie no estava em coma e Brad ainda no lhe tinha confessado que a enganava.
       - Como correu o seu dia Mister Andrew Clarke? - brincou ela sorrindo, enquanto o filho se atirava para o seu colo e a abraava.
       - Correu muita bem! Marquei um home-run. - Andy estava orgulhoso de si prprio e a me alegrava-se com o seu contentamento.
       - Vais ser um grande jogador de basebol! Andy tambm se mostrava muito feliz por estar com ela, mas de repente a sua expresso mudou e ele fitou-a com preocupao:
       - Vais voltar j para o hospital? Eu vou ficar outra vez aqui? - perguntou ele.
       - No, tu vens comigo para casa. - Page decidira passar essa noite em casa, pensando no bem-estar do filho. Calculava o quanto ele necessitaria de regressar 
ao seu ambiente normal e desejava poder proporcionar-lhe alguns momentos na sua companhia, o que era possvel, visto o estado de Allie no ter sofrido nenhuma alterao. 
Iria cozinhar-lhe um jantar um pouco mas completo do que apenas uma pizza congelada e queria poder ter a oportunidade de conversar calmamente com Andy, para que 
ele no se sentisse to abandonado.
       - O pai pode fazer um churrasco? - Page no sabia se Brad viria para casa ou se passaria outra noite fora, por isso nada podia prometer ao filho; mas este 
no se mostrou muito decepcionado com a resposta negativa dela: - No faz al. Vamos poder jantar os trs. - Andy mostrava-se deliciado com tal perspectiva, e passados 
alguns minutos me e filho regressaram a casa.
       Page grelhou hambrgueres, assou batatas e fez uma grande salada onde misturou abacate e tomate. Quando se preparavam para comear a jantar Page, surpreendida, 
ouviu Brad abrir a porta de casa. No o esperava, mas mesmo assim, tinha feito comida para trs, no caso de ele se decidir a vir para casa.
       - Pai! - gritou Andy, entusiasmado. Pela sua expresso de ansiedade, Page apercebeu-se do quanto o filho necessitava de estar com os pais.
       - Mas que surpresa...! - exclamou ela, enquanto o marido lhe lanava um olhar de desaprovao, perante a sua ironia.
       -  melhor no comearmos outra vez Page! - respondeu ele, visivelmente irritado. O seu dia tambm no tinha sido fcil, mas Brad fizera questo de vir jantar 
a casa, apenas por causa de Andy. - H jantar para mim? - perguntou ele concisamente, observando a mesa com dois lugares e o jantar que ela servia a Andy.
       - Claro que sim - afirmou Page, oferecendo-lhe logo a seguir um prato j servido. Andy contou ao pai todos os pormenores do jogo, descrevendo o seu home-run 
no quarto tinning. Em seguida, mudou de tema e falou dos colegas de turma, absorvendo avidamente todos os breves momentos que os pais lhe podiam oferecer, quando 
no ocupavam o seu tempo com a irm, gravemente ferida. Page observava o procedimento do filho e apercebia-se cada vez mais do quanto ele precisava da companhia 
dos pais e de como se encontrava assustado; a seu modo, estava to apavorado quanto ela prpria. E, de certa forma, era ainda mais difcil para Andy, j que nunca 
lhe tinha sido permitido visitar a irm.
       - Este fim-de-semana posso ir ao hospital visitar a Allie? - pediu ele, enquanto terminava o jantar. Page alegrou-se ao verificar que ele tinha comido tudo 
e que parecia um pouco menos ansioso do que no incio do jantar. Todavia, ainda no o julgava preparado para ver a irm, pois o aspecto desta era demasiado assustador 
e o perigo ainda no desaparecera. Mas principalmente, caso Allyson no resistisse, Page no desejava que aquela visita se tornasse a ltima recordao que Andy 
guardaria da irm.
       - Ainda no, filho. Temos de esperar at que ela melhore mais um pouco. - Apesar de no ser permitida a entrada a menores de onze anos na unidade de cuidados 
intensivos, o mdico havia-lhe prometido abrir uma exceo no caso de Andy.
       - E se ela demorar muito a melhorar? Eu quero ver a Allie... - Andy comeou ento a choramingar e Page lanou um olhar a Brad, em busca de auxlio, mas este 
no estava atento a nada do que se passava  sua volta. Folheava um jornal, de sobrolho franzido e com uma expresso carregada e infeliz. Stephanie ficara furiosa 
quando ele lhe comunicara que tencionava ir jantar a casa; Brad comeava j a habituar-se a ter constantemente algum a seu lado que lhe cobrava alguma coisa.
       - Logo se v... - respondeu Page a Andy acerca da visita ao hospital, enquanto ia levantando a mesa. Como sobremesa, serviu aos dois gelado com molho de chocolate, 
e para ela encheu apenas mais uma xcara de caf, pois apesar de o filho e do marido no terem reparado Page praticamente no jantara. Aps alguns segundos, dirigiu-se 
a Brad:
       - Porque  que no ls o jornal depois de jantar? - Page detestava que ele lesse durante as refeies, e Brad sabia-o muito bem.
       - Porqu? Tens alguma coisa para me dizer? - argumentou ele bruscamente. Page cerrou os lbios, irritada, enquanto Andy observava os pais com ansiedade e 
preocupao. Nunca os vira falar desse modo anteriormente, e nos ltimos dias parecia que no faziam nada mais seno discutir. Andy estava bastante assustado.
       Depois do jantar Brad sentou-se  secretria para procurar um papel, e Andy dirigiu-se para o seu quarto, cabisbaixo, seguido por Lizzie.
       Page acabou de arrumar a cozinha, ps a mesa para o pequeno-almoo e ouviu de seguida a gravao do atendedor de chamadas. Havia pelo menos uma dzia de mensagens, 
algumas deixadas plos jovens que haviam comparecido ao funeral de Phillip, querendo saber se poderiam visitar Allie. Contudo, os mdicos continuavam a proibir as 
visitas e todos os ramos de flores que chegavam para Allie eram enviados para a enfermaria das crianas, pois no eram permitidas flores na unidade de cuidados intensivos. 
Page sentia-se aliviada por no ter de encontrar os amigos e colegas da filha, porque tinha conscincia de que no seria capaz de lidar tambm com a ansiedade destes. 
A ltima mensagem era de um jornalista, pedindo permisso para lhe colocar algumas questes, mas Page nem sequer se incomodou em anotar o seu nome.
       Fez alguns telefonemas para aqueles amigos de Allyson que haviam pedido informaes sobre o seu estado, mas, como sempre, era-lhe extremamente difcil referir-se 
ao assunto e explicar em pormenor o que se passara, quer fosse aos amigos da filha, quer aos pais destes. Lembrou-se de gravar uma mensagem especial no atendedor 
de chamadas, explicando o estado de Allyson, mas as notcias eram to pouco animadoras e a esperana era ainda to tnue, que acabou por no ter coragem para pr 
em prtica a sua idia.
       Por fim, foi at ao quarto em busca de Andy e encontrou-o sentado em cima da cama a falar com Lizzie. Ele explicava  cadela o acidente de Allyson, mas assegurava-lhe 
que ela ia ficar bem, apesar de ter os olhos vendados e a cabea muito inchada. Fazia uma espcie de resumo dos acontecimentos, embora no muito exato, e Lizzie 
abanava a cauda ao ouvir a voz do mais novo dos seus donos.
       - Ento, meu amor? - disse ela ao filho, sentando-se ao seu lado na cama. Sentia-se extremamente agradecida pelo tempo que podia passar com Andy em casa, 
mas no podia deixar de notar a perturbao dele, e de se preocupar ainda mais por saber que pouco ou nada poderia fazer quanto a isso. Sabia que tinha procedido 
bem ao decidir passar essa noite em casa com ele, pois Andy necessitava muito de ambos os pais; era por isso que, apesar da aparente m disposio de Brad, Page 
no podia deixar de se sentir aliviada com a presena do marido, que sabia ter tambm muita importncia para o filho.
       - Porque  que tu e o pai agora discutem tanto? - perguntou ele, srio. - Dantes, no era assim.
       - Estamos preocupados... com a Allie. Sabes, s vezes os adultos, quando esto tristes ou arreliados, no sabem como reagir e ento resolvem zangar-se uns 
com os outros. Desculpa, filho. Ns no te queremos preocupar. - Page acariciava-lhe o cabelo, numa tentativa de o tranqilizar.
       - Ficas to m quando falas com ele... - Como  que ela lhe poderia explicar que o pai a traa com outra mulher e que o casamento deles havia sido destrudo? 
No podia nem o tencionava fazer.
       -  muito difcil para mim estar com a Allie no hospital.
       - Porqu? Ela no est sempre a dormir? - Nenhuma das explicaes que ouvia fazia sentido para Andy. Era tudo muito difcil, muito complicado e os adultos 
que ele amava agiam de uma forma demasiado estranha.
       - Mas a me preocupa-se muito com ela, assim como se preocupa muito contigo - explicou Page, sorrindo.
       Andy voltou a franzir o sobrolho e perguntou:
       - E com o pai? Tambm te preocupas com ele?
       - Claro que me preocupo. O meu trabalho  preocupar-me com vocs todos, no ? - Depois de o ajudar a vestir o pijama, Page leu-lhe ainda uma histria. Antes 
de dormir, Andy foi dar as boas-noites ao pa, mas este estava a falar ao telefone e limitou-se a acenar-lhe de longe, apressada e bruscamente. Brad continuava nervoso 
e irritado, no apenas na forma como se dirigia  mulher, mas tambm no seu comportamento para com o filho. O fato de ter vindo jantar a casa no tinha sido uma 
deciso fcil para ele, mas mesmo depois de a ter colocado em prtica Brad no estava inteiramente satisfeito. Sabia que teria que enfrentar uma outra discusso 
quando voltasse a estar com Stephanie, a qual, desde a hora em que tomara conhecimento de que Page j estava a par da sua existncia, se tinha mostrado muito menos 
disposta a ser paciente.
       Page deitou Andy e aconchegou-o entre os lenis, mas antes de sair o filho pediu-lhe que deixasse a luz do corredor acesa, pedido esse que ele muito raramente 
fazia; apenas quando estava muito assustado, com medo ou bastante doente. Page lembrou-se ento de que era natural que Andy desejasse a luz acesa, j que, naquela 
fase, todos eles se sentiam um pouco assim.
       - Est bem, filhote. Dorme bem. - Ela beijou-o de novo e enquanto voltava para a cozinha agradeceu silenciosamente a Deus a existncia do filho na sua vida.
       Quando passou pela sala, reparou que Brad estava sentado no sof, mas no parou para falar com ele. Sentia que pouco mais havia ficado por dizer entre eles 
e calculou que estivesse a falar com Stephanie ao telefone quando Andy o interrompera.
       J na cozinha, retirou da mquina a loua que tinha deixado a lavar, acabou de arrum-la e voltou a beber outra xcara de caf.
       Eram exatamente dez horas quando Brad entrou na cozinha, visivelmente irritado e descontente. Os acontecimentos do dia no tinham sido fceis para nenhum 
dos dois: a discusso  hora de almoo, o funeral de Phillip e o clima tenso do jantar. Page dedicava-se nessa altura a ler a correspondncia recebida nos ltimos 
dias, tarefa que deixara pendente desde o acidente.
       - Parece que a nossa situao continua muito difcil - observou ele, cabisbaixo. Page ergueu os olhos na sua direo e ao v-lo ali na sua frente, de T-shirt 
e de calas de ganga, relembrou por breves instantes tudo aquilo que durante tantos anos sentira por ele e admitiu que, ao longo de todo esse tempo, Brad no passara 
de um desconhecido. Tinham dois filhos e dezesseis anos de vida em comum, mas subitamente ele transformara-se em algum diferente do homem com quem ela julgava viver.
       - Bem o podes dizer - respondeu ela ao comentrio do marido, enchendo novamente a xcara com o resto do caf. O seu sistema nervoso havia sido to afetado 
que a cafena j no exercia qualquer efeito. Em seguida acrescentou: -Julgo que o Andy se comea a aperceber disso. - E quem no se aperceberia?  volta deles, 
o desapontamento, a frustrao e a mgoa eram, de fato, palpveis.
       - Tem sido uma semana terrvel.
       - Sim. Uma autntica espada de dois gumes.
       - Que quer isso dizer? - indagou Brad, confundido pela expresso que ela utilizara.
       - Refiro-me  Allie e ao nosso casamento.
       - Pode ser que tudo se resuma a uma s preocupao; quando a Allie melhorar, talvez sejamos capazes de ultrapassar tudo isto. - Page estranhou a resposta 
de Brad, especialmente por ele se ter mostrado to decidido a manter a sua relao com Stephanie. Que quereria aquilo dizer? Que havia ainda esperana para eles? 
Teria Brad mudado de opinio, ou teria sucedido algo de novo? Page j no conseguia entender as intenes do marido, nem sequer tinha a certeza se de fato ainda 
o desejava fazer. - Talvez ainda estejamos a tempo de resolver a nossa situao - reafirmou ele, embora com pouca convico. - Se quisermos.
       - Quem, Brad? Ns e a Stephanie? - O tom da sua voz revelava a sua amargura e o seu cansao. - Por favor, no vamos recomear esta discusso, nem nos vamos 
enganar com falsas esperanas. Por enquanto, temos de nos preocupar s com a Allie; quando ela estiver fora de perigo, poderemos pensar numa soluo para o nosso 
caso. Agora, para ser franca, no tenho fora nem pacincia para o fazer.
       Ele acedeu. Era-lhe impossvel no concordar com Page, e alm do mais, ultimamente, era Stephanie quem o pressionava. Esta ltima agia como se se sentisse 
preterida em favor de Allyson, fazendo-lhe exigncias que at  data Brad nunca se vira forado a discutir. Queria que ele passasse mais tempo com ela, se possvel 
todo o tempo, e desejava igualmente que Brad no dormisse em casa, mesmo sabendo que ele deveria faz-lo. A sua inteno era clara: demonstrar que agora Brad era 
dela e j no de Page, embora esquecendo que se ambas continuassem a exercer tamanha presso sobre ele isso seria o suficiente para o esgotar.
       Porm, antes que Brad pudesse pensar em alguma resposta para dar a Page, um grito agudo veio do quarto de Andy. Page e Brad correram para o filho e foi ele 
quem o alcanou primeiro. Andy, ainda no muito bem acordado, estava praticamente histrico, pois acabara de ter um horrvel pesadelo.
       - J passou... est tudo bem, campeo... j passou. Foi s um pesadelo. - Mas nenhum dos dois o conseguia acalmar. Andy explicou que no seu sonho toda a famlia 
tinha sofrido um acidente e todos haviam morrido, excetuando ele prprio e Lizzie. Acrescentou que havia sangue no cho e vidros partidos... e que o acidente tinha 
acontecido porque a me e o pai estavam a discutir. Sentindo-se imediatamente culpados Brad e Page entreolharam-se, e por fim, conseguiram que o filho acalmasse. 
Logo depois Page descobriu que a cama de Andy estava molhada e, ao mudar os lenis, lembrou-se que isso j no acontecia desde que ele fizera quatro anos, o que 
a deixou ainda mais preocupada. A perturbao dele era tanta que atingia o prprio nvel do subconsciente.
       - No  preciso ser psiclogo para decifrar este sonho... - comentou Brad a meia voz, quando j estavam no quarto de casal.
       - O Andy tem andado muito preocupado com a Allie.
       Toda esta situao lhe causa muito medo; ele ouve-nos dizer que o estado dela  muito srio e como ainda no a pde ver, para ele  como se ela j tivesse 
morrido.
       - Sabes muito bem que no  s a Allie que o est a preocupar - armou Brad.
       - Sim, eu sei - admitiu ela, calmamente. - Temos de ser mais cuidadosos. - Era bvio que Andy os ouvira discutir.
       - Custa-me muito ter de dizer isto - comeou ele, contrariado -, mas talvez fosse melhor eu sair de casa durante alguns dias, at nos acalmarmos o suficiente 
para sabermos lidar com esta situao.
       Page, chocada com tal sugesto, perguntou-lhe de imediato:
       - Eras capaz de ir viver com ela? - Ambos sabiam a quem Page se estava a referir, mas ele no lhe deu nenhuma resposta direta.
       - Posso ficar num hotel, ou posso alugar um apartamento mobiliado no centro da cidade. - No entanto Page tinha conscincia de que aquela seria uma tima oportunidade 
para ele passar mais tempo com Stephanie, sem ter de enfrentar as insinuaes e as acusaes da mulher. Dadas as circunstncias, Page no estava muito certa de o 
poder culpar, apesar de ter conscincia das dificuldades que enfrentaria ao tentar explicar a Andy a ausncia do pai.
       - No sei o que dizer - respondeu ela por fim, fitando-o entristecida por tal sugesto. Num to curto espao de tempo, tinham chegado a um ponto que ela nunca 
julgara possvel alcanar. Contudo, enquanto o fitava pensativamente, o telefone tocou e ambos correram para o atender, receando alguma notcia sobre Allie. A chamada 
era, de fato, do hospital. O crebro de Allie comeara a inchar novamente e a presso que tal ocorrncia causava era demasiado perigosa para o estado dela. Se o 
inchao no cedesse, os mdicos pediam permisso para oper-la novamente na manh seguinte, para o que era necessrio que a me ou o pai assinassem uma autorizao. 
A equipe neurocirrgica garantia que o risco de esperar mais uma noite no era significativo, a no ser que surgisse alguma complicao, mas que estavam j em condies 
de assegurar que a cirurgia seria certamente necessria. Em quatro dias, seria a segunda vez que Allyson sofreria uma interveno cirrgica, mas o doutor Hammerman 
assegurou que no existia outra alternativa, pois tal como da primeira vez, se no a operassem, o risco aumentaria e ela poderia no resistir.
       - Vo oper-la outra vez...? - indagou Brad, fitando Page fixa e seriamente, ao que ela respondeu apenas com um sinal afirmativo. - E depois...? Outra vez 
e ainda outra vez... quantas vezes mais, meu Deus?
       - As que forem necessrias para a salvar... para ela melhorar e o crebro dela poder voltar  normalidade.
       - E se isso nunca acontecer? - Brad repetia os seus receios, mas Page no desejava voltar a ouvi-los, pois a opinio dele j no alteraria nada do que sentia.
       - Se no acontecer, mesmo assim ela continuar a ser a nossa filha. Eu vou assinar os papis Brad. A Allie tem direito a experimentar tudo aquilo que os mdicos 
puderem fazer por ela. - Se ele a tentasse dissuadir Page lutaria com todas as suas foras, mas apesar de tudo, Brad era um homem sensato que desejava o melhor para 
a filha. Page encarava-o enfurecida, mas ao ver a expresso dele, toda a sua irritao cedeu.
       - Faze o que achares melhor, Page. - Ele regressou para o quarto e deitou-se em cima da cama, pensando em Allyson e em como ela sempre fora, to bonita e 
to decidida. Tornava-se difcil record-lo agora, depois de a saber adormecida na enfermaria do hospital, ferida at mais no. - Vais dormir noutro quarto? - perguntou 
ele quando Page entrou para ir buscar uma camisa de dormir.
       - Tinha pensado em ir dormir com o Andy - respondeu ela, olhando-o nos olhos.
       - Podes dormir aqui - afirmou ele com um sorriso hesitante. - Prometo que me porto bem; ainda me sei controlar. - Esta promessa fez com que ambos trocassem 
um raro sorriso. O percurso das suas vidas havia chegado a uma verdadeira encruzilhada onde as escolhas j no eram claras, principalmente no que dizia respeito 
a decidir onde dormir e se ele deveria ou no permanecer naquela casa. Mais uma vez, Page sentiu que estava a viver um pesadelo.
       Nessa noite, dormiu abraada ao filho na sua cama estreita, deixando que as lgrimas lhe corressem livremente pelo pescoo at encharcarem a almofada. Chorou 
pelo muito que at ento julgara possuir e que via agora reduzido apenas a uma srie de iluses.
       Ao acordar, Andy ficou surpreendido por ver que a me dormira com ele, mas no fez nenhuma pergunta a esse respeito. Levantou-se e vestiu-se como de costume, 
enquanto a me fazia o pequeno-almoo para os trs. No voltou a mencionar o pesadelo daquela noite e quando Page o deixou na escola, Andy dava mostras de estar 
j mais tranqilo. Entretanto, Brad prometera encontrar-se com Page mais tarde no hospital, j que ela tinha de l estar s oito e meia para assinar a autorizao. 
A operao comearia s dez, e desta vez Brad prometera estar presente.
       
CAPTULO 8
       J no hospital Page conversou com o neurocirurgio, no corredor da unidade de cuidados intensivos. Ele comunicou-lhe que no se haviam registrado quaisquer 
melhorias desde a noite anterior, e ela assinou a autorizao e foi ver a filha. Allyson encontrava-se profundamente adormecida, e todos os aparelhos e monitores 
 sua volta estavam ligados, mas apesar disso Page conseguiu passar alguns instantes tranqilos junto dela. A essa hora, no eram permitidas visitas nos cuidados 
intensivos e as enfermeiras preferiram deix-la a ss com a filha, pois poderiam observar Allyson atravs dos seus computadores e monitores. Page sentou-se ento 
perto de Allie, tomou-lhe a mo e falou com ela, acariciando-lhe de vez em quando a face. Por fim, beijou-a cuidadosamente antes de a levarem, perto das nove e meia.
       Seguiu-se ento um perodo de espera longo e difcil para Page, enquanto Allyson estava a ser preparada para a cirurgia; sabia que, caso a interveno cirrgica 
no fosse bem sucedida, Allyson no resistiria. A presso exercida pelo inchao do seu crebro ocasionaria ainda mais leses, e impediria que as fraturas e os ferimentos 
sarassem.
       O doutor Hammerman informara-a ento de que a operao demoraria entre oito a dez horas e que seria mais uma vez levada a cabo pela mesma equipe mdica. Embora 
parecesse j uma rotina, no chegava a s-lo, pois era preciso muito esforo da sua parte para no pensar nos possveis resultados. Page no podia entregar-se a 
conjecturas sobre o que estaria a passar-se na sala de operaes, ou sobre como reagiria se lhe viessem comunicar que a filha morrera; era doloroso de mais abrigar 
esse tipo de pensamentos.
       Quando Brad finalmente chegou, Page estava ainda mais plida e mais ansiosa do que no incio da operao. Apesar de vir com meia hora de atraso, ele cumprira 
o que lhe prometera.
       - Alguma novidade? - indagou, igualmente ansioso.
       - No, nada de novo - respondeu ela em voz baixa, acrescentando: - Antes de a levarem, quando a vi deitada naquela cama, achei-a to calma, to tranqila... 
tive a sensao que podia acord-la a qualquer momento, mas ela continuou sempre a dormir... - Ao sentir os olhos cheios de lgrimas Page desviou imediatamente o 
olhar, pois j no desejava sobrecarreg-lo com os seus sentimentos. Perdera toda a confiana que depositara no marido e juntamente com essa ltima, toda a franqueza 
e sinceridade que sempre havia existido entre eles. Para Page, Brad era agora um outro homem. Era estranho pensar em como podia perder-se algum com tanta facilidade, 
em como tudo podia mudar numa questo de segundos, mas ela esforava-se por no se entregar tambm a esses pensamentos.
       Foi um dia longo, passado entre um grupo de estranhos que, tal como eles, utilizavam as desconfortveis cadeiras da sala de espera. Tanto Page como Brad raramente 
falaram; alm de o achar muito calado, Page notou que ele estava tambm invulgarmente amvel para com ela, como se tivesse obrigao de a tratar com deferncia. 
Ocasionalmente, referiam-se a Allie e recordavam algum acontecimento passado, mas todas as recordaes lhes eram demasiado dolorosas. Assim, passaram a maior parte 
do tempo sentados em silncio, perdidos nos seus prprios pensamentos, sem sentirem necessidade de se dirigir um ao outro.
       s quatro da tarde, quando finalmente decidiram ir buscar algumas sandes ao bar, ainda no tinham nenhuma notcia. Antes de sarem, informaram a enfermeira 
do local para onde tencionavam dirigir-se e, j no corredor, encontraram Trygve, que lhes desejou boa sorte. Este, em seguida, foi visitar a filha e depois desse 
breve encontro no se tornaram a ver. O casal continuou na sala de espera de olhos fitos no relgio, aguardando alguma notcia da parte do cirurgio.
       Este ltimo apareceu finalmente, s seis e quinze, quando ambos pareciam prestes a ser vencidos pela tenso de mais um dia de ansiedade.
       - Como  que ela est? - Brad ergueu-se imediatamente e posicionou-se em frente do mdico, fitando-o. O mdico sorriu, satisfeito, e respondeu:
       - Est bem melhor do que seria de esperar.
       - O que  que isso significa? - desafiou Brad de imediato, enquanto Page continuava sentada, ouvindo atentamente a explicao mdica. Sentia que, caso tentasse 
levantar-se dali, decerto desfaleceria, por isso decidiu permanecer sentada.
       - Significa que ela resistiu e que os seus ndices vitais so bons. Pregou-nos um pequeno susto logo no incio, mas depois recobrou as foras. Fizemos o possvel 
para aliviar o mximo da presso, que era ainda maior do que ns suspeitvamos. Apesar disso, existem todos os motivos para acreditar na possibilidade de uma recuperao 
total, ou quase total. Temos apenas que esperar para ver como ela reage, e,  claro, para ver quanto tempo mais vai permanecer em coma. Na realidade, neste momento 
queremo-la o mais calma possvel, razo pela qual a mantemos bastante anestesiada. Ela precisa de repouso e imobilidade para que o crebro possa recuperar, mas dentro 
de algumas semanas j poderemos voltar a analisar o quadro clnico da sua filha.
       - Dentro de algumas semanas?! - repetiu Brad, verdadeiramente horrorizado. - Ela pode ficar em coma por mais algumas semanas?
       -  possvel que sim... e altamente provvel. Na verdade, um prazo menor do que esse no traria um bom resultado, Mister Clarke. A recuperao deste tipo 
de leso requer muita pacincia. - Brad mostrou na sua expresso o seu desagrado, ao que o mdico reagiu com um sorriso, dirigindo-se de seguida a Page: - A Allyson 
reagiu muito bem Mistress Clarke - assegurou ele novamente, com gentileza. - Ainda no est fora de perigo, mas avanamos mais um passo, ganhamos outro dia e a sua 
filha resistiu a mais um enorme trauma.  um sinal muito encorajador.  certo que ainda temos de esperar para sabermos o grau da recuperao, e para sabermos igualmente 
se este novo traumatismo causou algum outro efeito. Mas ainda falta bastante para podermos saber isso. - Ainda era preciso esperar para ter a certeza de que ela 
sobreviveria, pois todos eles sabiam que Allyson poderia morrer a qualquer instante. - Ela vai permanecer nos cuidados ps-operatrios at amanh. Os senhores podem 
ir para casa e ns avisaremos caso surja algum problema.
       - E o senhor doutor admite essa possibilidade? - perguntou Page, com a voz embargada.
       O cirurgio hesitou alguns segundos antes de responder.
       -  pouco provvel, mas temos de ser realistas. Esta  a segunda neurocirurgia a que a sua filha  submetida num espao de quatro dias; suportou muitos traumatismos, 
advindos quer do acidente, quer das cirurgias, o que, at o estado dela estabilizar, aumenta o risco. A Allyson, conforme j afirmei, est a reagir muito bem, mas 
continuamos a vigi-la atentamente.
       - Mais atentamente do que depois da primeira operao? - inquiriu Page, ao que o mdico acedeu.
       - Ela est ainda mais fraca, apesar de ns alimentarmos esperanas quanto ao resultado final.
       - Esperanas... - Depois daqueles dias de ansiedade, Page odiava essa palavra. Entendera perfeitamente aquilo que o mdico lhe quisera transmitir: Allie estava 
a reagir bem, mas o impacto da segunda operao poderia ter sido demasiado profundo para o estado dela; a sua filha poderia morrer a qualquer momento.
       Depois de o cirurgio os deixar a ss, Brad voltou a sentar-se, e com um suspiro olhou para Page. Passado aquele dia, ambos se sentiam como dois nufragos 
que, depois de quase terem morrido afogados, descansavam agora em terra firme, porm ainda sem flego.
       - Esta espera foi terrvel... sinto-me como se tivesse escalado o monte Everest, e tudo o que fiz foi ficar aqui sentado o dia todo - comentou Brad, pesaroso.
       - Eu at preferia escalar o Everest... - respondeu ela melancolicamente.
       Brad esboou um leve sorriso.
       - Tambm eu. Mas a Allie resistiu e por enquanto isso  tudo o que podemos pedir. - Brad pensou naquilo que havia dito antes acerca de no querer que a filha 
sobrevivesse, caso ficasse mentalmente incapacitada, e apercebeu-se de que isso j no fazia sentido. O seu nico desejo era que Allie vivesse mais uma hora ainda, 
mais um dia, e conseguisse sair do coma, se a sorte os favorecesse. - Queres vir para casa? - perguntou ele  mulher.
       Page abanou a cabea e respondeu:
       - Eu vou ficar aqui.
       - Porqu? O mdico disse que ela no podia receber visitas e que nos telefonava se surgisse algum problema.
       Embora Page no o conseguisse exprimir por palavras, sabia que a sua presena era necessria. Sentira o mesmo quando Andy estivera na incubadora, nos muitos 
momentos em que tivera a certeza de que precisava de estar junto dele, e agora era exatamente isso que voltava a sentir com relao a Allie. Quer a deixassem ficar 
ao seu lado na sala de recuperao ou no Page queria permanecer ali no hospital, perto da filha.
       - O melhor  ires ter com o Andy a casa. Ele j deve estar preocupado. - Depois do pesadelo que o filho tivera na noite anterior, a preocupao de ambos com 
Andy aumentara bastante. Nessa tarde, Page resolvera mesmo telefonar ao pediatra do filho, que lhe assegurara que o estado de ansiedade em que ele se encontrava 
e o fato de ter pesadelos era uma reao normal, dadas as circunstncias. Ele explicara-lhe que o acidente que Allie sofrera era to traumtico para Andy quanto 
para os pais, at talvez mais, e por fim lamentara o estado em que Allie se encontrava.
       - Tens a certeza de que no preferes que eu fique aqui a fazer-te companhia? - indagou Brad cautelosamente antes de sair, mas ela agradeceu-lhe e garantiu-lhe 
que no. Havia sido muito difcil para Page passar todo aquele dia na companhia do marido, pois eram ainda muitas as dvidas que ela teria gostado de esclarecer: 
"H quanto tempo procedes deste modo? Porque me mentiste? Porque  que eu no fui o suficiente para ti? Afinal no me amavas?" Todavia, Page sabia bem que era intil 
colocar-lhe todas essas questes, e por isso decidira manter-se em silncio,  custa, no entanto, de muito esforo. Brad continuava to atraente como sempre fora, 
a nica diferena era que agora ele pertencia a uma outra mulher e j no a ela. Era por isso que, sempre que o encarava, Page via diante de si a imagem de um estranho. 
No decorrer do dia, tinham sido delicados um para o outro, mas j nem se atreviam a mencionar o mais importante, pois j no era possvel estabelecer um dilogo 
sobre os temas que realmente lhes interessavam.
       - Diz ao Andy que eu fico a pensar nele - pediu Page ao marido que, depois de lhe prometer que telefonaria na manh seguinte, foi para casa. Page continuou 
a sua longa viglia na sala de espera, que por essa altura estava j bem mais tranqila. S ento se deu conta de que o marido, ao despedir-se dela, nem por uma 
s vez lhe havia tocado, nem a beijara. A forte ligao que existira entre os dois havia sido irremediavelmente quebrada.
       Mais tarde, Trygve, acompanhado por Bjorn, esteve algum tempo a conversar com Page na sala de espera, mas depressa se apercebeu de que ela estava triste e 
preocupada, sem a mnima vontade de conversar. Bjorn quis saber onde estava a filha de Page e se as pernas dela se encontravam to feridas como as de Chloe, mas 
Page explicou-lhe que Allie ferira a cabea e no as pernas. Bjorn respondeu ento que tambm j lhe doera a cabea algumas vezes e que tinha muita pena que Allie 
no estivesse bem.
       Antes de se despedirem, Trygve pousou a mo no ombro de Page. Deixara-lhe tambm algumas sandes. Ela parecia-lhe mais fatigada e mais franzina do que nunca.
       - Tenha coragem - pediu ele. Os olhos de Page encheram-se de gua, mas ela fez ainda um sinal afirmativo antes de ficar novamente s. Dessa vez, sentiu-se 
aliviada pela solido, concluindo que, por vezes, a solidariedade alheia ainda piorava mais o seu estado de esprito. Todas as vezes que algum lhe dizia o quanto 
lamentava o estado em que a filha se encontrava, ela no conseguia deixar de chorar.
       Page passou a noite deitada no sof da sala de espera, dispondo de muito mais tempo para pensar do que at ento tivera. Pensou em Brad e em como havia sido 
feliz a seu lado; pensou no nascimento de Allie e na alegria que ento sentira. Fechou os olhos e viu-se novamente na casa que antes habitavam, no centro da cidade. 
Quando a compraram, o seu estado deixava muito a desejar, mas na altura em que a venderam, depois dos arranjos e da decorao de Page, a casa estava encantadora.
       Pensou de seguida na casa de Marin, que agora habitava, e recordou o nascimento de Andy e o tamanho assustadoramente pequeno do filho recm-nascido. Mas, 
uma vez mais, o seu pensamento deteve-se na filha; era como se Allyson, mais pequena, estivesse ali com a me na sala. Todas as opinies da filha, a imagem que Page 
guardava dela, regressavam de novo e acompanhavam-na como uma experincia real. Envolvida nessa sensao, Page no ficou minimamente surpreendida quando a enfermeira 
veio ao seu encontro, pouco passava da meia-noite. No seu ntimo Page j o esperava. Sentira a presena de Allyson ali bem perto dela, e quando a enfermeira abriu 
a porta, ela estava j de p, pronta para a acompanhar.
       - Mistress Clarke?
       - Sim... ? - Page quase no conseguia acreditar no que estava a suceder, tudo aquilo lhe parecia um sonho; mas apesar dessa sua impresso, no podia negar 
a realidade.
       - O estado da Allyson agravou-se desde que foi submetida  segunda neurocirurgia.
       - J chamaram o mdico que a operou? - interrogou Page, muito plida.
       - Sim, ele j vem a caminho. A sua filha continua nos cuidados ps-operatrios, mas se a senhora desejar v-la, eu posso lev-la agora mesmo at l.
       - Sim, se puder ser... - E acrescentou em seguida, fixando o olhar da enfermeira: - Ela est... ela est a morrer...?
       Aps um breve instante de hesitao, a enfermeira respondeu:
       - Ela est a ficar cada vez mais debilitada... a sua filha no se encontra nada bem, Mistress Clarke...  muito provvel que esteja realmente a morrer. - 
Era essa tambm a opinio das enfermeiras que a assistiam na sala de recuperao, as quais tinham requerido imediatamente a presena do cirurgio, apesar de julgarem 
difcil que este chegasse a tempo.
       - Acha que tenho tempo de avisar o meu marido? - Ao ouvir o som da sua voz, Page no pde deixar de ficar surpreendida. Sentia-se estranhamente calma, como 
se por fim soubesse o que esperar; de fato, sem que antes tivesse tomado conscincia disso, Page estava j  espera do que iria acontecer. Ela estivera presente 
quando Allyson viera a este mundo e agora iria estar tambm presente quando a filha o abandonasse. Assim, apesar de ter os olhos banhados de lgrimas, sentiu uma 
grande tranqilidade ao acompanhar a enfermeira at ao elevador.
       - Julgo que seria mais aconselhvel a senhora ir de imediato para perto da sua filha. Ns temos o nmero de telefone de sua casa e encarregamo-nos de avisar 
o seu marido. - Page gostaria que o marido fosse avisado por ela e no por uma das enfermeiras, mas no podia perder nem mais um minuto. Aquele era um momento nico 
que no podia ser desperdiado e Page desejava muito ter a oportunidade de se despedir da filha. Interiormente, adquirira j total certeza de que Allyson a podia 
ouvir, apesar da aparncia em contrrio.
        entrada da sala de cuidados ps-operatrios, entregaram-lhe uma bata e uma mscara, e depois de as colocar Page seguiu outra das enfermeiras at perto da 
cama onde Allyson se encontrava, rodeada de aparelhos e com a cabea envolta em ligaduras. Exteriormente, no se registrava nenhuma alterao na sua aparncia, mas 
Page apercebeu-se de que, inexplicavelmente, a filha aparentava uma paz e uma calma que at ento nunca detectara.
       - Ento, minha querida...? - murmurou Page, aproximando-se da filha. Apesar das lgrimas que lhe molhavam o rosto, ao invs de tristeza, Page sentia agora 
felicidade em estar de novo perto de Allyson. - Eu e o teu pai amamos-te muito... quero que tenhas a certeza disso. E o Andy tambm... ele sente muito a tua falta, 
assim como eu sinto... todos ns temos saudades tuas... mas sei que ests sempre conosco. - Uma das enfermeiras trouxe-lhe ento um banco, e depois de se sentar 
Page tomou uma das mos de Allie e cobriu-a com as suas. A mo da filha pareceu-lhe mais frgil do que nunca, os seus dedos mais rgidos e os braos menos flexveis, 
o que fazia parte da reao do seu organismo ao inchao do crebro. Era um dos motivos por que Page no queria que Andy visitasse a irm, j que as conseqncias 
do acidente eram demasiado ntidas e perturbadoras.
       - Acabamos de contatar o seu marido - segredou uma das enfermeiras ao ouvido de Page, enquanto esta continuava a acariciar a mo da filha.
       - Ele vem? - indagou ela, calmamente. J no se sentia assustada, pelo contrrio, sentia-se muito tranqila e em paz, mais prxima de Allie do que nunca. 
Estavam juntas, me e filha, unidas para sempre num momento que a seu modo era to significativo quanto o nascimento de Allyson. E, de alguma forma, no havia muita 
diferena entre essas duas ocasies: a primeira correspondia a um incio, e a ltima prenunciava um fim. O crculo acabava de se completar, mais cedo do que o previsto, 
 certo, mas o forte lao que as unia permanecia intacto.
       - O seu marido disse que no podia deixar o filho sozinho. - Page sabia que se Brad quisesse, podia ter pedido a Jane para ficar com Andy, e que apenas o 
medo o havia impedido de vir. Contudo, ela entendeu perfeitamente a atitude dele e aceitou o fato de o marido no querer enfrentar aquele momento. A enfermeira pousou 
a mo no ombro de Page, solidria com ela. J no era a primeira vez que assistia a um caso assim, e sabia o quo difcil era enfrentar aquele momento, especialmente 
quando se tratava de um filho.
       - Allie... ? - sussurrava Page. - Querida, a me est aqui... no tenhas medo... sempre que precisares, eu vou estar aqui para te ajudar. - Page sentia que 
lhe devia transmitir essa certeza. Allyson sempre mostrara alguma relutncia em admitir uma mudana, e agora que a filha enfrentaria a maior mudana de todas Page 
no a podia acompanhar. Porm, em pensamento, ela nunca deixaria de ir com a filha, tal como Allie, tambm em pensamento, caria para sempre junto da me.
       - Mistress Clarke? - Quem se dirigia agora a Page era o doutor Hammerman, que ela nem sequer ouvira entrar. -J no podemos fazer mais nada pela Allie... 
- informou ele, pesarosamente.
       - Eu sei. - As lgrimas corriam pela face de Page, sem que esta se apercebesse disso.
       Ao v-la sorrir por entre tantas lgrimas, o mdico no pde deixar de se sentir comovido.
       - Fizemos tudo o que podamos, mas a leso  muito profunda. Sempre admiti que ainda fosse possvel urna recuperao, mas... lamento muito... - O mdico deixou-se 
car por perto, inspecionando os registros dos monitores, mas preferindo manter alguma distncia, de forma a no se intrometer. Confirmou vrias vezes a pulsao 
de Allie, consultando em seguida as curvas que os monitores registravam e pedindo informaes s enfermeiras ali presentes. Na sua opinio, Allie no resistiria 
mais do que alguns minutos e ele sentia uma profunda compaixo pela me. Por fim, voltou a dirigir-se a Page: - Mistress Clarke? H alguma coisa que eu possa fazer 
por si? Deseja que chamemos um padre?
       - No, obrigada, est tudo bem - respondeu Page, recordando a primeira vez em que vira a filha: Allie nascera uma menina perfeita, uma linda recm-nascida 
de formas arredondadas e robustas, de faces muito rosadas e com a cabea enfeitada por uma penugem loira. Mesmo aps um trabalho de parto muito difcil Page sorrira 
ao ver a filha, estendendo de imediato os braos para a receber. Relembrar aquele momento f-la sorrir de novo, e Page apressou-se a repetir aquela breve histria 
a Allie, tal como fizera tantas vezes antes. As duas enfermeiras que a ouviam resolveram ento ir atender outro doente, depois de limparem algumas lgrimas.
       O cirurgio continuava por perto, sempre atento, e uma hora aps a sua chegada, verificou de novo os monitores e constatou que no havia alteraes. De fato, 
Allyson no registrava nenhuma melhoria, mas o seu estado tambm no havia piorado. Algures no seu ntimo, Allie lutava pela vida.
       Page permanecia sentada a seu lado, acariciando-lhe a mo e conversando serenamente com ela. Dentro de si j no existia nenhuma resistncia: ela abrira mentalmente 
as portas do seu corao e deixara a filha livre para seguir o seu curso. Sabia que no tinha qualquer direito de a manter presa ali, caso tivesse chegado a sua 
hora. Sentia a presena de Allie to leve como a de um anjo, e o simples fato de estar prximo dela era o suficiente para a fazer feliz.
       - Podes sempre contar com o meu amor, minha filha... - Page nunca se fartava de repetir  filha o quanto a amava. Antes que Allie os deixasse, Page desejava 
confirmar-lhe o seu amor o maior nmero de vezes possvel. - A me ama-te muito, minha querida. - Uma parte do seu corao ainda esperava que a filha abrisse os 
olhos, sorrisse para ela e respondesse "eu tambm gosto muito de ti, mam", embora soubesse que isso era totalmente impossvel.
       O doutor Hammerman manteve-se vigilante por mais algum tempo, verificando-lhe periodicamente a pulsao, ajustando o funcionamento de um dos muitos aparelhos 
e controlando o ventilador. Page ficou com a filha por mais duas horas, sentindo pena que Brad no tivesse estado presente, pois sabia que tambm ele deveria despedir-se 
de Allie. Quando o doutor Hammerman se aproximou, o corao de Page bateu mais depressa.
       - V aquele aparelho? - murmurou ele, apontando para um dos monitores. Page respondeu com um sinal afirmativo. - A pulsao dela est de novo mais forte. 
A sua filha pregou-nos um grande susto, mas penso que est outra vez a reagir. - Os olhos de Page voltaram a encher-se de lgrimas, e tudo o que lhe ocorreu foi 
a lembrana de uma ocasio em que Allyson cara numa piscina e quase se afogara. Quando a me a conseguira por fim alcanar, o seu nico desejo era bater-lhe, em 
nome do terrvel susto que ela lhe pregara. Page contemplou ento a filha mais uma vez, sorrindo por entre as suas lgrimas, desejando muito que Allie estivesse 
agora, tal como nessa altura, em condies de apanhar ou de ouvir uma repreenso, de ser beijada, abraada ou acarinhada.
       - Tem a certeza...?
       - Vamos continuar a observ-la.
       Page permaneceu sentada perto da cama de Allie, conversando com ela e referindo a sua queda na piscina e o susto por que todos tinham passado. Nessa altura, 
Allie tinha apenas quatro ou cinco anos. Page passara, contudo, por outro susto com a filha, quando estava grvida de Andy: Allyson resolvera conduzir a sua bicicleta 
atravs do trnsito de Ross. Page mencionou tambm essa ocasio  filha e assegurou-lhe, vezes sem conta, o quanto a amava.
       E assim, quando o Sol despontou sobre as montanhas de Marin, dir-se-ia que Allyson, aliviada, podia por fim entregar-se a um sono tranqilo. Era como se aps 
uma longa ausncia, acabasse agora de regressar, sentindo-se muito cansada. Page podia quase descrever a mudana por que a filha passava e j no sentia mais aquela 
efmera sensao de transio e de partida. Allie estava de volta, decidida a no os abandonar.
       - Os milagres so prprios da minha profisso... - afirmou o doutor Hammerman, sorrindo satisfeito, enquanto as enfermeiras se mantinham por perto, comentando 
entre elas o sucedido e vigiando a doente.
       Toda a equipe mdica tivera a certeza de que Allyson no sobreviveria at quela manh.
       - Esta sua menina  determinada! No desiste com facilidade... e eu tambm no tenciono desistir de a salvar.
       - Obrigada... - murmurou Page, dominada por uma onda de emoo. Aquela havia sido a mais extraordinria noite da sua vida. Tinha sentido o peso e a importncia 
daquela ocasio, mas nem por um s momento sentira medo; tivera conscincia de que Allie ia partir, mas apesar disso sentira-se feliz e aliviada pela filha, mesmo 
que tal partida implicasse um terrvel sofrimento para aqueles que tanto a amavam. Page quase sentira Allie partir e depois sentira-a novamente regressar. E agora, 
enquanto a fitava, segurando a frgil mo da filha, teve a certeza de que nada mais a assustaria. Sentia uma paz que h muitos anos no experimentava e sabia que 
todos eles haviam sido abenoados. J a caminho de casa, Page meditava na maravilha dessa bno: sentira a mo de Deus repousando sobre elas durante toda a noite, 
e essa presena transmitira-lhe uma sensao de segurana de tal forma intensa que no podia deixar de acreditar que Allie estava para sempre a salvo.
       A gratido de Page no tinha limite, e ao chegar por fim a casa, sob a plida luminosidade do amanhecer, sentia-se perfeitamente em paz.
       
CAPTULO 9
       Durante o resto do dia Page sentiu que a sua vida havia sofrido uma modificao; nunca antes se sentira to leve, to feliz... era um sentimento impossvel 
de explicar ou de definir, embora conseguisse ter a certeza de que nunca mais voltaria a ter medo ou a deixar-se dominar de novo pela tristeza. Os problemas  sua 
volta j no a assustavam, pois a segurana que sentia fazia-a estar em paz com ela e com o mundo.
       At mesmo Brad pde observar que algo mudara nela. Page j no lhe parecia to fatigada e to aflita, e enquanto ela preparava o pequeno-almoo, ele reparou 
que apesar de ter estado a p durante toda a noite, dir-se-ia que Page se encontrava mais leve e at mesmo revigorada.
       Brad cara imensamente aliviado por Allie ter resistido quela prova, alm de ter ficado igualmente comovido com o relato de Page. Foi ele quem levou o filho 
 escola, assegurando a Page que viria jantar a casa. Quando ficou sozinha, Page telefonou  me com o fim de a informar sobre o estado da neta. A me de Page ofereceu-se 
novamente para lhe fazer companhia, e embora ao longo da conversa Page tivesse tido a certeza de que mais uma vez a me no tomara plena conscincia do que sucedera, 
desta feita isso no a incomodou. A calma e a paz que sentia mantiveram-se at ao momento de desligar o telefone, depois de prometer  me que lhe telefonaria de 
novo dentro de alguns dias. Nunca antes se sentira to prxima da filha, e a sua certeza de que Allyson estava nas mos de Deus era inabalvel. Pela primeira vez 
desde o acidente, Page no sentia necessidade de estar no hospital. De seguida, tomou uma ducha, deitou-se e adormeceu profundamente, acordando a tempo de ainda 
passar pelo hospital antes de ir buscar o filho  escola. Allyson tinha j sido novamente transferida para os cuidados intensivos, e ao ver a filha Page teve a sensao 
de que na noite anterior haviam ambas empreendido uma longa viagem. Sentou-se ento perto de Allie, tomou-lhe a mo e falou-lhe carinhosa e calmamente.
       - Ol, minha pequenina. Bem-vinda! - Page tinha a certeza de que, no mais ntimo do seu ser, Allie a poderia entender, com o seu corao, a sua alma ou o 
que quer que fosse que lhes havia permitido estarem to unidas. - Eu gosto muito, muito de ti...! Enganaste-me na noite passada, mas ainda bem que o fizeste... - 
Pelo calor que sentiu no corao Page julgou ento possvel sentir que a filha lhe sorria. Era como se agora pudesse entend-la melhor, como se fosse possvel comunicar 
com Allie atravs de sentimentos e no de palavras. - Eu preciso muito de te ter aqui, Allie... todos ns precisamos de ti... tens de melhorar depressa. Sentimos 
a tua falta! - Page continuou a conversar com a filha durante mais algum tempo, e quando a deixou, sentia-se ainda perfeitamente calma e tranqila.
        sada do hospital Page encontrou ento Trygve que vinha a chegar nesse exato instante. Tambm este facilmente se apercebeu da modificao que o seu estado 
de esprito sofrera: havia uma nova vitalidade no andar dela, o seu cabelo estava solto e penteado e ela sorria, pela primeira vez desde h muitos dias, de uma forma 
aberta e contagiante.
       - Santo Deus, o que  que lhe aconteceu Page?
       - Eu depois conto-lhe.
       - Como  que ela est? - indagou ele, preocupado.
       - Talvez melhor, ou na mesma. Ontem foi operada, como sabe, e depois de um susto na noite passada, os mdicos dizem que o estado dela estabilizou, o que j 
 alguma coisa. - Todavia, havia muito mais a contar, mas Page no o queria fazer de uma forma apressada ali no corredor do hospital. - A propsito, acabei de deixar 
a Chloe. Ela adormeceu agora mesmo, mas quando entrei queixava-se muito, o que deve ser um bom sinal. Achei-a com melhor aparncia.
       - Graas a Deus. J no volta hoje ao hospital? - perguntou ele, manifestando-se interessado. Page abanou a cabea.
       - No creio. Agora vou buscar o Andy  escola e depois tenciono ir lev-lo ao treino de basebol. Hoje vou tentar jantar em casa, a no ser que Miss Allyson 
reclame outra vez a minha presena... - Mas Page estava certa de que Allie no o faria. Independentemente do que viesse a acontecer, ela tinha a certeza que um momento 
como o da note anterior no se repetiria. S uma vez na vida sucedia algo assim.
       - Ento vemo-nos amanh - afirmou Trygve, desapontado. Quando estavam os dois no hospital, a espera tornava-se bem menos difcil e os maus momentos eram mais 
fceis de suportar.
       - Eu volto amanh de manh, depois de deixar o Andy na escola. - Page afastou-se ento com um sorriso, e foi buscar o filho.
       Me e filho passaram uma tarde agradvel e Andy jogou bastante bem, embora no to bem como de costume. Ainda estava preocupado, mas a calma e a placidez 
da me tranqilizavam-no. J na carrinha de Page, a caminho de casa, Andy aninhou-se contra ela, enquanto saboreava um gelado, e Page relembrou de imediato o ltimo 
sbado. Era difcil admitir que apenas h alguns dias atrs as suas vidas se processavam com a maior das naturalidades. Tinham passado s cinco dias desde o desastre 
e quatro desde que descobrira a verdade acerca de Brad, e no entanto, aqueles dias pareciam-lhe uma eternidade.
       Brad no foi jantar a casa nessa noite, mas dessa vez telefonara antes a avisar. Desculpara-se com o excesso de trabalho, afirmando que "seria mais fcil" 
jantar no centro da cidade. Page sabia bem o que isso significava, mas reparando que o marido se dera ao trabalho de telefonar, no se incomodou mais com o assunto, 
pois assim poderia arquitetar alguma desculpa para dar ao filho. Ficou, no entanto, surpreendida pela calma com que enfrentou mais uma ausncia de Brad. Sentia-se 
contente por estar em casa com o filho e aliviada pelo fato de o estado de Allie no ter voltado a agravar-se.
       Depois de deitar Andy, telefonou ento a Jane, que lhe transmitiu uma notcia pouco tranqilizadora. Esta ltima almoara no centro da cidade com uma amiga, 
a qual conhecia Laura Hutchinson h muitos anos. Essa amiga dissera-lhe que a mulher do senador lidava com um problema de alcoolismo desde os seus tempos de adolescncia. 
Submetera-se, alguns anos antes, a um tratamento, e segundo as informaes que essa amiga de Jane possua, no voltara a beber desde ento.
       - E se mudou alguma coisa? - perguntara Jane preocupada. - E se ela voltou a beber, ou se bebeu naquela noite?
       Contudo, isso era j impossvel de saber. Page ouviu o relato de Jane. Tudo o que ela lhe dizia no passavam de simples boatos, meras conjecturas arquitetadas 
por quem se preocupava somente em arranjar um culpado pelo acidente; contudo, nada disso poderia agora modificar o passado.
       - Ela j no deve beber - armou Page, tentando ser imparcial.
       - Se no for esse o caso, depressa vamos saber plos jornais - respondeu Jane. - Quando aquilo aconteceu, a imprensa demonstrou muito interesse por ela.
       - No seu prprio interesse, espero que no seja esse o caso - contraps Page, calmamente. - Espero que esteja tudo bem com ela e no creio que esses boatos 
sejam muito positivos.
       - Eu s te contei porque pensei que talvez estivesses interessada em saber isto - respondeu Jane, que se sentira muito entusiasmada com a nova informao 
sobre a mulher do senador. E se fosse aquela mulher adulta a responsvel pelo terrvel acidente, em vez de Phillip?
       - No acho muito justo julg-la por um problema que aconteceu h tantos anos - explicou Page  amiga, acrescentando: - Seja como for, obrigada pela informao.
       - Se descobrir mais alguma coisa, depois digo-te. - E a seguir, as duas falaram como habitualmente sobre a sade de Allyson, tema que, nos ltimos tempos, 
parecia ser o nico importante. Depois de desligar Page passou alguns cheques e abriu a correspondncia. Aquela era a primeira vez em toda a semana que ela tinha 
tempo para se dedicar a essas tarefas rotineiras, que agora lhe causavam at alguma satisfao.
       Na manh seguinte Page levou Andy at  escola e, seguidamente, dirigiu-se ao hospital para ver Allie. Nos dois ltimos dias, parecia que tinha conseguido 
alcanar dois importantes objetivos: passara mais tempo com Andy, algo por que este tanto ansiava, e substitura a sua perturbao inicial por um estado de esprito 
muito mais calmo e tranqilo. Sabia agora que se aquela ia ser uma prova longa e difcil, era ento preciso manter todas as suas foras e utilizar todas as suas 
capacidades.
       Quando Page chegou ao hospital, pouco antes das nove, informaram-na de que o estado de Allyson permanecia inalterado. Ao v-la, todas as enfermeiras lhe dirigiram 
um sorriso, pois sabiam que Allyson estivera s portas da morte na noite posterior  segunda cirurgia, o que transformava cada momento e cada dia da sua vida numa 
ddiva cada vez mais valiosa.
       - Como  que ela est? - indagou Page, hesitantemente. Na noite anterior, contatara vrias vezes o hospital, e em todas essas ocasies a haviam informado 
de que no se registrava nenhuma alterao no estado da filha, que continuava, portanto, estabilizado.
       - Praticamente como antes. - A enfermeira sorriu para Page. Era uma mulher com a mesma idade que ela, objetiva, possuidora de um carter bondoso e de um grande 
sentido de humor. Chamava-se Frances. - O doutor Hammerman esteve a examin-la h cerca de uma hora, e ficou bastante satisfeito com os progressos.
       - O inchao diminuiu? - Com a cabea de Allyson envolta em espessas ligaduras, era impossvel Page ter alguma idia do volume da dilatao. Todavia, Allie 
parecia mais tranqila e a sua palidez j no era to acentuada.
       - Sim, diminuiu um pouco. A cirurgia aliviou grande parte da presso. - Page sentou-se ento perto de Allie, repetiu mais uma vez o gesto de tomar entre as 
suas a mo da filha, e comeou a conversar baixinho com ela. Aparentemente, no havia qualquer modificao desde o dia anterior, mas, no seu ntimo Page encarava 
tudo de uma forma muito mais positiva: era-lhe agora mais fcil aceitar o que sucedera, e a atitude de Brad j no lhe causava tanta mgoa e irritao. Embora no 
conseguindo detectar o porqu, Page sabia que algo nela sofrera uma modificao completa desde a experincia da noite anterior com Allie.
       Trygve chegou ao hospital s dez horas, trazendo um saco de croissants para Page, dando mais uma vez conta da modificao desta ltima.
       - Em toda a semana, esta  a primeira vez que a vejo assim to bem - observou ele, sorrindo de contentamento. - Fico feliz por ver que j est melhor. - A 
capacidade humana de adaptao e de ajustamento s modificaes era de fato espantosa. Ele prprio tambm se sentia melhor, depois das vrias visitas que fizera 
 filha. Nessa mesma tarde, Chloe ia ser transferida para um quarto particular, e da a algumas semanas j poderia regressar a casa. Afinal, apesar do horror inicial 
daquela semana, todos eles haviam sobrevivido...
       Aps mais alguns minutos Page abandonou a enfermaria de cuidados intensivos, e mais tarde, antes de deixar o hospital, foi visitar Chloe ao quarto. Ela estava 
j menos anestesiada, mas ainda tinha muitas dores. Em contrapartida, o seu quarto encontrava-se repleto de flores e alguns dos seus amigos mais ntimos tinham vindo 
visit-la. Trygve estava de p  porta do quarto, aproveitando para fazer um breve intervalo e deixando a filha a ss com os amigos. Desde que se dera o acidente, 
aquela era a primeira vez que Chloe recebia os amigos, pois at ento apenas recebera a visita do pai e dos irmos. Jamie Applegate manifestara novamente o desejo 
de visitar Chloe, mas Trygve pedira-lhe que esperasse mais um dia at ao fim-de-semana. Jamie tinha sido muito correto e muito delicado com Trygve, apesar de se 
mostrar muito ansioso por ver Chloe. O maior ramo de flores que enfeitava o quarto de Chloe, o qual chegara mal ela dera entrada no quarto, vinha da parte de Jamie 
e dos seus pais.
       - As coisas esto a comear a melhorar - disse Page a Trygve, com um sorriso esperanado. Tambm ela estava contente por o ver menos ansioso e mais animado.
       - No tenho assim tanta certeza... - comentou ele, desmentindo o que armara com um sorriso. - Esta segunda fase no  nada fcil: a Chloe quer ver os amigos, 
quer ouvir msica no quarto e insiste em ir para casa na semana que vem, o que  completamente impossvel! Alm disso, quer que seja eu a lavar-lhe o cabelo... - 
Apesar de tudo, tanto Trygve quanto Page sabiam que ele estava encantado por ter de enfrentar essas dificuldades e j no eram as primeiras relacionadas com a sobrevivncia 
da filha.
       - Tem muita sorte - afirmou Page co um sorriso meigo, considerando que tambm ela gostaria que fossem esses os seus problemas.
       - Sim, eu sei - concordou ele, acrescentando: - J sei que na noite da operao a Allie esteve em srio risco de vida. - Uma das enfermeiras tinha-lhe relatado 
toda a histria.
       Page confirmou com um leve acenar de cabea, sem saber ao certo como explicar a Trygve o que se passara e no parecer totalmente disparatada.
       - Foi a experincia mais estranha que alguma vez me aconteceu. Antes de me avisarem, eu j sabia o que se estava a passar. Tanto eu como as enfermeiras e 
os mdicos tnhamos a certeza de que ela estava a morrer, e mesmo assim... nunca me senti to prxima da Allie. Revivi cada dia, cada hora, cada minuto passado com 
ela, e recordei-me de acontecimentos muitos antigos, dos quais eu j nem sequer me lembrava. E depois, de repente, senti uma mudana... pude sentir a Allyson regressar 
de um stio muito distante. E foi a sensao mais intensa e mais tranqilizante que alguma vez experimentei. Foi inacreditvel...!
       Trygve podia observar nos olhos de Page que ela estava ainda dominada pela intensidade dessa maravilhosa sensao.
       - De vez em quando, ouve-se falar dessas experincias... Ainda bem que a Allie no partiu! - comentou Trygve, de olhos fitos nos dela, desejando ter podido 
estar presente nessa hora. A enfermeira informara-o tambm de que Brad havia sido avisado, mas que no pudera vir.
       - Ela surpreendeu-nos a todos - observou Page, com uma expresso doce e feliz.
       - Espero que o continue a fazer.
       - Tambm eu.
       - Como  que o Andy tem reagido?
       - No muito bem. Tem tido muitos pesadelos. - Ela baixou a voz para no comprometer o filho, pois mesmo no estando ele ali Page tinha a certeza de que Andy 
odiaria que algum o soubesse. - E chegou at a molhar os lenis da cama. Sei que tudo isto o perturbou muito, mas continuo a achar que, por enquanto,  mais prudente 
que o Andy no veja a irm.
       - Tem toda a razo. - O aspecto de Allie ainda era muito pouco animador, e apesar do seu quadro clnico ter estabilizado aps a segunda cirurgia, no deixava 
de ser uma viso bastante deprimente para qualquer visita. Ao ver Allie depois do acidente, a prpria Chloe tinha ficado muito chocada, chegando mesmo a chorar ao 
aperceber-se de quem se tratava. Inicialmente, no percebera que era a sua amiga quem se encontrava inconsciente naquela cama, com a cabea ligada e os olhos vendados. 
- Seria demasiado traumtico para o Andy - concluiu Trygve.
       - Para ser franca, o nosso problema tambm no o tem ajudado nada. - Page fez uma longa pausa e manteve o olhar fixo no fundo do corredor; por m, voltou-se 
para Trygve e afirmou: - A minha situao com o Brad no est nada boa, e o Andy apercebe-se muito bem disso. O Brad j no vem muito a casa, ele... bem, na verdade... 
ele at j  admite a hiptese de sair de casa. - Houve um ligeiro tremor na sua voz, mas Page ficou surpreendida pela facilidade com que pronunciou aquelas palavras. 
Aps dezesseis anos, Brad abandonava-a; de fato, para todos os efeitos, j o fizera. Nessa mesma manh, o marido telefonara a avis-la de que no passaria o fim-de-semana 
em casa.
       - Enfrentar tantos problemas numa semana  o suficiente para esgotar qualquer um - comentou Trygve.
       - E eu ainda no lhe contei nada... mas o Andy apercebe-se que est a passar-se alguma coisa, e tem andado muito agitado.
       - Eu no me estava a referir ao Andy, mas a si. A Page  que tem todos os motivos para andar esgotada. No incio, parecia que a atitude do Brad era apenas 
uma reao ao que se passou com a Allie, mas agora vejo que a situao  bastante mais complicada - concluiu ele, com pena de chegar a semelhante concluso.
       - A situao  realmente mais complicada do que parecia, Trygve. H oito meses que o Brad tem um relacionamento com outra mulher. Parece que est apaixonado 
por ela e, inexplicavelmente, eu nunca notei nada. Se calhar, estava demasiado atarefada a ir buscar os midos ou a pintar murais para a escola... - Tentava dar 
ao assunto um carter mais ligeiro, mas Trygve no se deixou convencer, observando de perto as reaes de Page.
       - Eu sei o que  que deve estar a sentir e sei tambm que no  nada fcil passar por isso - comentou ele.
       Page encolheu os ombros, numa segunda tentativa falhada de no dar muita importncia a esse tema.
       - Eu nem sequer suspeitei de nada... consegue imaginar uma coisa dessas? Sinto-me to idiota... - Alm de se sentir tambm magoada, trada, confusa... e, 
principalmente, s.
       - No h ningum que, pelo menos uma vez na vida, no se tenha sentido idiota.  muito duro enfrentar uma situao dessas Page. Toda a populao de Marin 
sabia dos casos que a Dana mantinha e eu ainda tentava fingir que o nosso casamento era perfeitamente normal.
       - Sim... entendo isso muito bem... - Os olhos de Page estavam midos quando encontraram os dele, o que fez com que Trygve sentisse vontade de a abraar; mas, 
de alguma forma, a situao mudava quando o tema da conversa era o marido e no a filha de Page. -  estranho como tudo parece ter acontecido ao mesmo tempo: a Allie, 
o Brad... foram dois grandes choques; e o pobre do Andy a ter que lidar com tudo isto! Ele e eu,  claro, apesar de ser j adulta e de o Andy no passar de uma criana.
       - Finja que no  adulta, e se sentir muita vontade, d-lhe uma canelada...!
       Page riu-se de semelhante idia, visualizando a imagem.
       - Acho que j tivemos a nossa conta, por esta semana. Mal posso ainda acreditar no horror que foi, mas de repente, quando a Allie quase morreu, adquiri uma 
nova perspectiva. J no me parece uma catstrofe to assustadora... a atitude do Brad, quero eu dizer.  apenas um assunto por resolver. E quanto ao acidente, isso 
 um fato que vou ter de enfrentar; mas sinto-me com mais fora agora, embora no saiba bem porqu.
       - Nota-se. A nossa mente , de fato, uma coisa extraordinria: proporciona-nos sempre as capacidades de que necessitamos.
       Page concordou, sentindo que entre os dois existia cumplicidade e entendimento. Trygve fez-lhe ento uma pergunta, fitando-a timidamente:
       - O que  que voc e o Andy vo fazer amanh  tarde?
       - No sei ainda. O Andy amanh no tem treino de basebol, por isso pensei deix-lo com a Jane. O Brad no vai estar em casa, e eu ainda no disse nada ao 
Andy, mas tambm no quero deixar a Allie sozinha todo o dia. Honestamente, ainda no cheguei a nenhuma concluso. Porqu? Tem alguma sugesto?
       - Pensei em convidar-vos para almoar... O Bjorn adora midos com a idade do Andy, por isso  muito provvel que os dois se dem bem. Se isso acontecer, pode 
deixar o Andy l em casa quando vier ao hospital, e depois ir busc-lo a seguir ao jantar, ou at pode chegar a tempo de jantar conosco. - Era um convite tentador, 
e Page ficou tocada com o cuidado de Trygve.
       - Tem a certeza que isso no vai dar-vos muito trabalho? E o que  que resolve sobre a Chloe?
       - Prometi ao Bjorn que viramos visit-la amanh de manh, e que depois iramos para casa jogar. H duas amigas dela que ficaram de a visitar amanh e o Jamie 
tambm prometeu vir v-la, por isso pensei s em voltar ao fim da tarde.
       - Vai ter um dia bastante cheio. - Page hesitava em aceitar o convite de Trygve, mas os olhos dele brilhavam, insistentes. Ele gostava da companhia de Page, 
simpatizava com o filho dela e sabia que ambos precisavam de se ausentar um pouco do ambiente deprimente do hospital. Tinham passado por uma dura prova, e Trygve 
estava certo de que Page necessitava tanto de uma pausa quanto ele prprio.
       - Sinceramente, Page, amos gostar muito de vos ter conosco... e tambm pode ser bom para o Andy. - Passar a tarde com Bjorn poderia contribuir para o fazer 
esquecer a ausncia do pai.
       - Eu tambm gosto muito da vossa companhia... Est bem, aceito o convite. Obrigada, Trygve.
       As duas amigas de Chloe saram do quarto, o que significava que Trygve deveria voltar para junto da filha. Antes de entrar, no entanto, pediu a Page que estivesse 
em sua casa, no dia seguinte, por volta do meio-dia.
       - Diga ao Andy que traga a luva de basebol. O Bjorn adora jogar!
       - Eu digo-lhe. - Page afastou-se, acenando, e foi para casa contar a Andy o que ambos fariam no dia seguinte, visto que o pai passaria o fim-de-semana a trabalhar.
       - O pai vai trabalhar no sbado e no domingo - perguntou ele, surpreendido. Todavia, no voltou a insistir no assunto.
       Page tentou ento explicar-lhe a doena de Bjorn, ao que Andy reagiu com curiosidade e no com receio. J conhecia Bjorn, mas nunca jogara com ele antes. 
Andy contou ento  me que na sua escola havia um rapaz como o Bjorn, mas freqentava uma turma especial.
       No entanto, a forma harmoniosa como se passou o dia seguinte superou as expectativas tanto de Page como de Andy. Enquanto Trygve preparava cachorros e fazia 
uma salada de tomate, Bjorn disps-se a grelhar hambrgueres e a fritar batatas. Nick, entretanto, tinha regressado  universidade, e Bjorn afirmou que o irmo preparava 
os melhores cachorros do mundo, muito melhores do que os do pai. Comunicou este fato com grande seriedade, o que fez com que Andy lhe dirigisse um dos seus sorrisos 
desdentados, servindo-se em seguida de um cachorro quente.
       - O que  que aconteceu aos teus dentes? - indagou ento Bjorn, intrigado.
       - Caram - explicou Andy, espantado com a pergunta de Bjorn. Agora comeava a perceber melhor o que se passava com ele, e j no o confundia o fato de Bjorn 
sofrer de mongolismo. Mas ainda lhe causava alguma estranheza que Bjorn tivesse j dezoito anos, pois Andy nunca brincara antes com uma criana to crescida.
       - O dentista no te pode pr uma dentadura? - insistiu Bjorn, cada vez mais interessado. - No ano passado, eu parti um dente e o dentista arranjou-o. - Bjorn 
mostrou ento a Andy de que dente se tratava, e este observou com ateno, chegando  concluso que, afinal, no havia nenhuma diferena entre Bjorn e os seus amigos.
       - Os meus dentes vo voltar a nascer. Os teus tambm nasceram, quando tinhas a minha idade, mas se calhar j no te lembras.
       - Se calhar no reparei. - Page e Trygve observavam-nos com ateno. Era bvio que os dois simpatizavam um com o outro, conversando animadamente como dois 
velhos amigos, enquanto apanhavam sol, sentados nas cadeiras de jardim. - Sabes jogar basebol? - perguntou Bjorn a Andy.
       - Sei! - respondeu Andy satisfeito, servindo-se desta vez de um hambrguer.
       - Eu tambm sei. Tambm gosto muito de jogar bowling. Tu gostas de bowling?
       - Nunca joguei - confessou Andy. - A minha me diz que ainda sou muito pequeno e que as bolas so pesadas de mais para mim.
       Bjorn fez que sim com a cabea, percebendo perfeitamente o que Andy lhe dizia.
       - As bolas tambm so pesadas para mim, mas o meu pai leva-me a jogar... ou ento, leva-me o Nick ou a Chloe. A Chloe est doente; partiu a perna na semana 
passada. Mas j est quase a voltar para casa.
       - Sim - confirmou Andy, muito srio. - A minha irm tambm est doente. Bateu com a cabea num desastre de carro.
       - E partiu a cabea? - Bjorn sentia pena do seu novo amigo, porque sabia que no era bom ter uma irm doente. Da primeira vez que vira a irm no hospital 
tinha chorado muito.
       - Acho que sim. Eu ainda no a vi, porque ela est muito mal-disposta.
       - Ah. - Bjorn estava satisfeito por terem algo em comum:
       ambos jogavam basebol e tinham uma irm doente. - Eu participo nas Olimpadas Especiais e o meu pai ajuda-me.
       - Que giro! O que  que fazes? - Bjorn explicou-lhe que jogava basquetebol e praticava salto em comprimento, enquanto Trygve e Page se afastavam, atravessando 
o jardim.
       - Parece que este encontro foi um xito! - comentou Trygve, sorrindo. - O Andy tem a idade certa para o Bjorn, que mentalmente est entre os dez e os doze, 
mas adora ter amigos mais novos. O Andy  um bom mido. - Trygve ficara tocado pela forma respeitadora e carinhosa com que o filho de Page conversara com Bjorn, 
e era evidente que nutria uma especial simpatia por ele. - Voc tem muita sorte - concluiu ele.
       - Temos os dois. Todos eles so bons midos. S gostava que aquelas duas meninas no se tivessem lembrado de mentir no sbado passado e no tivessem com isso 
arranjado um problema to srio - desabafou Page, enquanto observava os irmos de Allyson e de Chloe. Era ainda difcil acreditar que passara apenas uma semana desde 
o dia em que o destino decidira baralhar por completo as suas vidas, para depois os reunir naquela ocasio. Durante a semana Page tinha exposto todos os seus sentimentos 
quele homem, sem prestar a mnima ateno ao seu aspecto fsico; s agora se apercebia de como Trygve era atraente.
       - s vezes gostaria de poder voltar atrs no tempo - comentou ele, pausadamente, olhando em seguida para Page, que estava recostada numa cadeira de lona, 
com o cabelo solto sobre os ombros e com o rosto voltado na direo do Sol, saboreando de uma forma especial aquele momento.
       - No tenho muito bem a certeza se voltar atrs no tempo seria a melhor soluo... talvez, neste caso, fosse melhor avanar no tempo, mas muito rapidamente, 
para podermos fugir aos maus momentos - comentou ela, sorrindo.
       - Os maus momentos duram mais do que os bons, no lhe parece? - Ambos riram, sabendo por experincia prpria como era verdadeira essa afirmao.
       - No me importava de avanar at  altura em que a Allie melhorasse - disse Page, co um suspiro.
       - Ela vai melhorar - encorajou Trygve. Allyson resistira toda aquela semana e os mdicos afirmavam que esse era um bom sinal. - Mas sabe que pode demorar 
ainda algum tempo, no sabe?
       - Infelizmente,  daquelas coisas de que eu no me posso esquecer. O mdico disse-me que poderiam passar anos at ela car "normal", seja isso o que for.
       - E  verdade. Eu no tenho um grande conhecimento desses casos, mas sei como foi com o Bjorn. Ele usou fraldas at aos seis anos, e aos onze ainda tropeava 
e deixava cair tudo. Quando andava na rua, eu passava todo o tempo preocupado com o trnsito; quando tinha doze anos, quis fazer um bolo e queimou-se no forno. Demorou 
muito, muito tempo at ele ser como hoje , e foi precisa muita pacincia e muita dedicao, tanto da parte dele, como da minha, apesar de havermos tido, de vez 
em quando, a ajuda de alguns bons amigos. Talvez tambm venha a precisar do mesmo Page, pois pode ser que tenha de comear do zero com a sua filha. - Apesar de no 
o ter dito, ambos sabiam que era possvel que Allyson nunca voltasse a ser normal; se recuperasse, poderia ficar ainda mais incapacitada do que Bjorn.
       - E horrvel pensar nisso, mas eu prefiro ter a Allie comigo nesse estado a no a ter de forma nenhuma.
       - Eu sei, e percebo perfeitamente.
       Poder conversar com algum que a entendia era um grande conforto para Page. Mesmo sem muita vontade de regressar ao hospital Page no queria deixar a filha 
mais tempo sozinha, alm de que prometera levar a Chloe algumas revistas, um pacote de bolachas e o seu estojo de maquiagem. O estado dela havia melhorado tanto 
que ela at j se queixava da comida do hospital.
       Quando a carrinha de Page arrancou, os rapazes jogavam basebol no relvado e Trygve acenava-lhe de longe. Desde h muito tempo que ela no se sentia to feliz. 
Por mais desanimadora que fosse a sua situao atual, pelo menos agora tinha a certeza de que Trygve a apoiava, e que podia contar com a sua amizade. Ele tornara-se 
um bom amigo, e o tempo passado na sua companhia era um refrigrio no meio da tempestade.
       No hospital, o ambiente estava mais calmo do que era costume. Allie permanecia inconsciente, o ventilador continuava a respirar por ela e o seu estado mantinha-se 
critico, apesar de estabilizado. Page sentou-se junto dela, como era seu hbito, falando-lhe com meiguice e repetindo-lhe, pela centsima vez, o quanto a amavam. 
Foi ento at ao quarto de Chloe e encontrou Jamie Applegate a conversar com ela. Ele emprestara-lhe o seu leitor de CDs, trouxera-lhe vrios discos para ela ouvir 
e oferecera-lhe mais um ramo de flores. Jamie foi extremamente delicado com Page, perguntando-lhe quando poderia visitar Allie.
       - Ainda vai demorar algum tempo - explicou ela. Era demasiado cedo para que Allie pudesse receber visitas, e seria tambm muito duro para ele v-la naquele 
estado. Como me, Page apercebia-se bem disso, pelo que prometeu avis-lo assim que fossem permitidas visitas e deixou os dois jovens a ss a ouvir msica.
       Ao fim da tarde, Page foi buscar Andy a casa de Trygve e encontrou-o a jogar s cartas com Bjorn. Estavam os dois a fazer batota, perdidos de riso, enquanto 
Trygve preparava o jantar.
       - Decidi fazer o meu famoso guisado noruegus, e vou cozer massa para acompanhar as almndegas.
       - As almndegas que o meu pai faz so muito boas - assegurou Bjorn, passando rapidamente pela cozinha na companhia de Andy, antes de subirem as escadas com 
a inteno de assistir a um filme.
       - No creio que o Andy se queira ir j embora... Vo ter de jantar conosco! - comentou Trygve bem-humorado, fazendo-a rir. Page ofereceu-se ento para o ajudar: 
ps a mesa, acrescentou  massa alguns cogumelos e vigiou a cozedura. No pde deixar de notar que, de fato, o guisado de Trygve cheirava muito bem, e depois, ele 
f-la experimentar uma almndega. Bjorn tinha razo: as almndegas eram deliciosas! Alm de ser um bom amigo e uma companhia divertida, Trygve era tambm um timo 
cozinheiro.
       - Como  que estava a Chloe? - inquiriu ele enquanto vigiava a panela do guisado.
       - Bem. O Jamie estava a fazer-lhe companhia; pareceu-me muito nervoso e ainda um pouco culpado... mas parece ser um bom rapaz. Levou-lhe uma pilha de CDs 
e quando me vim embora, ficaram os dois a ouvir msica. - A expresso de Page modificou-se nesse momento, tornando-se de sbito mais sria. - Fez-me sentir ainda 
mais tristeza pela Allie. H apenas uma semana, faz hoje exatamente oito dias, estava de volta de mim a pedir-me que lhe emprestasse a minha camisola preferida. 
- Como seria de esperar, a camisola rosa ficara totalmente desfeita, tendo sido cortada s tiras no hospital. Era a primeira vez que Page se apercebia disso, concluindo 
que apesar de ter perdido a camisola, j se daria por muito feliz em ter apenas a sua filha de volta.
       - Gostava muito de a poder ajudar - afirmou Trygve, enquanto se sentavam  mesa da cozinha saboreando um pouco de vinho e esperando que o guisado ficasse 
pronto.
       - Tem-me ajudado muito, Trygve. Mas no creio que, durante os prximos tempos, a minha vida seja muito fcil. Da forma como est o ambiente em minha casa, 
mais tarde ou mais cedo o Brad vai acabar por se mudar e isso ir trazer problemas... principalmente para o Andy... e para mim, tambm; e seja o que for que acontea 
 Allie, vai ser sempre muito duro. - Page tinha plena conscincia de que as perspectivas futuras poderiam ser horrveis, ou na melhor das hipteses, caso a filha 
resistisse, a recuperao poderia ser muito lenta, com alguns perodos dolorosos. Contudo, por vezes, a vida era assim, e ela estava disposta a aceitar esse fato. 
A semana anterior havia-lhe ensinado muitas lies, entre elas a da pacincia e da aceitao.
       - Qual ser a reao do Andy, se o Brad sair de casa?
       - Julgo que ele no vai reagir nada bem. Mas como as coisas esto, no  "se" o Brad sair, e sim "quando" ele sair!
       - As crianas, por vezes, surpreendem-nos. Muito. Na maioria dos casos, j sabem o que se passa antes de lhes contarmos.
       -  possvel. - Nessa altura, os dois rapazes passaram de novo pela cozinha, visivelmente bem-dispostos. Cinco minutos depois, Trygve chamou-os para jantar.
       - As almndegas esperam-vos, rapazes...! - anunciou ele, obrigando-os a lavar as mos antes de se sentarem  mesa. Antes de comearem a comer, Trygve agradeceu 
a Deus por aquela refeio, o que surpreendeu positivamente Page. De certa forma, ela sentiu-se bem ao ouvir aquela pequena orao, inserida num ambiente to distinto 
daquele que tinha conhecido durante toda a sua infncia. Em sua casa, no era costume darem as boas graas antes das refeies, e s freqentavam a igreja em ocasies 
de maior importncia. O fato de Trygve ser religioso era para ela uma novidade.
       - Vou sempre  igreja aos domingos com o meu pai - explicou Bjorn ao seu novo amigo. - L, falam-me de Deus. Acho que Ele  bom amigo, ias gostar de O conhecer. 
- Page reprimiu um sorriso, observando que, do outro lado da mesa, Trygve tambm sorria.
       Os dois rapazes continuaram a conversar, e depois de jantar, Page e Trygve foram at ao jardim. Arrumar a cozinha era tarefa de Bjorn, e Andy ficou a ajud-lo.
       -  um mido muito querido - comentou ela, referindo-se a Bjorn, quando os dois se sentavam nas cadeiras do relvado. Estava um fim de tarde lindo, e ambos 
permaneceram bastante tempo em silncio, admirando o Sol alaranjado que descia sobre as montanhas de Marin.
       - , sim - admitiu Trygve. - Felizmente, o Nick e a Chloe tm a mesma opinio. Um dia, sero eles a tomar conta do irmo, quando eu j no o puder fazer. 
J pensei em habitu-lo a morar num apartamento, mas penso que, por enquanto, ele ainda no est preparado para isso.
       Essa era uma preocupao que agora Page tambm teria de considerar. Se Allie no fosse capaz de tomar conta de si prpria, um dia seria Andy o responsvel 
pela irm. Tal problema nunca lhe tinha ocorrido, mas ela sabia agora que as crianas diferentes tinham problemas diferentes e, subitamente, deparava-se-lhe uma 
perspectiva futura completamente inesperada.
       - Gostei muito de vos ter conosco hoje Page - confessou ele, sorrindo. - Gostei mesmo muito.
       - Tambm ns - murmurou ela. - Com a nossa vida to confusa e to atribulada, deu-nos uma oportunidade de passar um dia muito agradvel, Trygve.
       -  apenas uma fase Page - observou ele com base na sua experincia, tentando prestar-lhe algum auxlio.
       - A mim parece-me que esta fase vai durar para sempre. Nem sequer sei que direo tomar! Est tudo a acontecer to depressa, que nem tenho tempo para pensar. 
Aquilo que, na semana passada, era o mais importante para mim, agora j nem faz parte da minha vida...  muito difcil saber o que fazer - desabafou ela, enquanto 
Trygve lhe pegava na mo. No a desejava assustar, e sabia que aquele no era o momento indicado, mas havia algo nela que incentivava a sua faceta protetora.
       - Est a conseguir fazer tudo bem, Page, mas no pode resolver tudo de repente. Os problemas tm de ser resolvidos devagar.
       Ouvindo o conselho de Trygve, Page desatou a rir e respondeu:
       - Neste momento, com a minha vida a modificar-se to rapidamente, pedir-me para resolver devagar os problemas  uma contradio!  minha volta, est tudo 
a ruir to depressa que nem sequer tenho tempo para verificar o que fica de p...
       Desta vez, foi ele quem riu com a ironia dela, enquanto juntos admiravam o entardecer.
       - s vezes, a vida parece to simples... mas a realidade  sempre mais complicada do que a aparncia, no ? - observou Trygve, quando o sol desapareceu entre 
as montanhas. - Imaginamos que est tudo bem, e num pice, quando menos esperamos, toda a nossa vida cai por terra. O nico motivo para ainda ter esperana  saber 
que, quando voltamos a constru-la, o resultado  quase sempre melhor do que o anterior.
       - Gostava de poder acreditar nisso - comentou Page, fitando-o com agrado e tomando conscincia de que Trygve era, de fato, um homem honesto, inteligente e 
verdadeiramente vlido.
       - Hoje em dia sou muito mais feliz do que era antes - admitiu ele com total franqueza. - Nunca pensei que isso fosse possvel, mas agora sei que sim. Gostava 
muito de me voltar a casar, at gostava de poder ter mais filhos, mas j no perco tempo a pensar se isso alguma vez me vai suceder. E sabe uma coisa? Mesmo que 
a mulher certa para mim nunca venha ao meu encontro, j posso dar-me por muito contente com a minha vida atual, pois sinto-me perfeitamente realizado com o meu trabalho 
e com o meu papel de pai. Antigamente, passava todo o tempo a tentar resolver os problemas que surgiam com a Dana, sem nunca o conseguir. Ela sempre agiu de uma 
forma que tornava inteis todos os meus esforos, e, no fim, eu acabava sempre por me culpar. Atualmente, j no sofro nem metade do que sofria nessa altura! Gosto 
muito da vida que levo e sinto-me em paz comigo mesmo e com os meus filhos. Vai ver que daqui a pouco tempo tambm vai sentir-se assim. Tem uns filhos muito bons, 
um talento muito valioso, e  uma tima pessoa. Merece ser feliz Page, e um destes dias, com ou sem um homem ao seu lado, vai s-lo.
       - Era capaz de me sentir mais segura disso se o Trygve me prometesse que as coisas iriam ser assim...
       - Bem gostava... mas vai ver que tudo se ir compor.
       - Mal posso esperar por esse dia - respondeu Page, reparando que Trygve mantinha o olhar fixo nela durante muito tempo. Subitamente, ele inclinou-se sobre 
a sua cadeira e Page teve a ntida impresso que a tencionava beijar. Contudo, nesse exato instante, os dois rapazes apareceram junto deles e pediram para jogar 
basebol.
       - Nada feito, meus meninos - respondeu Trygve firmemente. Assim, aquele momento passou, e Page duvidou se no teria sido apenas fruto da sua imaginao. - 
 muito tarde para jogar basebol, Bjorn. O melhor  ires para casa ver televiso, porque daqui a pouco so horas de deitar - declarou Trygve, dirigindo-se em seguida 
a Page:
       - Se quiser, o Andy pode dormir aqui. Vai voltar para o hospital?
       - Tinha pensado em ir para casa. O Brad disse-me que talvez fosse buscar o Andy amanh, o que me dava mais tempo para ficar com a Allie. Ainda volta hoje 
ao hospital? - Todo o tempo que tinham disponvel era passado no hospital, e para ambos era quase um quebra-cabeas conjugar todas as tarefas de forma a no esquecer 
as necessidades de ningum.
       - Sim, vou para l daqui a pouco.
       - Eu tenho de ir para casa - disse Page sem vontade de o fazer, deixando-se ficar ali sentada mais um pouco, saboreando o ar fresco do incio da noite e a 
companhia de Trygve. Este no voltou a tentar aproximar-se dela, e no caminho para casa Page chegou  concluso que tudo no havia passado de um delrio seu. Afinal, 
Trygve prezava muito a sua independncia, tinha uma vida j estabelecida, e tal como Allie comentara na semana anterior, no parecia sentir a falta de uma presena 
feminina na sua vida, tendo em conta o muito que a ex-mulher o tinha magoado.
       Contudo, agora tambm Page sentia que fora magoada por Brad; mas era ainda muito estranho e difcil admitir que sentia uma forte atrao por Trygve. At esse 
momento, nunca se tinha apercebido desse seu sentimento, mas depois de uma semana de estreita convivncia Page era forada a admitir que no s o achava muito interessante, 
como tambm muito atraente. Assim, sem se dar conta, Page pensava nele com um sorriso nos lbios, quando Andy interrompeu abruptamente os seus pensamentos com uma 
estranha questo:
       - Me, quem  a Stephanie?
       - A Stephanie... ? - repetiu ela, nervosa, sem saber o que responder.
       - Eu ouvi que tu e o pai estavam a discutir por causa dela. E depois ouvi o pai falar com ela ao telefone.
       - Acho que  uma colega do teu pai - respondeu Page, sem dar a mnima entoao  sua voz. Afinal, Trygve estava certo: as crianas apercebiam-se de tudo o 
que se passava  sua volta. Page temia que Andy tivesse ouvido mais alguma parte da discusso que ela e o marido haviam tido na noite em que tivera o pesadelo.
       - Ela  simptica? - insistiu ele.
       - No a conheo. - A voz de Page mantinha-se inexpressiva.
       - Ento porque  que gritaste com o pai por causa dela? - Andy pressionava a me, e Page comeava j a enervar-se.
       - Eu no estava a gritar com o teu pai, e no quero falar mais nesse assunto.
       - Porqu? A Stephanie foi muito simptica quando falou comigo ao telefone.
       - Quando? - perguntou muito abalada. Mesmo sabendo da existncia dessa mulher na vida do marido, era ainda muito duro para ela ouvir o filho referir-se a 
Stephanie.
       - Ontem, quando tu estavas no hospital; pediu para eu dizer ao pai que ela tinha telefonado.
       - E disseste?
       - Esqueci-me. Espero que o pai no fique zangado comigo.
       - No, o pai no vai zangar-se contigo por causa disso. - Page esforou-se por tranqilizar o filho, mas ao chegar a casa, o seu rosto denunciava a sua perturbao.
       - Ests zangada comigo? - perguntou-lhe Andy, inquieto, enquanto a me o ajudava a vestir o pijama. Page respirou fundo e fitou o filho, dando-se conta de 
que no era justo culpar Andy pelo procedimento do pai.
       - No, querido, a me no est zangada contigo; est apenas cansada.
       - Agora ests sempre cansada, mam... desde o dia do acidente.
       - Tm sido uns dias muito difceis para todos ns. E para ti tambm, como bem sabes, Andy.
       - Ests zangada com o pai?
       - s vezes estou, mas na maior parte do tempo estamos s preocupados com a Allie. No estamos zangados contigo, filho, e tu no tens nada a ver com o que 
est a passar-se.
       - E no ests zangada com a Stephanie? - Andy tentava apenas perceber o que se passava em sua casa. As suas perguntas demonstravam a sua esperteza, pois aproximava-se 
muito mais da verdade do que ele prprio suspeitava. Page suspirou, e em seguida respondeu, desanimada:
       - Eu nem sequer a conheo, Andy. - Afinal, era essa a verdade; era com Brad que Page se devia revoltar, pois somente o marido a havia trado, mentido e magoado. 
A culpa era apenas dele e no da mulher com quem preferia agora passar as suas noites. - A me no est zangada com ningum, filho, nem mesmo com o pai.
       - Ainda bem - respondeu Andy, sorrindo aliviado. Page dava-se conta de que no poderiam esperar muito mais para explicar a atual situao ao filho, especialmente 
se Brad tencionava sair de casa dentro em breve.
       - Eu gostei do Bjorn - comentou Andy.
       - Eu tambm.  um bom menino.
       -  o amigo mais velho que eu tenho; ele tem dezoito anos... e  especial.
       - O Bjorn  especial, mas tu tambm s - respondeu Page com um sorriso terno. - A me gosta muito de ti, filhote. - Deitou-o com um beijo, e depois, j na 
cama, meditou no quanto a sua vida mudara apenas no espao de uma semana. Como tudo era menos complicado h oito dias atrs, quando Page julgava que Allie tinha 
ido jantar com Trygve e com Chloe, e que o marido estava em Cleveland! Nessa altura, as coisas eram bem mais simples... mas agora tudo se havia modificado. Uma nica 
mentira de adolescentes destrura uma srie de vidas.
       
CAPTULO 10
       Page passou a maior parte do domingo no hospital, depois de ter deixado Andy em casa de amigos. Brad telefonara nessa manh, avisando que, afinal, no tinha 
tempo para ir buscar o filho, mas Andy, apesar de ter ficado inicialmente desiludido com mais uma ausncia do pai, acolheu de boa vontade a idia de passar o dia 
em casa do amigo.
       Trygve esteve alguns minutos com Page na sala de espera da unidade de cuidados intensivos; levou-lhe umas sandes e um pacote de bolachas e depois regressou 
 companhia da filha, que recebia visitas constantes. Chloe alegrava-se com a presena dos seus amigos, e melhorava de dia para dia.
       - A propsito, o Bjorn adorou o dia de ontem - comentou Trygve quando estava ainda no corredor a conversar com Page, partilhando com ela uma sandes. Parecia 
feliz por a ver de novo, mas Page estava convencida de que imaginara algo que, na realidade, ele nunca tencionara levar a cabo, pois tal como de todas as outras 
vezes Trygve tratava-a com amizade e ateno, mas no com romantismo.
       - O Andy tambm gostou muito de estar com o Bjorn. Alis, se ele no tivesse ido para casa de um amigo, hoje teria convidado o Bjorn para passar o dia com 
ele.  que afinal o Brad telefonou a dizer que no o podia vir buscar.
       - Bem, seja como for, o Bjorn hoje tambm tinha de fazer os trabalhos de casa. Como  que o Andy reagiu ao telefonema do pai?
       - Ficou desiludido, mas acabou por se conformar. Page e Trygve continuaram a conversa at este ter de voltar para o quarto de Chloe. No final da tarde, quando 
Page saiu do hospital para ir buscar Andy, resolveu parar para comer um gelado com o filho. Com um cenrio em mudana permanente, os pequenos hbitos tornavam-se 
reconfortantes para os dois.
       Mais tarde, ficaram ambos surpreendidos com a presena de Brad, que chegou a casa alguns minutos depois deles e anunciou que ficava para jantar. Quando perguntou 
pela filha Page disse-lhe a verdade: estava viva, mas nas mesmas condies.
       Jantaram os trs na cozinha quase em silncio e, em seguida, Page ficou espantada por ver o marido encher uma mala de roupa.
       - Vais sair de casa? - indagou ela, como se j o esperasse, o que trouxe a ambos algum embarao. Em poucos dias, o casamento deles resumia-se quilo.
       - Vou passar uns dias a Chicago, em trabalho. - Mas Brad no lhe contou que ia acompanhado por Stephanie, que, dessa vez, tinha feito questo de viajar com 
ele.
       - Quando  que vais? - perguntou Page co muita calma, pronta para todas as eventualidades.
       - Esta noite. Reservei um lugar no vo noturno.
       - E a Alie? - O que  que sucederia se ele faltasse mais uma vez com a sua presena? Como  que Brad poderia suportar viver depois com a sua conscincia? 
Contudo, Page j imaginava qual a resposta do marido.
       - No posso deixar de ir. Vou concluir um negcio da mxima importncia - respondeu Brad imperturbvel. Page no se conteve e perguntou-lhe ento:
       - Um negcio...? Como aquele que ias fazer a Cleveland?
       - No vamos comear Page - retorquiu ele, friamente. - No quero voltar a ter esse tipo de conversas.
       - Nem eu. - Page j no depositava nele a mnima confiana, mas, para ela, isso agora j no era o mais importante.
       - Continuo a ter de trabalhar, sabias? Antes ou depois do acidente, as minhas responsabilidades so as mesmas, e incluem, como bem sabes, ter de fazer algumas 
deslocaes.
       - Sim, bem sei - respondeu ela, saindo do quarto. Brad despediu-se do filho antes de sair e, desta vez, deixou o seu contato anotado num bloco da cozinha. 
O marido ia estar trs dias ausente, mas Page j no se importava; de certa forma, a ausncia dele at contribuiria para aliviar um pouco a tenso que agora existia 
entre ambos.
       - Na quarta-feira estou de volta - anunciou ele, batendo com a porta e percorrendo a passos largos o caminho at ao carro. J estava um pouco atrasado, pois 
tinha ainda que ir buscar Stephanie no caminho para o aeroporto. Ouvindo os passos de Brad na calada, Page constatou que a nica frase que ele pronunciara antes 
de sair tinha sido aquela; j no havia a necessidade de lhe dizer "adeus" e muito menos "amo-te".
       - Ests zangada com o pai? - perguntou Andy, inquieto. Ouvira o tom agressivo com que os pais tinham conversado, e sentia-se de novo assustado. Ainda h minutos, 
no seu quarto, Andy tapara os ouvidos com a almofada para no ouvir os gritos dos pais, no caso de estes voltarem a discutir.
       - No, no estou - respondeu Page, apesar de a sua expresso dizer exatamente o contrrio.
       Depois da sada de Brad, Page resolvera ler um pouco, tentando no pensar em tudo quanto havia mudado. Mas havia tanto em que pensar! Resolveu ento telefonar 
de novo para o hospital, para depois poder ir deitar-se.
       Na manh seguinte, depois de deixar Andy na escola, Page preparou-se para passar mais um dia na enfermaria da unidade de cuidados intensivos, perto da filha. 
Frances, a enfermeira-chefe, j a conhecia to bem que a deixava passar horas e horas  cabeceira da filha. A presena de Page comeava j a tornar-se uma espcie 
de rotina. Naqueles dias, a sua vida resumia-se a correr da cabeceira da filha para a escola de Andy; no tinha qualquer outra ocupao, qualquer outra preocupao, 
a no ser discutir com o marido nas poucas ocasies em que o encontrava. No momento presente, sentia que a sua vida no podia ser mais desgastante.
       Enquanto decorria a sua viglia no hospital, Page sentia todo o corpo dormente, observando o ritmo montono do ventilador que ajudava Allie a respirar. As 
compressas que lhe cobriam os olhos j haviam sido retiradas e houve um momento em que Page julgou ter detectado um leve movimento numa das plpebras de Allie. No 
entanto, depois de vrios minutos de observao atenta, foi obrigada a concluir que tudo no passara de imaginao sua. Por vezes, a intensidade de um desejo  tanta 
que nos leva a ver algo que na realidade no existe.
       Page fechou ento os olhos e recostou-se na sua desconfortvel cadeira. Nesse instante Frances veio ao seu encontro, para anunciar que os terapeutas que vinham 
diariamente movimentar as pernas e os braos de Allie deviam estar a chegar. Era uma visita muito importante, que permitia que os msculos dos membros de Allie no 
atrofiassem e que as suas articulaes no perdessem a flexibilidade. Mesmo com um doente em estado de coma havia sempre muito a fazer.
       - Mistress Clarke? - Page abriu os olhos, sobressaltada.
       - Sim?
       - Tem uma chamada  sua espera. Pode atender l fora.
       - Obrigada. - Devia ser Brad, de Chicago, querendo saber notcias de Allie, pois era a nica pessoa que sabia onde ela se encontrava, excetuando Jane, que 
no tinha qualquer motivo para lhe telefonar, e Andy, que estava na escola. Contudo, a chamada no era da parte de Brad e sim da escola primria de Ross, onde Andy 
estava matriculado. Pedindo desculpas pelo incmodo, explicaram-lhe ento que se tratava de uma emergncia, pois Andy acabava de sofrer um acidente.
       - Um acidente com o meu filho... ? - repetiu ela mecanicamente, como se no se lembrasse de ter algum filho. Todo o seu corpo parecia ter recebido um choque 
eltrico. - O que  que aconteceu? - inquiriu ela ento, sentindo que uma onda de pnico a dominava.
       - Lamento muito Mistress Clarke, mas houve um acidente na aula de Educao Fsica... - Era a secretria da escola, que Page mal conhecia. - O seu filho caiu 
do espaldar do ginsio. - "Meu Deus... Ele morreu, partiu a cabea, fez tambm um traumatismo craniano", pensou Page, comeando instantaneamente a chorar. Ser que 
ningum se apercebia que ela j no tinha foras para passar de novo por tudo aquilo?
       - Como  que ele est? - perguntou Page num leve murmrio, enquanto  sua volta as enfermeiras comeavam a notar que ela estava cada vez mais plida.
       -  possvel que tenha partido a omoplata. Vai agora a caminho do hospital onde a senhora se encontra. Se descer at s urgncias, depressa o encontrar.
       - Est bem. - Page desligou o telefone sem sequer se despedir e, olhando  sua volta, anunciou, dominada pelo medo e pelo nervosismo: - Foi o meu filho... 
o meu pequenino... sofreu um acidente na escola.
       - Tenha calma. No deve ser nada de grave. - Frances entrou imediatamente em cena e obrigou Page a sentar-se e a beber um copo de gua. - Procure acalmar-se, 
Page. O seu filho no deve ter sofrido nada de grave. Para onde  que o vo levar?
       - Ele vem para este hospital, para o servio de urgncias.
       - Eu levo-a at l - prometeu calmamente a enfermeira-chefe, dando ordens para a substiturem durante alguns minutos, de forma a poder acompanhar Page at 
ao andar de baixo. Esta ltima encontrava-se muitssimo nervosa, tremendo de ansiedade. Contudo, quando chegaram s urgncias, Andy ainda no havia dado entrada.
       Frances deixou Page entregue aos cuidados de uma outra enfermeira desse piso, e retirou-se. Logo depois Page fugiu at ao telefone mais prximo, sentindo-se 
um pouco culpada por essa sua atitude to pouco ponderada, mas admitindo que, pelo menos uma vez na vida, era forada a reconhecer que no se sentia com foras para 
suportar aquela prova sozinha; tinha que lhe telefonar.
       Ele atendeu aps o segundo toque, com uma voz ausente e distrada. Page concluiu que devia estar a escrever quando o telefone o interrompeu, pois sabia que 
ele tinha de entregar um artigo para o jornal The New Republic.
       - Estou? - disse Trygve.
       - Desculpe, mas eu tinha de lhe telefonar... houve um acidente na escola... - De incio, ele no reconheceu a voz de Page e julgou que fosse algum a avis-lo 
de um acidente ocorrido com Bjorn. Mas logo depois apercebeu-se que era a voz de Page.
       - Page... ? Est bem? Aconteceu alguma coisa? - A voz dela estava muito alterada.
       - No sei ainda... - Ela chorava copiosamente, e as suas explicaes eram muito pouco esclarecedoras. - Foi o Andy... telefonaram-me agora da escola a dizer 
que ele partiu alguma coisa... caiu do espaldar... - Page recomeou a soluar ao telefone, e Trygve levantou-se de imediato, comunicando:
       - Eu vou j para a. Onde  que est?
       - Estou no servio de urgncias do Marin General. Trygve dirigiu-se o mais depressa que pde para esse local, que entretanto j se tomara familiar para os 
dois. Chegou exatamente na altura em que Andy estava a ser retirado de um carro por um dos seus professores e apressou-se a ir ao encontro dele. Andy estava muito 
plido e assustado, mas no havia a menor dvida que estava perfeitamente consciente e fora de perigo.
       - O que  que ests a fazer aqui, Andy? Este stio  para pessoas doentes e tenho a impresso de que no ests nada doente! - Enquanto brincava com ele, Trygve 
aproveitava para o examinar atentamente.
       - Parti um brao... e doem-me as costas... ca do espaldar - explicou Andy com a voz trmula, enquanto Trygve abria a porta para o professor passar com o 
aluno nos braos. A sua aparncia permitia concluir que se tratava do professor de Educao Fsica, pois usava um fato de treino, calava tnis e trazia um apito 
 volta do pescoo; parecia preocupado com Andy.
       - A tua me est l dentro  tua espera - comunicou Trygve a Andy. Assim que entraram, Trygve detectou-a de imediato: estava nervosa e assustada, e parecia 
no conseguir parar de tremer. Page comeou a chorar assim que o viu, consciente de que toda a fora que precisara de ter em relao a Allie se tinha esgotado. Trygve 
abraou-a e puxou-a para junto de si, de forma a faz-la parar de tremer, e o professor levou Andy para ser examinado; l dentro, estava j uma enfermeira  espera 
dele, alegre e simptica, que logo o observou, verificando a extenso dos ferimentos. Comeou a examin-lo atravs do tato, detectando assim que Andy partira o brao 
e deslocara o ombro, mas de seguida projetou nos olhos dele uma luz, de forma a concluir sobre a possvel existncia de um traumatismo craniano.
       - Ento, Andy? Parece-me bem que ests a querer imitar a Chloe... Ela no pode andar e agora tu resolves partir um brao! Acho que vou ter que deixar o Bjorn 
tomar conta de vocs os dois...! - brincou Trygve.
       Andy esboou um tnue sorriso, mas o brao doa-lhe muito. Deitaram-no de seguida numa maca e levaram-no a tirar uma radiografia, enquanto Trygve ficou a 
fazer companhia a Page.
       - Ele vai car bem, Page. No  preciso ter medo - assegurou ele, enquanto tiravam a radiografia ao ombro de Andy.
       - No sei como  que isto foi acontecer... - confessou ela, ainda bastante trmula e muito plida. - Quando soube, perdi completamente o controle. Desculpe 
t-lo feito vir at aqui... - Mas o seu primeiro impulso tinha sido correr a avis-lo; Page necessitava de o ter ali ao seu lado, tal como tivera naqueles primeiros 
dias aps o desastre e desde ento. Embora surpreendida, dava-se conta de que era da presena de Trygve que sentia necessidade, e no da de Brad. Page tinha agora 
a certeza de que poderia sempre contar com ele e Trygve estava feliz por lhe poder ser til.
       - No tem de me pedir desculpa de nada. S lamento que isto tenha acontecido. Mas ver que o Andy vai voltar a car bom num instante! - Entretanto, o professor 
voltara para a escola, de forma que foi Trygve quem segurou a mo de Andy quando lhe endireitaram o ombro, e ele gemeu de dores. Seguidamente, engessaram-lhe o brao 
e deram-lhe um analgsico, recomendando-lhe descanso para aquele e para os prximos dias. Passado algum tempo, Andy voltaria ao seu estado normal, apesar de o aparelho 
de gesso no poder ser retirado at da a seis semanas. A fratura tinha sido violenta, mas dada a idade de Andy, o mdico assegurou que no se previa qualquer tipo 
de conseqncias.
       - Eu levo-vos para casa - afirmou Trygve com determinao. Dado o estado de nervos de Page, no se atreveria a colocar nas mos dela um simples triciclo, 
quanto mais um carro!
       Ela acedeu, mas foi primeiro  unidade de cuidados intensivos buscar a sua carteira e avisar as enfermeiras que iria para casa. Trygve aproveitou tambm para 
passar pelo quarto de Chloe e prometeu  filha que viria visit-la mais tarde. Contou-lhe o que acabara de suceder, e ela mandou um beijinho para Andy, comentando 
que o azar parecia persegui-los nos ltimos dias.
       - Dize-lhe que assim que o vir quero assinar o meu nome no gesso do brao dele.
       - Est bem... At logo. - Trygve dirigiu-se apressadamente para o piso das urgncias e levou Andy ao colo at ao carro. Este ltimo estava j meio adormecido 
com a anestesia, e Page levava consigo uma embalagem de analgsicos. Tinham-na avisado de que Andy passaria todo o dia a dormir, pois o sono era a melhor cura para 
o desgaste nervoso que sofrera.
       Page manteve as portas abertas para dar passagem a Trygve, at este deitar Andy na sua cama; depois, Trygve ajudou Page a despir Andy, que abriu uma ou duas 
vezes os olhos, mas no acordou. Contudo, no era com Andy que Trygve estava preocupado; era com Page.
       - Devia ir deitar-se um pouco Page. No a acho nada bem.
       - Apanhei um grande susto, foi s isso... no sabia o que esperar... pensei que...
       - Imagino quais foram os seus pensamentos. - Era fcil deduzi-los, a julgar pela palidez de Page. - V, vamos... onde  o seu quarto?
       Ela foi  frente a indicar o caminho e Trygve esperou at que Page se deitasse em cima da cama, vestida.
       - No  preciso estar to preocupado, Trygve. Eu j estou bem.
       - No me convence. Quer beber um clice de brande? Era capaz de lhe fazer bem. - Page abanou a cabea, sentou-se na cama e, com um sorriso, olhou o homem 
que tinha abandonado tudo o que estava a fazer para correr ao seu encontro.
       - Obrigada por toda a ajuda que me tem dado, Trygve. Eu nem sequer pensei antes de lhe telefonar! S sabia que precisava da sua presena.
       Trygve sentou-se numa poltrona que ficava ao lado da cama e fitou-a com ternura.
       - Fico feliz por me ter telefonado e por ter podido ajud-la. J teve problemas que cheguem! - De sbito, ocorreu-lhe um pensamento que o fez estranhar mais 
ainda o fato de Page no ter telefonado de imediato ao marido: - No quer avisar o Brad?
       Page no mostrou a mnima hesitao:
       - Telefono-lhe mais tarde. Ele est em Chicago. - E acrescentou: - Quando me telefonaram da escola, nem sequer me lembrei de lhe telefonar. - Page queria 
que Trygve o soubesse: - S me ocorreu telefonar-lhe a si... foi quase uma ao reflexa.
       - Foi um reflexo muito bom, alis - brincou ele, aproximando-se mais de Page. Trygve estava a sentir aquilo que h anos j no sentia, mas as suas novas emoes 
perturbavam-no e confundiam-no. - Page... eu no quero fazer nada que a Page tambm no queira... - murmurou ele, numa ltima tentativa de se manter afastado dela. 
Sentia-se atrado por Page e ela apercebeu-se de que, afinal, aquele momento no jardim na noite anterior tinha sido algo mais do que apenas a sua imaginao. Trygve 
tentara, de fato, beij-la, tal como tentava nesse exato instante e tal como tantas vezes o desejara fazer, durante os terrveis dias e noites que passara a seu 
lado no hospital.
       - No sei bem aquilo que quero - confessou ela com honestidade, erguendo para ele os seus bonitos olhos azuis. - H dez dias atrs pensava que tinha um casamento 
perfeito; depois descubro que tudo no passou de uma mentira, e que o meu casamento talvez tenha chegado ao fim. E no meio de tudo isto, aqui est voc... h muitos 
anos que eu no desabafava assim com ningum...  a nica pessoa com quem conto verdadeiramente, o nico amigo que entende aquilo que estou a sentir... e o nico 
homem com quem quero estar - confessou ela a meia voz, enquanto ele se aproximava cada vez mais. - No tenho a certeza do que aconteceu nem daquilo que pode vir 
a acontecer... no tenho a certeza de nada, a no ser que... no sei... - A voz dela ia-se tornando cada vez mais fraca, mas apesar das suas incertezas, Page no 
fazia nenhum gesto para o tentar afastar.
       - Chiu... no tem de explicar mais nada - murmurou Trygve, sentando-se ao lado dela na cama e envolvendo-a por fim nos seus braos. Tudo aquilo que desejava 
nesse momento era abra-la e beij-la, como h muitos anos no sentia vontade de beijar ningum. Assim, pressionou com suavidade os seus lbios contra os dela e 
depois beijou-a com maior intensidade,  medida que Page sentia a respirao presa e o seu corpo cada vez mais prximo do de Trygve. Sentia-se estupefata com a intensidade 
daquela emoo que tomava conta de todo o seu ser, mas que, simultaneamente, lhe causava muito medo. Tinha de reconhecer que o seu desejo era sincero, e que no 
se tratava apenas de um jogo de vingana contra Brad... tratava-se sim de algum que estivera sempre a seu lado durante a fase mais difcil de toda a sua vida, algum 
que no a havia abandonado nem por um minuto, e por quem se sentia, inegavelmente, muitssimo atrada.
       - O que  que vamos fazer agora? - perguntou ela, afogueada. Trygve afastou-se ento, ficando a admirar o tom alourado do cabelo de Page e as suas feies 
harmoniosas.
       - No nos vamos preocupar com isso, por enquanto. Pelo menos, agora j sei o que fazer para ficares menos plida! Ests com muito melhor aspecto - comentou 
ele, sorrindo de contentamento.
       - Oh, pra com isso...! - pediu Page, batendo-lhe no peito com suavidade. Trygve, porm, envolveu-a de novo nos braos, e desta vez beijou-a com mais sofreguido. 
H muitos anos que no sentia tamanha emoo, talvez nem nunca a tivesse de fato sentido, nem mesmo antes de ser casado com Dana.
       - No, no paro! Nem quero parar nunca - declarou ele. - J me tinha esquecido que podia ser assim...
       - Tambm eu - admitiu ela, com honestidade. S agora se apercebia que Brad estivera sempre demasiado preocupado com a sua satisfao pessoal, dando-lhe a 
ela muito menos do que o devido, quer a nvel emocional, quer a nvel fsico. E de novo Trygve a tomou a beijar, deixando-a uma vez mais sem flego; ela ria, nervosa 
e feliz ao mesmo tempo. Sentia-se aliviada pelo fato de Andy estar a dormir sob o efeito dos sedativos, mas tambm sabia que nenhum deles estava ainda preparado 
para um envolvimento mais srio. Antes de iniciar uma relao com Trygve, ela teria ainda de definir a sua situao com Brad, apesar daquela inesperada circunstncia 
vir alterar um pouco os seus sentimentos.
       - O que  que vou fazer agora? - indagou ela, levantando-se com agilidade e fitando-o com o olhar inocente de uma criana; tambm Page no se lembrava da 
ltima vez em que sentira tamanho contentamento.
       - Daqui a um tempo j sabers responder a essa pergunta. Os acontecimentos falam por si... e eu quero que saibas que a minha inteno no  apressar-te. - 
Depois de se ter esforado por manter alguma seriedade, Trygve acabou por desistir e acrescentou, bem-humorado: - Mas devo informar-te de que no tenciono largar-te 
nem por um segundo at que chegues  concluso que no podes viver sem mim...! - Tanto Trygve como Page sabiam que o que acabava de acontecer era mais do que um 
simples beijo.
       Page sorriu maliciosamente e desta vez foi ela quem o beijou. Tudo o que estava a passar-se entre eles era, de fato, espantoso.
       - Como  que isto aconteceu? - questionou Page quando finalmente se afastaram.
       - No tenho bem a certeza, mas talvez fosse ocasionado pelo ar que corre na unidade de cuidados intensivos... - Ou pelo trauma, pela dor, pelo medo ou ainda 
pela companhia que tinham feito um ao outro. Trygve fora uma presena muito marcante para Page e, de certa forma, ela tambm fora um apoio para ele. Tinham acabado 
de passar pelo pior que a vida podia oferecer, e juntos haviam sobrevivido, com muito pouca ajuda da parte de mais algum, particularmente da parte de Brad, cujos 
nicos esforos tinham sido apenas no sentido de magoar ainda mais profundamente a mulher.
       - A vida  incrvel, no ? - observou Page, expressando a sua admirao pelo ocorrido. - Bem, acho que vamos ter de agir com muita calma. O Brad ainda no 
chegou  concluso do que deseja fazer.
       - E muito provvel que ele j saiba o que fazer, s no teve ainda coragem para to comunicar. O que interessa saber  o que desejas realmente. J sabes se 
queres divorciar-te? - Desejaria ela que Brad sasse de casa? Page admitiria o divrcio, ou preferiria apenas mais tempo para pensar? Trygve no conseguia perceber 
ao certo o que Page desejava, nem tinha a certeza se, de fato, ela prpria saberia definir as suas intenes. O fracasso do seu casamento era muito recente, e Page 
no estava ainda preparada para tomar nenhuma deciso.
       - Todas as vezes que estou com o Brad chego  concluso que o nosso casamento acabou. Ele est praticamente a viver com aquela mulher, mas eu ainda sou casada 
com ele e  muito difcil acabar um casamento de repente.
       - Ningum te est a pedir isso Page - afirmou ele, com delicadeza. Trygve entendia perfeitamente aquilo por que Page estava a passar, pois ele mesmo vivera 
uma experincia idntica. Por conseqncia, estava disposto a esperar pacientemente at ela chegar a alguma concluso, j que nunca conhecera uma mulher assim.
       O telefone interrompeu ento a conversa, e Page correu para a sala, certa de que seria do hospital. Sabia que nesse dia no iria suportar mais ms notcias, 
por isso fechou os olhos quando atendeu. Trygve segurava-lhe firmemente a mo, pronto a dar-lhe toda a fora de que ela, porventura, viesse a necessitar.
       - Estou? - perguntou ela cautelosamente, receando ouvir a voz do outro lado da linha. Mas logo de seguida abriu os olhos e abanou a cabea. No era do hospital, 
mas sim a sua me. Contudo, as notcias tambm no eram as mais animadoras, j que a me e a irm, depois de muito terem ponderado, tinham decidido vir ao seu encontro. 
Sabiam que Page certamente estaria a precisar de ajuda, apesar de esta se apressar a assegurar exatamente o contrrio.
       - Est tudo bem, me, a srio - insistia ela. - De momento, tenho tudo controlado e o quadro clnico da Allie est estabilizado.
       - Bem sabes que o estado da Allie pode mudar de um momento para o outro. E, de qualquer forma, a Alexis precisa de falar contigo; o David indicou-lhe o nome 
de um cirurgio plstico muito bom, para quando precisares. - Mais tarde Page necessitaria certamente de encontrar um cirurgio plstico para a filha, mas de todas 
essa era agora a sua menor preocupao. Primeiramente, era preciso que Allie sasse de coma e que o seu crebro retomasse alguma das suas funes normais; no entanto, 
para Alexis, s existia uma prioridade: que a sobrinha mantivesse a sua boa aparncia, para que, exteriormente, nada de anormal houvesse a registrar.
       - Me, continuo a pensar que no  realmente necessrio que venham - afirmou Page, tentando aparentar uma calma que no sentia. A ltima coisa que ela precisava 
naquela altura era da presena da me e muito menos ainda da irm.
       - No discutas comigo - ordenou a me, com firmeza. - No domingo j estamos a contigo.
       - Mas, me... no pode ser... eu no tenho tempo para vos dar ateno. Preciso de assistir a Allie e o Andy acabou de sofrer um pequeno acidente.
       - O qu?! - Pela primeira vez na vida Page reparou que a me dava mostras de ter ficado realmente abalada.
       - No foi nada grave, partiu um brao no ginsio da escola; mas neste momento, todo o meu tempo  para os meus filhos.
       -  exatamente por esse motivo que decidimos ir para a, querida. Queremos dar-te a nossa ajuda.
       Page suspirou, ouvindo os argumentos da me, sem saber mais o que responder.
       - Continuo a achar que  totalmente desnecessrio, me.
       - Chegamos no prximo domingo, s duas da tarde. A Alexis vai pedir ao David que mande um fax ao Brad com todos os pormenores. At domingo! - E antes que 
Page pudesse pronunciar uma s palavra, a me desligou, deixando-a completamente desorientada.
       - No vais acreditar no que aconteceu - disse ela a Trygve, num tom de desnimo.
       - Deixa-me tentar adivinhar: a tua me decidiu vir visitar-te e achas que isso vai complicar ainda mais a tua vida.
       - Complicar... ? Esse  um termo muito suave! Deixa-me dar-te alguns exemplos bblicos: achas que Dalila foi s uma pequena complicao para Sanso? Julgas 
que David se limitou a complicar a vida de Golias, ou a serpente a vida de Clepatra...? Como vs, "complicar"  um verbo muito pouco apropriado... Durante toda 
a semana, tentei convencer a minha me de que no era preciso vir, e agora, para cmulo, alm de ter decidido vir, resolveu ainda trazer a minha irm!
       - De quem tu no gostas...? - indagou ele, tentando perceber todo o passado familiar numa s breve lio.
       - Que no gosta de num... apesar de a Alexis no ter muitas energias para detestar algum, porque as gasta todas consigo prpria;  completamente narcisista. 
A minha irm  casada com um cirurgio plstico de Nova Iorque e nunca teve filhos. Aos quarenta e dois anos j fez duas operaes plsticas aos olhos, trs ao nariz 
e uma ao peito! Alm disso, fez lipoaspirao em todo o corpo e um lifting ao rosto, para atenuar as rugas. Tudo na aparncia dela  perfeito: as unhas, a cara, 
o cabelo, as roupas, o corpo; gasta cada minuto do dia a cuidar do fsico, e at hoje nunca dedicou o seu tempo a mais ningum, a no ser a ela prpria, tal como 
a minha me. Sabes qual  o verdadeiro motivo desta visita? A minha me e a minha irm querem apenas que eu me dedique a tornar esta estada o mais agradvel possvel, 
e que lhes assegure que est tudo bem com a Allie. E mesmo que no seja esse o caso, querem ter a certeza de que esse incmodo no as vai poder afetar ou perturbar 
em nada.
       - No te referes  tua me e  tua irm de uma forma muito lisonjeira... - observou Trygve, beijando-lhe a ponta do nariz, divertido com a descrio dela. 
A relao dele com os pais era tima e logo aps o acidente eles tinham-se oferecido de imediato para vir ajudar o filho, mas Trygve queria poup-los  longa viagem 
que teriam de fazer desde a Noruega. Todavia, observando a expresso de desnimo no rosto de Page, deu-se conta de que ela estava, de fato, a falar a srio.
       - Nem o poderia fazer nunca... - respondeu ela, erguendo-se da cadeira onde estava sentada e fazendo tenes de se afastar dali.
       - Onde  que julgas que vais? - perguntou Trygve, puxando-a para si e envolvendo-a novamente nos seus braos.
       - Deitar fogo  casa! - respondeu ela, irnica e mordaz. Todavia, um minuto depois Page beijava Trygve mais uma vez, esquecendo-se de imediato do tema da 
conversa anterior.
       - Tenho uma idia melhor - sugeriu ele com a voz j um pouco enrouquecida pelo desejo com que a beijava. Page fechou ento os olhos, saboreando aquele momento, 
enquanto ele lhe beijava sofregamente o pescoo. Como era aquilo possvel? Num perodo de dez dias, Page perdera o nico homem que amara at ento, e agora encontrava-se 
de sbito nos braos de um outro; um que a. tratava com toda a amizade e considerao, e que a desejava tanto quanto ela o desejava a ele. Apesar de no fazer muito 
sentido, no deixava de ser uma surpresa bastante agradvel...
       - Ainda  muito cedo para nos envolvermos de mais... - murmurou ela, quando Trygve a beijou de novo.
       Ele olhou-a com um sorriso nos lbios e respondeu:
       - Eu sei, minha tontinha... No sou assim to idiota! Temos todo o tempo  nossa frente e no quero pressionar-te a fazer nada.
       - E porque no? - desafiou Page, fingindo-se ofendida. Ele, porm, encarou-a com seriedade e respondeu, usando de total franqueza:
       - Porque, se chegares  concluso que realmente desejas fazer parte da minha vida, no tenciono nunca deixar-te partir. No quero perder-te Page. - Trygve 
beijou-a mais uma vez, e s da a muito tempo  que se afastou dela, depois de Page lembrar que talvez fosse melhor que Trygve se retirasse, se no queriam que Andy 
acordasse e os visse abraados aos beijos.
       Ele concordou e prometeu ir visit-los durante a tarde, talvez na companhia de Bjorn, para confirmar se estava tudo bem com Andy e co ela; prometeu igualmente 
passar pela unidade de cuidados intensivos para recolher informaes sobre o estado de Allie. Page no queria deixar Andy sozinho, e assim Trygve encarregou-se de 
tomar conta de tudo, e at talvez de trazer o jantar.
       - H mais alguma coisa que queiras que eu faa? - gritou ele de dentro do carro, quando se preparava para arrancar.
       - H - respondeu Page, da porta de casa.
       - O qu? - Trygve desligou o motor do carro para ouvir melhor a resposta de Page.
       - Aniquilar a minha me!
       Voltou a ligar o carro e afastou-se, rindo como um adolescente.
      
CAPTULO 11
       Brad ficou muito preocupado quando Page lhe contou o que se passara com Andy, mas ela teve a impresso de que o marido a culpava pelo fato de o filho ter 
partido o brao, apesar de ele no o ter admitido.
       - Tens a certeza que eleja est bem? Foi o brao direito, no foi?
       - Foi. Mas o mdico disse que o osso iria solidificar rapidamente. S vai ter de tomar algumas precaues com o ombro: durante este ano no vai poder fazer 
ginstica, e talvez no possa jogar basebol at ao ano que vem.
       - Merda! - respondeu Brad, dando mostras de ter ficado to perturbado quanto ficara com a notcia do desastre da filha. Porm, Page sabia que as reaes deles 
j no eram as mais indicadas s situaes, pois ainda estavam ambos dominados pelo receio e pelo susto, e por isso entendeu perfeitamente a reao exagerada do 
marido.
       - Lamento muito que isto tenha acontecido. Brad.
       - Sim... - respondeu ele, mergulhado nos seus prprios pensamentos. De sbito, lembrou-se de perguntar o que at ento no lhe ocorrera; de fato, era para 
ele um alvio poder estar afastado. - Como  que est a Allie?
       - Continua na mesma. No a vejo desde esta manh, porque fiquei em casa com o Andy. - Contudo, Page omitia que, na noite anterior, Trygve e Bjorn tinham vindo 
jantar com eles, e inexplicavelmente, tambm Andy nada contara ao pai. Page no lhe pedira que no o fizesse, pois seria incapaz de colocar o filho numa posio 
difcil como essa, mas a intuio de Andy levara-o a concluir que j existiam demasiados problemas entre os pais.
       Durante o jantar, Page e Trygve tinham-se comportado com muita seriedade e discrio, mas entre os dois algo mudara, existindo agora um clima de ternura e 
cumplicidade. A manh em que Andy partira o brao alterara por completo aquela amizade, e tornava-se agora muito difcil para os dois esconder aquilo que sentiam.
       Na noite anterior Page e Trygve haviam tido oportunidade para conversar a ss durante muito tempo, enquanto os rapazes brincavam com a cadela no quarto de 
Andy. Bjorn ficara entusiasmadssimo com a coleo de cromos de basebol e com a caderneta de cantores de rock que Andy possua. Bjorn insistira com o amigo para 
jogar s cartas, mas Andy estava demasiado abatido para jogar.
       Me e filho despediram-se de Trygve e de Bjorn com pena de os ver partir, e nessa noite, Page deixou que Andy dormisse no seu quarto, notando com satisfao 
que pela primeira vez desde que ouvira a discusso dos pais, ele no molhava os lenis. De fato, Andy aparentava uma calma que j no tinha desde o acidente da 
irm, e os analgsicos que tomara antes de se deitar permitiram que dormisse um sono tranqilo at de manha. Enquanto o filho dormia, Page mantinha-se acordada ao 
seu lado, acariciando-lhe o cabelo macio e meditando nos ltimos acontecimentos: a queda de Andy, a ausncia de Brad... e Trygve. Page no sabia o que fazer em relao 
a esse assunto; Trygve revelara-se um bom amigo e ela sentia uma forte atrao por ele, mas Brad era o seu marido h j dezesseis anos. Era-lhe ainda difcil aceitar 
que o podia perder, e no entanto, apercebia-se cada vez mais de que essa perda j tinha sucedido. Porm, Page nunca o enganara antes, e apesar da atrao que sentia 
por Trygve e da dificuldade de toda aquela situao, no queria fazer nada de que mais tarde se pudesse vir a arrepender, nem desejava iniciar aquele relacionamento 
de um forma nociva para o desenvolvimento do mesmo.
       Contudo, quando Brad regressou de Chicago, quarta-feira  noite, tratou a mulher com frieza e distanciamento, agindo como se no a conhecesse. Passou a noite 
de quinta-feira fora sem nunca telefonar para casa, e na noite seguinte, quando apareceu, estava ainda mais frio do que antes; comeava a tornar-se cada vez mais 
difcil fingir que o casamento deles ainda existia. As marcas de Stephanie eram bem visveis: usava gravatas diferentes das que usara at ento, comprara fatos novos 
e mudara at o corte de cabelo. Mas por pior que fosse a atitude de Brad, Page no queria utilizar Trygve como uma espcie de retaliao para o marido; desejava, 
acima de tudo, resolver primeiro a sua situao com Brad e chegar a uma concluso quanto ao que ele queria fazer, apesar de Brad no desejar sequer conversar com 
ela sobre esse assunto. O nico tema que ele parecia disposto a discutir com Page era a visita da sua me, que Brad no queria que se realizasse.
       - Como  que a podes deixar vir aqui para casa no meio de toda esta situao? Ainda por cima, a tua irm tambm vem! Vais contratar um cabeleireiro durante 
o tempo que ela aqui estiver, ou vamos ter de telefonar para o cento e quinze sempre que a Alexis precisar de arranjar o cabelo?
       - Tambm no estou satisfeita com esta visita Brad. - Aquela discusso acontecia numa sexta-feira  noite, antes de Brad sair para jantar, supostamente, com 
uns clientes. - Mas como  que posso convenc-las a no vir? A Allie est em coma e  natural que a queiram ver. - Parecia uma atitude razovel, mas Page tambm 
tinha conscincia de que a me e a irm no podiam ser consideradas pessoas razoveis. Brad nunca simpatizara com elas, assim como elas nunca haviam gostado dele, 
apesar da me insistir em fingir o oposto. Brad sabia de mais sobre o passado da famlia, e a sua me sempre se opusera a que Page o pusesse ao corrente de fatos 
antigos. - Fiz todo o possvel para as dissuadir, mas a minha me limitou-se a anunciar que vinham.
       - Sendo assim, agora limitas-te a anunciar que elas no podem ficar aqui em casa. - Page apercebeu-se, pela expresso dele, que Brad estava realmente a falar 
a srio.
       - No posso fazer isso Brad. Trata-se da minha famlia... - afirmou ela, descontente. Tinha conseguido afastar-se delas, mas no podia deixar de as ver de 
vez em quando, nem podia mant-las permanentemente afastadas.
       - Bolas, Page, sabes bem que podes fazer aquilo que quiseres!
       Page comeou ento a irritar-se. O marido no dava um passo para a ajudar mas ainda assim atrevia-se a lanar-lhe ultimatos.
       - S se seguir o teu exemplo, Brad! Ests com medo que elas interfiram na tua vida social, agora que j no tens nada a esconder? - Desde que ele viajara 
para Chicago que o ambiente estava calmo, mas agora a guerra voltava a estourar.
       - Tenho tido muito trabalho.
       - No mintas! Aposto que tambm estiveste muito ocupado em Chicago! - Mas ele voltou-se para ela, avisando com uma expresso furiosa que Page no deveria 
voltar a insistir nesse assunto. O seu procedimento era incorreto, mas, apesar disso Brad no podia suportar mais nenhuma presso; sabia que a sua atitude era igualmente 
injusta, mas de momento nada podia fazer para a modificar.
       - No tens nada com isso - afirmou ele, com a voz tensa.
       - Ah, no?
       - Est tudo a acontecer demasiado depressa para mim. - Com Page, passava-se exatamente o mesmo; tudo acontecera a um ritmo vertiginoso nas duas ltimas semanas, 
mas a culpa no era sua. - Prefiro esperar um tempo at tomar alguma deciso definitiva. - Seguidamente, Brad, fitando-a, fez uma declarao que de imediato a surpreendeu: 
- Cheguei  concluso de que ainda no estou preparado para sair de casa. - Page limitou-se a observ-lo em silncio, conjecturando se ele teria mudado subitamente 
de opinio, se teria discutido com Stephanie ou se estava apenas receoso, perante tantas modificaes.
       - Essa deciso tem alguma coisa a ver conosco ou  apenas uma questo de convenincia? - indagou Page, com o corao acelerado e confusa. Apesar da forma 
como Brad havia procedido para com ela nas duas ltimas semanas, continuava a ser o seu marido e talvez o seu amor por ele no tivesse terminado.
       - No sei... - respondeu Brad com um ar infeliz, mas sem dar um passo na direo dela. - Sair de casa  uma deciso demasiado sria, que anda me assusta muito. 
Talvez me tenha enganado... honestamente, ainda no consigo perceber. S sei que tambm no conseguiria voltar a adaptar-me  nossa antiga forma de vida. - Os dois 
sabiam muito bem que nada voltaria a ser como dantes; Page nunca voltaria a confiar no marido, e ambos tinham a certeza de que Brad no estaria disposto a romper 
a sua ligao com Stephanie. Essa constitua a maior preocupao dele, mas, por outro lado, deixar Page significava igualmente abandonar o filho. Durante a ltima 
semana, Brad ponderara sobre essa possibilidade, mas a dor que sentira ao constatar esse fato fora o suficiente para o fazer desistir. Stephanie no se mostrara 
muito compreensiva, argumentando que Andy poderia vir visit-los a qualquer hora. Brad, no entanto, tinha conscincia de que o seu relacionamento com o filho mudaria 
por completo, caso sasse de casa. - No consigo chegar a nenhuma concluso... - repetiu ele, fitando-a com a mesma expresso de desamparo. - No sei que rumo tomar 
na minha vida... - acrescentou, sentando-se na cama e passando a mo pela cabea, enquanto a mulher o observava em silncio. Depois de Brad lhe ter causado tanto 
sofrimento, e de ainda continuar a faz-lo, Page j no conseguia encar-lo sem alguma desconfiana.
       - Se calhar,  melhor deixar passar um tempo, antes de tomar alguma deciso. - Talvez grande parte dos acontecimentos tivesse sido uma conseqncia do acidente, 
apesar de Page ter quase a certeza do contrrio. - Queres consultar um conselheiro matrimonial? - sugeriu ela, hesitante, sem sequer saber se ela prpria o desejaria 
fazer. Brad, porm, apressou-se a dissipar todas as suas dvidas a esse respeito:
       - No. - No estava disposto a correr o risco de ser obrigado a romper com Stephanie, pois no se sentia ainda preparado para abdicar desse relacionamento. 
Apesar disso, no desejava abandonar a mulher, mesmo admitindo que Stephanie era mais importante para ele. Ela personificava tudo aquilo de que Brad, nesse momento, 
sentia falta: a juventude e a esperana no futuro, qualidades essas que o faziam recordar a filha. No entanto, tinha conscincia de que a sua vida se tornara desequilibrada, 
e assim, qualquer que fosse a deciso que tomasse, nem por isso deixaria de se sentir confuso.
       - No sei o que sugerir mais; a no ser, talvez, um advogado.
       - Eu tambm no sei - admitiu ele, encarando-a com honestidade. - Podes tolerar esta situao durante mais algum tempo, ou est a tornar-se demasiado difcil 
para ti?
       - No tenho a certeza. S sei que no posso viver assim durante muito mais tempo.
       - Nem eu... - confessou Brad, fatigado. Stephanie continuava a pression-lo para que deixasse Page e se casasse com ela, e, por conseguinte, Brad sabia que 
teria de tomar uma deciso.
       De certa forma, tudo aquilo que partilhara com a mulher estava a ser destrudo: o casamento, os filhos, e o clima de amizade e de confiana que sempre existira 
entre eles. Por mais estranho que parecesse Page representava para ele o passado, e Stephanie o futuro. Contudo, nessa noite, deitado na mesma cama que Page, o passado 
voltou a ressurgir com a mesma intensidade de sempre.
       Andy estava a dormir, e a porta do quarto de casal encontrava-se fechada; Page, deitada na cama, lia um livro, ignorando a presena do marido a seu lado. 
Subitamente, Brad aproximou-se dela e beijou-a com uma paixo e uma intensidade de que ela j no se recordava. De incio, tentou resistir, mas o desejo e a insistncia 
de Brad eram de tal forma intensos, que sem que Page se apercebesse, o corpo dele pressionou o seu, depois de lhe ter levantado a camisa de dormir. E mesmo que, 
conscientemente, Page no desejasse fazer amor com Brad, a sua resistncia inicial acabou por ceder; afinal, ele ainda era o homem por quem h duas semanas julgava 
sentir o maior amor.
       Foi ento que, lentamente, Brad a penetrou e ao faz-lo a sua paixo desapareceu, juntamente com a ereo. Tentou disfarar esse fato e esforou-se por reavivar 
o desejo, mas tornava-se inegvel que a confuso e a ansiedade que o afligiam tinham afetado algo mais do que apenas o seu casamento.
       - Desculpa... - murmurou ele, deitado ao lado de Page, envergonhado pelo que sucedera. Page estava ainda sem flego, muitssimo aborrecida por ter cedido 
ao marido. Considerando a situao atual em que viviam, dormir com ele parecia-lhe uma atitude condenvel e despropositada, mesmo sendo ainda casados. Alm disso, 
no tinha a mnima inteno de se tornar na segunda mulher com quem ele dormia, nem de se arriscar mais uma vez a ser magoada por Brad.
       - No podes negar as reaes do teu corpo, Brad - afirmou ela, desanimada. - Talvez seja essa a resposta que tanto procuras.
       - Sinto-me um autntico idiota... - confessou Brad, irritado, caminhando pelo quarto e exibindo o seu corpo, mais atraente e masculino do que nunca. Porm, 
Page sabia que tinha de encarar a realidade, pois por maior que tivesse sido o seu amor pelo marido, estava tudo terminado entre eles; pelo menos, no momento presente, 
seno para todo o sempre.
       - Talvez seja melhor tomares uma deciso, antes de a nossa situao se tornar mais complicada - aconselhou Page racionalmente, e ele assentiu. O que se passara 
fora ridculo e no era bom para nenhum dos dois. Brad espantava-se agora com a extrema facilidade com que, durante o ltimo ano, alternara a cama de Stephanie co 
a de Page, sem nunca ter existido o mnimo problema. No entanto, agora que Page j estava a par de tudo, a situao mudara; se no fosse por necessitar muito da 
liberdade que agora possua Brad quase lamentava ter confessado tudo  mulher. Sabia que devia igualmente essa atitude a Stephanie, pois tambm no estava a agir 
da melhor forma com ela. Brad no podia deixar de ficar surpreendido ao constatar o quanto comeava a gostar de viver com ela. Dada a facilidade com que se entendiam, 
Stephanie insistia para que vivessem juntos e, recentemente, chegara mesmo a ameaar deix-lo, caso ele no se decidisse. Mas, para Brad, a soluo ideal seria poder 
colocar Page de lado nos prximos tempos, fechada num armrio ou congelada num frigorfico para que, durante um ano, pudesse viver com Stephanie; passado esse prazo, 
poderia ento regressar e encontrar tudo exatamente como estava antes da sua partida. Decerto seria essa a resposta mais fcil para todos os seus problemas.
       - Talvez eu deva sair de casa - admitiu Brad, desalentado, sentando-se ao lado de Page na cama. De sbito, o que mais desejava era poder estar com Stephanie 
de novo e provar que no era impotente. Aquele pequeno episdio com Page assustara-o bastante.
       - No quero pressionar-te a tomar nenhuma atitude - respondeu Page, tranqilamente. A leve camisa de dormir evidenciava o seu corpo esbelto e esguio, mas 
Brad no estava a olhar para ela. Page sentia-se culpada por ter deixado que Brad fizesse amor com ela e, subitamente, deu consigo a pensar em Trygve.
       - No entanto, julgo que, seja qual for a deciso que tomarmos, no podemos esperar muito mais tempo. No posso suportar esta situao indefinidamente... e 
o mesmo se passa com o Andy. As tuas idas e vindas esto a tornar-se demasiado cansativas - concluiu Page, desanimada.
       - Eu sei. - Nas duas ltimas semanas, nada se passara normalmente. A seu modo Brad estava to traumatizado quanto Page ou Andy, o que justificava a sua incapacidade 
para tomar decises. - Vamos esperar s mais um pouco.
       Page concordou e decidiu ir tomar um banho, tentando no pensar em Trygve. No queria que o seu relacionamento com ele fosse apenas uma conseqncia da rejeio 
do marido, ou somente um efeito do trauma causado pelo acidente. Se algo de maior importncia viesse a acontecer entre eles Page desejava acima de tudo que isso 
fosse baseado no simples fato de ambos terem algo de bom para partilhar; poderia ainda acontecer porque existia uma forte possibilidade de ambos viverem uma relao 
feliz e harmoniosa, de passarem momentos agradveis ou ainda porque estariam destinados a viver juntos. Page desejava muito que essa relao fosse baseada logo de 
incio num motivo correto, para que o seu desfecho em nada se assemelhasse ao desfecho do seu relacionamento com Brad. Todavia, tinha conscincia de que seria sempre 
muito difcil confiar de novo em algum, mesmo que esse algum se tratasse de Trygve.
       Quando Page se deitou Brad estava a dormir, e quando ela acordou, ele tinha j sado. Deixara um bilhete, informando-a de que fora jogar golfe e que no viria 
jantar a casa. Nesse mesmo bilhete no constava, porm, o local onde Brad tencionava jogar, nem com quem o faria e, como tal, Page apercebeu-se de imediato que aquele 
bilhete no passava de mais uma mentira. Brad tinha decerto partido ao encontro de Stephanie, pois o que se passara na noite anterior pusera em causa a sua masculinidade 
e agora ele desejava tranquilizar-se. Chegando a essa concluso Page suspirou e amassou o pedao de papel, ouvindo de seguida o telefone tocar.
       - Page? Ento, est tudo bem? - Era Trygve que telefonava para ter notcias de Andy. Sabendo que este no poderia jogar basebol com um brao ao peito, Trygve 
sugeriu que quando Page fosse para o hospital deixasse o filho em sua casa com Bjorn. A no ser,  claro, que Andy ficasse com o pai, o que Trygve julgava, com toda 
a razo, muito pouco provvel.
       - Hoje a empregada vem fazer a limpeza, por isso eles no vo ficar sozinhos. Tambm quero passar mais algum tempo com a Chloe - explicou Trygve.
       - Tenho a certeza de que o Andy vai gostar da idia - respondeu Page, grata pelo auxlio que Trygve mais uma vez lhe prestava. Independentemente do que acontecesse, 
ela nunca poderia esquecer-se de todo o apoio e amizade que Trygve lhe havia dado naquele perodo. - A que horas  que posso deix-lo em tua casa? - Eram dez horas 
naquele momento, e Page gostaria de chegar ao hospital por volta das onze.
       - Podes deix-lo aqui quando fores para o hospital. Entretanto aviso o Bjorn, que vai ficar entusiasmadssimo! Ele estava j a resmungar por eu no o levar 
a ver a irm, mas com ele no hospital no me posso demorar nada; passado pouco tempo, comea logo a ficar impaciente, mexe em tudo e no d descanso s enfermeiras. 
- Page riu ao imaginar a cena. Conhecendo Bjorn, a imagem tornava-se cmica, mas simultaneamente terna e comovente, e em nada ridcula.
       Andy ficou, de fato, encantado com o convite, e a empregada que limpava a casa de Trygve uma vez por semana prometeu tomar conta dos dois rapazes. Page simpatizou 
bastante com ela, e ficou mais descansada ao abandonar Andy, que foi imediatamente jogar para o quarto de Bjorn, Trygve e Page foram, ento, para o hospital na carrinha 
desta ltima.
       - Como vo as coisas com o Brad? - indagou Trygve no caminho, acrescentando de imediato: - Ou ser que no devia meter-me na tua vida? - Contudo, depois do 
que acontecera, a vida dela tambm lhe dizia agora .respeito e aquele assunto tornara-se igualmente do seu interesse. Apesar disso Page no lhe parecia muito bem, 
e Trygve no desejava, de forma alguma, exercer sobre ela qualquer tipo de presso. Page ainda sentia dificuldade em entender o que sucedera na noite anterior entre 
ela e o marido; de certa forma, preferia que nada daquilo tivesse acontecido, pois sentia-se levemente culpada em relao a Trygve.
       - O ambiente l em casa no est nada bom. Penso que chegamos  etapa final, mas parece que o Brad tem medo de o admitir.
       - E quanto a ti, Page? Achas que ests preparada para iniciar uma outra etapa? - Trygve tambm fazia parte da sua vida, e era natural que se preocupasse em 
entender os seus sentimentos.
       Page olhou-o de relance, enquanto conduzia; desejava ser franca e honesta com Trygve, pois gostava demasiado dele para no o ser.
       - No quero avanar depressa de mais, nem quero tomar nenhuma atitude precipitada... no quero que... - Ela tentava encontrar as palavras certas para definir 
aquilo que sentia, mas Trygve j lhe tinha demonstrado que a entendia e que aceitava as suas condies. Na realidade, nunca esperara que ela agisse de maneira diferente. 
Finalmente, Page concluiu a sua frase: - No desejo fazer nada por vingana ou retaliao, nem tomar nenhuma atitude de que mais tarde nos venhamos a arrepender.
       - Tal como eu - respondeu Trygve, calmamente, inclinando-se de forma a poder beijar a face de Page. - Quero que saibas que no vou pressionar-te, nem vou 
obrigar-te a tomar nenhuma atitude precipitada. Dou-te todo o tempo de que precisares, Page; e, se chegares  concluso de que o teu casamento no chegou ainda ao 
fim, vou ter muita pena, mas vou ficar tambm muito feliz por vocs os dois. O vosso casamento  o mais importante... depois de o resolveres, se precisares de mim, 
vou estar  tua espera, pronto para te ajudar.
       Page arrumou a carrinha no parque de estacionamento do hospital, e depois voltou-se para Trygve, extremamente grata por todas as suas palavras. O que mais 
a surpreendia era que, apesar da intensidade daquilo que sentira por Brad, Trygve correspondia exatamente a tudo aquilo que ela alguma vez desejara encontrar num 
homem.
       - Que sorte a minha em encontrar algum como tu...
       - No sei se ser bem esse o caso... - argumentou Trygve, com um sorriso amargo. - Pagamos muito caro por isto Page: ambos passamos por um casamento falhado, 
talvez o meu tenha sido ainda pior que o teu, mas o certo  que, ultimamente, a tua situao familiar tambm no tem sido nada fcil; depois do choque emocional 
do acidente... das nossas filhas  beira da morte... merecemos um pouco de felicidade, Page, no  s uma questo de sorte. - Ela foi obrigada a concordar; tudo 
aquilo era verdade. O acidente viera alterar o resto, mas talvez acabasse por lhes trazer igualmente algo benfico. No entanto, era ainda demasiado cedo para o poder 
afirmar. - Amo-te, Page - murmurou ele ento, beijando-a e puxando-a para junto de si. Os dois ficaram abraados por muito tempo dentro da carrinha sob o sol tpido 
de Maio, saboreando aquele momento de paz e tranqilidade. Era ainda difcil acreditar que o acidente se havia dado exatamente h duas semanas.
       Por fim Page e Trygve decidiram-se a entrar para ir ver as filhas. Page manteve-se toda a manh nos cuidados intensivos, conversando por vezes com as enfermeiras. 
 hora do almoo, Trygve veio trazer-lhe algo para comer; encaminhou-a primeiro para a sala de espera e depois ofereceu-lhe uma sandes de peru e uma xcara de caf. 
Contou-lhe ento todos os pormenores do seu ltimo artigo, terminado na noite anterior, e Page mostrou-se interessada e admirada com alguns dos seus pontos de vista; 
mas mais admirada estava ainda com o fato de Trygve tomar to bem conta dela, pensando nos mais pequenos pormenores, encarregando-se de pensar nas necessidades de 
Andy e no deixando por isso de dar toda a ateno  sua prpria famlia. Alis, Trygve parecia conseguir dar carinho e ateno a todos aqueles de quem gostava. 
Eram qualidades de que Page necessitava mais do que nunca.
       - Como  que a Allie est hoje?
       A nica resposta de Page foi encolher os ombros, com uma expresso de desnimo no rosto. Ela e os terapeutas do hospital tinham massageado os membros da filha 
por mais de uma hora, mas era evidente que Allie estava a perder peso e o seu quadro no registrava qualquer indcio de melhorias.
       - No sei... s passaram ainda duas semanas, mas a mim parece-me uma eternidade. Nesta altura, esperava que se desse algum milagre, mesmo que fosse apenas 
um pequeno sinal de recuperao... - Tinham decorrido dez dias desde que Allie fora submetida pela segunda vez a uma neurocirurgia, o seu estado clnico havia estabilizado 
e a presso exercida no crebro diminura consideravelmente, mas apesar disso continuava em coma profundo.
       - Page, os mdicos avisaram-te de que a situao poderia demorar meses a mudar. Ainda  muito cedo para desanimar - afirmou Trygve, carinhosamente. Era muito 
mais fcil para ele enfrentar a situao da filha, pois Chloe, apesar de estar muito ferida, encontrava-se inegavelmente fora de perigo e muito viva. Era provvel 
que, no futuro, viesse a necessitar de ser submetida a mais operaes, e teria tambm de aprender a caminhar de novo, mas perigo real j no existia. Agora, Chloe 
teria apenas de suportar a dura prova da sua recuperao, alm de ter de enfrentar o fato de que os seus sonhos de um dia vir a ser bailarina se tinham tornado apenas 
sonhos e nada mais. No era uma perspectiva fcil de encarar, mas era decerto muito menos difcil do que a de Allyson, que poderia perder a vida a qualquer instante. 
Para Trygve, a possibilidade de Allie poder viver mais semanas e mais meses mergulhada no seu estado de coma, e depois poder vir a morrer, era cruel de mais; era 
mais do que qualquer pai poderia suportar, e ele detestava que Page tivesse de enfrentar essa tragdia.
       - No vou desanimar - respondeu Page, pegando na sandes que ele lhe trouxera. Trygve sabia que se ele ali no estivesse, Page no a teria comido, e por isso 
ficara com ela. Mas esse no era o nico motivo para lhe fazer companhia. Trygve desejava muito poder estar com Page, apesar de afirmar que precisara de se ausentar 
um pouco do quarto de Chloe; esta continuava a receber constantemente a visita dos amigos e no restavam dvidas de que a boa disposio que a caracterizava estava 
j a regressar. - Sinto-me to impotente perante o estado da Allie... - desabafou Page, cabisbaixa.
       - Pois sentes; mas ests a dar o teu melhor, Page, tal como os mdicos. Tens de ter pacincia e deixar os dias passarem. A Allie pode ficar muito tempo assim, 
e um dia, quando menos esperares, ela pode acordar e ficar relativamente bem.
       - Os mdicos disseram-me que se no houver nenhum sinal de recuperao depois de seis semanas ela pode ficar para sempre em coma.
       - Mas pode tambm dar-se o caso de ela vir a acordar do coma depois desse prazo. J no  a primeira vez que isso acontece com jovens da idade dela... daqui 
a trs meses, at, quem sabe...? - Trygve tentava encoraj-la, mas Page abanou a cabea, enquanto os seus olhos se umedeciam. Havia momentos em que se sentia oprimida 
pelo peso de toda aquela situao; havia tanto que enfrentar, tanto ainda a suportar...
       - Oh, Trygve, como  que vou conseguir agentar tudo isto? - Page encostou a cabea ao peito dele e chorou. Era mais fcil fugir  realidade presente se pensasse 
em Trygve, se discutisse com Brad ou se cuidasse do brao de Andy; mas aquilo que de mais importante se passava, aquilo que nenhum deles parecia poder ainda admitir, 
era o fato de Allie poder perder a vida a qualquer momento.
       - Ests a ser muito corajosa, Page, e vais continuar a s-lo, tenho a certeza - confortou ele, abraando-a. - No h mais nada que possas fazer alm disso. 
O resto est nas mos de Deus.
       Page afastou-se um pouco, de forma a poder encar-lo, e ele estendeu-lhe um leno de papel. Ela disse ento:
       - Gostava que Ele pudesse ser um bocadinho mais rpido a resolver esta situao... Trygve sorriu e respondeu:
       - Vais ver que Ele se vai apressar, d-Lhe s mais algum tempo.
       - J Lhe dei duas semanas, e, enquanto isso, a minha vida est cada vez mais complicada.
       - No percas a f Page. Tens tido muita fora. - Se existia algo de que ela tinha a certeza era de que nunca poderia ter agentado tudo aquilo sem a ajuda 
de Trygve. Brad estava "no se sabia onde", a fazer "no se sabia o qu". Tinha vindo visitar a filha pelo menos uma vez em cada dois dias, mas Page sabia que o 
marido era incapaz de suportar a ansiedade de permanecer  cabeceira dela nos cuidados intensivos por mais do que alguns minutos. Ele ainda no o podia enfrentar; 
no podia enfrentar a monotonia, a passividade dos aparelhos e dos monitores, e a possibilidade sempre presente de perderem a filha, e por isso deixava que Page 
enfrentasse tudo isso sozinha. Quando se tratara do difcil nascimento de Andy, o procedimento de Brad fora muito menos frio, mas nessa altura eram ambos mais jovens, 
e Andy, apesar da sua fragilidade, era encantador. E, afinal, a incubadora tinha sido um indcio de vida, enquanto que a cama de Allyson, na enfermaria dos cuidados 
intensivos, era j um prenncio de morte.
       Page e Trygve continuaram mais algum tempo a conversar, e ele, tentando desviar-se do tema anterior, aproveitou a oportunidade para brincar com ela, afirmando 
que Page estava apenas aborrecida com a chegada da me no dia seguinte; no entanto, para sua surpresa Page no desmentiu esse fato.
       - Porque  que no gostas da tua me? - indagou ele, curioso. Aquela atitude no lhe parecia prpria da personalidade dela.
       - Velhas histrias. A minha infncia no foi das melhores.
       - Tal como a maioria das infncias. O meu pai, como bom noruegus que , julgava que uma surra era indispensvel para uma boa educao. Ainda hoje tenho uma 
cicatriz de uma das mais animadas sesses de surra!
       - Que horror! - exclamou ela, chocada.
       - Naquele tempo, era assim que se pensava. Mas tenho a certeza de que ele voltaria a fazer o mesmo se ainda tivesse filhos pequenos. At hoje, nunca entendeu 
a educao mais aberta que dou aos meus filhos; alis, penso que ele e a minha me esto muito mais felizes desde que regressaram  Noruega.
       - Admites a possibilidade de voltar para l algum dia? - perguntou Page, tentando focar a sua ateno num outro assunto que no o da filha. Trygve estava 
certo: no havia nada mais a fazer, a no ser esperar, ter pacincia e rezar; e depois, enfrentar o resultado.
       - No, no penso em voltar - respondeu Trygve. -  muito difcil admitir isso, depois de ter vivido aqui uns anos. Na Noruega, os Invernos so interminveis 
e os dias muito escuros;  uma espcie de clima primitivo. Acho que no conseguia viver em mais nenhum stio seno na Califrnia.
       - Eu tambm. - A simples idia de regressar a Nova Iorque era o suficiente para a assustar, apesar de Page ver com agrado a possibilidade de continuar l 
o seu trabalho artstico. Todavia, poderia continu-lo ali, na Califrnia, apenas nunca se tinha esforado por isso. Brad transmitira-lhe sempre a noo errada de 
que ela poderia continuar a carreira trabalhando para o seu crculo de amigos, ou em casa, mas no como um trabalho real. Por alguma razo Brad via o talento da 
mulher como uma coisa de menor importncia. Page lembrou-se ento de que prometera pintar outro mural para a escola, o que agora se tornara impossvel, j que passava 
todo o seu tempo livre no hospital.
       - Devias pintar alguma coisa aqui para o hospital - comentou Trygve, inspecionando a sala. De fato, a sala de espera era um local desolador, e o corredor 
era ainda mais lgubre. - E um stio to deprimente... Se pintasses aqui um dos teus murais, darias a quem aqui estivesse um motivo mais animado em que pensar. As 
tuas pinturas provocam alegria a quem as admira! - afirmou ele, lisonjeador.
       - Obrigada, Trygve. - Page olhou em volta, meditando naquilo que poderia pintar, mas acalentando simultaneamente a esperana de no permanecer ali tempo suficiente 
para o poder realizar.
       - Ser que vou ter a oportunidade de conhecer a tua me? - perguntou ento Trygve, ao que Page respondeu com uma careta de desagrado; ele riu e afirmou: - 
Ela no pode ser assim to m pessoa!
       - Mas ! Pode at parecer muito simptica, porque, quando quer, sabe ser muito sutil. O grande problema  que se recusa a enfrentar ou a discutir tudo o que 
seja desagradvel.  por isso que esta estada representa um grande desafio para a minha me.
       - Pelo menos, ela parece uma pessoa animada... e a tua irm, que tipo de pessoa ?
       Page sorriu antes de responder.
       -  uma pessoa muito especial, tal como a minha me. Nos primeiros anos em que vim viver para aqui, nunca as vi; mas quando o meu pai morreu, senti pena da 
minha me e resolvi convid-la para me vir visitar, o que nunca deveria ter feito, porque ela e o Brad passaram todo o tempo a discutir; no eram discusses abertas, 
mas sim agresses muito subtis e passivas, as quais eu no consigo suportar. E, alm do mais, a minha me condenava o tipo de educao que eu dava  Allyson.
       - Pelo menos agora a tua me no vai poder dar esse tipo de opinies... - comentou ele, tentando encoraj-la.
       - Pois no, mas vai de certeza implicar com qualquer outro aspecto da minha vida; vai pensar que o mdico da Allyson no  um bom profissional, e que o David, 
o meu cunhado, j ouviu dizer que no passa de um charlato e que vai ser julgado pelo Conselho de Medicina; vai achar que o hospital  horrvel, j para no falar 
do mais importante, que os cabeleireiros do centro de So Francisco so pssimos.
       - No acredito que no estejas a exagerar.
       - Garanto-te que no. - Mas apesar da forma humorstica como Page descrevia a sua famlia, Trygve apercebia-se de que algo de maior gravidade se passara. 
Page era j uma mulher feita, demasiado franca para nutrir uma antipatia injustiada. Contudo, era evidente que no lhe desejava comunicar a justificao daquele 
antagonismo, e Trygve preferia no insistir, pois sabia que Page tinha todo o direito de manter os seus segredos.
       Da a pouco, cada um regressou para a cabeceira da respectiva filha, e s cinco horas Page foi visitar Chloe, sentando-se no quarto desta a conversar. Tinha 
ainda muitas dores, e a sua aparncia inspirava ainda bastantes cuidados, a julgar pelo gesso e plos dispositivos metlicos que a envolviam. Todavia, Chloe tinha 
recuperado o nimo e mostrava-se feliz por ter sobrevivido ao acidente; a sua maior preocupao, no entanto, era o estado de Allie, pois o pai informara-a, com total 
franqueza, que a sua amiga corria ainda risco de vida. Jamie fora visitar Chloe nessa tarde, e assim que avistou Page, procurou saber se o estado de Allyson se modificara.
       - Como  que ela est? - indagou Chloe, mal Page entrou no seu quarto.
       - Continua conforme estava. Ento e tu, Chloe, continuas a passar o tempo da mesma maneira...? A irritar as enfermeiras, a namoricar os estagirios e a encomendar 
pizzas durante toda a noite? - brincou Page sorrindo, fazendo com que Chloe se risse de bom grado de semelhante descrio.
       - Ela porta-se ainda pior... - comentou Trygve, satisfeito por ver o contentamento da filha. Chloe era uma verdadeira adolescente, e a sua espontaneidade, 
to natural dessa idade, alegrava o seu pai e Page.
       - Ainda bem! - respondeu esta, desejando que Allyson pudesse ter o mesmo comportamento adolescente da amiga. Tal como os Chapman deveriam desejar que o seu 
filho pudesse ter ainda semelhantes atitudes; Page mal podia imaginar o que aquele casal sentiria, passadas apenas duas semanas desde o acidente que vitimara Phillip, 
pois de todas as vezes que se lembrava deles, sentia um aperto no corao. Por mais grave que se apresentasse o quadro de Allyson, para ela ainda existia uma possibilidade 
de recuperao, enquanto que para os Chapman j no existia a mnima esperana.
       Jamie comentou depois que os encontrara recentemente, e que a me de Phillip estava ainda muito abada. Mr. Chapman comunicara-lhe que fazia tenes de processar 
o jornal que publicara a notcia sobre o acidente de uma forma to manifestamente injusta para Phillip. Jamie contou tambm que tinha sido entrevistado por mais 
um jornalista, interessado em lhe perguntar o que sentia por ser o nico dos jovens que nada de grave tinha sofrido. Mas, apesar disso, o interesse da imprensa no 
assunto era j praticamente nulo.
       Page e Trygve deixaram Chloe por volta das seis da tarde, altura em que vieram entregar a pizza que ela pedira ao pai para encomendar. Jamie ficou para partilhar 
o jantar de Chloe, e Trygve ofereceu-se para conduzi a carrinha de Page.
       - Queres jantar conosco? - convidou ele, esperanado.
       - Gostava muito de poder ficar, mas o Brad talvez parea em casa. No estou  espera dele, mas o Andy ia ficar decepcionado se o pai fosse a casa e ele no 
o visse.
       Trygve achou melhor no insistir, e apesar dos protestos de Andy e de Bjorn, Page seguiu com Andy para casa. No entanto, Brad s regressou a casa na manh 
seguinte, e nessa altura, apesar de todas as promessas que Page fizera a si prpria, no pde evitar mais uma discusso.
       - Que conversa foi aquela outro dia acerca de no estares ainda preparado para sair de casa, e de no teres a certeza daquilo que queres? Quem  que pensas 
que ests a enganar com um argumento desses? - Page estava furiosa; j no agentava viver daquela forma, enquanto o marido prosseguia o seu romance com outra mulher.
       - Desculpa. Eu devia ter telefonado, mas no sei o que aconteceu... esqueci-me de te avisar que no vinha jantar. -  claro que Brad sabia perfeitamente o 
que tinha acontecido apenas no o desejava relatar  mulher. Tinha ido passar a noite fora com Stephanie, e no tivera forma de lhe telefonar do quarto de hotel, 
j que Stephanie no o tinha deixado a ss nem por um segundo; alm disso, ficara extremamente irritada quando Brad insistira em regressar logo na manh seguinte, 
apesar de a sua irritao ser quase insignificante, quando comparada com a fria de Page ao ver o marido entrar em casa ao meio-dia, sem antes lhe ter telefonado 
uma s vez. - Page, j te pedi desculpas... - repetiu Brad, abatido, sentindo-se um verdadeiro idiota. No momento presente, limitava-se a dividir o seu tempo entre 
duas mulheres e dois tipos de vida completamente opostos, e no lhe parecia que estivesse a ser muito bem sucedido.
       - Porque  que no me perguntas se a tua filha ainda no morreu? - perguntou Page, cruelmente. No fazia parte do seu feitio agir com tamanha rudeza, mas 
estava a atingir o imite da pacincia em relao ao marido.
       - Oh, meu Deus... ela morreu...? Page, a Allie morreu...? - Page observava friamente os olhos de Brad, cada vez mais midos e mais brilhantes.
       - No, mas podia ter morrido. E onde  que tu estavas se isso tivesse acontecido Brad? Como sempre, nem sequer te deste ao trabalho de telefonar para casa!
       - Ordinria! - insultou Brad, fechando violentamente a porta do quarto, enquanto Andy comeava a chorar, assustado com mais uma das discusses dos pais.
       - Desculpa, querido - murmurou Page, inclinando-se para abraar Andy. Brad no voltou a sair do quarto e Page no o voltou a procurar antes de sair para ir 
buscar a me e a irm; durante todo o caminho para o aeroporto, Andy manteve-se silencioso, tal como Page, que relembrava a aparncia do marido ao entrar em casa 
nessa manh. Brad tinha um ar mais jovem, mais descontrado e mais feliz, mas assim que viu a mulher, voltou ao seu estado normal e perdeu toda essa jovialidade. 
Todavia, nesse momento, Page estava mais preocupada com o filho que, sentado em silncio a seu lado, fixava o olhar na janela, triste e abatido.
       A me e a irm de Page encontravam-se entre os primeiros passageiros a abandonar o avio. Como sempre, Page constatou que a me mantinha a sua boa forma, 
conservando o bonito cabelo branco muito bem penteado e realando a sua figura esbelta com um fato azul-escuro. Alexis, vistosa e elegante, envergava um conjunto 
Chanel rosa-plido e trazia o cabelo louro simetricamente distribudo e domado; quanto ao seu rosto, de feies perfeitas e artificiais, dir-se-ia ter sido maquiado 
com a mesma preciso que o rosto de uma top model. Trazia na mo uma carteira de pele de crocodilo Hermes, e caminhou afetada e lentamente at chegar prximo da 
irm, beijar o ar que rodeava as suas faces e dirigir um tmido "Ola" a Andy.
       - Ests tima, querida - comentou a sua me, olhando a volta, tentando detectar mais algum. - O Brad no veio?
       - Ele pede desculpa, mas no pde vir comigo; deve estar em casa  vossa espera. - Page no fazia a mais pequena idia se, de fato, o marido tencionava esperar 
a me e a irm dela em casa, pois no momento presente no havia forma de poder prever o comportamento de Brad; no ia ser fcil disfarar as ausncias do marido 
 me, mas Page no tinha a menor inteno de discutir com ela a sua situao matrimonial, tal como a me, certamente, preferiria no ouvir tal explicao.
       Esperaram ento que o tapete rolante lhes trouxesse o resto da bagagem, e felizmente todas as malas chegaram intactas. O carregador a quem pediram depois 
para as levar at ao carro cambaleava  frente das trs mulheres, vencido pelo peso exagerado do conjunto de malas Gucci de Alexis.
       - Como est a Allyson? - indagou Alexis cautelosamente, j no caminho para casa. Page iniciou ento a descrio do quadro clnico da filha, mencionando o 
seu estado de coma profundo, mas a me apressou-se a interromp-la, comentando como estava bonito o tempo em Nova Iorque e descrevendo a remodelao recente que 
o apartamento de Alexis sofrera.
       - Que bom - respondeu Page pensativa; afinal, nada mudara, pois a me e a irm continuavam tal como sempre as conhecera. O nico mistrio era o motivo por 
que sempre esperara de ambas, duas pessoas completamente diferentes. Durante toda a sua vida Page alimentara esperana de que a me se tornasse num outro tipo de 
pessoa, de carter mais meigo e despretensioso, tal como sempre esperara que Alexis correspondesse ao seu ideal de irm: em vez de tanta elegncia e requinte, poderia 
at ter tranas e sardas, mas teria tambm um corao verdadeiro; mas nem a me, nem a irm eram capazes de mudar. A primeira continuava a falar apenas de assuntos 
agradveis, enquanto que Alxis, demasiado ocupada em ser bonita e impecvel, mal tinha tempo para conversar. Page nunca entendera que tipo de conversas a irm poderia 
ter com David, se  que, de fato, os dois podiam estabelecer algum tipo de conversao. Ele era bastante mais velho do que Alexis e encontrava-se sempre muito ocupado 
com as cirurgias plsticas que efetuava, especialmente com as da mulher, que, por serem em nmero to elevado, lhe deviam deixar pouco tempo disponvel para atender 
mais alguma cliente.
       - Como  que tem estado o tempo por aqui? - inquiriu a me, enquanto passavam pela ponte em que a vida de Allyson quase tinha sido destruda. Depois do acidente, 
sempre que tinha que atravessar a Ponte Golden Gate, Page no podia evitar sentir um grande mal-estar.
       - O tempo? - repetiu ela, mecanicamente. Como  que ela o poderia saber, uma vez que todos os seus dias eram passados no hospital, ou em casa a discutir com 
Brad? Naquela fase da sua vida, que importncia tinha o tempo? - Penso que o tempo tem estado bom, mas no tenho prestado muita ateno.
       - E o teu brao, Andy, est melhor? Que grande disparate o teu... quem  que se ia lembrar de partir o brao? - gracejou a av de Andy, enquanto este lhe 
mostrava todas as assinaturas que tinha no gesso. Havia tambm um desenho de um co, feito por Bjorn, do qual Andy troara, afirmando que parecia um rato. Mas ele 
adorava Bjorn, e era com muito orgulho que contava aos seus colegas que tinha um amigo com dezoito anos; e,  claro, nenhum deles acreditava.
       Foi com bastante surpresa que Page constatou que Brad estava ainda em casa,  espera de as receber. Dirigiu-se  sogra e  cunhada com toda a cordialidade, 
carregou as suas inmeras malas para dentro de casa e transportou a bagagem da sogra para o quarto de hspedes. A me de Page dormiria na cama de casal desse quarto, 
a qual, normalmente, partilharia com Alexis. No entanto, dessa vez, esta ltima perguntou se poderia car instalada no quarto de Allyson. Por sua vontade, Page no 
teria acedido a esse pedido da irm, pois o quarto da filha era agora para ela um local muito especial; desde a noite em que Allyson sara para jantar com Chloe 
que nada havia sido alterado no seu quarto.
       Contudo, Brad concordou, e Page viu-se assim forada a vencer todas as suas reservas. Sabia que no fazia muito sentido a me e a irm partilharem a mesma 
cama, havendo um outro quarto disponvel na casa, mas por outro lado, era o quarto da filha ocupado por outra pessoa realava ainda ais a sua ausncia. Page no 
via com bons olhos a idia de ter o espao de Allie ocupado por mais algum que no ela, mas uma vez que essa intromisso se tornara inevitvel, sabia que teria 
de se esforar para ultrapassar a sua relutncia,
       Alexis confessou depois que tinha sede e pediu um copo de gua mineral gelada, de preferncia sem gelo; por sua vez, a me de Page, enquanto retirava das 
malas toda a roupa que trouxera, expressou tambm o desejo de tomar um caf e comer uma pequena sandes. Esses pedidos faziam parte da experincia de Page com a sua 
famlia, e como tal, dirigiu-se para a cozinha sem pronunciar uma s palavra, disposta a preparar tudo quanto a me e a irm haviam pedido.
       Eram j quatro e meia, e Page estava ansiosa por ir ver a filha ao hospital. Ainda no a visitara nesse dia e tinha a certeza de que a me e a irm desejariam 
igualmente v-la. Assim, quando ambas desceram finalmente para a sala de estar, Page referiu-lhes esse seu desejo, mas a me limitou-se a tecer elogios ao novo sof 
da sala, aos quadros das paredes e aos cortinados.
       - Fazes uns trabalhos encantadores, querida - elogiou ela, referindo-se s pinturas da filha. Tal como Brad, tambm a me de Page se referia ao trabalho artstico 
da filha como um mero hobby. Sempre odiara as curtas experincias de Page como desenhadora de cenrios de peas teatrais, e encarara com alvio o fato de a filha 
nunca ter repetido essas experincias ali na Califrnia.
       Page consultou o relgio com ansiedade, verificando que j passava das quatro e meia.
       - Pensei em irmos agora para o hospital... tenho a certeza que devem querer visitar a Allie. - Mas as duas mulheres cruzaram de imediato o olhar, e Page apercebeu-se 
ento de que, mais uma vez, tinha alimentado esperanas infundadas, pois o hospital no fazia parte dos seus planos para aquele dia.
       - A viagem foi to cansativa... - respondeu Maribelle Addison, recostando-se no sof. - E a Alexis deve estar exausta; est ainda a convalescer de uma constipao 
terrvel -justificou a me de Page, enquanto Alexis o confirmava. - No achas que talvez seja mais aconselhvel irmos ao hospital amanh? - sugeriu ela, fitando 
Page co os olhos muito abertos, enquanto esta se esforava por encontrar uma resposta convincente.
       - Bem, eu... sim...  claro, se vocs preferirem... S pensei que... - Como tinha sido ingnua ao acreditar que elas queriam visitar a filha! Provavelmente, 
encontravam-se ambas assustadssimas ante a perspectiva de visitarem Allyson no dia seguinte. Ento por que motivo tinham elas insistido em vir? Talvez por essa 
viagem constituir uma variante nas suas vidas, e tambm pelo fato de as ajudar a acreditar que estavam a prestar um grande auxlio a Page, o que no correspondia 
nem um pouco  realidade; foi essa a nica explicao que Page conseguiu encontrar.
       - Penso que  melhor irmos amanh, querida. No concordas, Brad? - perguntou a me de Page, ao ver o genro entrar na sala com uma expresso confusa e distante. 
Stephanie acabara de lhe telefonar para casa a meio do dia, lanando-lhe mais um ultimato e insistindo que ele a levasse a jantar fora nessa noite para discutirem 
o assunto.
       - Eu... bem, sim, julgo que tem razo, Maribelle. Vocs devem estar cansadas da viagem e ver a Allie no deixa ningum bem disposto.
       Page no pde deixar de ficar irritada com aquela observao do marido, por isso limitou-se a ir buscar a sua carteira sem tecer mais nenhum comentrio, avisando-os 
antes de sair que contava estar de volta a casa s seis da tarde, para ter tempo de preparar o jantar.
       - Podes ficar aqui a tomar conta do Andy? - perguntou ela a Brad, antes de sair, ao que ele acedeu.
       - Mas quando chegares preciso de sair, est bem?
       - No tenho outra escolha, pois no? - respondeu Page em voz baixa.
       - Preciso muito de ir buscar uns papis ao escritrio. Page fingiu acreditar na justificao de Brad e despediu-se a seguir da me. Alexis estava a descansar 
no quarto de Allyson.
       At chegar ao hospital Page deu largas  sua irritao, insultando-se a si prpria por ter concordado que a me e a irm a viessem visitar. Mas passada a 
fria inicial, e perante o quadro confuso que lhe era apresentado Page no pde deixar de rir da gravidade da situao em que vivia: Allyson continuava no hospital 
em estado de coma Brad mantinha um romance com outra mulher, Andy tinha um brao ao peito e, para cmulo, a me e a irm estavam hospedadas em sua casa; para Page, 
aquela era a definio exata do mais horrvel pesadelo.
       Ao chegar ao hospital, avistou Trygve, que se preparava para sair, mas que se deteve mais um pouco para conversar com ela. Contou-lhe que se tinha dirigido 
 unidade de cuidados intensivos, mas no a vendo, deduzira que ela j tinha ido para casa.
       - Como est a mam? - questionou ele, ironicamente. O brilho dos seus olhos denunciava o contentamento que sentia por ver Page.
       Ela riu, subitamente divertida pelo carter absurdo de toda aquela situao.
       - A minha me continua to igual ao que sempre foi que a nica reao que eu posso ter  rir! Se as conhecesses, verias que no  mentira.
       - Onde  que as deixaste? - Trygve estava surpreendido por no as ver ali.
       - A minha me ficou a admirar o sof novo da sala e a minha irm ficou a descansar. No me surpreende nada que a Alexis precise de descanso, ela est to 
magra que parece sofrer de anorexia! Chegou vestida com um modelo Chanel, e trouxe para condizer uma carteira de pele de crocodilo.
       - Mas que mulher elegante deve ser a tua irm! E porque  que no quiseram vir contigo?
       - Estavam muito cansadas - explicou Page. - A Alexis est ainda a recuperar de uma constipao, e o Brad concordou logo que era melhor ficarem em casa a descansar, 
porque podiam ficar muito abaladas com o estado de Allie!
       - Oh, meu Deus...
       - Eu digo o mesmo! Talvez seja amanh o grande dia, a no ser que Alexis tenha de ir pintar as unhas.
       - Page, como foi possvel teres escapado? Porque  que tambm no passas todos os dias no cabeleireiro, em vez de ocupares o teu tempo a pintar e a tratar 
dos teus filhos?
       - Por mera estupidez minha; talvez nunca tenha sido capaz de seguir os bons exemplos.
       - Se calhar seguiste o exemplo do teu pai - respondeu ele, pensando ter encontrado uma justificao para a personalidade de Page. Todavia, ela abanou a cabea 
e esclareceu:
       - Nem por isso. - E depois acrescentou, fixando o olhar dele: - Eu devo ser mesmo a aberrao da famlia. A nica explicao era eu ter sido adotada; alis, 
era isso que a minha irm me costumava dizer, mas, infelizmente, no passava de uma mentira. Esse era o nico fato capaz de facilitar um pouco esta minha complicada 
situao familiar. - Trygve esboou um sorriso perante a forma depreciativa com que Page se referia  me e  irm.
       - O Nick tambm costumava dizer  Chloe que ela tinha sido adotada. Os midos adoram torturar os irmos com esse tipo de disparates.
       - No meu caso, esse "disparate" teria sido uma verdadeira bno! - Page consultou rapidamente o relgio de pulso e verificou que era j tarde, pois ainda 
teria de ir preparar o jantar. - Vou ter de ir ver a Allie.
       - Quando l entrei, os terapeutas estavam com ela. De resto, parecia tudo normal.
       - Obrigada por teres ido ver como ela estava. - Page hesitava, no sabendo ao certo como proceder para se despedir de Trygve. Ao v-lo inclinar-se para a 
poder beijar no se desviou, permitindo que os seus lbios se tocassem e os seus olhares se fixassem. - Estou muito contente por te ter encontrado - murmurou Page, 
antes de entrar.
       - Eu tambm - respondeu Trygve, vendo-a afastar-se. Page encontrou Allyson e toda a enfermaria exatamente nas mesmas condies. Ficou com a filha durante 
uma hora e conversou mais uma vez com ela, informando-a de que a av e a tia Alexis a tinham vindo visitar; relatou-lhe em seguida as ltimas opinies de Andy e 
lembrou-lhe, repetidamente, o quanto a amavam. Partilhava com a filha todos os seus pensamentos, excluindo aqueles que diziam respeito ao colapso do seu casamento 
e ao romance de Brad.
       Antes de sair, Page beijou a testa da filha com muito cuidado, e observou depois durante bastante tempo todas as ligaduras e compressas que a envolviam. De 
fato Brad estava certo; aquele no era um quadro nada animador, ela prpria  que j no era capaz de se aperceber desse fato.
       No caminho para casa Page sentiu-se extremamente abatida, e ao chegar a casa, estava exausta. Da porta de casa, pde ouvir a voz da me, e ao entrar, constatou 
que a irm estava ao telefone com o marido, queixando-se do servio da companhia de aviao. Com exceo de Andy, que enquanto ela preparava o jantar lhe perguntou 
como estava a irm, ningum mais se referiu a Allie.
       - Tens a certeza que ela vai ficar boa? - insistiu Andy preocupado e ansioso; nesse dia em especial, ele insistia em pressionar a me.
       Page parou o que estava a fazer, e fitando-o gravemente, puxou-o para perto de si, de forma a poder abra-lo.
       - No... eu no posso ter essa certeza, mas espero que a Allie fique bem depressa. Por enquanto, a me ainda no pode garantir-te nada, querido... a Allie 
pode mesmo vir a... - Era-lhe extremamente difcil explicar tal possibilidade ao filho, mas sabia que o devia fazer. - Ela ainda pode morrer, Andy... mas isso pode 
no acontecer, ns ainda no sabemos. Quando acordar, a Allie pode ficar bem ou pode ficar como o Bjorn. Ainda no h a certeza de nada.
       - Como o Bjorn...? - Andy ficou confuso; ele nunca entendera completamente o que se passava de errado com o amigo.
       - Mais ou menos. - Mas Page sabia que existiam tambm outras possibilidades: Allie poderia passar o resto da sua vida numa cadeira de rodas, poderia perder 
a viso, e poderia mesmo nunca vir a ser como Bjorn, pois corria o risco de perder todas as suas capacidades mentais.
       - De que  que vocs os dois esto a falar? - perguntou a me de Page ao entrar na cozinha interrompendo a conversa da filha.
       - Estvamos a conversar sobre a Allyson.
       - Ainda h pouco estive a dizer ao Andy que ela vai ficar boa num instante! - comentou ela com um sorriso, enquanto Page sentia vontade de a poder insultar. 
No era justo enganar dessa forma uma criana, e Page no admitiria nunca essa falsidade.
       - Ns esperamos que ela fique bem, me, mas no podemos ter a certeza que seja isso que vai acontecer. Tudo depende de quando e como ela sair do coma.
       - "Coma"  igual a dormir, av, s que no se acorda logo; fica-se a dormir muito, muito tempo - explicou Andy  av, quando Brad se juntava a eles na cozinha. 
Page reparou que ele vestira um fato completo, e ao v-lo teve de se esforar para no comentar a sua aparncia cuidada.
       - No me demoro - anunciou ele a Page, num tom baixo e calmo, enquanto ela levantava uma sobrancelha, em sinal de admirao.
       - Ah, no? Mesmo assim, no tenciono ficar a p  tua espera.
       - At logo - respondeu ele, passando a mo pela cabea do filho antes de sair. - Boa noite, Maribelle.
       - Boa noite, meu filho - respondeu a me de Page, acrescentando o seguinte comentrio, depois da sada de Brad: - Ele continua a ser um homem de muito boa 
aparncia. Tens muita sorte em ter um marido como o Brad, Page. - A filha quis dizer-lhe que h duas semanas atrs tambm assim o imaginava, mas naquele momento 
j no lhe restavam iluses; no entanto, limitou-se a continuar o que estava a fazer, sem pronunciar uma s palavra.
       Como seria de esperar, o jantar foi uma ocasio bastante difcil. Alexis serviu-se de uma pequena fatia de carne e enfeitou o seu prato com salada, mas no 
comeu praticamente nada. Conversou to pouco quanto comeu, deixando a cargo da me a tarefa de arranjar um tema de conversa. Esta ltima referiu o seu crculo de 
amigos, descreveu as mudanas do seu apartamento, e comentou o fabuloso jardim que Alexis possua em East Hampton. O jardim era tratado por trs jardineiros japoneses, 
e a sua dona referia-se ao mesmo com muito menos entusiasmo do que a me. Na verdade, Alexis raramente se entusiasmava com algo, a no ser com a nova coleo de 
algum costureiro famoso. Ningum se referiu a Allyson durante o jantar.
       Ambas se recolheram  mesma hora que Andy se deitava, explicando que ainda estavam reguladas pelo horrio de Nova Iorque. Page, ouvindo os rudos que vinham 
do quarto da filha, fechou a porta do seu quarto, incomodada por aquela intromisso que mais lhe parecia um sacrilgio.
       Ficou acordada ainda por muito tempo, meditando na sua famlia e em como sofrera durante os anos que vivera em casa dos pais. At sair de casa, ningum se 
esforara por mudar o pssimo ambiente em que viviam, e voltar a ver a me e a irm trazia-lhe sempre ms recordaes. Revivendo esse tempo, as lgrimas rolaram-lhe 
pelas faces at que Page se decidiu a pensar somente no momento presente.
       Quando Brad chegou a casa passava da meia-noite. Page estava ainda acordada, mas as luzes do quarto tinham sido apagadas e ela j se encontrava deitada; ao 
ouvi-lo entrar, Page voltou-se e observou-o, constatando com algum espanto que ele parecia fatigado e infeliz.
       - Correu tudo bem? - perguntou Page. Ambos sabiam onde Brad tinha passado o sero. Havia muito a aceitar e ela esforava-se para comear a faz-lo; mas, a 
julgar pela expresso do marido, tambm este teria muito a que se adaptar, o que lhe exigiria, igualmente, bastante esforo. Brad contemplou-a por muito tempo antes 
de responder, ponderando na sua realidade presente: encontrava-se dividido entre dois mundos, e ambos lhe causavam sofrimento.
       - Nem por isso. A minha situao no  to fcil quanto pensas...
       - Parece que no  fcil para nenhum de ns.
       - Sei que deve ser muito difcil para ti viver assim... - admitiu ele, humildemente. Por breves instantes, Page teve a impresso de que na sua frente estava 
o mesmo Brad de h quinze dias atrs. No entanto, ele no fez a menor tentativa de se aproximar dela. - Talvez tivesse sido melhor eu no te ter dito a verdade... 
mas, por outro lado, tinhas de acabar por saber. No poderamos continuar a viver assim para sempre. - Contudo, para a mulher, o mais difcil era reconhecer que, 
caso ele no a tivesse colocado a par do que se passava, ela teria prolongado indefinidamente aquela situao, pois nunca alimentara a mnima suspeita acerca da 
traio do marido.
       - Estou a tentar tomar as atitudes mais corretas para todos ns, s no tenho ainda bem a certeza de quais sero essas atitudes.
       Page acreditou, mas tinha dificuldade em encontrar algo mais para lhe dizer. Ambas as suas vidas se encontravam  espera de uma resoluo.
       - Talvez seja melhor preocupares-te s com a Allyson e esquecer o resto por uns tempos; este no  o momento mais adequado para tomar uma deciso.
       - Sim, eu sei. - Contudo, Stephanie sentia-se preterida e exigia que ele lhe provasse os seus sentimentos. Brad sabia que a atitude de Stephanie no era a 
mais correta, mas essa tinha sido a sua reao quela fase e, acima de tudo Brad no a queria perder. Stephanie nunca chegara a conhecer Page, nem Allyson, por isso 
estas pouco ou nada significavam para ela; a nica pessoa que verdadeiramente lhe interessava era Brad, e no estava disposta a suportar mais nenhuma indeciso da 
parte dele. Durante mais de um ano, Stephanie contentara-se com as poucas noites que Brad pudera passar com ela, com as viagens ocasionais de negcios em que o acompanhara, 
e ainda com algum raro fim-de-semana passado a dois. Mas ela tinha vinte e seis anos, achara que havia atingido a idade certa para casar e ter filhos e Brad Clarke 
era o nico homem com quem Stephanie tencionava realizar esse plano.
       Page continuou acordada at Brad se deitar, mas desta vez ele manteve-se bem afastado dela. No desejava passar por mais outra humilhao com a mulher, apesar 
de tudo ter corrido bem com Stephanie.
       Quando Page finalmente adormeceu, j passava das trs da manh, por isso, ao levantar-se s sete para fazer o pequeno-almoo e ir levar o filho  escola, 
a sua disposio no era das melhores. Andy arrastara Lizzie para a sua cama. Brad j se havia levantado e estava quase pronto, saindo de casa mesmo antes de tomar 
o pequeno-almoo. Justificou a sua pressa, alegando que tinha combinado ir tomar o pequeno-almoo com um cliente, e Page, mais uma vez, fingiu acreditar. J se dava 
por contente pelo simples fato de o marido ter passado toda a noite em casa, poupando-a a ter de encontrar alguma explicao falsa para dar  me, apesar de ser 
bastante provvel que a me e a irm nem sequer notassem a ausncia de Brad.
       Depois de ter deixado Andy na escola Page voltou a casa para buscar a sua me e a irm. Verificando que elas no estavam ainda prontas para sair Page aproveitou 
para pr em dia algumas tarefas domsticas atrasadas e pagar algumas contas, mas, s onze horas, elas ainda no haviam descido. Alexis tinha de terminar os seus 
exerccios matinais e precisava ainda de retirar os rolos do cabelo;  certo que j tomara banho e se maquiara, mas perante esta explicao, Page calculou que s 
conseguiria sair de casa dali a uma hora.
       - Me! - exclamou Page, ansiosa. - Eu no queria chegar muito tarde ao hospital.
       - Claro que no Page, mas primeiro vamos ter de tomar o pequeno-almoo. No seria melhor ires preparando alguma coisa para ns comermos? - Page sabia que 
ia ser obrigada a esperar, e provavelmente, com tamanha demora, j nem valeria a pena ir. Afinal, elas tinham vindo para ver Allyson e no para ir conhecer os restaurantes 
da moda ou para enlouquecer lentamente a dona da casa. Tudo estava a acontecer conforme o previsto e Page no estava disposta a continuar aquela farsa por muito 
mais tempo.
       - Podemos comer no bar do hospital, me.
       - Sabes bem como  a comida de hospital Page... e a tua irm tem muita propenso para as indigestes.
       - Quanto a isso, no h nada que eu possa fazer. - Page consultou mais uma vez o relgio, inquieta. Faltavam apenas cinco minutos para o meio-dia, e Andy 
terminava as aulas s trs e meia. - No seria melhor vocs irem l ter de txi, ou irem depois com o Brad ao fim da tarde...?
       - Claro que no, ns queremos ir contigo. - E assim, depois de uma breve reunio de meia hora no quarto de Allyson, as duas visitantes de Nova Iorque declararam 
que estavam finalmente prontas para sair de casa.
       Alexis saiu elegantssima do quarto, envergando um saia-e-casaco Chanel de seda branca, sapatos e mala de verniz preto e um chapu de palha, perfeitamente 
despropositado para a ocasio, mas muito bonito. A me de Page escolhera, por sua vez, um vestido de seda encarnada. O aspecto de ambas levava a crer que se haviam 
vestido para ir almoar no L Cirque, em Nova Iorque, e no para uma visita  unidade de cuidados intensivos no Hospital Marin General.
       - Esto as duas muito bonitas - comentou Page, amavelmente, antes de ligar o motor da carrinha. Ela usava as mesmas calas de ganga e os mesmos sapatos de 
h duas semanas; tirava-os apenas o tempo suficiente para lavar as calas e j usara todas as camisolas mais antigas. Escolhia-as por serem as mais quentes e as 
mais confortveis para enfrentar as correntes de ar dos corredores do hospital, e alm disso, havia duas semanas que no se importava minimamente com a sua aparncia. 
Assim, ver a me e a irm to bem vestidas era para ela uma espcie de diverso, apesar de isso j no constituir nenhuma surpresa.
       Durante o caminho, a sua me fez algumas observaes sobre o clima primaveril daqueles dias e quis saber onde Page e Brad iriam passar as prximas frias. 
Sugeriu ento que fossem pass-las a Nova Inglaterra, pois seria maravilhoso se decidissem alugar uma das bonitas casas de Long Island.
       Page estacionou a carrinha no parque do hospital e indicou-lhes o caminho, desejando que elas tivessem permanecido em Nova Iorque, pois, de certa forma, a 
presena da me e da irm ali assemelhava-se a uma intromisso. Allyson era neta e sobrinha das suas visitantes, mas apesar desse fato, Page sentia uma possessividade 
inexplicvel em relao  filha, como se naquelas condies Allie pertencesse exclusivamente aos seus pais e a ningum mais. Page tinha conscincia que esse sentimento 
no era muito correto, mas Alexis e a me no mereciam ver a sua filha. Ao entrarem, as enfermeiras dos cuidados intensivos cumprimentaram-nas e Page conduziu-as 
em silncio at junto da cama de Allyson. Observou ento que a me, levemente trmula, se apoiava  estrutura metlica da cama, enquanto as suas faces se tornavam 
cada vez mais plidas. Page apressou-se a ir buscar uma cadeira para a me, limitando-se a abanar a cabea em silncio, e em seguida, sentindo genuna compaixo 
por ela, colocou os seus braos ao redor dos seus ombros.
       Quanto a Alexis, esta nem se atrevera a aproximar-se da cama da sobrinha, detendo-se  porta da enfermaria, de onde observava a cena.
       Durante os dez minutos que a av de Allyson passou  sua cabeceira, me e filha no pronunciaram uma s palavra, mas findo esse tempo, Maribelle consultou 
o relgio e observou com preocupao a filha mais velha, que, por baixo da maquiagem, perdera toda a sua cor natural.
       - A tua irm no pode ficar muito mais tempo aqui - murmurou ento. Page, ouvindo essa opinio da me, sentiu um enorme desejo de lhe responder que pensava 
o mesmo em relao  sua filha, mas manteve-se em silncio. Por que motivo a me e a irm s manifestavam preocupao e cuidado uma com a outra e com mais ningum? 
Porque  que no conseguiriam sentir ou expressar um sentimento real e verdadeiro? Por um breve instante, a me tinha partilhado a sua dor, tinha-se apercebido do 
verdadeiro estado de Allie, mas agora voltara a fugir da realidade, procurando refgio em Alexis; fora sempre assim. A me nunca estivera disposta a compartilhar 
o seu sofrimento, apenas se interessara em salvar Alexis, sem sequer se aperceber de que Alexis sempre estivera perdida. No existia ningum a habitar aquele corpo 
to bem cuidado; Alexis era apenas uma boneca de plstico, vestida com roupas caras e maquiada com esmero absoluto.
       Voltaram ento para o corredor, e Maribelle colocou um brao  volta dos ombros da filha mais velha e no, como seria natural, dos de Page.
       - Eu j no reparo na aparncia dela... - comentou Page, desculpando-se. -  que passo tanto tempo com a Allie... no  que j esteja completamente habituada, 
mas pelo menos j no me surpreendo. H dias, uma das professoras dela veio visit-la, e tambm ficou muito impressionada. Desculpem. - Page observava a me e a 
irm, sentindo-se mais uma vez desiludida com as suas atitudes, mas usando da mais absoluta sinceridade com elas.
       - Na verdade, a Allyson pareceu-me muito bem - argumentou a sua me, ainda bastante plida. - Dir-se-ia que vai acordar de um momento para o outro. - Na realidade, 
a julgar pela aparncia de Allyson, dir-se-ia que ela estava j morta; a respirao artificial tornava o quadro ainda mais medonho, e era essa uma das razes por 
que Page ainda no permitira que Andy visitasse a irm.
       - Isso no  verdade - contraps Page com firmeza. - A aparncia da Allie no podia ser pior e no precisamos de disfarar esse fato. - Page no fazia tenes 
de continuar aquele jogo, mas a me limitou-se a tocar-lhe no brao com descontrao, afirmando:
       - Vais ver que ela vai car bem. Tenho a certeza! Muito bem, agora... - Maribelle fez ento uma pausa e fitou as suas filhas com um sorriso nos lbios, tentando 
apagar da mente a triste cena que se lhe deparara, e por fim, perguntou: - Onde  que vamos almoar?
       - Eu no tenciono sair daqui - respondeu Page com determinao, encarando-as com visvel aborrecimento. Ela no estava ali apenas de passagem, nem tencionava 
passar o resto da semana a tomar ch e a jogar bridge com a me e a irm. Se estas tinham vindo com o fim de visitar a sua filha, teriam que se responsabilizar plos 
seus atos. - Se quiserem, eu posso chamar um txi, e vocs podem ir almoar; mas eu co.
       - Ia ser bom para ti se sasses daqui um pouco Page. O Brad no passa todos os dias aqui, pois no?
       - No, mas passo eu. - Os lbios de Page comprimiam-se, denunciando o seu desagrado, mas nenhuma delas o notava.
       - E quanto ao almoo em So Francisco? - perguntou a me, tentando-a, ao que Page respondeu apenas com um sinal negativo. Estava firmemente decidida a no 
as acompanhar.
       - Vou chamar um txi - anunciou Page, determinada.
       - A que horas pensas estar de volta a casa?
       - Primeiro ainda vou buscar o Andy e lev-lo depois a ver o treino de basebol, por isso devo chegar a casa por volta das cinco.
       - Ento vemo-nos a essa hora. - Antes de se ausentarem, Page entregou-lhes uma cpia da chave de casa, para o caso de as suas visitantes chegarem antecipadamente, 
embora duvidasse muito de tal possibilidade. Tinha quase a certeza de que depois de almoo a me e Alexis certamente desejariam ir s compras.
       Page dirigiu-se de novo para junto da filha e, durante a tarde, Trygve foi visit-la. Ao v-la sozinha, olhou em volta, tentando avistar a sua me e a sua 
irm, pois julgara que iria finalmente ter a oportunidade de as conhecer.
       - Onde esto elas? - indagou Trygve, confundido, enquanto Page abanava a cabea, um pouco revoltada.
       - A bela Alexis e sua me decidiram ir almoar  baixa, e depois fazer umas comprazinhas...!
       - Chegaram a ver a Allyson? - Trygve no escondia o seu espanto.
       - Estiveram aqui durante dez minutos, at a minha me perder a cor e a minha irm ficar mal-disposta, e depois resolveram ir almoar  cidade para esquecerem 
mais depressa o assunto. - Page estava ainda mal-humorada, apesar de ter plena conscincia de que essa atitude fazia parte do comportamento habitual da sua famlia. 
Trygve no as conhecia, por isso era natural que no entendesse.
       - Tenta no as julgar com tanta dureza. Sabes perfeitamente que no  nada fcil enfrentar um situao destas.
       - Tambm no  fcil para mim, Trygve, e eu ainda aqui estou, apesar de me terem convidado para ir almoar com elas.
       - Talvez te fizesse bem - defendeu ele gentilmente. Page encolheu os ombros, certa de que, no as conhecendo, era impossvel para Trygve entender o que se 
passava.
       Aps mais alguns minutos de conversa, Page foi buscar Andy  escola, levou-o ao treino de basebol e por fim regressou a casa. E tal como imaginara, Alexis 
e a me chegaram a casa s seis da tarde, carregadas com inmeros sacos de compras, nos quais se incluam um perfume para Page, uma camisola de marca francesa para 
Andy e um roupo rendado cor-de-rosa para Allyson; era evidente que na sua presente condio esta ltima no o poderia usar, mas nem a av nem a tia compreenderiam 
esse fato.
       -  muito bonito, me, obrigada - agradeceu Page, desistindo da idia de explicar  me a total impossibilidade de Allie usar aquela pea de roupa. Maribelle 
estava radiante: haviam descoberto bons saldos na loja de um costureiro famoso num dos centros comerciais mais conhecidos da cidade.
       -  incrvel o que se consegue encontrar nesta cidade - comentou ela, completamente alheia  expresso de Page.
       -  verdade - respondeu esta, fria e mecanicamente. Era como se o verdadeiro motivo que as levara a fazer aquela viagem tivesse sido esquecido.
       Nessa noite Page voltou a preparar o jantar para todos eles, com exceo de Brad, que no foi a casa, nem telefonou. Page arquitetou uma desculpa para explicar 
a ausncia do marido, mas mais tarde encontrou Andy sozinho no seu quarto, extremamente abatido. Sentou-se a seu lado em cima da cama, notando, agora que estava 
a ss com o filho, que a presena da me agravava ainda mais o seu prprio estado de nervos.
       - Tu e o pai esto outra vez zangados, no ?
       - No, Andy - mentiu ela chegando  concluso que enquanto o estado de Allie no se alterasse, ela no poderia, de forma alguma, contar ao filho toda a verdade. 
Para Andy, entender o que se passava com a irm j era o suficiente numa fase como aquela. - O teu pai est a trabalhar.
       - No, no  isso. Eu ouvi-te outra vez a gritar com ele... e ele tambm gritou contigo...
       -  natural que, s vezes, as mes e os pais tambm se zanguem, filhote - respondeu Page, abraando-o e beijando-lhe o cabelo, enquanto lutava contra as lgrimas.
       - Mas dantes vocs nunca se zangavam. - E acrescentou em seguida: - O Bjorn disse-me que a me e o pai dele costumavam discutir muito, e que depois a me 
dele se foi embora. Ela foi viver para Inglaterra, e agora o Bjorn quase nunca a v.
       - O caso deles  diferente do nosso. - Mas Page j no tinha a certeza dessa diferena, pois na verdade os dois casos no eram assim to distintos. - O Bjorn 
sente muito a falta da me? - indagou ela, com pena do filho de Trygve. Entender a ausncia da me devia ser particularmente difcil para uma criana como Bjorn, 
cuja capacidade mental era limitada.
       - No - respondeu Andy, sem rodeios. - Ele diz que a me era m para ele; o Bjorn gosta mais do pai. Eu tambm gosto do pai dele - comentou Andy, acrescentando:
       -  muito simptico. - Page concordou, mas quando Andy a fitou com os olhos cheios de lgrimas, ela sentiu-se estremecer. - O pai tambm vai para Inglaterra, 
me...?
       - Claro que no! - respondeu Page, aliviada por Andy no lhe ter pedido a sua opinio sobre Trygve. - Por que motivo iria o teu pai para Inglaterra?
       - No sei, mas  o que o Bjorn diz que a me dele fez. Achas que o pai nos vai deixar? - Page sentiu vontade de poder explicar tudo ao filho, mas ainda no 
o podia fazer. De momento, tudo aquilo era j demasiado para Andy, demasiado para todos eles, alis.
       - No, filhote, no vai. - Aquela era a primeira vez que Page lhe mentia, mas as circunstncias foravam-na a faz-lo.
       Depois de Andy adormecer, Maribelle perguntou a Page se esta se importaria de fazer um ch de menta para ela e se poderia tambm levar a Alexis um ch de 
camomila e uma garrafa de gua mineral.
       - Claro que no me importo - respondeu Page, disfarando um sorriso. Eram ambas to previsveis: a cpia fiel da prfida madrasta e da irm da Cinderela! 
E esse ltimo papel,  claro, era ela prpria quem o desempenhava...
       
CAPTULO 12
       Os restantes dias da semana decorreram de forma idntica aos anteriores: durante as aulas de Andy, Page ficava no hospital, enquanto a me e a irm continuavam 
a percorrer as principais lojas e centros comerciais de So Francisco. Visitaram as boutiques de Hermes, Chanel, Tiffany, Carrier, Saks e I. Magnin; freqentaram 
o salo de cabeleireiro de Mr. Lee, e costumavam almoar no Trader Vic's, no Postrio, ou noutro restaurante do centro. E de dois em dois dias conseguiam iniciar 
os seus preenchidos planos dirios com uma visita de dez minutos ao hospital.
       Aps a primeira visita, Alexis queixou-se de que os sintomas iniciais da sua constipao ameaavam voltar a incomod-la, e, por isso, alegando no querer 
complicar ainda mais o estado de Allyson, decidiu permanecer no corredor durante o perodo das visitas. No entanto, a me de Page continuou a freqentar corajosamente 
a seco de cuidados intensivos, onde conversava alegremente com Page durante quatro ou cinco minutos. Na maioria das vezes, referia o plano que tinham efetuado 
para aquele dia e tentava convencer Page a acompanh-las. No fim da semana, exprimiu ento o desejo de convidar Page e o marido para jantar fora.
       Page tentou comunicar esse convite a Brad numa das raras ocasies em que o encontrou durante a semana, numa sexta-feira  tarde. Comeava j a interrogar-se 
sobre a possvel data em que as duas visitantes decidiriam regressar a Nova Iorque, pois a presena destas ltimas em sua casa era muito desgastante para ela. Alm 
disso, Brad utilizava a visita da me e da irm de Page como pretexto para estar cada vez mais ausente. Durante toda a semana, no fora jantar a casa, regressando 
sempre depois da meia-noite e saindo quando todos ainda dormiam. Numa dessas noites, sem mesmo ter avisado, nem sequer viera dormir a casa.
       - A minha me quer levar-nos a jantar fora - explicou Page a Brad, esforando-se para no perder a calma, e para no referir as ausncias cada vez mais freqentes 
do marido.
       - Para ser franca, no tenho a certeza se vou ser capaz de suportar um jantar nestas condies.
       - Desta vez, a tua me pareceu-me mais razovel.
       - Ah, sim? - retorquiu ela, ironizando. - E quando  que chegaste a essa concluso? Nos quatro minutos em que carregaste a bagagem dela para o quarto...? 
Como  que tiveste tempo para observar a mudana no temperamento da minha me, Brad? No sei se reparaste, mas eu prpria j no te via desde domingo.
       - Por favor, Page... no recomeces! Como  que querias que eu agisse? Que no sasse de perto da tua me? Ela veio para ver a Allie, no foi? - Esse era um 
dos aspectos que ele prprio comeava tambm a descurar, desculpando-se com o fato de ter muito trabalho.
       - No, Brad, ela no veio para ver a Allie - respondeu Page, num tom de voz bastante amargo. - Veio para ver as novas colees da Chanel, da Hermes e da Cartier; 
e at agora, tem passado uns dias muito agradveis em So Francisco.
       - Talvez tambm as devesses ter acompanhado - desafiou ele.- Estarias certamente mais bem disposta; e at talvez, quem sabe, comeasses a adquirir algumas 
semelhanas fsicas com a tua irm... - Ao finalizar esta frase, Brad sentiu-se imediatamente arrependido de a ter pronunciado, mas era j tarde de mais para se 
desdizer.
       Page emitiu uma gargalhada sarcstica e respondeu:
       - No corpo da minha irm no resta nem uma parte que no seja de plstico, e se  isso que tanto te seduz ento, por mim, podes apreciar  vontade essa nulidade 
artificial. - A resposta fora bem aplicada, mas nem por isso Page se sentia menos magoada pelo comentrio do marido. Ela passara cerca de trs semanas  cabeceira 
da filha, e apesar de ter conscincia do seu aspecto fsico pouco cuidado, Page no tinha tempo, energia, nem vontade de aparentar algo que no sentia. A sua aparncia 
fsica, de momento, era aquilo que menos a preocupava, pois tudo o que de fato desejava era que Allie acordasse do seu sono prolongado.
       Por fim, Brad acabou por concordar em jantar nesse sbado com a famlia de Page, como de fato veio a suceder. Decidiram ir ao Fairmont, que ficava no centro 
da cidade, mais precisamente no bairro de Mason. Page prendeu o seu espesso cabelo louro, escolheu um vestido preto muito simples, e, apesar do comentrio de Brad, 
decidiu no usar nem sequer a mais leve pintura. A sua aparncia revelava exatamente aquilo que sentia: desinteresse e tristeza. Alexis, por sua vez, usava um vestido 
de seda branca assinado por Givenchy que evidenciava a sua silhueta elegante e cujo generoso decote revelava os seus mais recentes implantes.
       - Ests linda! - elogiou Brad amavelmente, ao que Alexis respondeu com um largo sorriso. Todavia, era fcil verificar que da parte dela no existia o mais 
pequeno indcio de seduo ou de interesse, pois preocupava-se apenas com a sua aparncia; manter uma boa forma e vestir roupas bonitas eram as suas duas nicas 
motivaes, as quais o seu marido aceitava e compreendia. Quem ocupava aquele vestido branco no era uma mulher, mas somente um corpo cuidado, e um rosto de feies 
harmoniosas, perfeitamente maquiadas.
       Durante o jantar, Alexis e a me admitiram a hiptese de prolongar a sua estada por mais uma semana, o que foi o bastante para inquietar ainda mais o esprito 
atribulado de Page. Durante sete dias, ela aceitara e cumprira todos os seus desejos: levara-lhes ch de camomila, ch de menta, gua mineral e gelo; preparara-lhes 
diariamente o pequeno-almoo, o almoo, o jantar, trouxera-lhes sempre que pediram lenis lavados ou mais almofadas, e chegara mesmo a sair de propsito para comprar 
um cobertor eltrico para a me. Nenhuma das visitantes se levantara para atender o telefone, nem sequer para se servirem de um copo de gua, e nenhuma conseguia 
entender o funcionamento dos aparelhos de televiso dos seus quartos; alm do mais, nenhuma estabelecera um contato mais ntimo com Andy. Resumindo, eram ambas totalmente 
dependentes e inteis.
       Alm do mais, ao longo de toda a semana tinham visitado Allyson num total de trs vezes, visitas essas que, no seu conjunto, se reduziriam a menos do que 
quinze minutos. Tudo acontecera precisamente conforme Page previra.
       - Julgo que seria melhor regressarem depois do fim-de-semana - afirmou Page co determinao. Contudo, a me mostrou-se horrorizada com semelhante idia e 
contraps imediatamente:
       - De forma alguma te iramos deixar sozinha com a Allyson no hospital. - Tal resposta deixou Page sem palavras.
       A atitude de Brad para com a me e a irm de Page foi particularmente agradvel nessa noite, em especial para Alexis, que pouco ou nada comentou. J de regresso 
a casa, quando mais ningum os ouvia Brad comunicou ento  mulher que iria sair.
       - s onze da noite...? - Page ficou abismada, mas sabia que j o deveria admitir com facilidade. Brad estivera ausente toda a semana, e da se poderia concluir 
que essa se havia tornado a sua conduta habitual. Nos ltimos quinze dias, toda a estrutura do seu casamento se havia desmoronado de uma forma to bvia que Page 
se limitava agora a fit-lo em silncio.
       - Tenho muita pena, Page - tentou ele explicar. - Mas sinto-me como se estivesse entre a espada e a parede.
       - E natural - concordou ela, no deixando porm de acrescentar: - Tal como a Allie.
       - Isto no tem nada a ver com a Allie. - Mas ambos sabiam que toda aquela situao estava relacionada com a presente condio da filha. O acidente levantara 
um muro entre os dois, e tornava-se cada vez mais bvio que esse obstculo no iria ceder.
       Page encaminhou-se ento para a casa de banho, e quando saiu Brad j no estava em casa. Decidiu deitar-se, mas ficou acordada durante muito tempo, pois ultimamente 
tinha cada vez mais dificuldade em adormecer. Pensou em telefonar a Trygve, mas no lhe pareceu uma atitude muito correta, j que continuava a defender que no deveria 
recorrer a este como ltimo recurso.
       Na manh seguinte, enquanto tomavam o pequeno-almoo, Maribelle felicitou a filha pelo timo marido que escolhera, mas esta nada disse e limitou-se a beber 
o caf. A me afirmou ainda que Brad se havia tornado um homem muito bonito e um bom marido.
       Page partiu para o hospital sozinha, apesar dos protestos de ambas. Temiam que surgisse algum problema na ausncia de Page, e que no o soubessem ultrapassar.
       - E se o Andy precisar de ir  casa de banho? - indagou a me de Page em pnico. Era difcil acreditar que Maribelle havia sido casada com um mdico, criara 
duas filhas e, apesar disso, continuava ainda to pouco habituada a lidar com crianas.
       - Me, o Andy j tem sete anos, pode perfeitamente ir sozinho  casa de banho. Se quiserem, ele pode at ajudar-vos a preparar o almoo. - O fato de o seu 
filho de sete anos ser possuidor de um comportamento muito mais adulto do que a sua me e a sua irm no podia deixar de diverti-la.
       Nessa tarde Page conversou bastante tempo com Trygve, e admitiu que se sentia muito farta daquela situao e tambm muito desanimada. Ele pde facilmente 
concluir que a visita da me estava a agravar ainda mais o desalento de Page.
       - O que  que se passa em relao  tua me, que tanto te incomoda? - indagou Trygve, confundido pelas formas distintas com que Page se referia  me e  
irm: umas vezes com humor e ironia, outras com profundo desnimo e cansao.
       - Tudo nelas me incomoda: aquilo que so e o que no so, aquilo que fazem e o que deixam de fazer. No so pessoas vlidas, nem humanas, e detesto ser obrigada 
a receb-las em minha casa, t-las perto de mim ou dos meus filhos.
       - Ests a exagerar Page. - Trygve espantava-se pela firmeza e determinao com que Page afirmava a sua opinio sobre a me e a irm, e sups assim que algum 
acontecimento passado a deveria ter levado a formar uma opinio to negativa a respeito delas.
       - Foi para me afastar de todos eles que decidi vir viver para a Califrnia. Bem, na verdade, o principal motivo que me levou a vir foi o Brad, mas tenho a 
certeza de que, mais tarde ou mais cedo, teria abandonado Nova Iorque. No queria continuar a viver perto deles, e ter a oportunidade de vir morar para aqui foi 
a soluo ideal. - Tinha sido esse um dos motivos por que havia aceitado o pedido de casamento de Brad, o que, na altura, lhe parecera uma opo perfeitamente acertada, 
apesar da sua presente e inesperada situao familiar. - Mas agora o Brad est a agir de forma cada vez pior, e eu sinto que o meu cansao vai aumentando. O comportamento 
dele ainda me abala muito e perturba o equilbrio do Andy, o que  muito injusto.
       - Eu sei - respondeu ele, pausadamente. - O Andy desabafou com o Bjorn da ltima vez que esteve l em casa. Comentou que desde o acidente vocs os dois discutem 
muito, e disse tambm que suspeita que a irm esteja mais doente do que tu queres fazer parecer.
       - A minha me tem vindo a dizer-lhe que a Allie vai recuperar depressa e isso deixa-me doente!
       Observando-a, Trygve concluiu que Page estava, de fato, muito fatigada, perto mesmo da exausto. Trs semanas a viver aquela ansiedade e agonia era demasiado 
tempo para as foras de qualquer um, e agora tornava-se evidente que era demasiado para a resistncia de Page.
       - Talvez fosse bom a tua me e a tua irm regressarem a casa. - Tudo tinha limites, especialmente se era aquele o efeito que a presena delas produzia em 
Page, mas Trygve no estava na posio mais indicada para a auxiliar. De forma alguma poderia tentar influenciar a famlia dela a partir, pois no passava de um 
amigo invisvel, de cuja existncia a me e a irm de Page nem sequer suspeitavam.
       - Foi o que eu lhes disse ontem  noite, mas a minha me respondeu que de forma alguma me poderia deixar sozinha. - Perante o absurdo daquela afirmao, Page 
no pde deixar de emitir uma gargalhada, enquanto Trygve colocava o brao em redor dos seus ombros, para a beijar em seguida.
       - Lamento muito que tenhas de passar por tudo isto. A situao de Allie j era suficiente sem mais nenhuma complicao...
       - No sei, mas comeo a pensar que precisava de passar por uma prova como esta... no entanto, sinto que estou a falhar - confessou Page com lgrimas nos olhos. 
Trygve puxou-a suavemente para si e beijou-a de novo, ali num dos cantos da sala de espera da unidade de cuidados intensivos, onde ningum os poderia ver.
       - Pois penso  que ests a conseguir um resultado muito bom nesta prova, melhor do que um "Excelente"!
       - V-se bem que no tens assistido  maior parte das discusses l em casa... - respondeu ela, assoando o nariz. Depois, encostou a cabea ao peito de Trygve 
e fechou os olhos, desejando que a sua situao se modificasse dentro em breve. - Sinto-me to cansada... Trygve, quando ser que esta fase vai acabar? - De momento, 
no poderia prever-se um final rpido para os problemas de Page, e ambos tinham plena conscincia desse fato.
       - Daqui a um ano vais poder relembrar tudo isto e pensar como  que conseguiste sobreviver.
       - Ser que as minhas foras vo ser suficientes para chegar at l? - perguntou Page, grata por se poder apoiar em Trygve. Ento, com uma voz firme e suave, 
ele apertou-a mais nos seus braos e afirmou:
       - Estou a contar com isso, Page... e tal como eu, outras pessoas tambm esto. - Ela preferiu no dizer mais nada e ficaram os dois abraados em silncio, 
at Page ter de voltar para perto de Allie.
       Quando regressou a casa, a meio da tarde Page recebeu o telefonema de uma amiga que vivia no centro de So Francisco, com quem j no falava h vrios meses. 
H dois anos atrs, Allyson e a filha dessa amiga tinham freqentado juntas aulas de dana, e embora as suas filhas no se tivessem tornado amigas ntimas, simpatizavam 
muito uma com a outra. Como tal, a me da amiga de Allyson, sabendo do que se passara, vinha oferecer-se para ajudar naquilo que fosse necessrio, apesar de Page 
lhe garantir que no havia nada que ela pudesse fazer.
       - Promete-me que se precisares de algum tipo de ajuda me avisas - insistiu ela, denunciando em seguida uma leve hesitao na voz. - A propsito, o que  que 
se passa entre t e o Brad? Vocs esto a pensar em... divorciar-se?
       Page no pde deixar de ficar chocada com semelhante pergunta.
       - No. Porque  que perguntas? - Todavia, Page pressentiu com ansiedade que a mulher estava a par do que se passava. Era evidente, a julgar pela forma como 
a interrogara acerca do seu casamento.
       - Talvez eu no te devesse contar nada... mas vejo-o aqui quase todos os dias acompanhado por uma rapariga muito nova... ela deve ter pouco mais de vinte 
anos. A primeira vez que a vi, julguei que fosse alguma amiga da Allyson, mas depois apercebi-me de que era um pouco mais velha. Ela vive no prdio ao lado do meu, 
e cheguei a pensar que o Brad se tinha mudado para c. Esta manh, vi-os a fazer jogging antes do pequeno-almoo. - Que vida agradvel o seu marido levava E que 
agradvel era para ela ver-se confrontada com tais perguntas indiscretas! Aquela comunidade no era muito grande, e agora os vizinhos comeavam a v-lo na companhia 
dessa rapariga... da idade de Allie? No podia ser! Ao explicar  sua pretensa amiga que essa rapariga se tratava apenas de uma boa amiga, com a qual o marido elaborava 
vrios projetos profissionais, muitas vezes fora do horrio de expediente Page sentiu-se envelhecer dez anos.
       Possua plena conscincia de que no tinha conseguido convencer a me da amiga de Allyson, mas no estava disposta a admitir perante ningum que o marido 
andava, de fato, envolvido com outra pessoa. No entanto, no pde reprimir a fria que sentiu ao desligar o telefone; essa mulher no podia ter-lhe telefonado para 
lhe relatar as suspeitas que alimentava em relao ao seu marido! Era uma atitude muito baixa e devia ter suspeitado com que inteno ela telefonara, mal lhe perguntara 
se no estava a pensar divorciar-se.
       - Como estava a Allyson? - indagou Maribelle, ao entrar na cozinha.
       - Como sempre - respondeu Page, ainda ausente. - Como  que correu a tarde com o Andy? Indicou-lhe a casa de banho? - perguntou ela sorrindo, fazendo a me 
rir.
       - Ele sabia onde era.  um rapaz muito bem educado. At nos serviu o almoo no jardim! -  claro que a me e a irm no podiam levar a cabo uma s tarefa 
domstica, mesmo que fosse em proveito prprio.
       Page encontrou Andy a brincar sozinho no seu quarto, mas assim que avistou a me, parou o que estava a fazer. Ao detectar nos olhos do filho a tristeza e 
a ansiedade que o afligiam, Page sentiu mais uma vez um aperto no corao. As suas vidas tinham sofrido uma tremenda modificao no espao de trs semanas, e nenhum 
deles tivera ainda tempo para se adaptar a essa mudana repentina. Todos eles se comportavam como nufragos no meio de um mar de problemas. Page sentou-se ento 
em cima da cama de Andy e, estendendo uma mo para o filho, perguntou-lhe:
       - Como  que a av se comportou?
       - Ela  engraada... - respondeu ele, sorrindo. Vendo-o sorrir de novo Page sentiu uma vontade enorme de o abraar e de o proteger. - A av no sabe fazer 
nada. E a tia Alexis tambm no pode, porque tem as unhas muito compridas; nem consegue abrir uma garrafa de gua! A av at me pediu para dar corda ao relgio dela, 
porque no via bem e no conseguia encontrar os culos. - Page concluiu que Andy j as conhecia bem. Seguidamente, fitou a me com uma expresso de ansiedade no 
olhar e indagou: - Onde est o pap?
       - Est a trabalhar - mentiu Page.
       - Mas hoje  domingo. - Andy era inteligente e apercebia-se de que a me lhe escondia algo.
       - O teu pai trabalha muito. - "De que maneira", pensou Page, tentando disfarar a revolta que sentia.
       - Ele vem jantar a casa?
       - No sei - respondeu ela com honestidade. Andy resolveu ento sentar-se ao colo da me,  que proporcionou a esta a oportunidade de o abraar. Sentia um enorme 
desejo de armar ao filho que o seu amor por ele nunca se alteraria, acontecesse o que acontecesse com o seu pai, mas sabia que no podia ir to longe, por isso limitou-se 
a assegurar a Andy que o amava muito.
       Page decidiu ento adiantar o jantar, e passados alguns minutos, Brad chegou inesperadamente a casa, proporcionando um ambiente muito agradvel. Ofereceu-se 
para preparar um churrasco para o jantar, e mostrou-se calmo e gentil. Sempre que podia, evitava cruzar o seu olhar com o de Page, mas em contrapartida, esforou-se 
para ser amvel com a me desta e pediu a Andy que o ajudasse a grelhar os hambrgueres, os bifes e o frango. Alexis informou-os de que nesse dia no poderia comer 
carne, e pediu a Andy que lhe abrisse outra garrafa de gua mineral.
       Foi apenas quando Page se encontrou a ss com o marido que teve finalmente oportunidade de lhe relatar o telefonema que recebera nessa mesma tarde.
       - Ouvi dizer que esta manh, antes do pequeno-almoo, foste fazer jogging. - De incio Brad manteve-se em silncio, limitando-se a fit-la, perplexo, pois 
nunca lhe ocorrera que algum a informasse das suas atividades.
       - Quem  que te contou isso? - perguntou ento ele, furioso, sentindo-se extremamente culpado.
       - O que  que isso importa Brad?
       - Importa muito, porque no tens nada a ver com aquilo que eu fao ou deixo de fazer, percebes? - respondeu ele, fora de si.
       - No te esqueas de que no  apenas a tua vida que est em jogo... esto tambm as vidas dos nossos filhos e a minha! Julgas que o Andy no sabe o que est 
a passar-se? Olha bem para ele e repara se eleja no sabe toda a verdade!  claro que sabe! Todos ns sabemos...!
       - O que  que foste fazer Page? Contaste-lhe o que se passa, foi? Isso no te posso perdoar! - Brad largou violentamente os utenslios com que grelhava a 
carne, e correu para casa, enquanto Page tentava recolher o que ele deixara cair no cho. Encontrava-se de tal forma perturbada, que acabou por queimar a mo no 
grelhador, e Andy, vendo que a me se magoara, correu ento a chamar o pai. Ele chorava copiosamente, de novo assustado com mais uma discusso dos pais, que dessa 
vez ocasionara uma queimadura na mo da me. Andy no queria que a me se magoasse, nem desejava que os pais continuassem zangados, e alm do mais, ouvira-os mencionar 
o seu nome durante a discusso. Talvez os pais tivessem discutido por sua culpa... talvez o pai estivesse zangado por ser Allie quem estava no hospital e no ele. 
Alimentando este tipo de pensamentos, quando o pai recomeou a grelhar a carne e puderam finalmente iniciar o jantar, Andy continuava triste e confuso. Sentados 
 mesa, tanto os donos da casa, quanto o seu filho se encontrava extremamente silenciosos e cabisbaixos, mas, como de costume, Maribelle e Alexis pareciam alheias 
a esse fato.
       - s um especialista em grelhados, Brad! - elogiou Maribelle. A carne estava, de fato, deliciosa, mas o ambiente daquela refeio no podia ser menos agradvel. 
- Devias experimentar estes bifes, Alexis... Esto uma autntica maravilha! - Alexis, no entanto, limitou-se a abanar a sua cabeleira loura, plenamente satisfeita 
com uma ou duas folhas de alface, enquanto Page e Andy terminavam com dificuldade a carne que tinham nos pratos. Esta ltima tinha ainda um cubo de gelo em tomo 
dos dedos que queimara no grelhador, nos quais se formara j uma enorme bolha.
       - Di-te a mo, me? - perguntou Andy, preocupado.
       - No, querido, est tudo bem. - Durante o jantar, Brad no abriu a boca, nem encarou uma s vez a mulher. Estava convencido de que Page contara a Andy que 
ele mantinha um caso com outra mulher, e a sua fria era tanta que sentia vontade de a esbofetear. Enquanto arrumavam a loua, Brad no se conteve, e acusou novamente 
Page de ter colocado Andy a par do que se passava; mas nenhum dos dois reparou que Andy se encontrava tambm na cozinha, oculto na outra extremidade do balco.
       - Contaste-lhe, no foi? No tinhas o direito de fazer isso, Page!
       - Eu no lhe contei nada! - retorquiu Page, tambm ela elevando o tom da sua voz. - No seria capaz de o afligir dessa maneira! Mas talvez tu prprio lhe 
devesses contar... O que  que queres que ele pense das tuas ausncias? E j pensaste que algum lhe pode contar, assim como me contaram a mim...?
       - Ele tambm no tem nada a ver com isso!!! - gritou Brad, batendo violentamente com a porta da cozinha e deixando-a lavada em lgrimas. Page tentou ento 
continuar a guardar os pratos do jantar, enquanto Brad regressava ao jardim para arrumar o grelhador, e Maribelle se decidia a vir ao encontro de Page.
       - O jantar no podia ter sido melhor, querida. Estes ltimos dias tm sido maravilhosos. - Page ficou paralisada a olhar para a me, sem saber ao certo o 
que poderia responder a uma afirmao daquelas. Embora ainda se espantasse com as atitudes da me, sabia perfeitamente que a sua famlia sempre fora caracterizada 
por um grande surrealismo.
       - Ainda bem que gostaram do jantar; o Brad tem muita habilidade para cozinhar. - Talvez at fosse possvel que, no futuro, quando Brad j estivesse casado 
com Stephanie, ele pudesse voltar para lhes proporcionar um jantar como o dessa noite.
       - Vocs dois formam um casal maravilhoso...! - comentou Maribelle, encantada, sorrindo para a filha, que finalmente se decidiu a pousar a pilha de pratos 
em cima da mesa para encarar de frente a me.
       - Para ser sincera, me, o nosso casamento no vai nada bem. Como alis vocs j devem ter reparado.
       - No demos por nada.  claro que se nota que vocs esto os dois preocupados com a Allyson, mas isso  perfeitamente natural. Tenho a certeza de que dentro 
de umas semanas tudo vai voltar a ser como era antes. - Admitir algo que fugisse  norma j era uma atitude extraordinria para a me de Page.
       - Eu no estaria to segura. - Subitamente, Page decidiu contar  me toda a verdade. Que teria ela a perder? Se a me no gostasse de a ouvir, decerto fingiria 
que no tinha entendido bem. - O Brad est envolvido com uma outra mulher, e neste momento estamos a passar por uma fase muito difcil.
       Contudo, a sua me limitou-se a abanar a cabea, recusando-se a acreditar em semelhante blasfmia.
       - Tenho a certeza de que ests enganada a esse respeito, querida. O teu marido nunca seria capaz de agir desse modo, nem de pr em risco o vosso casamento.
       - No estou enganada, me - assegurou Page tenazmente, empenhada em faz-la acreditar.
       - Todas as mulheres passam por isso, mas, no teu caso,  muitssimo natural que acredites, porque ests bastante preocupada com o problema da Allyson. - "Qual 
"problema"...? O "problema" da minha filha estar h trs semanas em coma profundo e em permanente risco de vida? Ah, sim, esse "problema"..." - Sabes que eu e o 
teu pai tambm tivemos algumas discusses, embora nunca fosse nada de grave. Tens de tentar ser um pouco mais condescendente Page. - Esta fitava a me, verdadeiramente 
perplexa, sem poder acreditar naquilo que ouvia. Tinha concordado em no discutir aquilo que sucedera na sua famlia, mas no estava disposta a fingir que nada de 
grave se passara.
       - No posso acreditar no que est a dizer, me - respondeu Page, co a voz rouca.
       - Mas  verdade. Por mais incrvel que parea, eu e o teu pai passamos por alguns momentos difceis.
       - Me,  comigo que est a falar... com a sua filha Page... no se lembra daquilo por que passamos?
       - No sei do que ests a falar - afirmou Maribelle, voltando-lhe as costas e preparando-se para sair da cozinha.
       - No faa isso! - pediu Page, chorando enquanto tava a me. - No se atreva a fazer-me uma coisa dessas, depois de todos estes anos! Pare de contar essas 
mentiras piedosas, que no enganam ningum a no ser vocs as duas! "Algumas discusses..." Lembra-se do homem com quem casou? Como  que me pode dizer uma coisa 
dessas...? Olhe para mim, me!!!
       A sua me voltou-se vagarosamente e fitou Page com uma expresso ausente, como se fosse incapaz de entender a revolta que de sbito dominara a filha. Entretanto, 
Brad entrou na cozinha, e apercebeu-se do que ali se passava, ao ver a expresso perturbada de Page.
       - Talvez fosse melhor discutirem isso noutra altura - aconselhou ele calmamente.
       Page encarou-o, furiosa, e exclamou:
       - No te atrevas, tu tambm, a vir dar-me conselhos sobre o que eu devo ou no fazer! Alm de ter de suportar o fato de no conseguires conter os teus instintos 
sexuais, mesmo estando casado comigo, ainda queres que suporte mais isto...? No vou permitir que ela me volte a enganar desta forma! - Page voltou-se novamente 
para a me e continuou: - No volte a usar estas mentiras comigo... a me permitia que ele fizesse o que queria e ainda o ajudava...! Deixava-o entrar no meu quarto, 
fechava a porta e dizia-me que eu "tinha que fazer o pap feliz"...! Eu tinha s treze anos, me! Treze anos...! E a me obrigava-me a dormir com o meu pai...! Alexis 
tambm nunca me ajudou, apesar de ele fazer o mesmo com ela desde os doze anos... mas ficou demasiado aliviada por ver que ele me preferia a mim e a deixava a ela 
em paz! Como  que tem coragem de fingir que isto nunca aconteceu? D-se por muito contente por eu ainda a querer ver e no me importar de a receber em minha casa...!
       Maribelle continua a fitar a filha, muitssimo plida. Brad observou ento que a sogra tremia. Por fim, esta murmurou:
       - Ests a fazer acusaes muito graves Page. Sabes bem que tudo isso  mentira. O teu pai nunca agiria desse modo.
       - Mas tanto ele como a me agiram exatamente desse modo - respondeu Page, voltando as costas a ambos e soluando apoiada no balco da cozinha. Brad manteve-se 
parado no mesmo stio, sem coragem de se aproximar da mulher. Ento, esta voltou-se de novo para a me, e num mpeto de coragem, afirmou: - Foram precisos muitos 
anos para que eu recuperasse de tudo aquilo que vocs me fizeram... e at poderia aceitar tudo de outro modo, se a me alguma vez me tivesse pedido desculpas ou 
tivesse tentado falar comigo sobre esse assunto... Mas como  que pode tentar fingir que nada nunca aconteceu...?
       Alexis apareceu ento  porta da cozinha, sem se aperceber da tremenda discusso que ali se passava. Tinha estado no quarto a falar ao telefone com o marido.
       - Page, importavas-te de me fazer um ch de camomila? - pediu ela docemente  irm, que se encostou ao balco e emitiu um gemido de incredibilidade.
       - Vocs so as duas inacreditveis! Passaram tantos anos a tentar fugir da realidade, que agora j no so capazes de a enfrentar. Vocs so to inteis que 
nem sequer uma garrafa de gua conseguem abrir! Como  que se conformam a viver assim?!
       Alexis, subitamente aterrorizada, olhou para cada um dos presentes e murmurou:
       - Desculpem... eu s queria... no tem importncia...
       - Toma! - exclamou Page, projetando uma garrafa de gua na sua direo. - A me acabou de me assegurar que o pai nunca se meteu nas nossas camas quando ramos 
pequenas. Lembras-te, Alex? Ou ser que tambm ficaste amnsica? Lembras-te de quando me empurraste para ele, para que o pai te deixasse finalmente em paz? Lembras-te...? 
- Page fez uma breve pausa e fixou alternadamente o olhar da me e da irm. - Ele continuou at eu ter dezesseis anos e ameaar que chamava a Polcia, algo que nenhuma 
de vocs duas teria a coragem de fazer. Como  que puderam fechar os olhos a uma coisa dessas? Como  que tiveram coragem de o ajudar? - Nessa altura Page j no 
era capaz de conter os soluos. - Nunca consegui entender essa vossa atitude. - Agora que era me, ainda se tornara mais difcil entender essa forma de agir. Quanto 
a Brad, este no podia deixar de se sentir horrorizado com o desabafo da mulher; sempre conhecera a verdade sobre a infncia de Page, mas nunca a ouvira discutir 
esse fato com a me, nem sequer a ouvira referir-se ao tema com tanta clareza.
       - Como  que tens coragem de acusar o pai de uma atitude dessas? - indagou ento Alexis, chocada. - O pai era mdico!
       - Pois era - respondeu Page, chorando. - Eu tambm costumava pensar que isso teria alguma importncia, mas afinal no teve nenhuma... Depois do que aconteceu, 
levei muitos anos para conseguir entrar num consultrio mdico. Tinha medo que pudesse voltar a ser molestada ou violada...! Nem mesmo quando estive grvida consegui 
ir regularmente ao mdico. Tinha sempre receio que acontecesse alguma coisa! Mas no h dvida de que o nosso pai era uma tima pessoa: um homem maravilhoso e um 
mdico de muita qualidade!
       - Ele era um santo - afirmou Maribelle Addison, defendendo aquele que havia sido seu marido. - E vocs sabem disso. - Entretanto, Alexis aproximara-se instintivamente 
da me, e as duas mulheres estavam j enlaadas. Tornava-se cada vez mais evidente que nunca estariam dispostas a admitir o que sucedera.
       - Sabem o que mais me entristece? - questionou Page, encarando-as. -  que, depois do que se passou, tu desapareceste, Alex. Casaste com o David quando tinhas 
dezoito anos, e para no teres que continuar a ser a mesma mulher, resolveste adquirir outra identidade: um rosto novo, um peito novo, uns olhos diferentes, enfim, 
tudo diferente...! Assim, podias ser uma outra pessoa e era mais fcil fingir que aquilo nunca tinha acontecido. - Alexis no emitiu um som. O discurso da irm representava 
uma grande ameaa para ela.
       - Page... - chamou Brad com suavidade, lamentando aquela discusso; ultimamente Page passara por provas demasiado duras. - No te martirizes mais.
       - E porque no? - retorquiu ela, voltando-se para o marido. - Eu no consigo fingir que nada daquilo aconteceu, como elas fazem; mas talvez devesse ter essa 
mesma atitude em relao a ti... fingia que estava tudo bem entre ns e no reparava que todas as noites tens freqentado outra cama! Que vida to facilitada ns 
teramos! Mas sabes bem que eu preferiria desistir de viver a desempenhar esse papel, Brad! No vivi todos os anos da minha vida, nem sofri o que sofri, para agora 
fazer de conta que acredito numa srie de mentiras mal forjadas...!
       - Tens de saber aceitar que existem pessoas que no sabem ser to sinceras como tu - disse Brad, melanclico.
       - Infelizmente,  exatamente isso o que eu tenho vindo a fazer.
       - Essas pessoas necessitam de se refugiar nas suas fantasias.
       - Mas eu no sei viver desse modo Brad.
       - Eu sei - respondeu ele, devagar, acrescentando: - Foi um dos motivos por que me apaixonei por ti. - Todavia, apesar da sinceridade, ele referia-se ao passado, 
e Page tinha conscincia desse fato.
       A sua me e irm tinham, entretanto, conseguido escapar da cozinha. Brad observava a mulher, que entretanto se tentava acalmar.
       - Sentes-te bem? - Ele estava sinceramente preocupado com Page, mas tinha conscincia de que no lhe podia oferecer aquilo de que ela necessitava; era isso 
que sentia, e pelo menos dessa vez estava a agir de acordo com os seus sentimentos.
       - No sei ainda - respondeu ela. - Julgo que estou mais aliviada, agora que j disse tudo o que sinto. Nunca percebi se a minha me prefere negar a verdade 
e fingir que acredita em todas aquelas mentiras, ou se mente apenas para defender o meu pai, tal como fazia no passado.
       - Neste momento, descobrir isso j no vai adiantar nada. Sabes que a tua me nunca vai ser capaz de admitir a verdade, Page, e o mesmo sucede com a tua irm. 
Por isso, no vale a pena esperar que isso algum dia venha a acontecer. - Page concordou. Apesar de ter sido um fim de tarde horrvel, aquela discusso tinha de 
alguma forma contribudo para a libertar de um grande peso. Decidiu ento ir sentar-se um pouco no jardim, sozinha, e da a pouco resolveu ir ver a filha ao hospital; 
sabia que j era um pouco tarde, mas sentia um desejo sbito de estar com Allyson. Comunicou a sua resoluo ao marido, e passado pouco tempo j se encontrava na 
unidade de cuidados intensivos, sentada junto da cama da filha. Desta vez, manteve-se em silncio a seu lado, recordando tudo aquilo que Allyson fora antes do acidente 
que ocorrera havia cerca de trs semanas. Page sentia j a falta da filha.
       - Mistress Clarke, a senhora sente-se bem? - perguntou uma das enfermeiras do turno da noite. Page revelava uma palidez e um abatimento invulgares, sentando-se 
imvel de olhar fixo na filha. Depois de tranqilizar a enfermeira, Page permaneceu ali sentada at Trygve vir ter com ela, cerca de meia hora mais tarde.
       - Vim ver se estavas aqui - informou ele, num tom de voz suficientemente elevado para se sobrepor a todos os montonos rudos dos aparelhos ali presentes. 
- No sei porqu, mas calculei que te encontrasses aqui; tenho estado a pensar em ti - concluiu ele, sorrindo. S ento reparou que os olhos dela estavam muito inchados; 
de fato Page aparentava um cansao muito grande e dava mostras de ter estado a chorar. - Ests bem?
       - Nem por isso... - respondeu ela, encolhendo os ombros e esboando um tnue sorriso. - Hoje  noite disse tudo o que estava a sentir.
       - E sentes-te melhor?
       - No tenho bem a certeza, mas parece-me que no. Sei que no adiantou nada, mas, pelo menos, desabafei.
       - Ento talvez tenha valido a pena.
       - Sim, talvez... - No entanto, no parecia muito segura, e Trygve voltou a notar que, de fato, a aparncia de Page no podia ser mais esclarecedora: ela tinha 
atingido o limite das suas foras. Como Allyson permanecia nas mesmas condies, Trygve concluiu ento que devia haver outra justificao para o estado de desnimo 
de Page.
       - Vamos tomar um caf? - Page encolheu novamente os ombros, mas seguiu-o. A enfermeira-chefe observava a cena, sentindo uma imensa compaixo por Page; passar 
por aquilo era uma provao terrvel para uma me, e at quele momento no existia o mais pequeno indcio de que Allyson pudesse vir a recuperar. Ela detestava 
assistir a casos como aquele, to penosos para todos, especialmente se os doentes eram crianas. Por vezes, em silncio consigo mesma, a enfermeira chegava a admitir 
que, para um pai, seria prefervel perder o filho a passar por todo aquele sofrimento escusado; mas  claro que nunca admitiria isso perante nenhum pai naquelas 
circunstncias.
       Trygve ofereceu-lhe uma xcara de caf, que acabara de retirar da mquina, e depois sentaram-se ambos na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. 
Page mantinha-se em silncio, o que aumentava ainda mais a preocupao de Trygve. Observando-a, reparou que os olhos dela pareciam agora maiores e mais azuis do 
que nunca.
       - O que  que se passa? - indagou ele, suave e carinhosamente, enquanto Page tomava o primeiro gole de caf.
       - No sei bem... talvez tenha atingido o meu limite: a Allie neste estado, o Brad... a minha me...
       - Aconteceu alguma coisa? - Trygve pretendia apenas encontrar uma justificao para tamanho abatimento, mas Page no lhe fornecia muitas pistas. Apesar disso, 
queria muito poder ajud-la.
       - Nada que j no tenha acontecido antes. A minha me resolveu jogar mais uma vez s escondidas, tal como sempre faz, mas desta vez no me controlei e disse 
tudo o que pensava. - Page esboou um sorriso, ligeiramente envergonhada. - Talvez no tenha procedido da melhor forma, mas no tive alternativa. Contei-lhe que 
eu e o Brad estvamos a passar por um problema grave, o que foi perfeitamente escusado, e ela ento resolveu dar o exemplo do meu pai. - Page no sabia como contar 
a verdade a Trygve, e este receava fazer mais perguntas. - O meu pai e eu... - comeou ela para logo de seguida fazer uma pausa com o fim de beber mais um pouco 
de caf. - Ns... bem... tnhamos um relacionamento muito estranho. - Page cerrou as plpebras, e comeou a chorar. Na realidade, no tinha querido contar nada a 
Trygve, mas subitamente sentiu que o desejava fazer; queria usar da mxima sinceridade com ele, e tinha a certeza de que podia confiar a Trygve o maior dos segredos.
       - Est tudo bem, Page. - Ele apercebia-se da gravidade da situao. - No precisas de me contar mais nada.
       - No, mas eu quero contar-te - afirmou ela, fitando-o atravs de uma cortina de lgrimas. - No tenho medo de te contar... - Respirou fundo e continuou: 
- Ns... ele... ele... o meu pai comeou a assediar-me quando eu tinha treze anos... deitava-se comigo e... obrigava-me a ter relaes sexuais com ele. Comeou quando 
eu tinha treze anos e continuou durante muito tempo... at eu fazer dezesseis; e a minha me sabia de tudo. - Ao chegar a esse ponto, a voz de Page tornou-se ainda 
mais trmula. - Na verdade, ela obrigava-me a dormir com ele. Antes de mim, j tinha feito o mesmo  Alexis durante quatro anos, e a minha me tinha medo dele. Ele 
era uma pessoa doente, e costumava bater-lhe, por isso  que a minha me permitia que aquilo acontecesse; para ele no ser violento conosco, ela dizia que ns tnhamos 
que "fazer o nosso pai feliz"... costumava traz-lo ao meu quarto e depois fechava a porta  chave... - Quando Trygve a tomou nos braos, Page soluava.
       - Meu Deus, Page... isso  horrvel...  doentio. - Trygve teria morto quem quer que violentasse dessa forma sua filha.
       - Eu sei. Foram precisos muitos anos para eu recuperar do trauma. Sa de casa quando tinha dezessete anos e trabalhei num restaurante para poder pagar a renda 
de um apartamento. Na altura, a minha me acusou-me de estar a cometer um erro muito grave; disse que eu estava a trair a famlia, que lhe tinha causado um desgosto 
muito grande, que... Quando o meu pai morreu, cheguei mesmo a pensar que tivesse sido por minha culpa.
       "Mais tarde, conheci o Brad em Nova Iorque, casamos e viemos morar para aqui. Comecei ento a freqentar um bom psiclogo e consegui superar e ultrapassar 
esse trauma. Mas a minha me ainda finge que nada daquilo aconteceu... foi isso que ainda h pouco me fez perder o controle; no consigo compreender essa reao... 
alis, nunca consegui entender... Como  que, sabendo tudo o que ele nos fazia, a minha me conseguia trat-lo como se ele fosse uma pessoa normal? Hoje mesmo referiu-se 
ao meu pai como "um santo"! E isso  o que mais me revolta!
       - No admira que tenhas perdido o autodomnio - afirmou Trygve, grave e srio, que durante todo o discurso de Page lhe acariciou o cabelo e lhe segurou a 
mo, tal como ela costumava fazer com Allie. - At me espanta que ainda te relaciones com a tua me e com a tua irm.
       - Durante muito tempo consegui manter-me afastada, mas agora, com o acidente da Allie, era muito difcil negar-lhes o direito de a verem. Eu sabia que no 
devia ter concordado com a vinda delas, mas penso sempre que vou conseguir utilizar o mesmo mtodo que elas usam comigo; o grande problema  que nunca consigo! Todas 
as vezes que revejo a minha me, lembro-me sempre do ano em que fiz treze anos... ela no mudou nada... e a Alexis tambm no.
       - Como  que ela conseguiu escapar?
       - Quando o nosso pai me comeou a procurar, deixou-a finalmente em paz. - Page suspirou e encostou a cabea no peito dele, sabendo-se em segurana. - A Alexis 
casou com dezoito anos, tinha eu apenas quinze. Refugiou-se nos braos de um homem de quarenta anos, com o qual ainda hoje  casada e que nunca lhe exigiu nada em 
troca. Eu sempre desconfiei que o David  homossexual e que mantm o mesmo amante h anos; para a minha irm, ele  apenas um pai. A reao da Alexis foi transformar-se 
numa outra pessoa, com um novo nome e um rosto e um corpo diferentes. O David est sempre a oper-la e ela adora que ele o faa. Ela alia-se  minha me, tem o mesmo 
tipo de comportamento e tambm no se importa de fingir que nada daquilo aconteceu.
       - A tua irm alguma vez consultou um psiclogo? - Trygve estava intrigado; mesmo com a ajuda de um psiclogo, era surpreendente que Page tivesse resistido 
e ultrapassado uma adolescncia to traumatizante.
       - Julgo que no. Se o tivesse feito, certamente no se importaria de mo comunicar; mas penso que se a Alexis tivesse feito psicanlise j seria capaz de admitir 
a verdade. Dessa forma, seramos ambas sobreviventes do nosso pequeno holocausto... mas a minha irm ainda permite que o antigo comportamento dos meus pais a domine. 
Eu penso que pouco ou nada restou dela: sofre de anorexia, bulimia e nunca foi me; quase nunca fala e limita-se a ser uma amostra do trabalho cirrgico do marido, 
a causar boa impresso como sua mulher e a vestir roupas caras e bonitas. O David despende muito do seu dinheiro com ela, e isso  o bastante para a fazer feliz. 
- Page sorriu e concluiu depois: - Somos as duas muito diferentes.
       - Tambm me parece; embora tu tambm causes muito boa impresso.
       - Mas no como a Alexis. A maior preocupao dela  manter o rosto e o corpo impecveis. S come verduras, passa imensa fome, e est constantemente obcecada 
com a higiene e com a elegncia.
       - Se  assim, a tua irm nunca superou o que se passou.
       -  verdade - respondeu Page, melancolicamente. Sentia-se um pouco mais animada, agora que relatara a Trygve o seu segredo.
       - Eu sabia que tinha de existir uma razo para no gostares da tua me e da tua irm, se  que de fato no gostavas.  que eu no conseguia perceber se quando 
te referias a elas no estavas simplesmente a ironizar.
       - Como j percebeste, estava a falar muito a srio, Trygve. Para mim, relacionar-me com a minha me e com a Alexis foi sempre um dilema: ou as via e me recusava 
a fugir da realidade de forma a preservar a minha sanidade mental, ou me conservava afastada delas.  mais fcil conservar-me afastada, mas nem sempre o consigo 
fazer. - Trygve abanava a cabea, absorvido pela gravidade da situao, quando uma das enfermeiras veio pedir a Page para atender uma chamada. Era muito provvel 
que fosse da parte da sua me, admitiu Page; decerto, esta desejaria que Page lhe fizesse algum favor, mas nunca referiria a conversa dessa noite. Quanto  isso Page 
no possua a menor dvida; no entanto, no foi a voz da sua me que ela ouviu ao atender o telefone, e sim a de Brad, que por sinal se encontrava bastante alterada.
       - Page...? - Brad estava agitadssimo. - Foi o Andy...
       - Ele feriu-se? - Sentiu-se novamente dominada por uma onda de pnico. Naquela fase, tudo lhe parecia demasiadamente perigoso e fatal. Era como se estivesse 
sempre  espera de mais ms notcias, ou de que algum desastre voltasse a vitimar mais algum dos seus entes queridos. - O que  que aconteceu?
       - O Andy desapareceu.
       - Desapareceu... ? J o procuraste no quarto? - Aquela notcia era ridcula; como  que o filho poderia ter desaparecido? Andy estaria certamente a dormir 
no seu quarto acompanhado por Lizzie, e Brad no tinha procurado bem.
       -  claro que o procurei no quarto! - gritou Brad. - O Andy deixou um bilhete e fugiu de casa.
       - O que  que diz o bilhete? - perguntou Page, lanando um olhar angustiado a Trygve e estendendo-lhe uma mo; ele agarrou de imediato a mo de Page e apertou-a 
entre as suas.
       - No consegui perceber muito bem... a letra  muito incerta. Mas ele diz que sabe que a culpa  dele... o Andy julga que  o culpado pelas nossas discusses, 
e fugiu porque quer que ns voltemos a ser felizes. - A voz de Brad denunciava o seu estado de emoo; Page tinha a certeza de que o marido estava a chorar. - Acabei 
de chamar a Polcia, por isso  melhor voltares para casa. Eles prometeram no demorar. O Andy deve ter ouvido a nossa discusso... Por favor, Page, dize-me onde 
 que pensas que ele possa estar...
       - No fao a menor idia - respondeu ela, sentindo-se assustada e impotente. - J o procuraste l fora? Ele pode estar escondido no jardim.
       - Antes de chamar a Polcia, procurei-o em todos os lugares possveis e imaginrios. Aqui perto, ele no est.
       - A minha me j sabe? - Page sabia, no entanto, que da me no se poderia esperar muito auxlio e Brad reagiu  sua pergunta com alguma irritao.
       - Sabe. Ela acha que ele deve estar em casa de algum amigo, mas s dez da noite, na idade dele, no acho isso muito provvel.
       - Nem eu. Mas deixa-me adivinhar: a minha me e a Alexis foram-se j deitar, mas antes a minha me afirmou que tinha a certeza que de manh j estaria tudo 
bem.
       Apesar do seu estado de nervos, Brad riu e comentou:
       - Pelo menos com a tua me nunca h surpresas.
       - H certas pessoas que nunca mudam.
       - Podes vir j para casa?
       - Vou imediatamente para a. - Page desligou e explicou a Trygve o que se passava: - O Andy fugiu de casa... deixou um bilhete a dizer que se ia embora, porque 
no queria que eu e o Brad discutssemos mais; julga que todas as nossas discusses so por causa dele. - Os olhos de Page encheram-se de lgrimas e Trygve abraou-a. 
- E se lhe acontecer alguma coisa? Hoje em dia h tantas crianas que so raptadas... - Se tal acontecesse, Page no seria capaz de suportar mais nenhuma desgraa. 
O medo que nesse momento sentia, desconhecendo o paradeiro do filho, era j o bastante para consumir todas as suas resistncias.
       - A Polida vai encontr-lo, Page. Queres que eu te acompanhe? - Page abanou a cabea e respondeu:
       - Julgo que no seria muito aconselhvel. No h nada que possas fazer, e alm disso, a tua presena s ia complicar ainda mais a situao. - Ele concordou, 
e em seguida acompanhou Page at ao parque de estacionamento do hospital. Antes de ela arrancar, Trygve beijou-a e apertou-lhe a mo com carinho.
       - Vai correr tudo bem, Page; eles vo encontr-lo.
       - Espero que sim.
       - Vais ver que sim. - Trygve acenou e Page arrancou na sua carrinha; a noite comeara de uma forma bastante atribulada.
       Ao chegar a casa Page constatou que a Polcia j se encontrava no local. Os agentes anotaram todas as informaes que lhes pudessem vir a ser teis, tais 
como o nome dos colegas de Andy, a hora de incio das aulas e a roupa que ele levava vestida; seguidamente, vasculharam o jardim, iluminando todos os cantos escuros 
com as suas lanternas, mas no o encontraram. Page deu-lhes duas fotografias do filho, e enquanto isso, como seria de esperar, Maribelle e Alexis no abandonaram 
os seus quartos. O segredo das suas condutas to serenas era simplesmente nunca admitirem ou enfrentarem alguma circunstncia desagradvel, algo que ambas realizavam 
na perfeio. Assim, apesar da imensa agitao dentro de casa, e da luz intensa no jardim, no se ouvia o mnimo som vindo dos seus quartos.
       Entretanto, o carro da Polcia percorreu toda a vizinhana, regressando em seguida para ver se Andy j teria voltado a casa; como isso no se havia verificado, 
decidiram partir novamente em busca dele e foi nesse preciso momento que Trygve telefonou.
       - O Andy est aqui - comunicou ele a Page, com muita calma. - O Bjorn estava a escond-lo no quarto. Falei depois com ele e disse-lhe que era errado proceder 
desse modo, mas o Bjorn explicou que o Andy no queria voltar, porque se sentia muito triste em casa. - Ao ouvir essa explicao, Page quase comeou a chorar, enquanto 
fazia sinal a Brad para este se aproximar.
       - Ele est em casa do Trygve - explicou ela ao marido.
       - Em casa do Trygve? O que  que ele foi l fazer? - indagou Brad, surpreendido. Ele sabia que Allie era a melhor amiga de Chloe, mas naquela casa no havia 
nenhuma criana da idade de Andy.
       - 0 Andy e o Bjorn so amigos. Ele explicou ao Bjorn que foi para casa do Trygve porque se sentia muito triste aqui. - Trocaram um longo e melanclico olhar, 
aps o que Page comunicou a Trygve: - Eu vou j a busc-lo. - Sentia-se extremamente grata e aliviada por terem encontrado o filho.
       Ao senti-la por fim em paz, Trygve emitiu um leve suspiro de alvio, embora se sentisse simultaneamente embaraado pelo que tinha de comunicar a Page:
       - O Andy afirma que no quer voltar para casa. Page mal podia crer no que ouvira.
       - No quer voltar... ? Mas porqu?
       - Diz que sabe que o pai preferia que, em vez da Allie, tivesse sido ele a sofrer um acidente. Diz tambm que vos ouviu discutir ontem  noite acerca dele 
e que o Brad estava muito zangado.
       - Mas estava zangado comigo, e no com o Andy. O Brad julgou que eu tinha contado ao Andy acerca da sua namorada, mas no fiz nada disso.
       - O Andy interpretou mal. O Bjorn contou-me que ele est convencido de que vocs lhe esto a mentir sobre a Allyson; arma ter a certeza de que ela morreu. 
Desculpa Page, mas penso que  melhor saberes o que ele est a pensar.
       - Eu devia ter permitido que ele visse a irm.
       - No  uma deciso nada fcil de tomar, Page. No teu lugar, eu teria feito o mesmo. Com o Bjorn, no tive esse problema, porque as nossas filhas no se encontram 
nas mesmas condies e alm disso o Bjorn  mais velho do que o Andy, e o caso dele  diferente.
       - Ns vamos j a buscar o Andy.
       - Importas-te que eu e o Bjorn o levemos a vossa casa? E que, neste momento, ele est a beber uma xcara de chocolate quente; eu levo-o a, assim que ele 
acabar.
       - Obrigada, Trygve - agradeceu ela com sinceridade, explicando em seguida ao marido o que se passara.
       - Depois disto, vamos ter de lhe explicar o que est a passar-se conosco - concluiu Brad melancolicamente, depois de ter ouvido o que Page lhe contara.
       - Mas antes disso, temos de resolver a nossa situao. No podemos continuar a viver desta forma - afirmou Page, suspirando. - Alm disso, julgo que chegou 
a altura de o levar a ver a Allie. - Seguidamente, Page contatou os polcias que estavam em busca de Andy, para os informar de que o filho se encontrava em casa 
de um amigo, ao que estes reagiram com satisfao.
       Cerca de meia hora mais tarde, Trygve e Bjorn vieram trazer Andy a casa dos pais. Ele entrou em casa com uma expresso muito triste e com o rosto muito plido, 
e ao v-lo daquela forma, a me rompeu em lgrimas. Abraando o filho nos seus braos Page garantiu-lhe que ela e Brad haviam ficado muitssimo preocupados com o 
procedimento dele, porque o amavam muito.
       - Por favor, no voltes a fazer isso nunca. Poderia ter acontecido uma desgraa.
       - Eu julgava que vocs estavam zangados comigo - murmurou ele, chorando, e lanando um olhar ao pai. Brad esforava-se por combater as lgrimas, enquanto 
Trygve e Bjorn assistiam  cena da porta da cozinha.
       - Eu no estava zangada contigo - explicou Page ao filho. - Nem o pai estava. E a tua irm no morreu, Andy; ela est apenas muito, muito doente, tal como 
eu sempre te expliquei.
       - Ento porque  que no a posso ver? - perguntou ele, desconfiado. Mas desta vez, a me surpreendeu-o.
       - Vais poder v-la amanh.
       - Vou? A srio? - Andy sorriu de orelha a orelha, feliz por poder realizar finalmente o seu maior desejo. Ainda no se apercebia do quadro que se lhe depararia, 
nem de que Allie no poderia falar com ele; ela nem sequer se assemelharia  irm de que ele se lembrava e a quem tanto amava, mas a me tinha chegado  concluso 
que provavelmente Andy necessitaria de enfrentar a realidade, tal como ela sempre havia necessitado.
       - Ele pensava que a Allie tinha morrido - explicou Bjorn.
       - J sei - respondeu Page, agradecendo-lhe em seguida o fato de ter tomado conta de Andy.
       - Ns somos amigos - afirmou Bjorn, orgulhoso. Page decidiu ento levar Andy at ao quarto, e Bjorn ajudou-a a deitar o filho. Depois de Bjorn voltar para 
a cozinha, para junto do seu pai Page beijou o filho e aconchegou-o entre os lenis.
       - O pap vai-se embora? - perguntou Andy quando a sua me fechou a luz, novamente preocupado.
       - No sei. - Page realmente no sabia o que responder a Andy. - Mas assim que chegarmos a alguma concluso, eu prometo que te conto, est bem? Seja o que 
for que acontea, no tem nada a ver contigo, filhote, e ningum est zangado contigo. Este assunto s diz respeito a mim e ao pai.
       - Ento a culpa  da Allie? - Andy insistia em encontrar um culpado para as zangas dos pais, mas infelizmente no existia ningum a quem culpar.
       - Ningum tem culpa - explicou Page, concluindo:
       - Mas s vezes h certos acontecimentos que no se podem evitar.
       - Como o acidente? - relacionou ele.
       - Sim. Infelizmente, o acidente tambm foi inevitvel.
       - Dizias que tu e o pai se zangavam s porque estavam cansados.
       - E estvamos cansados, apesar de haver ainda outras razes. Mas nada tm a ver contigo! So apenas razes de adultos. Tens de acreditar em mim. - E Andy 
assim o fez. No era uma explicao muito animadora, mas era mais fcil enfrentar a verdade do que imaginar o pior; e at esse momento, ele estivera plenamente convencido 
de que tudo tinha acontecido por sua culpa. - Eu e o pai gostamos muito, muito de ti...
       Andy abanou a cabea, colocou os seus braos em redor do pescoo da me, beijou-a e respondeu em seguida:
       - Eu tambm gosto muito de vocs. Prometes que amanh me levas a ver a Allie?
       - Prometo. - Page voltou a beijar o filho, que lhe pediu depois que chamasse o pai. Assim, quando Brad veio dar as boas-noites a Andy, Page aproveitou para 
se despedir de Trygve e de Bjorn; acompanhou-os at  porta e tornou a agradecer a Trygve toda a sua ajuda, ao que ele respondeu com um grande sorriso de contentamento.
       - Boa noite, Page - despediu-se ele, com a sua voz calma.
       Ela sentiu ento que o lao que a unia a Trygve se tinha estreitado, visto no existir nenhum segredo do qual ele j no tivesse conhecimento. Alm disso, 
as famlias de ambos vinham, lentamente, a tomar-se mais e mais chegadas. O prprio Brad se apercebeu dessa aproximao; assim que regressou  cozinha, lanou um 
olhar desconfiado a Page e questionou abruptamente:
       - Passa-se alguma coisa entre vocs os dois?
       - No; mas isso no est em causa.
       - Eu sei, s perguntei por curiosidade. Eu gosto dele, e julguei que tu tambm pudesses gostar; o Trygve  um bom homem.
       - Nas ltimas semanas temos passado muito tempo juntos no hospital. Ele  um bom pai e um timo amigo. Brad fitava-a na outra extremidade da cozinha.
       - Sei que no te tenho prestado muito auxlio... - Os olhos dele umedeceram-se e Brad desviou ento o olhar. - Mas no consigo v-la assim, to magoada, to 
diferente... ela nem sequer se parece com a nossa filha...
       - Sim, eu sei. Tento no pensar nisso e concentrar-me apenas naquilo que tem que ser feito por ela. - Brad entendia e admirava a atitude de Page, embora no 
pudesse proceder do mesmo modo.
       - O que  que vamos resolver a nosso respeito? - indagou ento ele, abrindo a porta que dava para o jardim. - E se conversarmos ali fora, onde ningum nos 
oua?
       Page seguiu Brad e ambos se sentaram nas cadeiras do jardim.
       - Esta nossa situao no vai levar a lugar nenhum, pois no? De incio, ainda julguei que fosse possvel agentar mais uns tempos assim, at eu chegar a 
alguma concluso. Mas, na prtica, nunca estou em casa, tu ests sempre irritada, e sinto-me pressionado em duas direes opostas. Todos os dias, quando chego a 
casa, vejo o Andy a olhar fixamente para mim, sou confrontado com o teu olhar de repreenso e chego sempre  concluso de que j no tenho foras suficientes para 
ir visitar a Allie ao hospital... - Alm disso, Stephanie continuava a insistir para que Brad se mudasse para o seu apartamento, e ele continuava inseguro, receando 
assumir um compromisso demasiado srio. - Talvez eu deva sair de casa. Por um lado, gostaria de poder continuar aqui, mas, por outro, sinto que esta situao nos 
est a prejudicar a todos. - Page ponderou no que Brad acabara de afirmar. De incio, tambm ela julgara melhor que o marido continuasse a viver com eles, mas no 
momento presente j no mantinha essa opinio. A situao tornara-se cada vez mais incontrolvel e mais conflituosa, e ambos sabiam que tinha chegado a altura de 
a enfrentarem e de a resolverem; aproximava-se o final.
       Page respirou fundo antes de pronunciar aquelas palavras, que, uma vez ditas, a surpreenderam a ela prpria. Se, h um ms atrs, algum lhe tivesse comunicado 
aquele desfecho, ela nunca teria acreditado.
       - Julgo que  melhor sares de casa - afirmou ento ela, num leve sussurro.
       - Julgas? - interrogou Brad, fitando-a surpreendido;
       mas, de certa forma, era para ele um alvio saber que Page chegara a essa concluso.
       - Julgo - confirmou ela. - Chegou a altura Brad. At agora, temos vindo a enganar-nos. Penso mesmo que o nosso casamento j tinha chegado ao m muito antes 
de eu me aperceber disso. Tu nunca admitirias que tinhas uma vida paralela se no te sentisses j preparado para abandonar a nossa vida em comum. O que aconteceu 
foi que quando me contaste a verdade, era ainda muito cedo para eu me aperceber desse fato.
       - Talvez tenhas razo - admitiu Brad, cabisbaixo.
       - Provavelmente, era melhor que eu no te tivesse contado nada. - Contudo, ele no podia retirar o que dissera, assim como tambm no podia mudar o seu procedimento 
passado; e na verdade, no era isso que desejava fazer.
       - Gostava de poder encontrar uma explicao para tudo isto Page.
       - Eu tambm. - Ela encarou-o, interrogando-se ainda sobre como tinham podido chegar quele ponto. Seria possvel que toda aquela tempestade houvesse sido 
ocasionada pelo acidente, ou teria este apenas agravado a situao? Se o seu casamento no possusse anteriormente uma base muito frgil, nada do que sucedera teria 
sido possvel. - Sempre pensei que a nossa vida fosse perfeita - afirmou Page, recordando o passado. - Mesmo agora, no consigo perceber onde foi que erramos, o 
que foi que fizemos mal ou que deixamos de fazer...
       - O erro no foi teu Page - respondeu Brad, com honestidade. - Fui eu que errei, e durante muito tempo; tu apenas no tomaste conhecimento.
       - Parece que no - admitiu ela, subitamente grata por no ter descoberto a verdade mais cedo. Dessa forma, haviam vivido juntos dezesseis anos que ela podia 
agora recordar com alegria, apesar de ainda ser difcil acreditar que estava tudo terminado entre eles. - Como  que vamos explicar ao Andy? - indagou ento Page, 
preocupada. Era de fato espantoso: ela e Brad, sentados lado a lado no jardim, discutindo aquele assunto como se se tratasse de uma festa ou de uma viagem a planear, 
ou at de um funeral. Page odiava cada momento daquela conversa, mas sabia que ela se havia tornado inevitvel, e que tinha de enfrentar aquele momento. - Vamos 
ter de lhe explicar o que se passa.
       - Eu sei. O melhor  contar-lhe a verdade: que o pai dele  um perfeito idiota...
       Page no pde deixar de sorrir. De fato, o pai do seu filho agia por vezes como um idiota, mas no era por isso que ela deixava de sentir carinho por ele. 
Page gostaria ainda de poder reviver os anos em que fora feliz ao lado de Brad, mas sabia agora que isso era de todo impossvel. Mesmo passando apenas por um perodo 
de destruio de trs semanas, a situao adquirira um carter demasiado grave. A base em que assentava o seu casamento encontra-' v-se debilitada haja muito tempo 
e agora, finalmente, toda a estrutura cedera. Na realidade, aquele era apenas o efeito de um processo de destruio muito longo, e o fato de Page nunca se ter apercebido 
dessa ameaa no diminuiu em nada a intensidade da queda final. Tudo em redor de ambos fracassara.
       - J decidiste aquilo que vais fazer? - interrogou Page, tranqilamente. - Vais viver com ela? - A julgar pelo que a me da amiga de Allyson lhe contara, 
era como se isso j tivesse sucedido, pelo menos em regime de part-time.   
       - Ainda no me resolvi, mas  isso que ela quer que eu faa. Penso que seria melhor passar uns tempos sozinho, para poder assentar idias. - A situao de 
Stephanie e Brad no ia ser resolvida facilmente. O relacionamento de ambos havia sido baseado em mentiras, em traies e numa mera atrao fsica. Era muito difcil 
construir algo slido tendo por base apenas esses elementos, e Brad comeava j a aperceber-se desse fato. - Quando  que preferes que eu saia?
       Por breves instantes Page desejou ardentemente que Brad fosse ainda o homem que ela sempre julgara conhecer; mas agora sabia que no era.
       - Antes que magoemos ainda mais o Andy e a ns prprios - respondeu ela, aparentando uma calma maior do que aquela que de fato sentia. - O ambiente entre 
ns tem-se deteriorado muito depressa.
       - Tu tens andado muito irritada comigo, mas tenho de reconhecer que tens todos os motivos para reagires desse modo - disse Brad. Este era o dilogo mais calmo 
e mais proveitoso que tinham desde o acidente. Todavia, o fato de ambos s conseguirem recuperar a calma j perto do fim do percurso no deixava de ser muito lamentvel. 
- Vou tentar resolver tudo o mais depressa possvel. Parto para Nova Iorque amanh, mas na quinta-feira j estou de regresso. Talvez no prximo fim-de-semana j 
consiga apresentar-te alguma soluo. Quanto tempo mais pensas que a tua me se vai demorar aqui? - Era bastante difcil terminar o seu casamento e sair de casa, 
se a sogra estivesse ali a assistir a tudo. No entanto, a resposta de Page tomou-o de surpresa.
       - Amanh de manh vou pedir-lhes que regressem a casa. No tenciono continuar a aloj-las aqui; no  bom para mim nem  bom para o Andy. - Page iniciara 
um processo de limpeza na sua vida: primeiro terminara com Brad, agora tencionava ser franca com a me e com Alexis. De formas diferentes, todos eles a estavam a 
usar e a magoar, e Page apercebera-se claramente desse fato enquanto conversara nessa noite com Trygve; depois disso, com a fuga de Andy, chegara  concluso que 
a situao tinha ido longe de mais, e que estava nas suas mos pr um fim a tudo aquilo.
       - Respeito-te muito, sabes? - disse Brad com suavidade. - E nunca deixei de te respeitar. No sei o que  que desencadeou tudo isto, mas julgo que no estava 
ainda preparado para tudo quanto tinhas para me oferecer. - Quando casaram Brad tinha vinte e oito anos, mas nunca conseguira pr inteiramente de parte a idia de 
que era livre para fazer o que queria da sua vida; s agora descobrira que havia um preo muito elevado a pagar por essa idia. - Vais sentir-te melhor depois de 
eu sair daqui - afirmou ele, tristemente. - Vais poder prosseguir com a tua vida.
       - Mas tambm me vou sentir muito sozinha. Uma separao nunca  fcil - respondeu Page, fitando-o no escuro da noite. - O que  que vamos resolver a respeito 
da situao da Allie?
       - No podemos resolver nada, e  isso que me pe fora de mim! No sei ficar ali parado sem fazer nada, noites e dias a fio... se o fizesse, enlouqueceria!
       - Eu no me importo de ficar com a Allie; mas e se ela nunca recuperar? - sussurrou ela.
       - No sei; tento no pensar muito nisso. E se ela recuperar e no voltar a ser o que era? Se ficar como aquele mido, o Bjorn... eu nunca o suportaria, depois 
de conhecer o que ela j foi. Mas parece-me que vamos ter de aceitar o que acontecer. No princpio, ainda julguei que existissem outras opes, mas agora vejo que 
estava enganado. A nica opo que tivemos foi no a sujeitar s operaes, mas se o tivssemos feito, era o mesmo que mat-la. Parece-me que tomamos as decises 
acertadas, mas, apesar disso, nada mudou. No entanto, duma coisa estou certo: se ela continuar indefinidamente em coma, no podes continuar  cabeceira dela durante 
anos e anos, ou vais acabar por te destrures.
       Mais tarde ou mais cedo, vais ter de encontrar uma outra soluo. - Todavia, era ainda muito cedo para chegar a esse ponto. O acidente ocorrera h pouco mais 
de trs semanas e existia ainda uma forte possibilidade de Allyson vir a recuperar. - No permitas que a tua vida siga esse rumo, Page... - pediu Brad. - Mereces 
muito mais do que isso... mais do que aquilo que eu te ofereci...
       Page compreendeu e levantou-se, tentando no imaginar como seria a sua vida depois de Brad j ali no estar. Olhou ento para o cu, observou as inmeras 
estrelas, e questionou mais uma vez o porqu daquele desfecho; como haviam chegado quele ponto e como algo assim lhes pudera suceder... a eles e a Allie.
       
CAPTULO 13
       Page esperou calmamente que a me e a irm se levantassem para depois lhes servir o pequeno-almoo na cozinha. Foi ento que lhes comunicou resumidamente 
que teriam de regressar mais cedo do que o previsto a Nova Iorque, e que uma semana j havia bastado, visto aquela no ser a altura mais indicada para ela as receber. 
No fez qualquer aluso  discusso da noite anterior, nem apresentou nenhuma desculpa, pelo que ambas devem ter concludo que Page estava, de fato, decidida a terminar 
aquela estada. Assim, nem a me nem Alexis se atreveram a contestar a resoluo de Page, e Maribelle apressou-se a afirmar que essa seria, de fato, a deciso mais 
acertada, porque alm de David sentir muito a falta de Alexis, ela prpria precisava de regressar para proceder  remodelao e pintura do seu apartamento.
       Apesar de a me ter utilizado os argumentos mais convenientes para justificar a rapidez daquela viagem, Page no lhes deu a mnima ateno. Tudo o que lhe 
interessava era no ter de as abrigar ali nessa noite, e para tal, havia j reservado dois lugares em primeira classe no vo das quatro da tarde, para grande espanto 
da sua me. Page havia-se encarregado igualmente do transporte que as levaria at ao aeroporto, e assegurou-lhes assim que s duas horas um txi viria busc-las 
a casa, dando-lhes o tempo necessrio para chegarem ao aeroporto com toda a calma. Ainda sobrava tempo suficiente para almoarem antes de sair de casa e at para 
visitarem Allyson uma ltima vez, caso o desejassem fazer.
       - Bem, na realidade - desculpou-se a me -, ainda vou demorar muito tempo a fazer as inalas; e a Alexis queixou-se h pouco que acordou com uma das suas enxaquecas. 
Mas, se fizeres muita questo que visitemos a Allyson, ento podemos viajar para Nova Iorque amanh. - Contudo, essa no era a soluo que Page delineara e estava 
decidida a fazer cumprir. No tencionava deix-las ficar nem mais um minuto, pois estava resolvida a dirigir novamente o rumo da sua vida. Por mais penoso que tivesse 
sido, havia pedido a Brad que sasse de casa e agora o segundo passo era mandar a me e a irm de volta ao ambiente onde pertenciam.  
       - Penso que a Allyson no se vai importar... - respondeu Page, ironizando. No entanto, Maribelle e Alexis no reconheceram que se tratara apenas de uma afirmao 
irnica e pediram com toda a seriedade que Page lhes prometesse que se encarregaria de explicar a Allyson o sucedido.
       Page ficou em casa at as duas visitantes partirem para o aeroporto, e em seguida aproveitou para mudar os lenis das camas, lavar duas mquinas de roupa 
e aspirar a casa toda. Sentia que estava finalmente a assumir o controle dos acontecimentos e a tentar tudo o que estivesse ao seu alcance para reordenar a sua vida. 
A partida da me e da irm havia-se processado sem a menor emotividade, pois aps a tempestade verbal da ltima noite nada mais havia a dizer.
       Alexis partira usando um chapu novo e a me decidira viajar com um dos vestidos que comprara durante essa semana; tinham-se despedido beijando de leve o 
ar em redor das faces de Page, e em seguida entraram no txi que as levaria at ao aeroporto, enquanto Page as observava da porta. Ao aspirar a casa, esta ltima 
no podia deixar de se sentir extremamente aliviada ao verificar que a me e a irm j tinham partido. Foi particularmente agradvel limpar o quarto de Allyson, 
e voltar a deixar tudo como era antes de a irm ali se hospedar. Houve, porm, uma descoberta que a inquietou: Alexis havia-se esquecido de uma enorme quantidade 
de laxativos no quarto da filha. Page j sabia que a irm era uma mulher muito doente, mas chegou tambm  concluso que s ela se apercebera desse fato, ou que 
mais ningum lhe atribua a gravidade que de fato merecia. Ao empenhar-se por eliminar tudo quanto lhe sucedera durante a infncia, a irm de Page tentava igualmente 
anular-se a si mesma, embora o fizesse da pior forma possvel. A seu modo, Alexis desejava voltar a ser a criana que fora antes do pai a violar.
       s quatro da tarde Page foi buscar Andy  escola, constatando que h muito tempo no se sentia to liberta, pelo menos desde a data do acidente. No caminho 
para o hospital, Andy perguntou  me se podiam parar para ele comprar um ramo de rosas para levar  irm, mas Page sugeriu que ele as oferecesse a Chloe, j que 
na unidade de cuidados intensivos, onde Allie se encontrava, no eram permitidas flores. Andy concordou com a sugesto de Page, e falou da irm at chegarem ao hospital, 
muitssimo entusiasmado por poder finalmente visit-la. Antes de chegarem Page recordou-o das condies em que Allie se encontrava.
       - Eu j sei - respondeu ele, sem dar muita importncia ao assunto. -  como se ela estivesse a dormir.
       - No  s isso - explicou Page. - A Allie est mudada. Tem a cabea ligada, tem os braos e as pernas muito mais magros, e na garganta tem um tubo por onde 
passa o ar, que por sua vez est ligado a uma mquina muito grande que respira por ela. Tens de estar preparado para a ver assim, porque como  a primeira vez que 
a visitas, podes ficar muito impressionado. Se quiseres, podes falar com a Allie, mas deves lembrar-te de que ela no vai poder responder-te, est bem?
       - Sim, eu sei. Ela est a dormir.
       Andy sentia-se muito importante por visitar a irm no hospital, e nesse dia, na escola, no tinha falado de outro assunto. Ao chegarem ao hospital, Andy mal 
podia esperar por sair do carro, e depois, j no corredor, segurava a mo da me com ansiedade e apressava o seu pequeno passo.
       Tinham comprado um ramo de rosas cor-de-rosa para oferecer a Chloe, e uma linda gardnia para Allie.
       - Ela vai adorar! - comentou Andy, orgulhoso, fazendo questo de ser ele prprio a levar a flor. No entanto, e apesar de toda a sua anterior mentalizao, 
Page pde constatar que o filho ficou estupefato ao encontrar a irm naquelas terrveis condies. Alm do mais, nesse dia em especial, o estado de Allyson parecia 
mais grave do que anteriormente: a sua palidez era mais acentuada do que de costume, e a ligadura que envolvia a sua cabea havia sido substituda, parecendo maior 
e mais branca do que a anterior. Notava-se que a sua cabea havia sido rapada e, inexplicavelmente, dir-se-ia que em seu redor aumentara o nmero de mquinas e monitores. 
Page sabia bem que essa idia era apenas uma sugesto, mas enquanto observava o filho, que lanava  irm um olhar absorto, essa sugesto assumia propores cada 
vez mais reais. Andy decidiu ento aproximar-se lentamente de Allie e pousar a flor que trazia na almofada da irm.
       - Ola, Allie - murmurou ele, de olhos muito abertos, acariciando a mo da irm, enquanto Page comeava a chorar. - No te preocupes... eu j sei que ests 
a dormir... a me avisou-me. - Ele continuou a fitar a irm durante muito tempo, segurando-lhe a mo, e depois, finalmente, inclinou-se de forma a poder beij-la. 
Tudo  volta de Allyson exalava o aroma caracterstico do hospital, excetuando a gardnia que o irmo lhe oferecera.
       - O pai vai hoje para Nova Iorque - comunicou ele a Allie. - E a me disse que eu podia vir ver-te mais vezes. Desculpa eu ter demorado tanto. - Allie permanecia 
imvel e em seu redor no se registrava o mnimo rudo, com exceo dos sons de todos os aparelhos ali presentes. Page continuava a chorar em silncio, enquanto 
as enfermeiras observavam a cena. - Eu gosto muito de ti, Allie... e no gosto de estar em casa sem ti. - Andy gostaria de poder contar  irm que os pais agora 
discutiam diariamente, mas sabia que isso iria magoar a me. Queria tambm pedir a Allie que voltasse depressa para casa, pois sentia muitas saudades dela. - Ah, 
 verdade! Eu tenho um amigo novo, chamado Bjorn. Tu sabes quem , o irmo da Chloe... Ele tem dezoito anos, mas no parece nada. - Andy sorriu e voltou-se em seguida 
para a me, mas ficou muito surpreendido por a ver a chorar. - O que foi, me?
       - Nada, filho, est tudo bem - respondeu Page, sorrindo para Andy atravs da nvoa que lhe toldava a viso. Sentia-se feliz por ter permitido que o filho 
visse a irm, e estava igualmente orgulhosa do seu comportamento. Apesar de o amar muito, at esse momento no se apercebera do quanto ele de fato necessitava de 
ver Allie. Chegara agora  concluso que, mesmo que perdessem Allyson, Andy sentiria que tinha estado perto da irm e que se tinha despedido dela; depois de a ver, 
Andy poderia entender melhor que Allie no havia fugido de repente para longe do seu alcance.
       Continuou a conversar com a irm durante mais algum tempo, e em seguida comunicou  me que estava pronto para ir visitar Chloe. Antes de sair, tornou a observar 
a irm demoradamente e depois colocou-se em bicos de ps para se despedir dela.
       - Eu depois volto, Allie... est bem? Tenta acordar depressa; ns temos muitas saudades tuas... e eu gosto muito de ti, Allie - afirmou ele, segurando na 
mo da me e dirigindo-se para o quarto de Chloe com o ramo de rosas na mo.
       Page levou alguns minutos para recuperar da emoo que a dominara, mas assim que se sentiu mais calma, comunicou a Andy que estava muito orgulhosa dele e 
beijou-o com muita ternura.
       - s um menino muito querido, sabias?
       - Achas que ela me ouviu, me? - indagou ele, preocupado.
       - Tenho a certeza que sim, querido.
       - Eu gostava muito que ela me ouvisse... - comentou ele, entristecido. Quando entraram no quarto de Chloe, Andy ainda se encontrava um pouco abalado, mas, 
apesar disso, Page no esperava que a reao do filho fosse to positiva. Ao ver a irm, Andy no tinha chorado, nem ficara muito assustado, como ela receara antes. 
Visitando a amiga da irm, o seu estado de nimo foi ainda melhor, pois Bjorn tambm estava presente e os dois rapazes acabaram por se divertir com as suas brincadeiras 
infantis, correndo e rindo plos corredores do hospital, e jogando s escondidas em redor das enfermeiras.
       - Era melhor lev-los daqui para fora, antes que as enfermeiras os expulsem do hospital! - constatou Trygve, rindo. Em seguida, fitou Page co mais seriedade 
e indagou: - Como  que ele se portou na unidade de cuidados intensivos? Reagiu bem?
       - Reagiu muito melhor do que eu esperava; foi muito corajoso e muito meigo com a Allie. Antes de sair, deixou uma flor na almofada da irm.
       - O Andy  um mido muito temo. Ele hoje est mais contente, no est?
       - Parece que sim. Eu e o Brad tivemos uma longa conversa ontem  noite e chegamos  concluso que era melhor que ele sasse de casa, mas antes vamos ter de 
explicar o que se passa ao Andy.
       - No  nada fcil, pois no? - Trygve segurou na mo de Page e, seguidamente, foram ambos reunir os filhos. Trygve convidou ento Page e Andy para irem comer 
uma pizza com eles, mas antes perguntou a Page: - No tens de ir jantar com a tua me e com a tua irm?
       - No - respondeu ela, sorrindo de contentamento. - Elas j se foram embora. Reservei-lhes dois lugares no vo das quatro da tarde para Nova Iorque - informou 
Page, no escondendo a sua satisfao.
       - A tia Alexis  to esquisita...! - comentou ento Andy, ouvindo a conversa da me. - Ela passa muito tempo na casa de banho.
       Contrariamente  noite anterior, Page e o filho passaram um sero muito agradvel na companhia de Trygve e de Bjorn. Os rapazes brincaram e conversaram enquanto 
devoravam duas enormes pizzas, oferecendo aos pais a oportunidade de saborearem um jantar informal, longe do ambiente do hospital. Page pde tambm conversar com 
Trygve acerca do seu trabalho. Comentou que estava a considerar a hiptese de adquirir um atelier quando Allie abandonasse a unidade de cuidados intensivos, ou depois 
de se terem adaptado a uma rotina permanente. O mais importante era continuar o seu trabalho de uma forma mais estvel e at, se possvel, torn-lo rentvel.
       - Seria muito bom para ti - comentou Trygve. - J devias ter pensado nisso h muitos anos. As tuas pinturas so sensacionais. - E ela tambm o era, pensava 
Trygve. Todas as vezes que encontrava Page gostava cada vez mais dela. Depois do jantar, Trygve levou-os a casa, e retirou-se em seguida com alguma relutncia, apesar 
de saber que Bjorn tinha de se deitar. Chloe regressaria a casa dentro de uma ou duas semanas, o que decerto ocuparia grande parte do seu tempo. No entanto, Trygve 
tencionava continuar a dar ateno a Page, desejando mesmo acompanh-la ao hospital sempre que ela o necessitasse. Queria igualmente poder dedicar algum tempo a 
Andy, pois apercebia-se de que agora que Brad se preparava para os deixar, a sua ajuda a Page e ao filho iria ser necessria. Trygve desejava poder auxili-la a 
reorganizar a sua vida, e fazia votos para que nada de grave acontecesse a Allyson. Todos eles haviam passado por momentos demasiado difceis, e considerando tudo 
o que nessa fase se alterara na sua vida, Trygve duvidava que Page pudesse suportar a perda da filha.
       
CAPTULO 14
       Brad regressou de Nova Iorque na tarde de quinta-feira, mas nesse dia Page no o viu, pois o marido no chegara a ir a casa. No dia seguinte, Brad foi visitar 
Allie ao hospital durante a hora de almoo, mas nessa altura Page no se encontrava presente. Mais tarde, as enfermeiras informaram-na que Brad estivera no hospital 
por volta do meio-dia, mas s nessa noite, depois de ter ido buscar Andy a casa de Jane,  que Page encontrou o marido em casa. A porta do quarto de casal estava 
fechada, mas Page verificou que o carro de Brad se encontrava estacionado na garagem, enquanto o filho corria para casa ao encontro do pai. Ao entrar no quarto, 
Andy constatou ento que o pai estava a guardar toda a sua roupa e ficou muito confuso. Havia duas enormes malas de viagem no cho, mais outra aberta em cima da 
cama, e roupas espalhadas por todo o lado. Quando Page entrou e viu o que se passava, sentiu um aperto no peito.
       - O que  que ests a fazer, pai? - perguntou Andy, admirado. No era assim que Page desejava que o filho descobrisse. Brad olhou em redor e fitou-a com um 
olhar de cumplicidade, mas ambos sabiam que no havia outra alternativa. - Vais outra vez viajar? - Andy encontrava-se visivelmente ansioso e preocupado.
       - Mais ou menos, campeo - respondeu Brad, sentando-se na cama e puxando o filho para o seu colo. Page observava-os com um n na garganta, ponderando que 
naquela fase da sua vida era raro o dia em que no fosse confrontada com uma despedida ou com uma modificao. - Vou viver para So Francisco.
       - E eu tambm vou? - indagou ele, perplexo. Ningum o havia informado daquela mudana.                        
       - No, tu vais continuar a viver aqui com a me. - Brad estava prestes a concluir a sua frase, acrescentando "e com a Allie", mas conteve-se a tempo. Quem 
lhes poderia garantir que ela voltava para casa?
       - Vocs vo-se divorciar...? - indagou Andy, j com lgrimas nos olhos. Brad abraou-o e explicou-lhe:
       -  possvel, filho, mas por enquanto ainda no temos a certeza. A tua me e eu pensamos muito e chegamos  concluso que, por enquanto, era melhor eu ir 
morar para outro stio.
       - Ests zangado por eu ter fugido naquela noite, pai?  por isso que te vais embora?
       - Claro que no. Esta  uma deciso que eu desejava tomar h j bastante tempo. E, ultimamente, a nossa convivncia no tem sido fcil... s vezes, a vida 
 mesmo assim, Andy.
       - Ento  por causa do acidente? - Andy necessitava desesperadamente de um motivo para aquela separao; mas talvez no existisse nenhum.
       - Pode at ser, mas no creio. Por vezes, os casamentos chegam a este ponto, filho... mas isso no significa que eu deixe de gostar de ti. O amor que eu e 
a tua me temos por ti no vai mudar. Vamos continuar a ser os teus pais e a dar-te todo o nosso apoio, e depois vais poder visitar-me aos fins-de-semana. - Ouvindo 
a explicao do marido Page apercebeu-se ento de que iriam necessitar de planear os dias de visitas e de contratar advogados. Adivinhava-se pela frente um processo 
muito complicado e demasiado burocrtico. Page detestava que tudo isso fosse necessrio, mas sabia que no tinham outra alternativa. Teriam igualmente de proceder 
 partilha de todos os seus bens, do mobilirio, daquilo que depois de dezesseis anos restava dos presentes de casamento, dos atoalhados e dos lenis de linho, 
dos talheres de prata, etc., etc. Com que rapidez haviam destrudo uma vida to bonita...!
       - Para onde  que vais viver, pai? Tens outra casa?
       - Vou viver para um apartamento. Quando tiver um nmero de telefone, vais poder telefonar-me todos os dias; e tambm me podes telefonar para a agncia. - 
Mas esse era um fraco consolo para Andy, que rompeu num choro convulsivo, enquanto Brad o abraava.
       - Eu no quero que te vs embora... - repetiu ele por entre soluos. Confrontada com o inegvel dramatismo da cena Page no pde evitar as lgrimas que rolavam 
pelas suas faces.
       - Eu tambm no queria ir, filho, mas tem de ser assim.
       - Porqu? - Andy no conseguia perceber o motivo daquela separao, e observando o filho aninhado no colo do pai, nem para Page era fcil compreender esse 
motivo.               
       -  difcil explicar... a situao complicou-se muito.             
       - E no pode voltar a ser tudo como era antes? - Era uma pergunta lgica, que fez com que Brad lanasse um sorriso triste a Page, tambm ele comovido.
       - Gostava que isso fosse possvel - respondeu Brad. Mas, na verdade, esse desejo no era absolutamente sincero, pois Brad sentia-se aliviado por poder sair 
de casa. Queria voltar a ser dono da sua vida e do seu apartamento, se possvel, compartilhando ambos com Stephanie, e no podia deixar de se sentir igualmente entusiasmado 
com o fato de ir morar sozinho. Stephanie manifestara o desejo de se mudar de imediato para o apartamento de Brad, mas este era da opinio que deveriam esperar mais 
um ou dois meses.
       Foi somente nessa noite, ao verificar a dor que a sua partida causaria, que Brad se deu conta que tambm para ele era extremamente penoso deix-los. Todavia, 
conhecia-se suficientemente bem para reconhecer que, se mudasse de idias, bastariam alguns dias para adotar de novo o seu comportamento habitual, voltando assim 
a fugir de casa sempre que o pudesse fazer. A verdade era que, apesar do seu prprio sofrimento e do seu amor pelo filho, Brad se sentia preparado para partir.
       -No vs, pap... - implorava Andy, intensificando ainda mais a angstia da me.
       - Filho, vais ter de aceitar a nossa deciso. Tenho a certeza absoluta de que  a melhor soluo para todos ns.
       - O que  que a Allie vai pensar quando voltar para casa? - Os pais apercebiam-se facilmente de que Andy tentava todos os recursos ao seu alcance para convencer 
Brad a mudar de idias.
       - Quando isso acontecer, ns vamos ter de lhe explicar o que aconteceu. - Andy, soluando, correu ento para a me, que o acolheu nos seus braos.
       Aquela noite foi horrvel para todos eles.
       Brad decidiu partir apenas no dia seguinte, e passou toda a noite a rever papis de trabalho atrasados. Na manh seguinte, o ambiente que reinava naquela 
casa era de luto.
       Para o pequeno-almoo Page decidiu fazer panquecas e salsichas, que normalmente o filho e o marido adoravam, mas nesse dia comeram ambos muito pouco. Andy 
tinha um jogo de basebol marcado para essa tarde, mas com o brao ao peito, no poderia comparecer. Por esse motivo, pediu ao pai que ficasse a jogar com ele, mas 
antes do almoo Brad declarou que necessitava de ir  agncia; Stephanie estava j  sua espera.
       - Quando  que eu te vejo, pai? - perguntou Andy quase em pnico, ao ver o pai colocar todas as malas no porta-bagagens do seu carro, pronto para os deixar.
       - No prximo sbado, filho, prometo. Faze de conta que o pai vai fazer uma viagem. Se quiseres, podes telefonar-me todos os dias para o trabalho. - Contudo, 
nada era suficiente para consolar Andy, que, tal como a me, chorava convulsivamente, permanecendo  porta de casa at ver o carro do pai arrancar. Page concluiu 
ento que, excetuando a data do acidente da. filha, aquele era o dia mais difcil de toda a sua vida. Tudo , que antes possuam estava agora destrudo para sempre: 
toda a esperana inicial, os anos de vida em comum, o casamento feliz que haviam usufrudo e a famlia que tinham construdo.
       Andy ficou durante muito tempo a chorar nos braos da me, at esta decidir lev-lo para dentro de casa e faz-lo sentar a seu lado na sala. Dir-se-ia que 
choravam a morte de um ente querido; e de fato, ambos sentiam que haviam perdido duas pessoas a quem muito amavam. Como tal Page mal pde acreditar quando a me 
lhe telefonou de Nova Iorque  hora de almoo para lhe agradecer a estada em sua casa.
       - Foram uns dias muito agradveis! E gostei muito de ver a Allyson. Tenho a certeza de que ela j deve estar muito melhor. - A fluncia do discurso deixou 
Page sem saber o que responder. Prometeu ento telefonar mais tarde e desligou o telefone, voltando em seguida para perto do filho, que continuava deitado em cima 
da cama, a chorar. Era evidente que a separao dos pais estava a ser extremamente dolorosa para Andy, e Page tinha de admitir que ela prpria tambm estava a sofrer. 
Assistir  partida de Brad intensificara a dor da separao, que subitamente se tornara uma realidade inevitvel.
       - Eu sei que ests a sofrer, meu amor. Mas vamos ter de nos habituar... - afirmou Page, tambm ela chorando. Andy voltou-se ento para a me e perguntou:
       - Tu querias que o pai se fosse embora? - De quem era a culpa? Seria da me? Dele prprio? Da irm? Andy no conseguia entender.
       - No, eu no queria que o teu pai nos deixasse. Mas sabia que ele tinha de o fazer... A nossa vida estava cada vez mais complicada.
       - Porqu? Porque  que vocs se zangavam tanto?
       - Para ser sincera, Andy, no sei bem. - Era muito difcil explicar aquela situao ao filho; se nem ela prpria sabia definir o que se passara, como  que 
o poderia explicar a uma criana de sete anos?                                            
       Trygve telefonou ao fim da tarde para os convidar a provar um dos seus cozinhados, e Page contou-lhe ento o sucedido. Andy, no entanto, mostrou alguma relutncia 
em sair de casa, no se animando nem com a possibilidade de estar com Bjorn. Por fim, acabou por ceder e entrou na carrinha de Page contrafeito, levando consigo 
o urso de pelcia que todas as noites lhe fazia companhia.
       - O Bjorn tambm tem um - explicou ele a Page. - O dele chama-se Charlie.
       Quando Page e o filho chegaram ao destino, Bjorn pde constatar de imediato que o amigo estava muito triste. Sentaram-se os dois no jardim e Andy contou-lhe 
ento o que sucedera.
       - Como  que ele est? - perguntou Trygve, referindo-se a Andy, mas preocupado tambm com Page.                 :
       - Ficou muito abalado. Quando chegou a altura, foi muito pior do que eu imaginava... foi um horror!
       - Lembro-me muito bem do dia em que a Dana partiu. - Recordar essa ocasio ainda o entristecia. Nesse dia, todos eles tinham chorado horas a fio, inclusive 
a prpria Dana. - Meu Deus, vocs devem ter sofrido muito...
       - Nestes ltimos dias, qual de ns no sofreu? - indagou Page, novamente exausta. - Como est a Chloe?
       - Demasiado animada para permanecer no hospital... as enfermeiras mal podem esperar que ela venha para casa! Para a semana j deve ter alta, se eu at l 
conseguir montar as rampas para a cadeira de rodas. Ela vai ficar a dormir no rs-do-cho no quarto do Nick. - Ao ouvi-lo Page ponderou na imensa alegria que Trygve 
sentiria por poder acolher novamente a filha em casa. Em quatro semanas, no tinha havido a menor alterao no quadro clnico de Allyson. Ainda existia uma esperana, 
mas se dentro em breve no se registrassem quaisquer alteraes na sade da filha, ela depressa deixaria de existir.
       Nessa noite o jantar decorreu normal e harmoniosamente. Conversaram sobre a ementa do churrasco que Trygve iria fazer no Memorial Day1 e em seguida ofereceu 
a Page uma cpia do ltimo artigo que escrevera para o New York Times. Foi um sero muito ameno, e Trygve fez questo de no exercer a mnima presso sobre Page, 
pois sabendo que ela estava ainda a sofrer com a separao, no desejava, de forma alguma, aumentar a sua ansiedade.
       
            1 Dia de homenagem aos soldados mortos na guerra (geralmente 30 de Maio). (N. da T.)
       
       - No esperava ter sentido tanto a partida do Brad - confessou Page depois do jantar, quando estavam os dois sentados nas cadeiras do jardim, enxotando os 
mosquitos que esvoaavam em redor.
       - Mas  perfeitamente compreensvel Page. Terias de ser muito insensvel para que o fim de um casamento de dezesseis anos no te abalasse. Quando a Dana nos 
abandonou, eu sentia-me j bastante distanciado, mas mesmo assim a partida dela ainda me custou muito. Levei muito tempo a recuperar, por isso  possvel que te 
acontea o mesmo.
       - J nem sequer consigo definir aquilo que sinto. A minha vida est cada vez mais complicada!
       - Enganas-te; mas  natural que te sintas desanimada, depois de tantos problemas difceis. A propsito, como est a Allie? Falaste com o doutor Hammerman?
       - Ele est convencido que a recuperao ainda  possvel, mas se ela no sair do coma dentro de u ou dois meses, vai deixar de existir alguma esperana. Comeo 
a ter medo de que a Allie no recupere, Trygve.
       Este demorou bastante a responder, e Page contemplou as estrelas em silncio.
       - Espero que isso no acontea. - Ele recordou ento algo que tinha para relatar a Page. - Na semana passada, contaram-me um fato muito interessante. Ainda 
no te contei porque estavas muito ocupada e no te quis perturbar ainda mais.
       - O que foi?
       - Algum viu a Laura Hutchinson numa festa, completamente embriagada. Alis, "embriagada"  um termo suave de mais para o estado em que ela se encontrava! 
Contaram-me que estava completamente bbada e que teve de ser levada para casa o mais depressa e o mais discretamente possvel. Isso fez-me pensar se o mesmo no 
teria j sucedido antes, at talvez na noite do acidente. Se algum de ns beber demasiado  provvel que faa figuras ridculas e troque o passo, o que prova que 
raramente bebemos; mas se se tratar de algum com um problema de alcoolismo, o efeito j  completamente diferente... alm do mais, numa situao delicada e sendo 
ela uma figura pblica, temos de concordar que o assunto seria encarado de uma outra forma. Tentar-se-ia abafar ao mximo um possvel escndalo, para que ningum 
descobrisse a verdade.
       "Sempre desconfiei que, naquela noite, Laura Hutchinson pudesse estar embriagada. Por aquilo que sei, ela mostrou-se muito abalada, muito humilde, pediu muitas 
desculpas, e foi o mais amvel possvel para os pais do Phillip... - Era do conhecimento geral que a mulher do senador havia doado uma elevada quantia  Escola Secundria 
Redwood, em homenagem a Phillip. - Sempre pensei que ela agira dessa forma porque se sentia responsvel.
       -  possvel. Ou ento lamentou sinceramente a morte do Phillip, quer tenha sido ou no culpada pelo acidente. Ela escreveu-me uma carta, lamentando o estado 
em que a Allie ficou - respondeu Page, sem alimentar qualquer suspeita.
       De incio, tambm ela tinha sentido imensa vontade de culpar Laura Hutchinson, mas naquele momento j ultrapassara esse desejo.
       - Ela tambm me escreveu, mas nunca respondi. O que  que eu podia dizer? "No se preocupe, est tudo ultrapassado. A senhora quase matou a minha filha, e 
talvez a tenha condenado a passar a vida numa cadeira de rodas, mas ns estamos agradecidos pela sua ateno." - Trygve ironizava, bastante irritado, mas depois 
fez uma pausa e fitou Page pensativamente. - Sabes...? H dias, tive uma idia muito estranha. No sei bem aquilo que procuro, mas lembrei-me que tenho um velho 
amigo que  jornalista e trabalha como investigador para uma dessas revistas muito populares, que exploram todos os podres das figuras pblicas. Ele pode ter fontes 
de informao bastante teis.
       - O que  que pretendias? - indagou Page, interessada.
       - No tenho bem a certeza. Procuro alguma pista... Sei que podemos estar  procura de uma agulha num palheiro, mas olhando para trs tenho cada vez mais a 
certeza de que se passou algo de estranho naquela noite. Talvez assim pudssemos descobrir a verdade. Talvez a mulher do senador ainda seja alcolica, e se assim 
for, temos todo o direito de o saber.
       - Porque  que no falas com esse teu amigo? - sugeriu Page calmamente. Trygve concordou e esboou um sorriso. - Os pais de Phillip tambm devem ter todo 
o interesse em obter essa informao. - Mr. Chapman tinha acabado de processar os dois jornais locais que anunciaram o acidente.
       -No passamos de dois agitadores... - respondeu Trygve.
       - Talvez Laura Hutchinson no merea o nosso silncio - murmurou Page, tristemente. Trygve concordou.
       
CAPTULO 15
       As duas semanas seguintes passara muito depressa, e foram caracterizadas por alguns momentos dolorosos e por outros bastante agradveis. A semana que se seguiu 
 partida de Brad foi muitssimo penosa para Page. Andy chorava todas as noites, e ela foi obrigada a ir busc-lo duas vezes  escola, depois de a professora a ter 
informado do comportamento irregular e agitado do filho; houve at um dia em que Page temeu que ele tivesse tentado fugir novamente de casa, mas aps uma breve busca 
encontrou-o sentado a um canto do jardim, agarrado ao seu urso de pelcia. Era extremamente duro para Page lidar com aquela situao, j que Andy lhe exigia, inconscientemente, 
algo que ela no lhe podia continuar a oferecer: um pai.
       Brad cumpriu o prometido e levou Andy a passear no sbado seguinte  sua mudana, mas o regresso a casa no foi fcil. O pai levara-o a visitar um aqurio, 
mas j em casa, Andy implorou-lhe que ficasse. Brad armou que no o podia fazer, e teria de bom grado levado Andy consigo se no julgasse ainda um pouco precipitado 
apresent-lo a Stephanie. Esta passava a maior parte do tempo no seu apartamento, e, por isso, Brad queria evitar que o filho associasse a presena de Stephanie 
 dor da separao.
       A segunda semana decorreu de uma forma um pouco mais amena. Page levou Andy de novo ao hospital para visitar a irm e Trygve convidou-os para jantar em sua 
casa vrias vezes. No sbado, Andy voltou a sair com o pai, e no dia seguinte, Chloe regressou a casa, decorridas seis semanas aps o acidente que por pouco no 
a vitimou. Foi Trygve quem a trouxe, enquanto Bjorn esperava a irm em casa, decorada com enormes letreiros de boas-vindas e com vrios ramos de flores que ele prprio 
colhera do jardim. Ele e o pai tinham feito um bolo na noite anterior, mas nesse dia, Bjorn preparou alguns dos pratos preferidos de Chloe sem a ajuda de ningum. 
At mesmo Nick decidira vir passar o fim-de-semana a casa, cedendo o seu quarto  irm. Todos fizeram os possveis para que Chloe fosse recebida de uma forma muito 
calorosa.
       Depois de Chloe se ter instalado Page e Andy vieram fazer-lhe uma visita. Ela estava deitada no sof da sala, numa posio menos confortvel do que na cama 
do hospital, mas aparentando um contentamento muito maior. Ainda sentia bastantes dores nas pernas, mas esforava-se por diminuir a dose de analgsicos, pois temia 
car viciada nesse tipo de medicamentos. Assim, tentava esquecer a dor entretendo-se com os meios que tinha  sua disposio.
       Jamie Applegate viera tambm visit-la nessa tarde, mas ao v-la, a sua reao foi algo estranha. Estava muito habituado a visit-la no hospital, mas entrar 
em casa de Chloe recordava-o do procedimento desonesto que haviam tido na noite que deixara marcadas as vidas de Chloe e de Allyson, e em que Phillip perdera a sua. 
O ambiente domstico relembrava a todos os presentes essa circunstncia, e Jamie falou com Chloe sobre o assunto, enquanto Bjorn, Trygve, Page e Andy conversavam 
na cozinha.
       Foi um dia agradvel. De momento, o pior j havia passado; apesar de os mdicos os terem avisado de que seria provvel que Chloe tivesse de ser submetida 
a uma segunda cirurgia, ela nunca mais voltaria a correr risco de vida, nem sentiria tantas dores, nem voltaria a estar to incapacitada como ainda estava naquele 
momento. Agora, era somente uma questo de sarar da melhor forma possvel as fraturas das suas pernas, e j no de sobrevivncia. Deitada no sof da sala e coberta 
por uma manta de caxemira rosa que Page lhe oferecera, Chloe continuava to jovem e to bonita quanto sempre fora. Enquanto conversava com Jamie acerca de Phillip 
e de Allyson, passava os dedos pela manta, sentindo a extrema suavidade e macieza da l.
       -  estranho, no ? - indagou, fitando-o com um olhar triste. - Eu no posso telefonar  Allie... e tu no podes telefonar ao Phillip. s vezes, isso faz-me 
sentir to sozinha... - desabafou, continuando a fit-lo com o seus bonitos olhos azuis toldados pela tristeza. Durante todo aquele tempo, Chloe havia prestado uma 
grande ajuda a Jamie, pois referia-se ao acidente e quilo que ambos sentiam de uma forma muito simples e direta, como ele nunca teria tido coragem para fazer. Sendo 
ela uma rapariga, era mais fcil para Chloe referir-se desse modo ao assunto, o que oferecia a Jamie a oportunidade de desabafar sobre a forma como se havia sentido 
culpado por ter sido o nico a escapar ileso do acidente, e pela angstia que sentira ao verificar que a sua vida havia sido a nica que permanecera inalterada. 
Jamie ainda no estava totalmente liberto desse sentimento inevitvel de culpa, e de vez em quando consultava um psicoterapeuta para o ajudar a ultrapassar isso. 
Chegara mesmo a freqentar uma sesso de terapia em grupo, onde se reuniam vrios sobreviventes de desastres areos, incndios e acidentes de viao, que, tal como 
Jamie, haviam perdido os seus familiares e amigos. Para Jamie, conversar com essas pessoas representara um grande passo em frente, como mais tarde ele admitiu perante 
Chloe.
       - Ento, o que  que vamos fazer hoje? - perguntou Jamie. Em seis semanas, Chloe e Jamie tinham aprofundado muito a amizade que os unia, o que levava este 
ltimo a supor que j sabia tudo sobre a sua amiga: o tipo de msica que ela gostava de ouvir, os seus atores e atrizes de cinema favoritos, os amigos que ela preferia, 
as pessoas de quem no gostava, o tipo de casa onde gostaria de viver em adulta, quantos filhos desejava ter e a universidade que gostaria de freqentar. Os dois 
jovens conversavam sobre todos os temas, desde os mais profundos aos triviais.
       - No decidi ainda - respondeu Chloe, brincando -, mas tinha pensado em ir danar. O que  que achas? - Apesar de tudo por que passara, no perdera o seu 
sentido de humor.
       Jamie fitou-a ento muito srio e tomou uma das suas mos.
       - Prometo-te que um dia o faremos. Alugamos uma limusine como se fssemos para um baile de gala, e depois vamos a um stio muito elegante e danamos toda 
a noite - declarou ele. Jamie estava realmente a falar a srio, e Chloe no pde deixar de se sentir comovida pela determinao com que ele o prometera. Nas ltimas 
semanas, Jamie tornara-se para ela um amigo muito especial, de quem gostava muito.
       De certa forma, a amizade de Jaime ocupava agora na vida de Chloe o lugar que anteriormente era ocupado pela amizade de Allie. Se algum agora perguntasse 
a Chloe quem era o seu melhor amigo, ela responderia que era Jamie, apesar de ambos terem conscincia de que, em parte, o que existia entre eles era mais do que 
uma simples amizade. Nenhum dos dois se atrevera ainda a admitir isso, mas tinham aprendido a contar um com o outro sem quaisquer reservas, tal como sucedera, inadvertidamente, 
com Page e com Trygve.
       - O que  que esto a fazer? - indagou Trygve ao entrar na sala um pouco mais tarde, com o propsito de verificar se a filha desejava beber alguma coisa, 
ou se estava demasiado cansada e precisaria assim de se deitar. Todavia, Chloe dava mostras de estar muito bem disposta, conversando animadamente com Jamie, enquanto 
repousava no sof da sala.
       - Estvamos s a conversar - respondeu Jamie com bastante descontrao. Significava muito para ele o fato de Trygve o deixar passar bastante tempo com Chloe 
depois do acidente, dando-lhe a oportunidade de a conhecer melhor. Inicialmente, admitira que isso s se verificaria enquanto Chloe estivesse internada no hospital, 
e que, mais tarde, quando esta regressasse a casa, Trygve no permitiria que ele a visitasse; mas isso no se havia verificado, de forma que Jamie se sentiu aliviado 
por ser bem recebido nessa tarde em casa de Chloe e por poder partilhar com a amiga a alegria do regresso. - O que  que eu posso fazer para ajudar? - perguntou 
ele a Trygve, ansioso por ser til.
       O pai de Chloe limitou-se a pedir-lhe que continuasse a fazer companhia  filha, e que estivesse atento a uma possvel queda do sof; pediu tambm que o chamasse 
quando Chloe necessitasse de ir  casa de banho.
       Posteriormente, quando Jamie chamou Trygve exatamente para esse fim, Chloe foi transportada at  casa de banho com a ajuda do pai e de Page, mas depois de 
entrar, no necessitou de mais auxlio. No entanto, era bvio que Chloe iria precisar de muita ajuda para se poder movimentar pela casa, e at para executar as mais 
insignificantes tarefas. O regresso a casa no representava o fim dos desafios, mas sim o princpio.
       Page comentou esse fato com Trygve, quando ambos regressaram  cozinha para beberem mais um caf.
       - Sim, eu sei - respondeu Trygve com seriedade. J ponderara esse fato diversas vezes e chegara  concluso que o regresso a casa seria um passo muito difcil 
e muito imitador para a filha. Agora que Chloe abandonara o hospital, era natural que esperasse voltar a usufruir da mesma liberdade de movimentos que sempre a caracterizara 
dentro de casa; contudo, o regresso a casa no era miraculoso. Iria ser necessrio muito esforo e muita pacincia at Chloe reconquistar a vida livre e facilitada 
que conhecera antes do acidente. - J contratei uma enfermeira para tratar da Chloe algumas horas por dia, quando eu precisar de sair ou de trabalhar. O Bjorn tambm 
vai ajudar-me muito, mas mesmo assim, os primeiros tempos no vo ser nada fceis. J sabia que iria ser desta forma, mas no sei se a Chloe se apercebeu disso antes 
de sair do hospital. - Sorriu para Page e ela deu-se conta, mais uma vez, de quanto o admirava; ele era um homem extremamente bondoso, com quem todos eles contavam, 
at mesmo Page.
       No fim da tarde, Page e Andy regressaram a casa, onde passaram um sero muito calmo e tranqilo. Page preparou para Andy o seu prato preferido, depois assistiram 
a um filme de vdeo enquanto comiam pipocas, e por fim adormeceram os dois na mesma cama.
       O dia seguinte era o Memorial Day, data que Trygve estabelecera para organizar um churrasco em sua casa. Convidou quatro ou cinco amigos de Chloe, incluindo 
com naturalidade Jamie Applegate nesse grupo e convidou tambm Page e Andy, como seria de esperar.
       - So bons midos - comentou Trygve para Page, referindo-se aos amigos da filha. Ele sentou-se ento ao lado de Page, co um copo de vinho na mo e ainda com 
um avental. Parecia cansado. Passara a maior parte da noite a p, assistindo a filha.
       - Tenho a certeza que sim; e parecem muito felizes pelo regresso da Chloe - respondeu Page com um sorriso nos lbios, imaginando como seria maravilhoso se 
Allie estivesse ali presente com todos eles. Encontrar Chloe era sempre difcil para Page, carregada de recordaes e de expectativas, conforme Trygve to bem entendia.
       - Este acidente foi uma experincia to marcante para todos ns - afirmou Trygve, suspirando. - Por vezes tenho a sensao de que nunca poderemos voltar a 
ser o que ramos. Todos os que sofreram os seus efeitos viram as suas vidas transformadas. - Essas palavras aplicavam-se particularmente s vidas de Allie e de Phillip. 
- Ento e tu, Page? - Trygve fitou-a com um olhar carinhoso. - Como  que tens passado? - Desde que Brad sara de casa, Trygve passara muito menos tempo com Page. 
Sentira muito a sua falta, mas apercebera-se de que a separao havia sido muito traumtica para Page, e preferira proporcionar-lhe o tempo necessrio para ela se 
adaptar  sua nova vida. Page apercebera-se igualmente da inteno de Trygve e sentia-se grata pelo seu cuidado, apesar de sentir tambm muito a falta da sua amizade 
e das suas palavras romnticas. Trygve adivinhava as suas necessidades mesmo antes de ela as poder definir a si prpria.
       - Tenho passado bem - respondeu Page, a meia voz. Fora mais difcil do que ela esperava.
       - Sinto muito a tua falta - afirmou ele, fixando os seus olhos nos dela.
       - Eu tambm - secundou ela, suavemente. - Nunca pensei que fosse to difcil. Por um lado, uma separao  uma experincia muito triste, que nos faz sentir 
muito ss, mas por outro, chega a ser alvio, porque nos ltimos tempos o sofrimento foi constante. Agora j no, mas continua a ser muito doloroso. H momentos 
em que me sinto cheia de coragem e de fora, mas h outros em que me sinto to... - ela fez uma pausa, procurando encontrar o termo mais adequado - desprotegida 
- concluiu, por fim. Depois de tantos anos de casada, era perfeitamente natural que Page encontrasse srias dificuldades em se adaptar a viver sozinha.
       - No ests desprotegida Page. Afinal, continuas a gozar da mesma proteo que sempre tiveste. J reparaste que foste sempre tu e no o Brad quem se encarregou 
de tomar conta de todos? - Apesar de saber que isso correspondia em absoluto  verdade, s agora Page comeava a poder compreender esse fato. Alm do mais, nas ltimas 
duas semanas Brad efetuara apenas uma ou duas visitas a Allie, apesar de no deixar de passar algum tempo com Andy.
       -Julgo que s agora me comeo a aperceber disso. Mas mesmo assim, no deixa de ser estranho que depois de dezesseis anos eu esteja de volta  minha situao 
inicial. A nica diferena  que fiquei sem alguns atoalhados, sem um servio de prata e sem a minha melhor torradeira! - concluiu Page, sorrindo.  claro que no 
eram apenas essas as suas preocupaes, mas por qualquer motivo sentira-se irritada por tudo aquilo que Brad decidira levar.
       -  terrvel, no ? - comentou Trygve, tambm a rir. - A Dana levou exatamente metade de tudo aquilo que possuamos: metade de todas as lmpadas, metade 
das cadeiras da cozinha, metade das panelas e das frigideiras e metade dos faqueiros de prata. Resultado: nada daquilo com que fiquei tem um par, e por isso, ainda 
hoje, sempre que resolvo receber visitas ou fazer um simples omelete, passo a maior parte do tempo a refilar...  que o par que eu nessas alturas procuro foi levado 
para Inglaterra!
       Page sorriu, pouco animada.
       - Eu entendo o que deves sentir. No princpio, o Brad afirmou que no queria levar nada, mas depois deve ter reparado que a Stephanie no estava to bem equipada 
como ele julgava. Agora  raro o dia em que eu chegue a casa e no d por falta de alguma coisa; geralmente, ele costuma deixar um bilhete a dizer que levou isto 
ou aquilo "para descontar depois na sua parte". No fao idia das horas a que ele vai l a casa, s sei que nunca o encontrei nessas alturas. Ontem, por exemplo, 
o Brad levou metade do faqueiro de prata que a minha me me deu.
       -Tens de ter mais ateno... isso pode ser perigoso!
       - Sim, eu sei. Mas  muito estranho aquilo com que no m nos importamos, no ? Umas pegas de cozinha, algumas panelas, uma torradeira... Coisas to insignificantes... 
Parece que, no fim, tudo se resume a uma venda de emoes em segunda mo!
       A comparao de Page fez Trygve sorrir, mas era uma comparao verdadeira. Em seguida, fez-lhe uma pergunta que at esse instante no se atrevera ainda a 
colocar:
       - Onde  que tu e o Andy vo passar as frias?
       - Frias...? Meu Deus,  verdade! Esta semana j entramos em Junho... No fao idia, Trygve; mas julgo que no vou poder deixar a Allie.
       - E se at l no houver nenhuma alterao no estado dela? No admites a hiptese de te ausentares por alguns dias, para qualquer stio que no fosse muito 
distante? - Trygve questionava-a com uma expresso animada e esperanosa. Ele recordara-a de algo que at ento nunca lhe ocorrera; e se realmente no se registrasse 
nenhuma mudana no quadro de Allie? Sentir-se-ia Page com coragem suficiente para se afastar? Ser que deveria comear a viver partindo do princpio de que Allie 
poderia car para todo o sempre em estado de coma?
       - O que  que tinhas pensado? - indagou ela cautelosamente, ainda meditando nas questes anteriores.
       - Em passar duas semanas no lago Tahoe;  l que ns costumamos passar as frias. O Bjorn gostaria muito de poder levar o Andy... - Trygve fez uma curta pausa, 
olhou noutra direo e depois voltou a fit-la, acrescentando: - E eu adoraria poder levar-te comigo.
       - Eu tambm gostaria muito de poder ir - respondeu Page, docemente. - Mas tudo depende do estado da Allie. Quando  que vocs partem?
       - Em Agosto.
       - Ainda faltam dois meses. E nesse perodo de tempo, tudo se pode modificar. - Para Allie, s existiam duas hipteses: ou surgiriam alguns progressos, ou 
ela estaria condenada a permanecer para sempre em coma.
       - S gostava que desses um pouco de ateno a essa idia - confessou ele. O brilho intenso dos olhos de Trygve denunciava a emoo que o movera a convid-la.
       - Prometo que vou pensar - respondeu Page. Quando as mos de ambos se tocaram, voltaram a sentir a forte atrao que j haviam reconhecido, durante alguns 
breves instantes. Trygve afastara-se aps a separao de Page, receando confundi-la ou apress-la, mas no unha deixado de sentir a sua falta.
       Page regressou mais tarde do que era costume a casa, e Andy adormeceu no carro. Tinham passado um bom fim-de-semana.
       Quando Andy j estava a dormir na cama de Page, e esta se encontrava deitada, sentindo-se de novo s, Trygve telefonou-lhe.
       - Sinto muito a tua falta - afirmou ele. Page sorriu. Agora que Chloe abandonara o hospital, ela e Trygve encontrar-se-iam muito menos, a no ser que ele 
se deslocasse at ao hospital com o nico propsito de a ver, uma vez que j conhecia a rotina diria de Page. - Alis, eu sinto sempre a tua falta - reafirmou ele, 
com uma voz grave e sensual. Na maioria das vezes Page esforava-se por no pensar em Trygve, pois desejara conceder a si prpria algum tempo para se adaptar  ausncia 
de Brad e para relembrar o seu casamento. Todavia, tambm ela sentira a falta de Trygve, pois considerava-o um grande amigo, um homem muito atraente e uma boa companhia. 
- Quando  que posso voltar a ver-te? - indagou ele. - No creio que possamos continuar a encontrar-nos toda a vida na sala de espera da unidade de cuidados intensivos! 
- Ambos tinham ainda bem presentes as horas interminveis a passadas, e os recentes beijos e abraos que a haviam trocado.
       - Espero que em breve nos possamos encontrar noutro local - respondeu ela, melancolicamente.
       - Tambm eu. Mas at esse dia chegar, aceitas um convite para sair uma destas noites? Tenho algumas condies:
       tem de ser sem os nossos filhos, sem a presena das enfermeiras e sem ser para jantar uma pizza, mas sim comida de gente crescida! - Page reagiu com um sorriso 
a esse convite inesperado, que de imediato lhe agradou. H anos que ningum a convidava para sair, e essa ocorrncia fazia-a sentir-se mais jovem e mais atraente.
       - Acho uma tima idia! - Desde a data do acidente, h seis semanas atrs Page apenas sara uma vez, na ocasio em que a me os convidara para jantar; mas 
agora sentia-se j preparada para aceitar o convite de Trygve. - Quer dizer que no vou ter de cozinhar?
       - De forma alguma! - respondeu Trygve, enfaticamente. - E no vais ter de comer o meu guisado noruegus nem almndegas suecas; tambm no vais comer hambrgueres, 
prometo. Nessa noite, s  permitida boa comida, prpria para adultos. E que tal se formos jantar ao Silver Dove na prxima quinta-feira? - Era um dos restaurantes 
mais romnticos de Marin, e situava-se relativamente perto, o que lhes permitiria regressar com facilidade, caso algo acontecesse.
       - Magnfico! - aceitou Page, sentindo uma alegria que j no sentia h muito tempo. Mesmo vestida com a sua camisola de jardinagem e calada com os seus sapatos 
mais velhos, Trygve arranjava sempre uma forma de a fazer sentir-se uma mulher bonita e especial.
       - Ento vou a buscar-te s sete e meia.
       - timo. - Nessa noite, teria de deixar Andy em casa de Jane, ou ento poderia contratar uma baby-sitter. De sbito, Page recordou algo que a fez soltar uma 
gargalhada.
       - Porque  que ests a rir?
       - Lembrei-me que, em dezessete anos, este  o primeiro convite social que aceito. J nem tenho a certeza se ainda sei como comportar-me!
       - No te preocupes; eu encarrego-me de te mostrar. - Comearam os dois a rir ao mesmo tempo, sentindo-se ambos como dois adolescentes. Continuaram a conversar 
por mais algum tempo, referindo outros temas que no os seus filhos, como era hbito. Falaram a respeito do ltimo artigo que Trygve elaborara, dos planos que Page 
tinha para o novo mural da escola e da casa de Trygve em Tahoe. Ele contou a Page, no decorrer da conversa, que havia j contatado o seu amigo jornalista, o qual 
iniciara as investigaes acerca de Laura Hutchinson e do seu problema com a bebida. Provavelmente, no se chegaria a nenhuma concluso definitiva, e seria sempre 
difcil provar alguma responsabilidade no acidente, mas, apesar disso, Trygve continuava a guiar-se pelas suas suspeitas.
       - At amanh - despediu-se ele por fim, com a voz novamente velada e sensual. Page no entendeu o motivo que o levara a despedir-se dela desse modo, at o 
ver aparecer no dia seguinte no hospital, com um ramo de flores numa mo e com um cesto de piquenique na outra.
       Page estivera at ento a auxiliar os terapeutas a exercitar os msculos de Allie. As suas pernas comeavam j a perder toda a flexibilidade, os seus ps 
encontravam-se hirtos, os cotovelos flectidos, os braos pesados e as mos firmemente fechadas. Eram necessrios inmeros exerccios para conseguir mover, dobrar 
ou esticar os seus membros, e tal como a sua mente, tambm o corpo de Allie parecia no ter j nenhuma reao. Era extremamente deprimente trabalhar com os terapeutas, 
de forma que, ao ver Trygve, a alegria de Page no podia ser maior.
       - Vamos at l fora. - Trygve notou de imediato que Page se encontrava especialmente fatigada e deprimida. - Est um dia magnfico. - De fato, o dia estava 
lindo: o cu encontrava-se muito azul e a temperatura amena, tal como seria de esperar de um dia de Junho tpico da Califrnia. No exato instante em que Page respirou 
o ar lmpido do parque do hospital, a sua disposio melhorou.
       Tal como algumas enfermeiras, estudantes de Medicina e estagirios, tambm Trygve e Page resolveram sentar-se no enorme relvado que existia em frente ao hospital. 
Dir-se-ia que a nica ocupao de todos os que ali se encontravam era gozar tranqila e indolentemente a companhia do seu par.
       - So os efeitos da Primavera - comentou Trygve, deitado de costas no relvado, enquanto Page, a seu lado, aspirava o aroma perfumado das flores que ele lhe 
oferecera. Sem dar por isso, Page passou suavemente as pontas dos dedos pelas faces de Trygve, e este lanou-lhe um olhar de uma intensidade que ela h muito no 
reconhecia nos olhos de um homem; de sbito, duvidou se algum, alguma vez, a contemplara com semelhante expresso e apercebeu-se ento daquilo que at ento estivera 
a perder. - Tu s muito bonita... s mesmo muito, muito bonita. Na verdade - acrescentou Trygve, com um largo sorriso -, s to bonita que at pareces norueguesa!
       - Mas no sou - respondeu Page sorrindo e sentindo-se, tal como Trygve, subitamente jovem e descontrada. - O meu apelido, Addison,  ingls.
       - Para mim, a tua beleza  tpica de uma perfeita escandinava! - Ele fitou-a ento com uma expresso mais sria. - J pensaste nos filhos adorveis que podamos 
ter? No gostavas de ser me outra vez? - indagou ele, curioso. Desejava descobrir tudo acerca de Page, no apenas a sua faceta de boa me, as suas reaes ao estado 
de sade de Allie, ou a sua coragem para enfrentar as dificuldades. Trygve desejava conhecer tudo o mais sobre Page, tudo aquilo que ainda no haviam tido tempo 
para descobrir por estarem demasiado absorvidos e preocupados com a sade das suas filhas.
       - Eu sempre quis ter mais filhos - respondeu Page. - Mas talvez agora j seja um pouco tarde de mais... tenho trinta e nove anos e, de momento, a Allie e 
o Andy do-me trabalho suficiente.
       - Mas no vai ser sempre assim, e seja como for, vais conseguir ocupar-te da Allie seguindo uma rotina diria. - Page sabia que precisava de seguir essa rotina, 
at por uma questo de mera sobrevivncia. - Eu tenho quarenta e dois anos, mas no me sinto velho de mais para ser pai outra vez. Adorava ter mais dois filhos, 
e com trinta e nove anos, podes ter mais uma dzia!
       - Que idia a tua! - Page riu, mas depois pensou no assunto. - O Andy ia adorar ter um irmo. Conversamos sobre isso quando eu fui busc-lo ao jogo de basebol 
e, exatamente nessa noite, a Allie sofreu o acidente... mudou tudo desde esse dia, no foi? - Trygve concordou. Seis semanas e meia depois Page j no vivia com 
o marido e Chloe j no era uma bailarina com um futuro promissor, j para no mencionar Phillip, que perdera a vida, ou Allie, cujo futuro permanecia incerto. - 
Seja como for, eu gostava de ter mais filhos. Pelo menos, um filho, apesar de ter de ponderar bem a minha vida antes de engravidar. Alm disso, gostava igualmente 
de poder continuar o meu trabalho de pintura. Queres saber uma novidade? Fiquei a pensar naquilo que me disseste no outro dia acerca de pintar um mural na sala de 
espera dos cuidados intensivos e j falei com a Frances a esse respeito. - Essa era a enfermeira que preferia. - Ela prometeu que iria falar com algum sobre o assunto.
       - Tambm tenho uma proposta para te fazer, Page. Gostava muito que considerasses a hiptese de pintar um dos teus murais em minha casa. Ento, aceitas-me 
como teu cliente? Estabelecendo um preo,  claro!
       - Com todo o gosto!
       - Fico muito contente. E que tal ires at minha casa amanh  noite, depois de jantar, para estudares bem o assunto e veres que tipo de pintura se adequa? 
Podias levar o Andy.
       - No te vais cansar de mim, se me voltares a ver na quinta-feira? - indagou ela, sinceramente preocupada. Trygve soltou uma gargalhada e respondeu:
       - Page, no creio que me pudesse cansar da tua presena, mesmo que te tivesse todos os dias e todas as noites ao meu lado. Alis, essa  uma idia que ainda 
no desisti de pr em prtica. - Ao ouvir aquela confisso, Page corou e ele puxou-a para os seus braos e beijou-a. - Estou apaixonado por ti, Page - murmurou ele. 
- Muito, muito, muito apaixonado! E nunca me vou cansar de ti, percebes? Ns dois vamos ter mais dez filhos e vamos viver felizes para sempre! - Trygve ria de contentamento 
e continuava a beij-la, e Page, estendida no relvado nos braos dele, sentia-se de novo uma adolescente. Era quase bom de mais para ser verdade, e o seu maior desejo 
era que aquela sensao de felicidade durasse e que Trygve estivesse, de fato, a ser totalmente sincero.
       Por fim Page e Trygve acabaram por se levantar, e embora a idia de regressar para a unidade de cuidados intensivos a deixasse novamente sem foras, Page 
sabia que no deveria demorar-se mais. Por vezes era muito difcil enfrentar de novo aquele ambiente: os exerccios e os movimentos dirios, as visitas dos terapeutas, 
o ventilador, o silncio da enfermaria, a apatia total e a profundidade do estado de coma em que a filha se encontrava mergulhada. Contudo, Page nunca deixava de 
ir, nunca faltava com a sua presena. Era to pontual e to certa que as enfermeiras podiam at acertar os relgios pela sua hora de chegada; ela costumava tambm 
regressar  noite e sentar-se  cabeceira da filha durante horas a fio, segurando-lhe a mo, acariciando-lhe a face e falando-lhe com todo o carinho.
       - Eu vou contigo - anunciou Trygve, colocando o brao em redor dos ombros de Page. Dirigiram-se ento os dois para o piso onde Allie se encontrava, sorrindo, 
abraados. Page levava o cesto de piquenique e o ramo de flores na mo, bastante menos tensa e angustiada do que estivera antes da chegada dele.
       - O almoo foi bom? - indagou uma das enfermeiras quando Page passou por ela, j na enfermaria. Todos os rudos, os sons, os odores e a iluminao da unidade 
de cuidados intensivos eram j familiares para Page.
       - Foi timo, obrigada - respondeu Page, sorrindo para Trygve. Em seguida, regressou ao seu local de viglia habitual e continuou a observar Allie. Page era 
incansvel, a me mais devotada que Trygve j conhecera: todos os dias insistia em conversar com a filha, exercitava os seus braos, as suas pernas e estendia os 
dedos fechados das suas mos, sempre com uma palavra carinhosa e com um sorriso nos lbios, contando-lhe pequenas histrias que nem sequer sabia se Allie ouviria. 
Nesse momento, Page relatava  filha o seu almoo no parque e informava-a do dia maravilhoso que estava, quando subitamente Allyson deixou escapar um suave murmrio 
e moveu lentamente a cabea na direo da sua me. Page parou imediatamente de falar e fixou os olhos na filha, incrdula e emocionada. Mas Allie continuou to imvel 
como sempre estivera, e os rudos montonos e ritmados dos aparelhos  sua volta prosseguiram a sua melodia habitual. Page voltou-se ento para Trygve, maravilhada.
       - Ela mexeu-se... Oh, meu Deus! Trygve, a Allie mexeu-se...! - As enfermeiras tinham visto o movimento e duas delas precipitaram-se ento para perto de Allyson. 
- Ela voltou a cabea para mim - explicou Page, emocionada, inclinando-se depois para beijar a face de Allie. - Minha querida, tu voltaste-te para mim... eu vi, 
eu ouvi-te! Oh, minha querida, eu ouvi...! - Trygve ficou por perto, tambm ele emocionado, enquanto Page continuava inclinada sobre a cama da filha, acariciando 
e beijando a sua face. Uma das enfermeiras foi ento chamar o doutor Hammerman, que se encontrava no hospital naquele momento; cinco minutos mais tarde, ele apareceu 
Page descreveu-lhe o que se passara, e Trygve confirmou o relato de Page. As enfermeiras acrescentaram depois que tambm elas tinham notado algo de anormal e mostraram 
ao mdico as gravaes do movimento de Allie que os aparelhos haviam registrado. De fato, dos registros das suas ondas cerebrais constava uma mudana de posio 
e a emisso de um som.
       -  difcil garantir o significado desta reao - afirmou o mdico, cauteloso. - Pode ser um bom indcio, ou pode no ser minimamente relevante; mas, decerto, 
d-nos mais um motivo para aumentar a nossa esperana de que ela esteja prestes a retomar os sentidos. No entanto, Mistress Clarke, tem de tentar compreender que 
um simples gesto, acompanhado por um gemido, no significa que a sua filha tenha recuperado as capacidades mentais normais. Para no a desencorajar, tambm lhe afirmo 
que isto pode ser um princpio; vamos ter esperana que de fato o seja - concluiu ele, mantendo as devidas reservas. Contudo, nada poderia diminuir a alegria que 
Page sentia nesse momento ao observar a filha. Nesse dia, Allyson no voltou a registrar qualquer reao, mas na manh seguinte, quando Page se encontrava presente, 
ela repetiu o gesto e o som do dia anterior. Page telefonou para o local de trabalho do marido para lhe relatar o sucedido, mas informaram-na de que Brad se encontrava 
em St. Louis. S nessa noite  que ela conseguiu por fim contat-lo, telefonando para o hotel onde ele se alojara. No entanto Brad no ficou to entusiasmado quanto 
Page esperava que ele casse, relembrando-lhe, tal como o doutor Hammerman afirmara, que tal reao poderia no ter a menor importncia.
       - Ela ouve-me, Trygve, tenho a certeza!- comentou Page nessa noite, ainda animada com o sucedido. Page e Andy tinham jantado em casa de Trygve, e na noite 
seguinte, este ltimo lev-la-ia a jantar ao Silver Dove, tal como prometera. - Falar com ela  como falar para o fundo de um poo; de incio, no se sabe se algum 
nos ouve, e a nica resposta que se obtm  o nosso prprio eco. H quase sete semanas que falo para o fundo desse poo e at agora no ouvi outro som seno o da 
minha prpria voz... E, de repente, sinto que algum me responde l do fundo. - Tal como todos os outros, Trygve tambm esperava que Page estivesse certa, mas receava 
alimentar as suas esperanas.
       Durante os restantes dias da semana, Allie continuou a mover-se cada dia um pouco, mas nunca chegou a abrir os olhos, nem a falar, ou a fazer um gesto que 
desse a entender que compreendia o que lhe diziam. Limitava-se a emitir um gemido e a mover ocasionalmente a cabea, o que poderia representar um passo decisivo 
na sua recuperao, ou poderia no ter o menor significado.
       Todavia, quando Trygve foi buscar Page a casa, na noite seguinte, ela ainda se encontrava bastante animada e esperanosa. Tinha deixado Andy em casa de Jane, 
prometendo que, caso no regressasse a casa a uma hora muito adiantada, iria busc-lo ainda nessa noite; Jane garantiu a Page que no se importava nada que Andy 
dormisse em sua casa, pois tinha uma cama vaga num dos quartos dos filhos. Contudo, se Page o decidisse ir buscar, teria de o trazer para casa de pijama e, provavelmente, 
ainda a dormir. Quanto a Chloe, Trygve resolvera esse problema contratando uma pessoa para lhe dar toda a assistncia necessria.
       - Ests linda! - exclamou Trygve, fitando-a extasiado. Page usava um vestido de seda branca, bordado a prolas e sem alas, e cobrira os ombros nus com um 
xale azul-claro, exatamente da cor dos seus olhos. Trazia o cabelo solto pelas costas, tal como Allie costumava usar. - Uau! - exclamou, enquanto ela entrava no 
carro, e se ria do entusiasmo dele. Em seguida, encaminharam-se para Corte Madera.
       Trygve reservara uma mesa para dois num dos cantos do restaurante, e Page ficou agradavelmente surpreendida por verificar que naquele local existia uma pista 
de dana. H muitos anos que no freqentava um stio to romntico, e assim, quando o empregado os encaminhou para os seus lugares e lhes ofereceu em seguida as 
ementas, Page sentia-se feliz e acarinhada. Trygve decidiu-se pelo pato, mas Page preferiu linguado; ambos escolheram sopa como entrada, e mousse de chocolate como 
sobremesa. O jantar foi magnfico, o restaurante era encantador e a noite foi perfeita. Trygve convidou-a depois para danar, e sentindo o corpo dele to prximo 
do seu Page ficou admirada com a agilidade e com a fora de Trygve, que danava maravilhosamente bem.
       Saram do restaurante por volta das onze horas, e Page no podia deixar de sorrir, pois apesar de quase no terem bebido vinho, sentia-se embriagada pela 
emoo.
       - Sinto-me como se fosse a Cinderela! - confessou ela, bem humorada. - Ser que vou transformar-me numa abbora?
       - Espero bem que no! - respondeu Trygve enquanto se dirigiam para casa de Page, tambm ele sorrindo de contentamento. Ouviram msica durante o caminho e 
depois Trygve acompanhou-a lentamente at  porta, sentindo-se um verdadeiro adolescente. Quando a beijou, ambos se sentiram subitamente embaraados, mas tambm 
dominados pela crescente paixo que os envolvia.
       - Queres entrar, s para tomar um caf? - perguntou Page, enquanto ele a observava, sorrindo.
       - S para tomar um caf...?
       Page riu, nervosa, e abriu a porta. Entrou, ele seguia-a, mas nem sequer passaram do hall de entrada e Page nem sequer chegou a acender a luz. Limitaram-se 
a permanecer os dois ali enlaados, enquanto Trygve e beijava, passando as mos pelo seu corpo, completamente dominado pela beleza de Page e pela intensidade da 
sua paixo.
       - Amo-te, Page - murmurou ele na escurido, acrescentando: - Amo-te muito... - Trygve esperara dois meses por aquele momento, enfrentara a tempestade que 
os assolara a ambos e s suas famlias, mas, na realidade, sentia que esperara muitos anos por aquele momento, talvez mesmo toda a sua vida.
       Page e Trygve prolongaram os beijos e os abraos at ambos no poderem suportar mais a tenso. Sem que fosse necessrio pronunciar uma palavra, Trygve conduziu-a 
at onde ele sabia ser o seu quarto; com as luzes apagadas, retirou delicadamente todas as peas de roupa do corpo de Page, sem que ela oferecesse a mnima resistncia.
       - s linda, Page... - afirmou ele, quando o vestido dela deslizou at ao cho. Em seguida, devorou-a com os lbios e com as mos, enquanto ela retirava lentamente 
a roupa que o envolvia, at os corpos de ambos se encontrarem completamente despidos, sob o luar da noite. Ento, Trygve conduziu-a com muita suavidade para a cama 
e beijou todo o seu corpo, at ela deixar escapar alguns gemidos de prazer, puxando-o em seguida para mais perto de si. A unio dos dois foi perfeita, completa e 
palpitante, aumentando a sua intensidade at  exploso final de prazer dos dois corpos em unssono. Depois, permaneceram nos braos um do outro, aturdidos e consumidos 
pela fora do sentimento que os unia. Passara muito tempo em silncio, at que, por fim, Trygve acariciou o cabelo de Page e ela ofereceu-lhe mais um beijo.
       - Se h dois meses atrs eu soubesse que ia ser assim... - murmurou ento ele - ter-te-ia trazido comigo para casa na prpria noite do acidente! - Page soltou 
uma gargalhada de contentamento.
       - s um tonto... mas eu amo-te! - E o mais espantoso era que Page, de fato, no mentia. Sob alguns aspectos, dava-se conta de que Trygve era mais indicado 
para ela do que Brad alguma vez fora, e no apenas a nvel sexual. A personalidade de Trygve, tal como a dela, era dominada pela vertente artstica e era muitssimo 
compatvel com a sua; alm disso, tinham bastante em comum, principalmente o fato de ambas as suas vidas serem centradas nos filhos. Tanto ela como ele se haviam 
dedicado de alma e corpo a criar os filhos e agora chegara a hora de satisfazerem as suas prprias necessidades de amor e de carinho. Ambos agiam como dois adultos 
que, depois de muito tempo  deriva, podiam agora, finalmente, gozar a felicidade de ter encontrado aquilo que procuravam. Trygve sentia-se como algum que passara 
fome e frio durante anos e que agora ficara finalmente saciado.
       - Onde  que estavas h vinte anos, quando eu precisava de ti, minha lourinha? - indagou ele.
       Page ponderou um minuto e depois respondeu:
       - Deixa-me pensar: nessa altura desenhava os cenrios de alguns espetculos para poder pagar o meu curso de Belas-Artes.
       - Eu ter-te-ia adorado!
       - E eu a ti. - Todavia, h vinte anos, Page estava ainda muito abalada pela sua experincia com o pai. -  espantoso, no ? - perguntou ela pensativa. - 
Poderamos ter vivido no mesmo bairro durante anos e anos e nunca nos termos realmente conhecido. E agora aqui estamos ns, com as nossas vidas completamente transformadas.
       -  o destino, minha querida. - O destino tinha nas suas mos o poder de destruir e de abenoar, e exercera essas duas influncias opostas nas vidas de Trygve 
e de Page; at essa data tinham conhecido somente o poder da destruio, mas agora, finalmente, era-lhes permitido viver a bno final.
       Ficaram durante horas a conversar, e s depois Trygve se ergueu, com bastante relutncia, consciente de que devia regressar a casa, para que a baby-sitter 
que tomava conta de Bjorn e de Chloe pudesse finalmente retirar-se. No entanto, era tarde de mais para Page poder ir buscar Andy a casa de Jane; j passava das trs 
da manh.
       - Quer dizer que vais ficar toda a noite aqui sozinha? - perguntou ele, horrorizado, ao que Page respondeu afirmativamente. - Que desperdcio, meu Deus! Assim, 
no sei se consigo ir-me embora! - Como tal, acabaram por se entregar de novo ao sentimento que os unia, e s uma hora mais tarde  que Page, em roupo, o acompanhou 
at  porta.
       - A que horas vais levar o Andy  escola? - indagou ele, no intervalo de um beijo. Ambos se sentiam felizes e satisfeitos, como um par de jovens apaixonados 
que mal se podia separar.
       - s oito da manh.
       - E a que horas ests de volta a casa?
       - Por volta das oito e quinze.
       - Ento eu venho ter contigo s oito e meia.
       - Comeo a desconfiar que no passas de um tarado sexual...! - brincou Page, rindo.
       Trygve afastou-se momentaneamente dela e exclamou:
       - Ser que me esqueci de te avisar? Foi por isso que a Dana me deixou! Eu deixava-a exausta...! - Ambos riram, divertidos, e depois Trygve voltou a beij-la. 
Na verdade, durante os dois ltimos anos em que Dana vivera com Trygve, os dois nunca tinham feito amor. Depois de tanto tempo, Trygve chegara a temer ter perdido 
a sua virilidade, mas mesmo que esses seus receios tivessem sido fundados, agora haviam deixado de o ser.
       - O que  que vais fazer amanh? - perguntou Trygve, j um pouco mais srio.
       - Vou para o hospital.
       - Tomo o pequeno-almoo contigo e depois levo-te at l, est bem? - Ela concordou, ele beijou-a mais uma vez, e depois forou-se a sair de perto de Page 
e dirigiu-se para o carro; antes de entrar, no entanto, voltou atrs para receber mais um beijo, e ambos riram, felizes. Depois, Trygve foi finalmente para casa. 
No entanto, fiel  sua palavra, s oito e meia da manh estava de regresso a casa de Page, apesar de esta julgar que ele no viria. A essa hora, Page j tinha ido 
levar o filho  escola, e estava a juntar um monte de roupa por lavar, cantarolando uma cano, quando Trygve bateu  porta. Instantaneamente, Page deu consigo a 
sorrir de felicidade.
       - Bom dia, meu amor! - exclamou ele, entrando em casa dela com um enorme ramo de flores na mo. Trygve era o homem mais romntico e mais bondoso que Page 
alguma vez conhecera. - Vamos tomar o pequeno-almoo? - Mas nem sequer chegaram a entrar na cozinha para cumprir essa inteno. Trygve beijou-a apaixonadamente e 
cinco minutos mais tarde estavam ambos deitados na cama de Page, que continuava tal como eles a haviam deixado na noite anterior.
       - Achas que vamos conseguir trabalhar, de agora em diante? - perguntou Trygve, deitado ao lado de Page, admirando-a pela milsima vez naquela manh.
       - Duvido. Vou ter de desistir das minhas pinturas.
       - E eu desisto de escrever! - Todavia, os horrios de ambos eram to flexveis, as suas vidas to livres e a paixo que os ligava de tal forma intensa, que 
chegava a ser divertido para ambos reconhecer a quantidade de tempo que possuam para se dedicarem quele novo sentimento. - Ser que na escola do Andy no tm quem 
tome conta dele at  noite? - continuou Trygve, brincando, at os dois se beijarem de novo. Desta vez, foi Page quem o expulsou da cama; eram onze horas e ela queria 
ir ver a filha ao hospital, pois agora que o estado de Allie comeava a registrar alguns progressos, Page no desejava perder um s minuto da sua companhia.
       Trygve ficou uma hora com Page no hospital e depois foi para casa, ver como estava Chloe.
       - Vemo-nos esta noite? - perguntou ele, esperanado. Page sorriu, divertida, e abanou a cabea.
       - Esta noite o Andy est em casa.
       - E amanh? - insistiu Trygve.
       - Amanh ele passa o dia com o pai - anunciou Page, rindo maliciosamente, enquanto uma das enfermeiras sorria, feliz por poder assistir a uma cena agradvel, 
para variar.
       - timo! - respondeu ele, como resposta  notcia de que Andy passaria todo o sbado com Brad. - Vamos almoar depois de amanh? O que  que preferes? Caviar 
ou um omelete?
       Page inclinou-se e segredou-lhe algo ao ouvido, para que ningum os pudesse ouvir.
       - E que tal se comssemos uma sandes e depois fizssemos uma sesta? - desafiou ela, rindo, enquanto Trygve a fitava com malcia.
       - Boa idia! Preferes lenis de linho ou de cetim...?
       - s completamente louco! - respondeu Page.
       - Mas amo-te. - Depois de mais um beijo, Trygve deixou-a a ss na unidade de cuidados intensivos. Era uma loucura, mas ela amava-o igualmente, de tal forma 
que, quando contemplou de novo o corpo imobilizado da filha, a sua felicidade era tanta que Page no podia deixar de sorrir.
       
CAPTULO 16
       Brad informou o filho da existncia de Stephanie num sbado  tarde, em Junho. Apresentara-os durante um almoo, num restaurante chamado Prego's, situado 
na Union Street. Andy contemplou-a durante muito tempo, bastante desconfiado, enquanto Stephanie tentava, com algum esforo, entabular conversa com o filho de Brad. 
Ela trazia vestidas umas calas de ganga branca muito justas e uma T-shirt encarnada. At mesmo Andy se veria obrigado a admitir que ela era, de fato, muito bonita, 
com os seus longos cabelos escuros e uns lindos olhos verdes, mas era evidente que ele no simpatizara minimamente com a amiga do pai. Dirigia-se a ela num tom rspido, 
e foi mal-educado para Stephanie vrias vezes durante o almoo. Tentou diminu-la em diversos aspectos e logo de seguida salientou as inmeras virtudes e a beleza 
da me.
       - Andy. - Brad franziu as sobrancelhas e ordenou-lhe em seguida, enquanto comiam a sobremesa: - Quero que peas desculpas  Stephanie. - O pai fitava-o, zangado, 
mas Andy, com o nariz muito empinado, fingia no ouvir.
       - Eu no vou pedir desculpa - respondeu ento ele a meia voz, olhando fixamente o gelado na sua frente.
       - Foste muito malcriado para a Stephanie; acabaste de lhe dizer que ela tem o nariz grande de mais. - Normalmente, Brad ter-se-ia rido de semelhante ofensa, 
mas desta vez apercebia-se de que Stephanie se sentia muito diminuda. Ela nunca fora me e as diabruras de Andy no a divertiam; na sua opinio, ele no era uma 
criana simptica nem engraada, mas sim um rapazinho grosseiro, a quem o pai deveria dar uma boa palmada. Para Stephanie, Andy no passava de um pirralho mal-educado, 
que fora muitssimo inconveniente durante todo o almoo. Afirmara que as suas calas eram demasiado justas e que ela tinha o peito pequeno demais; anunciara de forma 
bastante explcita que a me possua muito melhor figura do que ela, era muito mais inteligente e simptica; alm disso, a me cozinhava muito bem e pintara um mural 
na escola que era admirado por todos, ao passo que ela, provavelmente, nem saberia cozinhar. Andy prosseguira, enumerando as muitas qualidades de Page e salientando 
em seguida os defeitos de Stephanie, quer estes fossem reais quer imaginrios. Contudo, Andy conseguira demonstrar, inconscientemente, que Stephanie possua um sentido 
de humor bastante limitado e que no fazia a mais pequena idia de como lidar com uma criana.
       - Detesto-a! - murmurou Andy a meia voz, de olhos fitos na mesa.
       - Nesse caso - atacou Stephanie antes de Brad poder repreender o filho -, no voltas a vir almoar conosco; como disseste que nos detestas, talvez nem voltes 
a vir passar os sbados conosco - concluiu ela, despeitada, perante o olhar embaraado de Brad. Este ltimo gostaria de a poder apoiar, mas sabia que devia oferecer 
ao filho todo o seu carinho, desde que este se comportasse razoavelmente.
       -  claro que voltas a passar os sbados conosco - afirmou ento Brad com muita calma, fitando cada um deles alternadamente, enquanto dava a mo ao filho, 
numa tentativa de o sossegar. Brad sabia como Andy se deveria sentir assustado e magoado, mas, ao mesmo tempo, desejava intensamente que ele simpatizasse com Stephanie. 
O relacionamento de ambos era muito importante para Brad e se da em diante os dois resolvessem iniciar uma pequena guerra pessoal, a sua situao complicar-se-ia 
ainda mais. - Vais sempre passar os sbados comigo, bem como os fins-de-semana ou quaisquer outros dias que eu tenha livres. Mas ia ser muito divertido se ns os 
trs pudssemos sair juntos.
       - No ia, no - respondeu Andy prontamente, fitando o pai, e agindo como se Stephanie nem sequer ali estivesse.
       - Porque  que tens de a trazer?
       Stephanie no disfarava a sua irritao, e Brad apressou-se a responder, tentando apaziguar os nimos:
       - Porque a Stephanie  minha amiga e eu gosto dela. Tu tambm achas mais divertido quando trazes os teus amigos para passear, no achas?                  
       - Porque  que eu no posso trazer a me? - Apesar de no responder dessa forma, Brad pensou: "Principalmente, porque agora no ia ser nada divertido."
       - Sabes muito bem como era a minha relao com a tua me ultimamente; e no gostavas nada quando nos vias discutir... Agora  diferente; eu e a Stephanie 
nunca discutimos, porque somos bons amigos e gostamos da companhia um do outro. Podemos ir juntos ao cinema,  praia, assistir a jogos de basebol, enfim, podemos 
fazer uma srie de coisas divertidas!
       Andy lanou um olhar de desprezo a Stephanie e comentou:
       - Aposto que ela no percebe nada de basebol!
       - Ento podemos ensin-la - contraps Brad, co muita calma, olhando para Stephanie e para Andy, ambos com a mesma expresso de descontentamento e contrariedade. 
Brad tinha conscincia de que estava a forar a situao e de que aquele encontro no decorria nada bem. Talvez fosse prefervel voltar a sair sozinho com o filho, 
at ele se habituar mais  idia de o ver com uma outra mulher; mas mais tarde ou mais cedo Andy teria de aceitar essa idia. Ultimamente, o tema do casamento voltara 
a ser discutido, e Stephanie afirmara que caso Brad no resolvesse assumir um compromisso com ela, o relacionamento de ambos estaria terminado. Depois de mais de 
dez meses ao lado de Brad, apoiando-o durante a fase final do seu casamento com Page, a pacincia de Stephanie chegara ao seu limite mximo; no momento presente, 
tudo o que pretendia era saber se Brad estaria realmente disposto a tomar esse passo, pois se no fosse esse o caso, Stephanie desistiria daquela relao e iniciaria 
uma nova etapa. Contudo, essa ltima opo no era do agrado de Brad, o qual depois de tudo por que passara at chegar quele ponto no queria, de forma alguma, 
perd-la. Stephanie representava para Brad uma espcie de tbua de salvao, o seu nico refgio contra a solido que ele agora sentia sem Page, sem Allyson e sem 
o filho. O seu amor por Stephanie era sincero, mas com todos os condicionalismos e recentes traumas da sua vida, o relacionamento de ambos no passava por uma fase 
muito propcia; e agora, Andy encarregava-se de complicar ainda mais a situao. Definitivamente, a vida no era nada fcil.
       - Queria pedir a ambos que encarassem isto com um pouco mais de boa vontade - anunciou Brad, fitando-os. - Faam isso por mim; eu gosto muito dos dois e gostava 
que vocs pudessem ser amigos. Prometem que vo tentar? - pediu ele, como se ambos fossem da mesma idade; na realidade, a julgar pela expresso insolente de Stephanie, 
no era difcil imaginar que ela fosse to criana quanto Andy.
       - Est bem - respondeu Andy de m vontade, olhando-a de lado com rancor.
       - V se te comeas a portar melhor! - retorquiu Stephanie com maus modos, arrancando um murmrio de desalento dos lbios de Brad, que se apressou a pagar 
a conta e a oferecer a Andy o chocolate que a acompanhava, exclamando em seguida:
       - Parem com isso, por favor!
       Passaram os trs uma tarde verdadeiramente infernal. Vaguearam plos jardins da marina e pela beira-mar num silncio absoluto. Por fim, Stephanie anunciou 
que tinha frio e que gostaria de regressar a casa. Andy apenas quebrava o seu silncio para responder a alguma pergunta ocasional de Brad, nunca dirigindo a palavra 
a Stephanie, a no ser quando o pai o obrigou a despedir-se dela, na altura que a deixaram  porta do prdio onde morava. Em seguida, passaram rapidamente pelo apartamento 
de Brad, e quando Andy foi  casa de banho reparou que Stephanie deixara alguns frascos na banheira e um roupo de banho pendurado atrs da porta, o que contribuiu 
para o deprimir ainda mais.
       - No foste nada simptico para a Stephanie - comentou Brad cautelosamente, j no caminho para casa. - No devias ter agido assim, Andy. A Stephanie  muito 
importante para mim, e ela quer realmente comear a gostar de ti.
       - No quer, no! Desde o princpio que ela foi antiptica para mim; eu sei que ela me detesta.
       - Isso no  verdade. Apenas no est habituada a lidar com crianas e sente-se pouco  vontade contigo; d-lhe uma outra oportunidade, filho. - Brad estava 
praticamente a implorar. Tinham passado uma tarde horrvel, e ele sabia que assim que estivessem juntos Stephanie iria protestar.
       - A Allie tambm no vai gostar dela - afirmou Andy, muito seguro. Brad sentiu um aperto no corao; j nem sequer podia ter a certeza se a filha voltaria 
a amar ou odiar algo! Apesar das suas ltimas reaes, no havia nenhuma alterao significativa no seu quadro mdico.
       - Eu penso que a Allie ia gostar dela - respondeu Brad, apenas para manter a conversa.
       - No ia, e a me tambm no. A Stephanie  estpida e  magricela.
       - Ela no  estpida, Andy. - Brad no podia deixar de a defender. - Tirou um curso em Stanford, tem um bom emprego e  uma rapariga muito inteligente. Tu 
 que ainda no a conheces bem.
       - No me interessa! Ela  burra e eu no gosto dela! - Estavam de volta ao ponto de partida, e Brad decidiu conversar sobre outros temas para o tentar distrair, 
mas Andy no estava disposto a continuar a conversa; limitava-se a fixar a janela, em silncio.
       Brad deixou o filho  porta de casa e acenou a Page, antes de arrancar. Hesitou um pouco e esteve tentado a sair do carro para conversar um pouco com ela, 
mas depois reconsiderou e chegou  concluso que seria ainda bastante penoso para ambos. Alm disso, a sua disposio no era das melhores, e estava ansioso por 
se encontrar com Stephanie, para poder tranqiliz-la. Calculava que ela estivesse muito abalada pelo fato de Andy ter sido indelicado, pois sabia que, por vezes, 
Stephanie reagia de um modo um pouco infantil. De qualquer forma Brad desejava poder compens-la; desejava igualmente que Stephanie e Andy, co o passar do tempo, 
se habituassem  presena um do outro, pois se isso no se verificasse, a situao no se adivinharia nada fcil.
       Ao regressar a casa, Andy manteve-se silencioso e Page notou de imediato que algo de anormal se passara com o filho.
       - Tens algum problema? - indagou ela, quando o foi deitar. Normalmente, Andy relatava  me tudo o que fizera na companhia do pai, mas nessa noite mal falara 
durante todo o jantar. - Sentes-te bem? - Page colocou uma mo na testa do filho, mas constatou que ele no estava febril. A sua temperatura era normal, mas os seus 
olhos denunciavam a sua tristeza e preocupao.
       - Sinto. - Andy estava  beira das lgrimas, e Page no o queria deixar daquela forma. - O pai disse que... no te posso dizer. - Ele no queria magoar a 
me.
       - O pai zangou-se contigo? - Talvez Andy tivesse feito alguma asneira, e Brad se visse obrigado a castig-lo, embora ele raramente o fizesse. Todavia, Andy 
limitou-se a abanar a cabea, desanimado.                                           
       Aps alguns minutos, Andy no se conteve e deixou que as lgrimas corressem livremente.
       - Ento, meu amor, o que foi...? - exclamou Page, deitando-se em cima da cama ao lado do filho. - Sabes que o pai gosta muito de ti, seja o que for que ele 
tenha dito.            
       - Eu sei, mas... - Andy hesitou, e abraou a sua me - o pai tem uma namorada... ela chama-se Stephanie - desabafou ele, infeliz. Page deu-se ento conta 
de que Brad contara tudo ao filho e sentiu os seus olhos midos, enquanto o abraava, tentando consol-lo.
       - Eu sei, filhote; a me j sabia de tudo.
       - J a conheceste? - perguntou ele, retirando-se dos braos da me para a fitar, muito admirado. Page abanou a cabea e sentiu o corao cheio de amor e carinho 
pelo filho.           
       - No, nunca a conheci. E tu?
       - Conheci-a hoje ao almoo. Ela  muito antiptica!  burra, feia e magricela, e sei que ela no gosta de mim.
       - No, Andy, ela no tem razes para no gostar de ti. Se calhar, ficou com medo de desagradar e quis somente causar boa impresso.
       - Mas eu detestei-a; e agora o pai diz que eu tenho de gostar dela... - Ento o caso era realmente srio, pensou Page. Se Brad estava a pressionar Andy para 
simpatizar com Stephanie, isso significava que pensavam casar. Page sentiu um n na garganta, mas, tal como Andy, tambm ela devia habituar-se  idia de que agora 
Stephanie fazia parte da vida de Brad, talvez mesmo para sempre. - Porque  que no tentas gostar dela? - insistiu Page, cautelosamente. - Quando a conheceres melhor, 
a tua opinio pode mudar. Para o teu pai gostar tanto dela, deve ter bastantes qualidades.
       - Eu sei que no tem - respondeu ele, esfregando os olhos. - E eu no gosto dela! - Ento, visivelmente preocupado, Andy fez uma pergunta  sua me: - Achas 
que o pai ainda vai voltar para casa? - questionou ele, ansiosamente. Ento era disso que se tratava: Stephanie representava uma ameaa ao regresso seguro de Brad 
para a sua me.
       - No sei - respondeu Page com honestidade, acrescentando: - No julgo que isso seja muito provvel.
       - Mas se ele se casar com ela, depois no vai poder voltar para ti! - Andy fitava a me com olhos chorosos e entristecidos. - Odeio-a!
       - No odeias nada. Na verdade, tu nem sequer a conheces; e o pai no se vai casar j com ela. Ests a preocupar-te de mais. - Todavia, Page sabia que o filho 
no estava enganado; era muito provvel que o pai voltasse a casar dentro em breve.
       - Eles vo para a Europa neste Vero, por isso ns no vamos passar frias com ele. - Andy no se apercebera de que, de qualquer forma, Brad nunca os poderia 
levar a passar frias. Contudo, Page no podia deixar de se sentir irritada pelo fato de Brad proporcionar a Stephanie uma viagem  Europa, pois apesar de ela prpria 
ter manifestado esse desejo vrias vezes, ele nunca o satisfizera. Page s havia visitado a Europa uma vez, na companhia dos pais, quando ainda no era casada com 
Brad.
       - De qualquer forma, no podamos deixar a Allie sozinha - respondeu Page, tranqilamente - Ser que o pai est a pensar levar-te nessa viagem? - Brad no 
a havia informado de nada, mas talvez ele desejasse levar Andy consigo; no entanto, este abanou a cabea e respondeu:
       - Eles vo s os dois; a viagem dura um ms. - Page ouvia em silncio. Agora, Brad tinha a sua prpria vida, assim como eles tinham a deles: e ela tinha Trygve.
       - No vamos pensar mais nesse assunto, est bem? O pai ama-te muito e eu tambm. E aposto que quando a conheceres melhor, ainda vais achar a amiga do teu 
pai muito simptica.
       Enquanto a me o aconchegava entre os lenis, Andy protestou mais um pouco, mas acabou por desistir e em seguida adormeceu. Todavia, na manh seguinte, enquanto 
tomava o pequeno-almoo, estava ainda rabugento; para ele, a ameaa que Stephanie representava resumia-se ao seguinte: o pai no iria voltar para perto dele nem 
para a me. Foi ento que, levantando os olhos da mesa, Andy colocou a Page uma questo que a deixou desfeita, vendo-se obrigada a voltar-se de costas, para o filho 
no a ver chorar.
       - Como  que vamos explicar  Allie que o pai se foi embora? Quero dizer, quando ela acordar... o que  que lhe vamos explicar, me? - Page, voltada para 
a janela, assoou o nariz e esforou-se por encontrar uma resposta. Se pelo menos pudesse ter a certeza de que um dia voltaria a conversar com a filha...
       - Quando ela acordar, ns pensamos nisso.
       - Talvez a Stephanie morra...! - afirmou ele, furioso, enquanto Page se voltava de novo para o filho, agora com vontade de rir. Andy pronunciara essas palavras 
com tanta convico que chegara a ser cmico. Page mandou-o ento ir brincar para o jardim e alguns minutos depois a me telefonou.
       Maribelle no tinha quaisquer novidades para dar  filha, a no ser que Alexis adoecera com uma lcera, fato que em nada surpreendeu Page. Era algo muito 
comum nos anorxicos, pois com o pouco alimento que ingeriam, o cido comeava a corroer as paredes do estmago. No entanto,  claro que para a me de Page a lcera 
de Alexis tinha sido causada apenas por uma questo nervosa.
       Maribelle voltou a manifestar alguma admirao quando a filha lhe explicou novamente que Brad havia sado de casa, reagindo como se aquela fosse a primeira 
vez que Page lhe comunicava a sua separao. E, como sempre, recusou-se a acreditar na explicao de Page, desligando o telefone alguns minutos depois.
       Page comentou com Trygve, nessa mesma tarde, como as atitudes dos membros da sua famlia eram despropositadas e incoerentes, e este ltimo confessou ter alguma 
dificuldade em compreender esse fato. Os seus pais eram ambos pessoas to normais que chegavam a ser aborrecidas!
       - Tens muita sorte em ter uns pais assim! - afirmou Page.
       Trygve e Page estavam sentados a conversar no jardim da casa dele, ambos com pena de serem forados a manter uma certa distncia, j que os filhos podiam 
avist-los. Limitavam-se assim a tocar as mos um do outro, desejando, no entanto, poder trocar inmeros beijos e abraos.
       Bjorn e Andy entretinham-se a jogar basebol, este ltimo atirando a bola com a mo esquerda. Todavia, no tardaria muito a poder usar a mo direita, pois 
em breve iria tirar o gesso do brao. Chloe estava sentada na cadeira de rodas, a estudar na companhia de Jamie Applegate.
       - O Brad apresentou a Stephanie ao Andy, ontem  tarde - explicou Page a Trygve, observando o jogo dos dois rapazes.
       - Como  que ele reagiu?
       - No muito bem, apesar de eu no esperar nenhuma outra reao da parte do Andy. Aquela mulher representa uma grande ameaa para ele... o Andy percebeu que 
estava realmente tudo acabado entre mim e o pai. Ele diz que a detesta! - exclamou Page, sorrindo maliciosamente. - Deve ter sido um almoo muito agradvel...!
       - Penso que todos os filhos sonham que os pais voltem um dia a viver juntos - declarou ele, sorrindo. - Eu sei que at mesmo os meus filhos alimentam secretamente 
o desejo de que a Dana volte para casa e ns dois voltemos a viver como marido e mulher.
       - Gostavas que isso acontecesse? - perguntou Page, mostrando-se bastante interessada na resposta dele. Trygve aproximou-se dela e sorriu.
       -  claro que no. Se isso acontecesse, eu ia viver para outra cidade... e inclua-te na minha bagagem!
       - Folgo em saber! - respondeu ela, esboando um sorriso, enquanto as suas mos se tocavam por breves instantes.
       As duas famlias passaram uma tarde muito agradvel, e depois Page e Trygve prepararam o jantar para todos. Chloe ps a mesa, movendo-se na cadeira de rodas, 
e ajudando o mximo que podia, enquanto Andy e Bjorn ficaram incumbidos de arrumar depois a cozinha. Os dois formavam uma boa equipe e divertiam-se muito juntos. 
Chloe representava para Andy o papel da irm mais velha, de quem ele sentia muito a falta. Nick, por sua vez, regressaria a casa dentro de alguns dias, pois tinha 
aceite um trabalho durante as frias de Vero num clube de tnis em Tiburon. Todos estavam muito entusiasmados com a sua vinda; para o grupo estar completo, s faltava 
Allie.
       Depois de jantar, conversavam calmamente sobre ela, quando Chloe comentou que sentia muito a falta da amiga, afirmando em seguida que tinha ainda muitas esperanas 
de que ela recuperasse dentro em breve. Na verdade, era aquilo que todos desejavam que acontecesse, e ainda no era tarde de mais para isso ser possvel. No entanto, 
dois meses era j muito tempo para permanecer em coma e da a um ms, se nada mudasse, o panorama futuro seria bastante mais negro. O doutor Hammerman mantinha a 
opinio de que, caso Allyson no retomasse os sentidos decorridos trs meses da data do acidente, ento, provavelmente, nunca recuperaria a conscincia. Era algo 
que Page preferia no recordar, apesar de todas as noites antes de dormir ser assaltada pelo receio de que Allyson permanecesse inconsciente toda a sua vida.
       - Ontem encontrei Mistress Chapman - anunciou Page. - A pobre senhora no me pareceu nada bem. Estava muito abatida, como seja no tivesse fora nem alegria 
para viver. - Trygve entendia perfeitamente o que a me de Phillip deveria sentir, mas no conseguia imaginar a profundidade da dor causada pela morte de um filho, 
nem o desejava fazer. Se ainda fosse vivo, Phillip teria terminado o curso do liceu alguns dias antes, e na festa em honra dos finalistas houvera um minuto de silncio 
em sua homenagem.
       Os olhos de Chloe encheram-se ento de lgrimas, e ela recordou, mais uma vez, a trgica noite do acidente, como tantas vezes agora fazia. Finalmente, conseguia 
j recordar alguns breves instantes dessa noite e tinha comeado a freqentar, na companhia de Jamie, a terapia de grupo. Sentia-se ainda extremamente responsvel 
por ter insistido com Allyson para participar na mentira daquela noite. Afinal, o que acontecera modificara totalmente a vida de muitas pessoas.
       Trygve sugeriu ento um jogo de monoplio, idia que agradou sobretudo aos mais jovens, que se entregaram arrebatadamente  emoo das apostas. Possuindo 
fortunas extraordinrias, todos negociavam e arriscavam, destemidos e animados, fazendo batota sempre que a oportunidade surgia.
       Page e Trygve aproveitaram essa ocasio para se retirarem discretamente para o escritrio deste ltimo, situado no primeiro andar. Uma vez a ss, ele pde 
ento abraar e beijar Page, como desejara fazer durante toda a tarde. Trygve ansiava por poder passar mais tempo com Page, desejava poder passar uma noite inteira 
com ela e poder passar frias na sua companhia. Alis, a lista de tudo aquilo que ele gostaria de realizar com Page no tinha fim, apesar de Trygve ter plena conscincia 
de que era ainda um pouco cedo para concretizar os seus planos. Trygve sabia que Page no iria abandonar Allyson nas condies em que esta se encontrava, e ele prprio, 
de momento, estava demasiado ocupado com os seus filhos.
       - Ser que algum dia vamos conseguir estar sozinhos? - indagou Trygve, esboando um sorriso bastante contrariado enquanto a abraava. - J me contentava com 
um msero fim-de-semana...
       - Seria muito agradvel, no achas? - sonhou Page. A idia de passar frias com Trygve no lago Tahoe agradava-lhe muito, mas no se sentia com coragem para 
abandonar Allie. A vida de Page, agora, girava em torno das suas visitas dirias  unidade de cuidados intensivos. Tambm se sentia culpada em relao a Andy, pois 
sabia que sem a presena do pai, ele necessitava mais do que nunca da companhia da me; Page gostaria de lhe poder dedicar mais ateno, e, se possvel, proporcionar 
ao filho umas frias na sua companhia, mas nessa fase a sade de Allie era a sua grande prioridade; e quanto a isso, nada havia a fazer, a no ser esperar. Todos 
eles teriam de esperar que a sua vez chegasse, incluindo a prpria Page, que j h muito aceitara esse fato.
       Nessa noite, foi particularmente difcil para Page deixar Trygve, pois o tempo que passava ao seu lado constitua a parte mais agradvel dos dias. Era ainda 
melhor quando lhes era possvel juntar as duas famlias, pois juntos viviam momentos muito felizes. Ao deitar Andy, Page constatou que o filho parecia muito mais 
animado do que na noite anterior.
       - Ento, filhote? Gostaste do dia de hoje? - perguntou Page, ainda no caminho para casa.
       - Gostei muito. A Chloe ganhou o jogo, mas ela fez batota; o Bjorn diz que ela faz sempre batota. - Andy sorriu e acrescentou: - A Allie tambm costuma fazer!
       Page esboou um sorriso ao ouvir o filho pronunciar o nome da irm. Teria sido to bom se Allie tivesse jogado monoplio com todos eles... to bom se ela 
ainda o pudesse fazer!
       - O Bjorn diz que o pai dele gosta de ti - informou Andy, sem trair nenhuma emoo no tom da sua voz, perfeitamente neutro.
       - Ah, sim? E o que  que o leva a pensar isso? - Page esforava-se por no elaborar nenhum comentrio comprometedor, mas ao observar a reao do filho, o 
seu corao batia mais depressa. Afinal, Page desejava que Andy gostasse de Trygve, tal como Brad desejava que o filho tivesse simpatizado com Stephanie.
       - Nada de especial. Ele diz que tu s muito simptica, que vos tem visto juntos, e que o pai dele diz que tu s muito bonita e divertida. Uma vez ele viu 
que tu beijaste o pai dele na boca...  verdade? - A pergunta de Andy no pretendia ser uma acusao, e sim uma simples curiosidade. Depois do choque que sofrera 
no dia anterior ao tomar conhecimento da existncia de Stephanie, Andy comeava a tentar compreender a situao presente dos pais, que era completamente nova para 
ele. Mas era nova tambm para Page, e como tal, ela hesitava na explicao que poderia dar a Andy. At que ponto deveria usar de total sinceridade com o filho?
       - Sim, talvez tenha acontecido alguma vez, quando eu me despedi dele. Eu tambm gosto muito do Trygve.
       - Tanto como gostas... do pai?
       - No,  um sentimento diferente; gosto do Trygve como amigo, como um grande amigo. Ele tem sido maravilhoso para mim desde que a Allie sofreu o acidente. 
- Andy fez um sinal afirmativo com a cabea; no podia deixar de concordar com a me, apesar de nunca ter pensado em Trygve dessa forma.
       - Eu tambm gosto dele... e gosto do Bjorn; mas gosto mais ainda do pai.
       - O teu pai vai continuar a ser sempre teu pai, nada vai mudar isso.
       - Tu e o pai vo divorciar-se? - indagou ele, preocupado. Se assim fosse, isso significaria que estava tudo acabado. Muitos dos pais dos seus amigos eram 
divorciados, e alguns tinham j casado outra vez, por isso Andy sabia o que um divrcio significava.
       - No sei. - Durante todo o ms em que Brad estivera ausente, nenhum deles contatara um advogado. Devido  insistncia de Stephanie, Brad tinha pedido a Page 
que o fizesse, mas esta no tivera ainda coragem para tal. Trygve indicara-lhe o seu prprio advogado, mas Page desculpara-se sempre com as suas ocupaes dirias, 
embora soubesse que brevemente teria de o fazer.
       Quando se encontraram no hospital, Brad voltou a referir esse assunto. H j uma semana que no visitava a filha, por isso, ao v-lo nessa tarde Page no 
pde deixar de car muito surpreendida.
       - Ol. Como tens passado? - cumprimentou ela, muito pouco  vontade, tentando disfarar o seu constrangimento.
       - Bem. - Brad sorriu para Page, mais charmoso do que nunca. No restavam dvidas que era um homem muito interessante, mas por vezes Page ainda se surpreendia 
com a sua boa aparncia. - Como est a Allie?
       - Como sempre. Continua a mover-se de vez em quando e a soltar um leve murmrio, mas no se sabe ainda que importncia isso tem. - Todavia, quando Page pronunciava 
o nome da filha, os registros dos aparelhos a que ela estava ligada demonstravam variaes. Page desejava intensamente acreditar que isso significava algo, mas quem 
poderia garantir tal hiptese? Allie continuava inconsciente, e era ainda o ventilador que respirava por ela.
       Brad ficou o mximo de tempo possvel na enfermaria;
       cinco minutos era o seu limite. Aps esse tempo pediu a Page que o acompanhasse at ao corredor para terem uma conversa.
       - Pareces-me menos cansada - comentou ele, observando-a atentamente. Page estava, de fato, menos abatida do que anteriormente estivera, mas existiam ainda 
algumas sombras nos seus olhos. Brad no estava certo se essa tristeza era causada pelo estado de Allie ou por ele prprio, mas por vezes sentia ainda vontade de 
poder torn-la nos braos e confort-la, apesar de ter plena conscincia de no o poder fazer. Stephanie mat-lo-ia, se soubesse de tal ocorrncia, pois ela era 
inflexvel nesse ponto, afirmando-lhe que nunca admitiria a menor traio da sua parte. Brad sabia que ela era muito diferente de Page, e, por vezes, sentia a falta 
da mulher. - Est tudo bem contigo?
       - Fao os possveis. - Page estava feliz com o seu recente relacionamento com Trygve, tinha esperanas em relao a Allie, mas, no entanto, a sua vida em 
nada se assemelhava ao que fora no passado. O estado de Allyson continuava muito grave, tinha um processo de divrcio pela frente, e encontrar Brad tinha contribudo 
para aumentar ainda mais o seu desnimo latente. A sua vida estava reduzida a uma rotina muito pouco animadora: os dias de Page eram passados entre a casa e o hospital, 
com a variante de um jantar ocasional com Trygve. Subitamente, no existiam perspectivas futuras, excetuando a esperana constante de que Allie recuperasse a conscincia.
       - Preciso de falar contigo, mas no tenho tido tempo para te telefonar. Julgo que chegou a altura de contatarmos os nossos advogados. - Brad anunciou-o como 
se tratasse de uma justificao, e ao contemplar o olhar de Page, sentiu-se um perfeito carrasco. O olhar dela era idntico ao de Andy.
       - Tens razo - concordou ela. Contudo, detestava ter de tomar essa atitude; seria o golpe final no seu casamento.
       - No h qualquer vantagem em prolongar esta situao;  pior para ns, e pode criar falsas esperanas no Andy. Julgo que ele se vai adaptar melhor  nossa 
separao se souber que ela  definitiva. E talvez ocorra o mesmo conosco, nunca se sabe. Tu tens direito a muito mais Page - recordou Brad. Page concordava em absoluto 
com ele.  claro que ela tinha direito a uma famlia, a um marido e a ter a sua filha novamente s; tinha direito a isso e a muito mais, mas sabia perfeitamente 
que nada lhe poderia garantir que viesse a recuperar tudo aquilo a que tinha direito.
       - Tens a certeza de que  isto que queres? - perguntou ela, num tom calmo e suave. - Estou a referir-me ao divrcio. - Brad fez um gesto afirmativo e Page 
baixou a cabea. Ela entendia e aceitava; estava tudo terminado entre eles. Brad desejava casar com Stephanie, reiniciar uma nova vida a seu lado, e talvez, quem 
sabe, atingir um melhor resultado dessa vez.
       - Chegou a altura - confirmou ele, pesaroso. - Conheces algum advogado?
       - Indicaram-me o nome de um, mas ainda no lhe telefonei. No sabia que tinhas tanta pressa...! - O tom da voz de Page registrava uma ligeira indignao. 
Subitamente, o fato de Brad ter vindo de propsito ao hospital para lhe fazer tal exigncia, irritou-a. Os piores momentos da sua vida tinham sido passados naquele 
hospital... embora tambm tivessem acontecido algumas surpresas positivas, como o amor inesperado de Trygve.
       - O divrcio j estar consumado no final do ano - anunciou Brad com seriedade, enquanto Page meditava no que ouvia em silncio. - Talvez mesmo antes do Natal. 
- Stephanie tinha manifestado o desejo de se casar na vspera de Natal, e se apressassem o andamento do divrcio, era bastante provvel que isso viesse a ser possvel.
       - No era bem esse o desejo que eu gostaria de ver realizado este Natal... - comentou Page, melancolicamente. Em seguida, levantou os olhos para ele, respirou 
fundo e anunciou: - Amanh de manh telefono para o meu advogado.
       - Obrigado, Page. - Brad mostrou ento alguma hesitao, como se desejasse expressar algo que no conseguia definir. Por fim, afirmou: - Lamento muito Page.
       - Eu tambm. - Page pousou a mo na de Brad e regressou depois apressadamente para a enfermaria. Nesse dia, Allie no se moveu nem emitiu o mais leve som, 
como se respeitasse a depresso da sua me e preferisse no a incomodar. Page continuou ao seu lado at o fim do dia, silenciosa e quieta. Nessa noite, depois de 
deitar Andy, nem sequer telefonou a Trygve, como vinha a ser hbito. Antes de iniciar uma nova etapa de vida, sentia necessidade de viver sozinha o seu ltimo momento 
de luto pela morte do casamento.
       No dia seguinte, Page encontrava-se j mais animada, e sentiu necessidade de falar com Trygve. Este pressentiu que algo a tinha incomodado, mesmo antes de 
Page lhe relatar a sua conversa com Brad, e, como sempre, agiu com ternura e compreenso. Trygve sabia, por experincia prpria, como era difcil finalizar um casamento 
de muitos anos, e no considerava que a tristeza de Page tivesse qualquer interferncia na ligao de ambos. Assim, tornou a dar-lhe o nome do advogado e logo em 
seguida Page telefonou a este ltimo para marcar um encontro.
       Quando esse encontro se deu, o advogado repetiu a Page a profecia de Brad: o divrcio estaria consumado antes do Natal. Trygve foi busc-la ao escritrio 
do advogado, levando-a depois a jantar fora. Nessa altura Page sentia-se j um pouco melhor, e conversou com Trygve durante todo o jantar. Era fcil supor que, sentados 
na sua mesa preferida do Silver Dove, estavam um homem e uma mulher de origem nrdica. Era freqente Page e Trygve ouvirem comentrios acerca das suas semelhanas 
fsicas, havendo mesmo quem lhes perguntasse se eram irmos. Para Page, essa circunstncia adquiria um significado especial, pois sempre defendera a teoria de que 
um verdadeiro casal aparentava muitas parecenas fsicas, apesar de no ser minimamente parecida com Brad.
       Nessa noite Page e Trygve conversaram durante horas, acerca das suas vidas, dos seus casamentos, dos seus filhos... e das suas esperanas para o futuro.
       - s a primeira mulher que conheo que me faz sentir vontade de voltar a casar. - Pela sinceridade do seu olhar, Page podia constatar que Trygve no mentia. 
Apesar de ainda lhes parecer cedo de mais para considerar tal hiptese, o acidente tinha alterado tudo to rapidamente e acelerara o ritmo das suas vidas de uma 
forma tal, que qualquer modificao lhes parecia agora mais plausvel. Na luta que ambos vinham a travar desde h alguns meses, tudo era impulsionado a uma velocidade 
muito maior.
       - Eu sempre fui de opinio que sabemos quando se trata da pessoa certa - afirmou Trygve, num tom calmo e seguro. - Assim que comecei a conhecer-te melhor, 
no hospital, tive a certeza que eras a pessoa que eu procurava; s no conseguia entender como era possvel sentir tal certeza, porque tu eras casada. Mas depois, 
tudo mudou. Agora, quando olho para ti, Page, tenho a certeza de que posso ser feliz ao teu lado para o resto da vida; e sei que tu tambm sentes o mesmo. - Ela 
no o negou. De fato, tambm sentia essa certeza, mas era um pensamento ainda demasiado intimidante.
       - Como  que posso ter-me enganado tanto no passado e estar agora to certa? O que  que me garante que eu agora seja mais realista? - indagou ela, preocupada.
       - No penso que seja uma questo de realismo. Para mim,  apenas uma questo de sentir;  uma sensao que vem da nossa cabea, do nosso corao, da nossa 
pele, sei l mais de onde! Eu sempre soube que o meu relacionamento com a Dana no era o mais certo para mim. Tive essa certeza desde o princpio, tal como ela sempre 
teve. A Dana ainda tentou chamar-me  razo, mas eu no a quis ouvir.
       - Que engraado... Eu tambm tentei dissuadir o Brad. No me sentia preparada para casar, porque estava ainda a tentar recuperar de tudo o que acontecera 
em casa dos meus pais; mas o Brad insistia em casar e vir morar para a Califrnia. Eu tinha medo de aceitar, mas pensei que o devia fazer. Se calhar, no pensei 
bem.
       - No, nessa altura tomaste a deciso acertada. O vosso casamento nunca se teria mantido durante tantos anos se essa no tivesse sido a opo certa. - O casamento 
de Page no fora nunca to conflituoso como o de Trygve. - No sei bem como te explicar... eu apenas sinto que conosco est tudo certo. E desta vez, no quero perder 
mais tempo; parece-me que desperdicei metade da minha vida ao lado da mulher errada! - Trygve fez ento uma pausa para respirar fundo e tentar exprimir o seu sentimento 
com mais calma e suavidade. - Mas no quero apressar-te Page. Demore o tempo que demorar, vou estar sempre aqui  tua espera.
       - Pela primeira vez na vida, a minha me tem razo! - respondeu Page, sorrindo para ele.
       - No estou a perceber...
       - Ela costuma sempre dizer que eu sou uma mulher de muita sorte.
       - O felizardo aqui sou eu - declarou Trygve, feliz. 
       - Tenho apenas de aprender a ter mais pacincia. - Ele bebeu um pouco de vinho e sorriu para Page. - No ficas feliz quando te lembras do Natal? Eu fico! 
O Pai Natal a chegar, as casas enfeitadas com azevinho, os trens, as campainhas... - Trygve sabia que, no Natal, Page j estaria divorciada.
       - Tu s completamente louco! Se pensasses melhor, ias chegar  concluso que eu, na intimidade, sou um monstro. Porque  que julgas que o Brad se quis separar 
de mim?
       - Porque ele foi um idiota, felizmente para mim. E digo-te mais: ainda no desisti da idia de descobrir como  que realmente s, sem ter de ir para casa 
s quatro da manh, ou andar em bicos de ps pela casa para no acordar o Andy...! -  claro que Trygve queria algo mais do que aquilo que tinham; gostaria de acordar 
com Page a seu lado e de se deitar com ela todas as noites. Queria tambm poder passar um fim-de-semana a dois, mas Page no se sentia bem com a idia de abandonar 
Allie. - Conserva a idia do Natal no teu pensamento. Quando tiveres mais tempo, talvez depois das frias em Tahoe, volta a pensar nisso.
       - E tu, pede esse desejo ao Pai Natal! - respondeu Page, maliciosamente. Trygve soltou uma gargalhada bem-humorada e respondeu:
       - Podes estar certa de que tenciono faz-lo.
       
CAPTULO 17
       No fim de Junho, Page iniciou a pintura de um mural para a unidade de cuidados intensivos do hospital onde Allie estava internada. O hospital tinha acolhido 
de muito bom grado a oferta de Page, de tal forma que esta se oferecera para pintar no apenas um, mas dois murais, ambos em nome da filha. Um destinava-se ao longo 
e deprimente corredor que conduzia  unidade de cuidados intensivos, e o outro  sombria sala de espera. Page efetuara primeiro uma longa pesquisa e finalmente escolhera 
uma paisagem campestre da regio da Toscana e uma imagem da zona porturia de So Remo. O primeiro quadro era tranqilo e apaziguador, enquanto que o segundo era 
animado e repleto de pormenores e figuras, proporcionando aos ocupantes da sala de espera bastantes motivos de entretenimento e distrao.
       Page mostrou a Trygve os esboos iniciais e este ficou muito impressionado. Ela calculava que cada pintura demorasse mais de um ms, no fim dos quais se dedicaria 
ento ao mural para a escola primria de Ross. No Outono, quando essa tarefa estivesse finalmente concluda Page iniciaria ento o seu trabalho de pintura como principal 
fonte de rendimentos.
       - No posso dar-me ao luxo de no o fazer - concluiu ela, objetivamente. De fato, se no tentasse obter o seu sustento atravs do trabalho Page viveria apenas 
da mesada que Brad seria obrigado por lei a dar aos filhos e de uma pequena penso de alimentos que terminaria ao fim de dois anos. Assim, tinha esperanas de conseguir 
obter uma remunerao consistente atravs das suas pinturas e outros trabalhos artsticos, pois queria evitar ser obrigada a deixar Andy sozinho todos os dias; alm 
disso, no podia ter ainda a mais pequena noo de quais viriam a ser as necessidades de Allie, de quanto tempo seria necessrio dedicar-lhe, sob que condies a 
filha se encontraria e de quanto ela necessitaria dos seus cuidados.
       Contudo, tornava-se cada vez mais provvel que Allyson no viesse a recobrar a conscincia. Page ainda no o admitira perante Trygve, mas este pressentia 
que ela se debatia com essa idia, esforando-se por aceit-la. Nos ltimos tempos, Page referia-se inmeras vezes  filha, descrevendo o modo feliz como Allie vivera, 
a sua fora de carter e as suas realizaes; dir-se-ia que tentava recordar a todos quem Allyson fora e aquilo que alcanara, impedindo assim que a vida e a personalidade 
da filha cassem no esquecimento.
       - No quero que a vida dela tenha sido em vo - confessou Page a Trygve, numa noite de desnimo. - Queria que a Allie fosse recordada pela sua personalidade 
e no pelo acidente que sofreu, pela tragdia daquela noite, ou pelo estado em que ficou; esta no  a verdadeira Allie.
       - Eu sei. - Conversaram durante horas e horas, e, como sempre, Trygve esteve presente para apoiar e confortar Page.
       Ao v-la iniciar os murais do hospital, Trygve ficou muito feliz, pois sabia que isso era algo que Page adorava fazer. Alm do mais, oferecia-lhe a oportunidade 
de se manter por perto da filha; por vezes, Page interrompia a pintura apenas para ir at junto de Allie e dar-lhe um beijo. As ligaduras que envolviam a sua cabea 
tinham j sido tiradas, e o seu cabelo comeara a crescer. Assim, Allie parecia ainda mais indefesa e mais infantil, imobilizada na cama, com a cabea a descoberto 
apoiada na almofada e com o cabelo muito curto.
       - A me gosta muito de ti - murmurava Page ao ouvido da filha, antes de voltar para o seu trabalho, envergando uma velha camisola j suja de tinta e prendendo 
o cabelo no cimo da cabea com a ajuda de alguns pincis.
       Na mesma altura em que Page se dedicava a esse trabalho, deu incio tambm a um outro projeto muito especial. Trygve constatava com contentamento que, de 
sbito, Page impulsionara a sua vida profissional e recomeara a viver com determinao e alegria. Ela oferecera-se para participar num projeto de acompanhamento 
artstico na nova escola que Bjorn agora freqentava, onde era acarinhada e admirada por todos, especialmente plos alunos. Page ajudava-os a fazer modelos de plasticina, 
esculturas de barro e de cermica, aquarelas e desenhos. Os alunos ficavam extremamente orgulhosos dos seus trabalhos e Page ficava muito orgulhosa dos seus alunos. 
Era o trabalho mais compensador que ela alguma vez realizara, conforme confessou a Trygve uma certa noite em que preparavam juntos o jantar dos filhos.
       Bjorn explicou ento a todos que tipo de trabalho Page realizava na escola, e afirmou em seguida que gostava muito das aulas dela. Ao ouvi-lo Page esboou 
um largo sorriso de contentamento, pois ao longo das ltimas semanas tivera oportunidade de desenvolver um relacionamento muito estreito com Bjorn. Em virtude disso, 
sempre que Page se encontrava presente  hora de deitar, Bjorn fazia agora questo de despedir-se dela com um abrao e um beijo e pedia-lhe que lhe lesse uma histria, 
tal como Page costumava fazer ao deitar Andy. s vezes ela ficava surpreendida ao sentir a fora que Bjorn mostrava possuir sempre que a abraava ou lhe pegava ao 
colo, apesar de ele ser sempre muito carinhoso e terno.
       - O Bjorn  um amor - afirmou Page a Trygve, depois de uma noite se ter ido despedir dele  cama. Trygve ficava tocado pela ateno e carinho que Page dedicava 
aos seus filhos. Ela era verdadeiramente incansvel na ajuda que prestava a Chloe, e, sempre que podia, passava horas a ajud-la a executar os seus exerccios de 
recuperao rotineiros.
       - Gostava que tivesses sido tu a me dos meus filhos - confessou Trygve, com total honestidade, fazendo-a sorrir de satisfao.
       - O Bjorn disse-me o mesmo. Fico muito feliz por merecer esse elogio! - A relao que Page estabelecera com Bjorn durante as aulas de apoio artstico tinha 
muito valor para ela. Sentia que finalmente fazia algo em prol do seu talento, pois mesmo que de momento no fosse paga pelo seu trabalho, sabia que dentro em breve 
o seria. Na escola tinham-lhe perguntado se estaria disposta a desenvolver um futuro projeto artstico, e isso era algo que lhe agradava bastante, alm de ser perfeitamente 
compatvel com o horrio escolar de Andy.
       Page e o filho passaram o fim-de-semana do 4 de Julho em casa de Trygve. Page dormiu no quarto de hspedes e Andy ficou alojado no quarto de Bjorn. Todavia, 
durante a noite, Trygve esgueirou-se at ao quarto de Page, e rindo como dois adolescentes, fecharam a porta  chave para os filhos no os surpreenderem.
       - No podemos continuar a agir sempre deste modo. Mais tarde ou mais cedo, eles vo ter de aceitar a nossa relao - afirmou Trygve. No entanto, nenhum dos 
dois possua ainda coragem suficiente para comunicar aos filhos o que se passava, pois sabiam que era ainda demasiado cedo para Page dormir no quarto de Trygve  
vista de todos. Page tinha especial receio de perturbar Chloe, j que, de todos, ela era a mais possessiva em relao ao pai.
       - Se a Chloe alguma vez nos descobrir,  o fim! - comentava ela, rindo. - A tua filha era bem capaz de acordar a Allie s para lhe contar o que se passa conosco! 
- Page sorriu, pensando na filha, e Trygve aproveitou a pausa para a beijar de novo, o que fez ambos esquecerem o assunto dos filhos.
       No feriado, Trygve organizou um jantar e cada um deles convidou alguns amigos. Jane Gilson foi convidada, bem como os pais de Jamie Applegate e mais outros 
quatro casais. Era a primeira vez que a separao de Page era anunciada oficialmente e que ela e Trygve eram vistos juntos. De fato, aquela era igualmente a primeira 
vez que Page participava em alguma reunio de amigos depois do acidente; desde ento, muito se modificara na vida de todos, o que levava a crer que em vez de menos 
de trs meses tinham decorrido j trs anos. De uma forma geral, todos se manifestaram contentes por v-los juntos, pois Trygve h muito conquistara a simpatia da 
vizinhana.
       Foi ele quem se ocupou do churrasco, enquanto Page e as crianas se encarregavam das outras tarefas. Trygve permitiu que Bjorn rebentasse umas pequenas bombas 
de Carnaval, sob o seu olhar atento e enquanto vigiava Andy.
       - Isso  demasiado perigoso - queixou-se Page. Mas os dois rapazes estavam eufricos e nada de aborrecido aconteceu. Todos passaram um sero muito agradvel 
e os ltimos convidados partiram por volta das dez e meia.
       Page e Trygve estavam a arrumar a loua e a guardar a comida que tinha sobrado, quando Chloe veio ao encontro deles o ais depressa que pde, auxiliada por 
um par de muletas.
       - Venham depressa! - Chloe estava plida e nervosa, e Page no podia imaginar o que se havia passado. Enquanto seguia Chloe at  sala, com Trygve em silncio 
atrs dela, pensou que algum dos rapazes se tinha magoado, e essa suposio aterrorizou-a. No entanto, nem Page nem Trygve esperavam ver o que viram quando Chloe 
parou em frente da televiso, chamando a ateno de ambos para a terrvel imagem de um acidente que, aparentemente, ocorrera nesse mesmo dia em La Joila.
       "... a mulher do senador John Hutchinson...", disse o jornalista que noticiava o acontecimento, "esteve envolvida na coliso que ocorreu nas primeiras horas 
do dia em La Joila; o acidente vitimou uma famlia de quatro membros, e deixou a filha de Mistress Hutchinson, uma criana de doze anos, gravemente ferida, embora 
o seu estado no seja considerado de risco. Mistress Hutchinson foi detida alguns momentos depois, acusada de homicdio por conduo perigosa. Os testes a que foi 
submetida demonstraram claramente que a acusada conduzia num estado grave de alcoolizao; o senador ainda no prestou quaisquer declaraes, mas, durante a manh, 
o seu porta-voz oficial anunciou que, apesar das provas apontarem para a possvel culpa de Mistress Hutchinson,  muito provvel que tudo no passe de um engano. 
Contudo...", o jornalista falou ento diretamente para a cmara, como se se apercebesse da inquietao com que Page recebia a notcia, "Mistress Hutchinson esteve 
envolvida num outro acidente semelhante ao de hoje, ocorrido em Abril deste ano na cidade de So Francisco. O acidente deu-se devido ao choque de duas viaturas na 
Ponte Golden Gate e ocasionou a morte de um rapaz de dezessete anos, deixando duas raparigas de quinze anos em estado grave. No entanto, ningum foi considerado 
responsvel por este acidente, ocorrido h apenas onze semanas. Quanto ao acidente de hoje, as investigaes prosseguem em La Joila." O jornalista passou ento a 
referir uma manifestao ocorrida nesse dia em Los Angeles, mas Page, Trygve e Chloe continuaram em silncio, de olhos fitos no televisor. Laura Hutchinson tinha 
morto uma famlia de quatro membros e fora presa por conduzir alcoolizada.
       - Meu Deus... - murmurou Page, deixando-se cair numa poltrona, chorosa. - Ela tinha bebido naquela noite... de certeza! E quase vos matou aos quatro... - 
Page no conseguia parar de chorar, tal como Chloe. Trygve apagou ento a televiso e sentou-se junto das duas. Alguns instantes depois, os pais de Jamie telefonaram 
para comentar o sucedido e Page desejou ter coragem para telefonar aos pais de Phillip. Contudo, sabia que no demoraria muito at algum os informar do que acabara 
de acontecer em La Joila. Afinal, as suspeitas de Trygve haviam sido fundadas.
       Trygve voltou a ligar a televiso e ouviram ento mais um relato da mesma notcia, num outro canal. Desta vez, contudo, as notcias eram ainda piores: Laura 
Hutchinson provocara a morte de uma jovem me de vinte e oito anos, do marido desta ltima, com apenas trinta e dois anos de idade, de uma menina de dois e de um 
rapaz de cinco; para alm disso, a me das duas crianas estava grvida de oito meses, o que significava que, em vez de quatro, haviam morrido cinco pessoas. Por 
sua vez, a filha de Laura Hutchinson tinha partido um brao, levara quinze pontos na face esquerda e sofrera uma concusso menor. Na filmagem do local distinguiam-se 
as ambulncias, os carros de bombeiros e todos os outros automveis que foram obrigados a sair da estrada. A uma escala menor, mais seis ou sete carros tinham tambm 
colidido, embora no houvesse mais feridos a registrar. Page sentia-se agoniada e enfraquecida ao ouvir aquela terrvel descrio.
       - Oh, meu Deus...! - exclamou ela. De fato, pouco mais havia para dizer, exceto que o sucedido acabava de provar a inocncia de Phillip Chapman. Page imaginou 
ento o que sentiriam os seus pais ao tomar conhecimento da notcia. - Ela vai ser presa? - perguntou a Trygve.
       -  provvel. No creio que o senador seja capaz de a ilibar desta responsabilidade. - O senador era uma figura bastante popular, mas igualmente polmica, 
considerado uma espcie de estrela de cinema do campo poltico. Era evidente que o fato de ser casado com uma alcolica em nada contribua para a promoo da sua 
carreira. Aparentemente, at essa data tinham conseguido abafar esse problema, mas o mais importante, que era impedir a mulher de conduzir, no haviam conseguido. 
- Ela acabou de provocar a morte de cinco pessoas e isso  um fato demasiado srio para poder ser contornado; no creio que o possam fazer. Laura Hutchinson vai 
ter de ser julgada pelo que fez. - A mulher do senador era acusada de ter provocado a morte de quatro pessoas por conduzir alcoolizada, uma vez que no podiam apresentar 
queixa pela morte do feto. As equipes de salvao ainda tinham feito os possveis para o salvar, atravs de uma operao cesariana de emergncia, mas o beb tinha 
morrido imediatamente aps o impacto que causara a morte sbita da me; fora j tarde de mais para salvar essa vida.
       - Ela  responsvel pela morte de seis pessoas - afirmou Page, j mais calma, incluindo Phillip na sua contagem. E embora ela no o pudesse ainda admitir, 
se Allie morresse, esse nmero aumentaria para sete mortes. - Como  que ela pde ir ao funeral do Phillip? Como  que essa mulher teve coragem para tanto?
       - Foi uma atitude extremamente bem pensada; conferiu-lhe uma imagem mais simptica e mais humana - explicou Trygve, acertadamente.
       - Que horror! - exclamou Page, perturbada. Nessa noite, ela chorou nos braos de Trygve, sentindo que finalmente tinham descoberto quem matara, ou quase matara, 
as suas filhas. Essa descoberta no alterava nada, mas tornava o acidente ainda mais real, uma vez que j se sabia quem era o responsvel e porqu. Para Trygve e 
para Page no havia a mais pequena dvida de que Laura Hutchinson estivera embriagada na noite em que o seu automvel colidira com o de Phillip Chapman, na Ponte 
Golden Gate.
       No dia seguinte, Trygve examinou cuidadosamente os jornais e durante o pequeno-almoo fez questo de ouvir o noticirio. Foi ento que ouviram, com tristeza, 
as declaraes que o senador concedeu  imprensa, anunciando o seu profundo pesar e a mgoa da mulher. Declarou tambm que as despesas dos funerais ficariam a seu 
cargo, como seria natural, e que seria levada a cabo uma completa investigao, cuja concluso seria anunciada a seu devido tempo. O senador afirmou em seguida que 
possua srias dvidas a respeito das condies em que se encontrava o automvel da mulher; como tal, acreditava sinceramente que tanto os traves como a coluna 
de direo no ofereciam as condies de segurana bsicas. Ao ouvir semelhante justificao, a indignao de Page aumentou. A imagem seguinte mostrava o senador 
de mos dadas com a filha que estivera tambm envolvida no acidente. O esforo que a criana efetuava para esboar um simples sorriso denunciava o quanto ainda se 
encontrava assustada e nervosa. Quanto a Laura Hutchinson, noticiavam que permanecia incontactvel, em estado de choque e sob o efeito de sedativos. Segundo a verso 
de Page, ela estava apenas a recuperar, internada nalguma clnica de desintoxicao.
       Quando abriram a porta da casa com o fim de se dirigirem para o hospital Page e Trygve constataram ento que estavam a ser filmados, e deparou-se-lhes a presena 
de quatro insistentes jornalistas. Estes pretendiam fotografar Chloe sentada na cadeira de rodas ou caminhando com o par de muletas, e queriam tambm saber a opinio 
de Trygve acerca do acidente em La Joila.
       - Foi terrvel, um acontecimento muito chocante - respondeu Trygve, num tom grave e srio. Recusara-se, no entanto, a permitir que fotografassem Chloe. Foi 
s no interior do carro de Trygve, que, de sbito Page se apercebeu que seria igualmente provvel que estivessem jornalistas no hospital,  sua espera. Assim, quando 
chegaram, Page correu para a unidade de cuidados intensivos, desejosa de impedir que fotografassem a filha no estado em que esta se encontrava. De forma alguma permitiria 
que a transformassem num espetculo de horror ou num motivo de piedade alheia. Aquela no era a Allyson Clarke que todos haviam conhecido, e ningum tinha o direito 
de a utilizar com o fim de exacerbar a indignao pblica. Independentemente da culpa e da responsabilidade de Laura Hutchinson, Page no permitiria que utilizassem 
Allie para a atormentar.
       Quando se aperceberam da sua identidade, seis jornalistas e fotgrafos amontoados no corredor da unidade de cuidados intensivos correram ao seu encontro e 
tentaram det-la, colocando-lhe inmeras questes.
       - Como  que se sentiu depois de tomar conhecimento de que Laura Hutchinson foi a responsvel pelo acidente da sua filha Mistress Clarke? Qual  o estado 
de sade em que ela agora se encontra? Ainda considera possvel que ela venha a recuperar a conscincia? - Os jornalistas tinham tambm tentado entrevistar o mdico 
de Allyson, conforme seria de esperar, mas este recusou-se a atend-los, apesar da insistncia. Os jornalistas ali presentes tinham at tentado subornar uma enfermeira, 
de forma a poderem tirar uma breve fotografia de Allyson, mas infelizmente para eles, a enfermeira escolhida havia sido Frances. Esta ltima ameaara de imediato 
expuls-los do hospital e process-los por desacato e tentativa de suborno. Frances viera igualmente em auxlio de Page, enquanto Trygve se esforava por convenc-los 
a abandonar o hospital. Page repetia, entretanto, que no desejava prestar nenhuma declarao.
       - Mas no se sente indignada, Mistress Clarke? No se sente revoltada pelo estado em que Laura Hutchinson deixou a sua filha? - Os jornalistas tentavam obrig-la 
a falar, usando todos os meios para alcanar esse fim.
       - S posso lamentar o ocorrido - respondeu Page, com dignidade, acrescentando ao passar por eles: - Lamento por todos ns, os que perdemos entes queridos 
ou sofremos as conseqncias deste acidente. E o meu corao est com os familiares da famlia acidentada em La Joila. - Page no prestou mais nenhuma declarao 
e pde finalmente dirigir-se para a enfermaria na companhia de Trygve, ambos to abalados como se tivessem enfrentado um ciclone. Assim que entraram, as enfermeiras 
apressaram-se a fechar as portas e a correr as persianas, para que ningum pudesse fotografar Page ou Allie.
       Nesse dia, Trygve telefonou ao seu amigo jornalista e no pde deixar de ficar impressionado com as informaes que este obtivera. Laura Hutchinson tinha 
registrados quatro internamentos numa clnica muito conhecida de desintoxicao, situada em Los Angeles. Todos eles tinham ocorrido nos ltimos trs anos e a julgar 
pelas aparncias, nenhum havia sido bem sucedido. Ela fora internada com outro nome, mas na prpria clnica algum havia confirmado a presena anterior da mulher 
do senador. Alm disso, dos processos da polcia de trnsito constava que Laura Hutchinson estivera envolvida noutros seis pequenos acidentes, e ainda num outro 
mais grave, ocorrido em Martha's Vineyard, local onde a famlia do senador costumava passar frias. Desses acidentes no constava nenhuma vtima mortal, excetuando 
aquele ocorrido na Ponte Golden Gate e o ltimo; todavia, tinham ficado feridas vrias pessoas e, uma das vezes, a prpria Laura Hutchinson havia sofrido um traumatismo. 
 claro que tudo havia sido convenientemente abafado, e, sempre que possvel, os prprios processos tinham sido arquivados. Mas o amigo de Trygve conseguira obter 
todas essas informaes, chegando  concluso que deveria ter sido necessrio recorrer a vrios subornos para arquivar os processos e tambm a alguns favores polticos. 
Os advogados do senador e o seu departamento de relaes pblicas tinham conseguido esconder os processos de Laura Hutchinson, efetuando assim um trabalho digno 
de nota.
       Apenas nesse ano, esta ltima ferira a sua prpria filha, causara a morte de seis pessoas, deixara uma outra em estado de coma e por pouco no causara ainda 
a invalidez de outra; era uma soma verdadeiramente terrvel.
       No fim do dia, a reao pblica ao assunto tinha atingido enormes propores e tendia a alastrar ainda mais. A Associao das Mes Contra os Condutores Embriagados 
tinha j concedido algumas entrevistas, tal como os pais de Phillip, que num outro debate haviam referido a jovem vida a que Laura Hutchinson pusera fim, anunciando 
publicamente a sua indignao pela reputao manchada do filho. Enquanto isso, o porta-voz do senador insistia que o acidente fora devido a uma falha dos traves 
e da coluna de direo do automvel conduzido por Laura Hutchinson. No entanto, no ia ser fcil inverter a opinio pblica a favor desta ltima, que continuava 
"impossibilitada de prestar declaraes".
       Na semana seguinte, dois dos mais populares programas de televiso tinham entrevistado membros de famlias destroadas por acidentes ocorridos em circunstncias 
semelhantes. Nos noticirios, repetia-se a imagem de Laura Hutchinson, de culos escuros, a encaminhar-se apressadamente para o tribunal, acusada de infringir a 
lei por ter conduzido sob o efeito do lcool. A pena mxima que poderia obter seriam quarenta anos de deteno, os quais Page considerava muito pouco como paga por 
aquilo que lhes devia.
       Quando Page contemplava a filha imobilizada na cama do hospital, no podia deixar de pensar em Laura Hutchinson e na jovem me que morrera grvida de oito 
meses.
       A meio da semana, a imprensa dedicou a mxima cobertura ao tema. Continuaram a entrevistar os pais de Phillip, indagando o que estes sentiam em relao  
morte do filho, e insistiram igualmente em importunar os pais de Jamie, a prpria Page, Brad e Trygve. Entretanto, os jornalistas continuaram a freqentar o hospital 
e o produtor de um certo programa televisivo tentou convencer Page a permitir que filmassem Allie.
       - No quer que as outras mes se inteirem daquilo que lhe sucedeu? Elas tm todo o direito de no permitir que pessoas como Laura Hutchinson coloquem a vida 
dos seus filhos em risco - explicava uma jovem jornalista a Page, num tom muito agressivo. - A senhora tem obrigao de as ajudar!
       - Ver a Allyson no vai contribuir para alterar nada. - A maior preocupao de Page consistia em proteger a filha.
       - Ento a senhora concede-nos uma entrevista? - Page ponderou nessa proposta e depois, por m, concordou em conceder uma breve entrevista no corredor do hospital, 
com o principal objetivo de fornecer mais uma prova contra o processo de Laura Hutchinson, desencadeado pelo acidente em La Joila. Nessa entrevista Page comeou 
por expor o que sucedera a Allyson trs meses antes, quais os efeitos fsicos causados pelo acidente, e em que estado a filha se encontrava desde ento. Foi uma 
exposio muito clara e objetiva, que fez com que, por breves instantes, Page tivesse sentido contentamento pelo fato de ter concordado com aquela entrevista.
       Mas, de sbito, a mesma jovem agressiva indagou se a vida de Page havia sofrido quaisquer outras alteraes devido ao acidente. "A sua vida sofreu qualquer 
outra modificao devido a esse acidente?" Ao ouvir essa questo Page apercebeu-se de que a jornalista estava a par da sua separao. Todavia, no fazia parte dos 
seus planos transformar a sua vida num motivo de piedade para os espectadores do programa, e por isso fugiu  questo.
       - Tem mais algum filho Mistress Clarke?
       - Tenho, sim - confirmou Page, calmamente. - Tenho um outro filho, Andrew.
       - E qual foi a reao do seu filho ao que se passou?
       - O que se passou foi muito duro para todos ns - respondeu Page co candura.
       - No  verdade que, algumas semanas aps o acidente, o seu filho fugiu de casa? Considera que essa fuga foi um efeito do trauma causado pelo acidente? - 
Antes de a entrevistarem, os jornalistas tinham examinado os arquivos da Polcia e Page sentiu-se imediatamente revoltada com semelhante intromisso na sua vida 
familiar. A imprensa utilizava-os somente para explorar o caso; Trygve, que sempre se recusara a prestar quaisquer declaraes, estivera certo desde o incio.
       - Eu diria que tem sido uma fase muito dura para a nossa famlia, mas estamos a tentar enfrent-la da melhor forma possvel. - Page tentou esboar um sorriso 
e meditou no motivo que a levara a conceder aquela entrevista. - Gostaria apenas de acrescentar que, na minha opinio, os responsveis por este tipo de crime devem 
ser punidos da forma que a lei prev; apesar de essa pena no poder modificar as conseqncias desse ato - concluiu ela, ao finalizar a entrevista. Contudo, se o 
problema de alcoolismo de Laura Hutchinson tivesse sido enfrentado e tratado h alguns anos atrs com maior honestidade, talvez ela no se encontrasse atrs de um 
volante naquela trgica noite do ms de Abril.
       Ao assistir  entrevista na televiso Page no pde deixar de ficar desanimada, pois tinham-na transmitido de forma a colocar na sua boca coisas que ela no 
pretendera dizer; dessa forma, fizeram-na parecer pattica. No entanto, talvez fosse possvel incriminar Laura Hutchinson por justa causa, se todos se inteirassem 
das conseqncias que o seu procedimento tivera. O acidente que vitimara Phillip no seria considerado prova admissvel, uma vez que a mulher do senador no havia 
sido submetida a nenhum teste de alcoolemia; mas no deixava de ilustrar claramente a sua conduta passada.
       Nada daquilo modificaria a vida de Allyson, mas Page sentia algum conforto por saber que a responsvel pelo estado em que a filha se encontrava ia ser obrigada 
a responder perante a justia. O julgamento tinha sido marcado para a primeira semana de Setembro.
       
CAPTULO 18
       Trygve e os filhos partiram de frias para o lago Tahoe no primeiro dia de Agosto, e Page prometeu reunir-se a eles em meados do mesmo ms. Como Brad se encontrava 
na Europa com Stephanie, Page vira-se obrigada a inscrever Andy num centro de atividades infantis, por no poder passar todo o dia com o filho. Trygve oferecera-se 
para levar Andy consigo para Tahoe, mas este ltimo no queria deixar a companhia da me. Andy perdera muito da segurana que possura antes do acidente, tanto que 
agora j no gostava de dormir em casa dos amigos, e por vezes ainda tinha pesadelos com Allie.
       J tinham passado perto de quatro meses desde a data do acidente e a to temida barreira dos trs meses estava j ultrapassada sem que se verificasse a mais 
leve alterao no estado de Allyson; Page j quase aceitara essa idia. Antes, tinha desejado intensamente que a filha acordasse e que voltasse a ser o que era, 
mesmo que a sua recuperao demorasse muito tempo. Teria feito tudo ao seu alcance para ter a filha de volta, mas comeava lentamente a aceitar que tal nunca viria 
a acontecer.
       Trygve telefonava-lhe de Tahoe todos os dias. A vida de Page obedecia agora sempre  mesma rotina: de manh levava Andy para o centro de atividades, em seguida 
dirigia-se para o hospital, ficava algum tempo com Allie e depois auxiliava o terapeuta a exercitar os membros da filha, para impedir que os seus msculos atrofiassem 
por completo. Seguidamente, Page dedicava-se  pintura do seu mural e, por fim, regressava para junto da filha. No final do dia, ia buscar Andy e seguiam os dois 
para casa, onde Page preparava o jantar.
       Page sentia muito a falta de Trygve, mais do que ela prpria imaginara poder vir a sentir. Uma vez, Trygve sentiu tantas saudades dela, que regressou a Ross, 
apenas para passar uma noite na sua companhia e partir de novo para Tahoe na manh seguinte. Ele continuava a agir de um modo encantador e os dois eram cada vez 
mais felizes juntos.
       Page finalizara entretanto o primeiro mural e, na primeira semana de Agosto, dera incio  cena porturia destinada  sala de espera. Nos seus esboos iniciais, 
existiam muitos pormenores bastante complicados, e Page aproveitava o tempo passado  cabeceira de Allie para estudar a melhor forma de os pintar. Estava uma tarde 
calma e o sol de Vero iluminava toda a enfermaria; de sbito, Page sentiu que, pousada sobre a cama, a mo de Allie esboara um leve movimento. Todavia, isso era 
algo que j ocorrera anteriormente, e no tinha implicaes na sua possvel recuperao, conforme Page j fora avisada. Tratava-se apenas de uma reao do seu corpo 
 eletricidade existente no crebro. Todavia, antes de regressar ao seu estudo, de lpis em punho, Page levantou a cabea e olhou para a filha. Depois, mergulhou 
de novo no trabalho, e constatou que existia um determinado pormenor que ainda no descobrira como realar. Enquanto ponderava nisso, fixou o seu olhar na janela. 
Em seguida, passou rapidamente os olhos pela filha, e descobriu ento um movimento nas suas mos. Contudo, desta vez o movimento era diferente: as mos de Allie 
pareciam tentar agarrar os lenis e chamar a ateno da me. Era algo que nunca acontecera antes, e Page continuou a fit-la, perguntando-se se se trataria apenas 
de uma outra reao semelhante  primeira, ou se seria algo de novo.
       Foi ento que, de uma forma quase imperceptvel Page viu Allie mexer a cabea. Dir-se-ia que tentava volt-la na direo de Page, como se fosse capaz de sentir 
a sua presena na sala. Page permanecia de olhar fixo na filha, com a respirao suspensa. O seu instinto dizia-lhe que Allie se apercebia de que se encontrava acompanhada 
por algum, e que ela prpria tinha conscincia de que estava ali na sala.
       - Allie? Ests a ouvir-me? - Esta nova percepo era muito mais forte e mais real do que aquela que Page sentira quando Allie estivera s portas da morte, 
apesar de essa sensao anterior ter sido igualmente muito real e convincente; mas desta vez era uma certeza diferente. - Allie... - Page pousou ento o bloco e 
o lpis e segurou na mo da filha, tentando comunicar com ela, caso essa tentativa fosse possvel. - Allie... podes abrir os olhos, querida... A me est aqui contigo; 
abre os olhos... est tudo bem, no precisas ter medo de nada; a me est aqui - afirmava Page meiga e suavemente, enquanto acariciava a mo da filha. Ento Allie, 
muito levemente, apertou a mo da me e dos olhos de Page brotaram de imediato algumas lgrimas. Tinha a certeza de que Allyson a ouvira, tinha a certeza absoluta. 
- Allie... eu senti que tu apertaste a minha mo, eu sei que me ests a ouvir. Tenta abrir os olhos, minha querida, tenta...! - Depois, muito lentamente, enquanto 
as lgrimas de Page continuavam a cair, as plpebras de Allyson tremeram, para de seguida permanecerem imveis. Era como se o esforo de abrir os olhos tivesse sido 
demasiado para Allie, e ela tivesse ficado subitamente exausta. Page continuou sentada a seu lado, imaginando se no seria possvel que a filha estivesse mergulhada 
num coma ainda mais profundo. No havia o mais pequeno sinal de vida; contudo, subitamente Page sentiu de novo que Allie lhe apertava a mo, mas desta vez, com mais 
fora.
       Page sentiu um desejo incontrolvel de a abandonar, de gritar a todos que Allie estava de novo consciente, que no seu ntimo a filha sempre se esforara por 
viver, mas deixou-se ficar imobilizada, de tal forma se encontrava absorvida e hipnotizada pelo que se passava diante dos seus olhos. Chorando silenciosamente enquanto 
a observava, Page instigava-a a tentar de novo, quando as plpebras de Allyson voltaram a agitar-se. E se tudo no passasse de um horrvel engano, se os mdicos 
afirmassem que eram apenas espasmos e ela nunca viesse a recobrar os sentidos...?
       - Querida, tenta abrir os olhos, por favor... eu amo-te muito, Allie; por favor... - Page soluava j, quando as plpebras da filha tremeram de novo e os 
olhos de Allie se abriram muito lentamente para ver a me pela primeira vez em quatro meses.
       O seu olhar era incerto e longnquo, como se Allyson desconhecesse tudo aquilo que via; por fim, os seus olhos pousaram nos de Page e Allie murmurou:
       - Me...
       Page no conseguia parar de chorar, e inclinando-se para beijar ambas as faces da filha, as suas lgrimas molharam o rosto de Allie. Foi ento que esta pronunciou 
de novo a mesma palavra, mas desta vez de uma forma um pouco mais audvel. Apesar de no passar de um leve sussurro, era uma palavra e a palavra mais doce que Page 
alguma vez ouvira: "me"...
       Page permaneceu durante muito tempo perto de Allie, chorando de alegria de olhos postos na filha, at que Frances se aproximou, incrdula.
       - Meu Deus... ela est acordada! - Frances correu a chamar o doutor Hammerman, e quando este chegou, Allie tinha adormecido. No entanto, no restavam dvidas 
de que no se encontrava de novo em estado de coma.
       Page explicou ao mdico aquilo que acabara de suceder e ele examinou Allie rapidamente. Aps algum tempo, Allyson abriu os olhos e fitou-o. No o conhecendo, 
procurou a me com os olhos e, assustada, comeou a chorar.
       - No tenhas medo, minha querida. O doutor Hammerman  nosso amigo;  ele quem te vai ajudar a ficar boa. - Page j no se importava com mais nada; Allie 
tinha recobrado os sentidos, tinha aberto os olhos e falara com ela. O que quer que se seguisse no seria nada, comparado com a emoo que sentia.
       O mdico pediu a Allyson que apertasse a sua mo e que olhasse para ele, ao que ela obedeceu. Em seguida, pediu-lhe que falasse com ele, mas Allie permaneceu 
em silncio e abanou a cabea, enquanto os seus olhos voltaram a procurar a me. J no corredor, o mdico explicou ento a Page que era muito provvel que a filha 
tivesse esquecido a maior parte das palavras. Na verdade, Allie perdera a maioria das principais capacidades motoras e ainda no era possvel verificar at que ponto 
o seu crebro ficara danificado.
       - Ela pode voltar a aprender todas as atividades: vai aprender a sentar-se, a andar, a mover-se, a alimentar-se, etc. A sua filha pode mesmo voltar a aprender 
a falar; temos apenas de verificar o que foi lesionado e at que ponto ela pode recuperar - comentou o mdico, analisando o fato como apenas mais um acontecimento 
da sua profisso. Page, contudo, estava disposta a fazer o impossvel pela filha e a trabalhar o mais arduamente que pudesse para traz-la de volta  normalidade; 
queria fazer tudo por Allie.
       Quando o doutor Hammerman a deixou Page correu para o telefone, para contar a Trygve o que acontecera.
       - Tem calma e fala mais devagar... - Trygve falava do seu telefone porttil e mal conseguia distinguir a voz de Page. Apercebera-se somente de que o mdico 
anunciara algo a respeito das capacidades motoras de Allyson, mas no entendera mais nada. - Repete o que disseste, mas mais devagar. - Page chorava e ria ao mesmo 
tempo, o que dificultava ainda mais a comunicao entre os dois.
       - Ela falou comigo... a Allie falou! - repetiu Page aos gritos, fazendo com que Trygve quase deixasse cair o telefone. - Ela est acordada! Abriu os olhos, 
olhou para mim e disse "me"... - Depois do dia do nascimento da filha, aquele era o momento mais bonito da vida de Page, excetuando o dia em que Andy nascera... 
e aquele em que haviam tomado conhecimento de que ele sobreviveria. - Oh, Trygve...! - Page no conseguia dizer mais nada, e tambm no podia deixar de chorar copiosamente. 
Trygve, entretanto, comeara tambm a chorar, emocionado, enquanto os seus filhos o observavam, receosos. Resolveram ento vir para perto do pai e observavam-no 
com ansiedade, desejando entender o que se havia passado. No percebiam se o pai chorava de alegria, ou se havia sucedido algo terrvel, admitindo mesmo a possibilidade 
de Allie ter morrido. Chloe, em particular, mostrava-se aterrorizada.
       - Ns vamos ter contigo o mais depressa possvel - declarou Trygve, apressadamente. - Volto a ligar-te mais tarde; agora preciso de contar a novidade aos 
meus filhos! - concluiu com entusiasmo, desligando o telefone depois de Page o fazer. Ela regressou ento para a unidade de cuidados intensivos, enquanto Trygve 
relatava o sucedido.
       - Mas ela vai ficar bem? - perguntou Chloe, mal podendo acreditar em semelhante notcia.
       - Ainda  muito cedo para ter a certeza - respondeu Trygve, abraando a filha e ponderando que, em vez de Allie, poderia facilmente ter sido Chloe a sofrer 
um traumatismo craniano.
       Toda a famlia regressou de Tahoe nessa noite, mas ao chegarem ao hospital, Allyson estava novamente a dormir.
       No entanto, desta vez, estava apenas adormecida, como qualquer outra pessoa, e j no em coma. Gradualmente, o ventilador a que estivera ligada comeava a 
ser retirado, embora ela permanecesse ainda na unidade de cuidados intensivos. Alis, os mdicos desejavam mant-la a ainda durante mais algum tempo, de forma a 
facilitar a vigilncia a que estaria sujeita.
       - O que  que ela disse? - perguntou Chloe, querendo saber tudo o que havia sucedido  sua amiga. Nesse momento, estavam todos sentados  volta da mesa da 
cozinha da casa de Trygve.
       - Ela disse "me"... - respondeu Page, que relembrando esse momento comeou de imediato a chorar, embora prosseguisse mesmo assim com a descrio de tudo 
o que sucedera nesse dia. Ao ouvi-la, Trygve no pde deixar de se comover, tal como Chloe e Bjorn, que ficava muito perturbado quando via algum a chorar. De mos 
dadas, Bjorn e Andy ouviam Page com muita ateno.
       Todos eles se sentiam felizes e na manh seguinte Page levou Chloe consigo para visitar Allie. Esta abriu os olhos e fitou-a durante muito tempo, at que, 
por m, franziu as sobrancelhas, olhou para a me e afirmou:
       - Menina... - E, em seguida, levantou o brao e apontou com o dedo para Chloe.
       - Chama-se Chloe - respondeu a me, cautelosamente. - A Chloe  tua amiga, Allie. - Allyson olhou ento de novo para Chloe e fez um sinal afirmativo com a 
cabea. Era como se, no seu ntimo, ela o soubesse, apesar de ter esquecido todas as palavras que definiam aquilo que sentia. Tal como se estivesse num outro planeta.
       - Eu julgo que ela me conheceu - afirmou Chloe, depois de sarem. Contudo, mais tarde, admitiu a Trygve que ficara desapontada por Allie no a ter reconhecido 
mais prontamente.
       - Tens de lhe dar mais algum tempo, Chloe. A Allie s agora recobrou os sentidos, e vai necessitar de muito tempo at voltar a ser o que era, ou quase aquilo 
que era... - Se  que isso algum dia viria a ser possvel.
       - Quanto tempo, pai?
       - No sei bem, mas o doutor Hammerman avisou a Page de que a recuperao da Allyson poderia ser muito demorada. Talvez sejam necessrios mais dois ou trs 
anos at a Allie recuperar as principais capacidades. - Nessa altura, Allyson teria dezoito anos e, entretanto, teria de voltar a aprender a levantar-se, a caminhar, 
a comer com garfo e faca, a falar... De fato, era algo bastante impressionante.
       Nessa noite Page relatou-lhes os progressos que a filha alcanara. Os terapeutas do hospital ocupavam-se dela dia e noite: Allie possua um fisioterapeuta 
que a auxiliava a mover-se, um especialista na recuperao das principais capacidades motoras e um terapeuta da fala, cujos pacientes sofriam de afasia ou de outras 
dificuldades muito comuns depois de um ataque cardaco. Os prximos meses iam ser muito trabalhosos para Allyson, e tambm para Page.
       - E o que  que decides fazer quanto s frias em Tahoe? - indagou ento Trygve. Ele e os filhos tencionavam regressar para l na manh seguinte, e desta 
vez Trygve desejava levar Andy consigo, depois de lhe proporcionar uma breve visita  irm.
       - No sei - respondeu Page, mostrando-se preocupada. - No quero deix-la num momento destes... - E se Allie voltasse a ficar em coma? E se ela se visse impossibilitada 
de se mexer ou de falar? Contudo, eram apenas suposies, uma vez que o doutor Hammerman havia informado Page de que isso j no sucederia. Page poderia deixar Allie 
sem remorsos de qualquer espcie.
       - Porque  que no esperas mais uma ou duas semanas? De qualquer forma, no irias para Tahoe seno no fim do ms e depois podes vir visit-la de dois em dois 
dias, se quiseres. Eu posso trazer-te de carro, passamos aqui uma noite e regressamos no dia seguinte.  cansativo, mas no  nada de especial, comparado com o ritmo 
a que ests habituada desde h quatro meses. Agrada-te a minha idia? - Trygve estava sempre disposto a fazer tudo o que fosse necessrio de forma a tornar a vida 
de Page melhor e mais simplificada.
       - Agrada-me muito! - respondeu ela, beijando-o.
       - Eu gostava de levar o Andy comigo, Page. Tenho a certeza que ele vai adorar. - E ambos sabiam o quanto ele ficaria desapontado se a irm no o reconhecesse 
de imediato. Era melhor para ele estar longe e distrado.
       - Penso que ia ser muito bom para o Andy - concordou Page, que desejava ter o mximo de tempo disponvel para se dedicar  filha. Havia muito a fazer com 
Allie.
       - Eu venho buscar-te na prxima semana. Se for ainda demasiado cedo para deixares a Allie, passo alguns dias aqui contigo e partimos para Tahoe na semana 
a seguir.
       - Porque  que s to bom para mim? - murmurou Page, enquanto ele a puxava para junto de si.
       - Porque estou a tentar conquistar-te! - foi a resposta de Trygve.
       Page telefonara a Brad para a Europa, logo aps Allie ter recobrado os sentidos e ele ficara muito feliz, afirmando que mal podia esperar por voltar a ver 
a filha. No entanto, ao ver Allyson, tambm Brad ficou desapontado, tal como Chloe e Andy, que acabara por visitar a irm antes de partir para Tahoe com Trygve. 
Brad esperara que, ao entrar na enfermaria, a filha, mal o visse, se lanasse nos seus braos e gritasse "pap". Mas, em vez disso, Allie fitou-o com desconfiana, 
olhando em seguida para Page e murmurando: "homem". Durante muito tempo foi apenas essa palavra que ela foi capaz de pronunciar: "homem". Depois, observou-o muito 
atentamente, como se desejasse recordar aquelas feies to familiares. Foi apenas quando Brad se preparava para sair que Allie murmurou: "pai..."
       - Ela chamou-te! - anunciou Page, acenando a Brad, para o impedir de sair. - Ela disse "pai". - Brad abraou a filha, comovido, mas no pde deixar de abandonar 
o hospital com algum alvio; no suportava ver a filha to limitada. Allie estava sentada na cama, mas no conseguia ainda andar, sendo necessrio muito esforo 
para realizar um gesto, ou para articular uma simples palavra.
       No entanto, quando Trygve regressou de Tahoe, passada uma semana, mostrou-se muito impressionado com os progressos de Allie. Ao v-lo, esta apressou-se a 
pronunciar o nome da filha de Trygve, "Chloe", mostrando assim que j sabia que ele estava de alguma forma relacionado com ela.
       - O meu nome  Trygve - explicou ele a Allyson. - Sou o pai da Chloe.
       Allie fez um sinal afirmativo com a cabea e um instante depois esboou um sorriso, o que era um gesto novo para ela. Allyson podia sorrir, de fato, mas com 
algum atraso e no no momento exato que o pretendia fazer. Paralelamente, sucedia o mesmo em relao ao choro, que acontecia sempre alguns minutos depois daquilo 
que o motivava. O doutor Hammerman explicou a Page que esses atrasos eram naturais e que, com o decorrer do tempo, seriam corrigidos, apesar de isso exigir muita 
dedicao e um enorme esforo.
       - Ela est tima! - comentou Trygve com Page, bastante impressionado. De fato, se recordassem o estado em que Allie se encontrara no ms anterior, havia a 
registrar um grande progresso.
       - Tambm acho! - respondeu Page, sorrindo de contentamento. - E a Allie percebe muito mais do que d a entender. Vejo na sua expresso que ela se esfora 
muito para perceber e para progredir. Ontem, trouxe o urso de pelcia que ela tem desde pequena e ela chamou-lhe Sandwich; o nome dele  Sam, o que j  bastante 
parecido. E depois, ela riu-se, assustou-se, e desatou a chorar. As reaes dela so encadeadas e tm o mesmo efeito de uma bola de neve, mas isso j  fantstico!
       - Qual  a opinio do doutor Hammerman?
       - Ele pensa que  ainda um pouco cedo para ter certezas, mas segundo os resultados dos exames, e a julgar plos progressos que ela tem alcanado, na opinio 
dele a Allie tem noventa e cinco por cento de hipteses de recuperar. - Trygve recebeu a notcia quase com incredulidade. Afinal, um ms antes, todos tentavam habituar-se 
 triste idia de que Allie permaneceria para sempre inconsciente. Page concluiu ento: - Isso significa que a Allie nunca vai conseguir conferir um extrato bancrio 
e que talvez os seus reflexos nunca venham a ser to rpidos que lhe permitam conduzir um automvel, embora ainda no haja total certeza disso; ela pode no voltar 
a danar muito bem e nunca vai conseguir efetuar raciocnios rpidos ou trabalhar em tradues simultneas, mas vai poder ter uma vida perfeitamente normal; vai 
poder freqentar a universidade, ter um emprego, constituir famlia, perceber anedotas, apreciar um bom livro, descrever algum acontecimento... ou seja, vai voltar 
a ser igual a todos ns, e a possuir a sua prpria personalidade. Vai apenas ficar um passo atrs daquilo que, se nada disto tivesse acontecido, poderia ter alcanado. 
- Recordando que Allie correra risco de vida e passara quatro meses em estado de coma, a possibilidade dessa conquista era j uma vitria admirvel.
       - Fico muito feliz - respondeu Trygve. Afinal, o caso de Allie no deixava de ser muito semelhante ao de Chloe:
       os seus sonhos de vir a ser uma bailarina tinham ficado desfeitos, mas ela podia ainda caminhar, danar e mover-se; e o mais importante era que podia continuar 
a viver.  certo que perdera algo, mas no perdera tudo. O mesmo no sucedera com Phillip, ou com todas as outras pessoas cuja morte Laura Hutchinson provocara em 
La Joila.
       No dia seguinte, Page explicou a Allyson que iria para o lago Tahoe na manh seguinte. Allie tinha chorado quando a me lhe comunicou que se ausentaria, mas 
tinha voltado a sorrir quando ela conclura que seria apenas por dois dias. Page no gostava de a deixar, mas sabia que viria visitar a filha pelo menos duas vezes 
por semana. E certo que esse plano era um pouco extenuante, mas Page insistia em cumpri-lo e Trygve entendia perfeitamente o que a levava a agir desse modo. Page 
desejava muito passar o pouco tempo livre que lhe restava na companhia de Andy, de Trygve e dos filhos, mas no podia abandonar completamente a filha.
       Ao viajarem por entre as montanhas Page sentia-se uma outra pessoa; h muitos anos que no se sentia to livre, to forte e com tanta vontade de viver. Pousou 
ento os seus olhos em Trygve e sentiu que nesse momento o seu corao poderia explodir de tanta felicidade.
       - Porque  que ests assim to sorridente? - Testemunhar o contentamento dela era o suficiente para o fazer feliz. Durante as ltimas semanas, Trygve sentira 
muito a falta de Page e ansiara pelo dia em que pudessem estar finalmente juntos.
       - Estou to feliz...! - respondeu ela, exibindo um largo sorriso.
       - No posso imaginar porqu... - brincou ele.
       - Mas eu posso; tenho todos os motivos do mundo para estar grata: dois filhos que por milagre sobreviveram, um homem que por milagre encontrei, e mais trs 
crianas por quem me apaixonei.
       - Realmente, isso no  nada pouco. Mas penso que ainda h espao para mais motivos de felicidade...
       - Talvez nos devssemos contentar com aquilo que j temos. Cinco crianas extraordinrias  mais do que a maioria das pessoas merecem.
       - Tretas...! - Trygve estava decidido a ter mais filhos, mas depois de tudo por que haviam passado Page no ousava pedir mais nada da vida. A recuperao 
de Allie era o maior milagre que ela sonhara que acontecesse.
       O curto perodo de frias que Page passou em Tahoe foi exatamente aquilo de que ela necessitava. Desta vez, Trygve e Page dormiram finalmente no mesmo quarto, 
e apesar da troa inicial de Bjorn e de Andy, todos se adaptaram muito bem a essa modificao.
       Foram umas frias tranqilas e repousantes. Passavam muito tempo a passear, a pescar e a descobrir novos locais; falavam sobre muitos assuntos, aproveitando 
para se conhecerem melhor uns aos outros, organizavam churrascos, acendiam fogueiras ao ar livre e houve at uma ocasio em que dormiram todos ao relento, debaixo 
do cu estrelado. Sem dvida, era a definio ideal de frias. Alm disso, as idas de Page a Ross, apesar de cansativas, tomavam sempre o seu esforo compensador, 
pois o progresso de Allie era espantoso.
       No final da segunda semana, ela j se podia levantar e dar alguns passos sozinha. Uma das vezes Allie sorriu para a me no momento certo e exclamou: "Ol, 
me! Ests boa?". Ela mostrou que se recordava igualmente do nome de Trygve e nunca se esquecia de perguntar por Chloe. Afirmou igualmente que desejava voltar a 
ver Andy, o qual Page levara ao hospital antes das frias em Tahoe. Page explicou ento a Allie que Andy estava a pescar no lago Tahoe.
       - Peixe... escorregadio... brrrrr! - exclamou ela, fazendo uma careta que provocou o riso de todos.
       - Sim, tens razo! - afirmou Trygve, to entusiasmado com os progressos que Allie demonstrava quanto a prpria Page. - E tambm no cheira nada bem...
       - Lixo! - Allie esforava-se por encontrar as palavras que pretendia, e eles riram de contentamento.
       - No diria tanto, Allie! Da prxima vez, vais conosco e eu ensino-te a pescar lixo! - Allie riu-se da piada de Trygve e este abraou-a. Ela era ainda muito 
bonita e era espantoso como o acidente no havia deixado quaisquer marcas exteriores no seu corpo; no caso de Allie, todas as marcas haviam sido internas.
       Trygve e Page regressaram no feriado do Dia do Trabalho1 para o lago Tahoe. A temperatura baixara um pouco e adivinhava-se j o fim do Vero. Ambos tinham 
pena que essa estao terminasse, e com ela as suas frias, pois embora estas tivessem sido curtas e constantemente interrompidas, haviam sem dvida contribudo 
muito para aliviar a tenso de Page e de Trygve. Todos eles teriam muito com que se ocupar quando regressassem a casa, especialmente Page, que tinha agendada a pintura 
de vrios murais e um projeto a que se dedicar, alm do trabalho que Allie lhe exigiria.
       
            1 Primeira segunda-feira de Setembro. (N. da T.)
       
       Ao tomarem conhecimento, atravs de um jornal, que o julgamento de Laura Hutchinson, em La Joila, estava marcado para a tera-feira seguinte, a alegria de 
todos foi novamente abalada.
       - Espero que seja condenada a cem anos de priso! - comentou Chloe com veemncia, pensando mais em Allie do que em si prpria, e  claro, em Phillip. Laura 
Hutchinson aceitara de bom grado que toda a responsabilidade do acidente fosse lanada sobre Phillip, e alimentara essa suspeita. Se nada mais tivesse sucedido, 
Phillip seria para sempre considerado culpado, enquanto que ela seria ilibada de todas as responsabilidades. Recentemente, tinham sido prestadas novas declaraes 
sobre o caso e uma testemunha afirmara que, na noite do acidente, Laura Hutchinson abandonara a festa a que comparecera j embriagada. Como  que a Polcia no o 
havia notado? Por que motivo no haviam tomado nenhuma providncia a esse respeito? Agora, era j tarde demais para descobrir o que se passara, mas pelo menos desta 
vez Laura Hutchinson seria responsabilizada pelo seu procedimento em La Joila.
       - A vida tem mudanas espantosas, no tem? - comentou Page pensativa, sentada ao lado de Trygve  beira do lago, ao entardecer. Regressavam a casa no dia 
seguinte e nesse momento Chloe e os rapazes estavam a arranjar-se, pois Trygve decidira levar todos a jantar a um restaurante novo, em Truckee. - H cinco meses 
atrs a minha vida era completamente diferente... e agora, pensa naquilo por que passamos e naquilo que alcanamos desde ento. Na vida, nunca se sabe o que pode 
acontecer. - No final daquela experincia, ambos haviam lucrado, mas a que custo! Para merecerem aquilo que agora possuam, tinham pago um preo muito elevado.
       - Nem gosto de relembrar aquele dia - respondeu Trygve, melancolicamente. - Ainda me lembro do que senti quando me avisaram... e depois de te encontrar no 
hospital; e pensava eu que elas estavam contigo!
       - E eu julgava que tinhas sido tu o condutor que morrera no acidente... Meu Deus, que momentos terrveis ns vivemos! - Page contemplou-o com os olhos muito 
abertos, sentindo um enorme respeito pelo poder do destino, por vezes to cruel e por vezes to bondoso. - Tivemos os dois muita sorte - concluiu ela, sorrindo e 
segurando a mo de Trygve entre as suas. - Foste to bom para mim, nestes ltimos meses.
       - Tu mereces ainda muito mais. S precisamos de esperar um pouco. - Page riu, como se a resposta de Trygve tivesse sido engraada. E de fato fora, ele  que 
ainda no sabia. - J chegaste a alguma concluso a respeito dos teus projetos futuros? - Trygve no queria pression-la, mas mencionara-o apenas para evitar que 
Page se esquecesse. Era ainda sua vontade casar com Page, depois do divrcio estar finalizado, no Natal.
       - Sim, cheguei - respondeu Page, num tom calmo e suave, fitando a outra margem do lago, enquanto Trygve a observava com ansiedade. Finalmente, voltou-se para 
ele com uma expresso que Trygve no soube definir e perguntou: - Tens a certeza de que  isto que queres, Trygve? No te esqueas que tenho muitas responsabilidades 
a eu cargo... tenho dois filhos, e o processo de recuperao da Allie no vai ser fcil.
       - Tal como o da Chloe; e o Bjorn vai ser sempre como hoje . E tu? Depois de toda a minha insistncia, como  que encaras as minhas responsabilidades?
       - O que acontece,  que eu gosto muito das tuas responsabilidades. Nem sabia que poderia sentir um amor to grande por filhos que no fossem meus! - Page 
aprendera a gostar at de Nick durante o curto espao de tempo que convivera com ele nas frias de Vero.
       - Eu diria que o sentimento  recproco - respondeu ele, sorrindo. De sbito, a sua expresso tornou-se mais sria e Trygve continuou: - Sempre fui de opinio 
de que no me deveria voltar a casar por causa do Bjorn. Eu julgava que no seria justo para ele, porque no imaginava que algum o pudesse amar tanto como eu. Tinha 
muito medo que o magoassem. Mas depois, surgiste tu... - Os olhos de Trygve umedeceram-se, e ele puxou-a ento para mais perto de si. - E s to carinhosa para ele... 
o Bjorn merece ter  sua volta quem o ame. Apesar das suas limitaes, ele tem um corao muito bondoso.
       - Tal como tu - afirmou Page, descansando a cabea no peito de Trygve e ponderando que at essa data ainda no tinha descoberto quais seriam as limitaes 
dele.
       - Como  que imaginas este Natal... ? - indagou ento ele, com um olhar repleto de segundas intenes. Page soltou uma gargalhada e respondeu:
       - Na verdade, j fazia tenes de discutir esse assunto contigo - afirmou ela, deitando-se na relva e fixando o seu olhar no dele.
       - Ests a falar a srio? - Trygve estava delirante. Anteriormente, Page mostrara-se relutante, mas desde que Allie recobrara os sentidos, tudo se modificara.
       - Talvez esteja; mas primeiro, vou ter de resolver um outro assunto contigo. - Page ficou mais sria e Trygve deitou-se de costas ao seu lado, esperando em 
silncio que ela continuasse. - H algo que eu gostaria que soubesses... - Talvez Page se fosse referir a Allie... ou talvez a Brad; talvez ela lhe tencionasse comunicar 
que ainda no havia esquecido o marido. Trygve j havia admitido tal possibilidade antes, mas Page dava mostras de se ter j adaptado  separao, muito mais rapidamente 
do que ele se adaptara  ausncia de Dana. - Lembras-te de me teres dito que gostarias de ter j um filho?
       Page mostrava-se preocupada e ele no pde deixar de rir, pois sabia que isso era algo a que ela se opunha. Page admitira que tambm gostaria de voltar a 
ter mais filhos, mas receava ter j demasiada idade e no queria que nada mais a desviasse da ateno que tencionava dedicar  recuperao de Allyson.
       - Esse desejo pode ficar para depois, Page. Apenas achei que seria muito bom se isso fosse possvel... mas se precisas de mais tempo, ns temos ainda idade 
para esperar o suficiente. - E, caso Page chegasse entretanto  concluso que no desejava ter mais filhos, ele aceitaria a sua deciso. Todavia, Page continuava 
a fit-lo e agora franzia as sobrancelhas, parecendo ainda mais inquieta. - No ests a quebrar nenhuma promessa Page.
       - Deixa-me explicar-te melhor o que se passa - respondeu ento ela, apoiando-se no cotovelo. - O que te parece se nos casarmos no Natal... - O corao de 
Trygve disparou e ele comeou a rir alto, radiante. Contudo, ela ainda no havia terminado: - Se eu nessa altura estiver grvida de seis meses?
       - O qu... ?! - Trygve sentou-se e fitou Page, enquanto ela sorria, um pouco acanhada, deitando-se de barriga no cho e rindo nervosamente.
       - No sei bem como  que isto aconteceu, mas deves ter anulado o efeito do meu contraceptivo h cerca de seis semanas. No incio, julguei que estava enganada, 
mas afinal, no estava! No tinha a certeza se te agradaria uma notcia destas, por causa das crianas e do resto... vai ser um choque para todos... e alm do mais, 
uma gravidez inesperada pode transformar um casamento normal num acontecimento muito fora do vulgar! - Page justificava-se como uma criana apanhada em falta. Sentia-se 
um pouco ridcula, apesar de estar satisfeita, pois sempre desejara muito um outro filho. No havia dvidas de que haviam iniciado aquele relacionamento num verdadeiro 
campo de batalha; era como se tivessem sido lanados por um tiro de canho num prado cheio de flores.
       - Estou ainda a duvidar Page! - exclamou ele, aproximando-se dela e abraando-a. - Mal posso acreditar! - E depois, Trygve recomeou a rir, radiante. Tinha 
acontecido exatamente aquilo que tanto desejara, e mais cedo do que ele alguma vez julgara possvel, o que era ainda melhor. - Parece que vamos ter outra criana 
por milagre! - Trygve ria, brincando com Page.
       - O que  que queres dizer?
       - Bem, temos o Bjorn, que, a seu modo,  muito especial; temos a Chloe, que vai progredindo de uma forma milagrosa; o Andy, que nasceu prematuro e agora  
uma criana normal... e a Allie, que recuperou milagrosamente! Agora, se casarmos em Dezembro e tu tiveres a criana trs ou quatro meses depois disso, pensa s 
no milagre que isso no representa: um beb de trs meses...! - Trygve ria s gargalhadas e Page sorria, ainda embaraada.
       - Tu s horrvel, Trygve! J pensaste como os nossos filhos vo ficar envergonhados?
       - No vamos permitir que eles sintam vergonha. Se no puderem aceitar o fato de que por vezes os adultos tambm erram, e se no se aperceberem da forma como 
estamos a ser abenoados, ento no merecem o nosso amor. Eu nem sequer posso pensar em desperdiar uma ddiva destas, ou em recus-la agora que ela nos  oferecida! 
Tenciono dar-lhe todo o valor que ela merece e quero tambm amar-te cada vez mais... a partir de hoje nunca me vou esquecer de dar graas a Deus todas as noites... 
 que em matria de milagres, ns j temos a nossa quota parte! - afirmou ele, com orgulho e satisfao. Depois, sem pronunciar mais uma palavra, Trygve inclinou-se 
e beijou Page. Ela abraou-o e meditou ento na longa caminhada que haviam efetuado at ali, nos percursos tormentosos que haviam sido obrigados a ultrapassar e 
na bno final de se terem por fim encontrado.
       
       
       
       
       
       
       
       
       

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